Coema não morreu; a folha ágreste
Póde em ramas ornar-lhe a sepultura,
E triste o vento suspirar-lhe em torno;
Ella perdura a virgem dos Tymbiras,
Ella vive entre nós. Airosa e linda,
Sua nobre figura adorna as festas
E enflora os sonhos dos valentes. Elle,
O famoso cantor, quebrou da morte
O eterno jugo; e a filha da floresta
Hade a historia guardar das velhas tabas
Inda depois das ultimas ruinas.
Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!
Virgens da mata, suspirai commigo!
«O piaga, que foge a extranhos olhos,
E vive e morre na floresta escura,
Repita o nome do cantor; nas aguas
Que o rio leva ao mar, mande-lhe ao menos
Uma sentida lagrima, arrancada
Do coração que ele tocára outr'ora,
Quando o ouviu palpitar sereno e puro,
E na voz celebrou de eternos carmes.
Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!
Virgens da matta, suspirai comigo!»
OS SEMEADORES[25]
(Século XVI)
Eis ahi saiu o que semêa a semear...
MATH., XIII, 3.
Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,
O doce fruto e a flôr,
Acaso esquecereis os asperos e amargos
Tempos do semeador?
Rude era o chão; agreste e longo aquelle dia;
Comtudo, esses heroes
Souberam resistir na afanosa porfia
Aos temporaes e aos soes.
Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,
E a fé, e as orações
Fizeram transformar a terra pobre em rica
E os centos em milhões.
Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,
O frio, a descalcez,
O morrer cada dia uma morte sem nome,
O morrel-a, talvez,
Entre barbaras mãos, como se fora crime,
Como se fora réu
Quem lhe ensinára aquela ação pura e sublime
De as levantar ao céu!
Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!
Vencestel-a; e podeis
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
Vivereis, vivereis!
A FLOR DO EMBIROÇU
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
FIL. ELIS.
Quando a noturna sombra envolve a terra
E á paz convida o lavrador cansado,
Á fresca brisa o seio delicado
A branca flôr do embiroçú descerra.
E das limpidas lagrimas que chora
A noite amiga, ella recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, á luz nascente, a flôr modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o somno quando tudo é festa.
Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a aza impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!
Tambem ella ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ella da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio ás ilusões viçosas.
É tudo seu,--tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrellas;
Abrazada de amor, palpita ao vel-as,
E a todas cinge no ideal abraço.
O rosto não encara indifferente,
Nem a traidora mão candida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua aza amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.
Ama-te a flôr que desabrocha á hora
Em que o ultimo olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, recende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.
LUA NOVA[26]
Mãe dos fructos, Jacy, no alto espaço
Eil-a assoma serena e indecisa:
Sopro é della esta languida brisa
Que sussurra na terra e no mar.
Não se mira nas aguas do rio,
Nem as ervas do campo branqueia;
Vaga e incerta ella vem, como a ideia
Que inda apenas começa a espontar.
E iam todos; guerreiros, donzellas,
Velhos, moços, as redes deixavam;
Rudes gritos na aldeia soavam,
Vivos olhos fugiam p'ra o céu:
Iam ve-la, Jacy, mãe dos fructos,
Que, entre um grupo de brancas estrellas,
Mal scintila: nem póde vencel-as,
Que inda o rosto lhe cobre amplo véu.
E um guerreiro: «Jacy, doce amada,
Retempera-me as forças; não veja
Olho adverso, na dura peleja,
Este braço já frouxo cair.
Vibre a setta, que ao longe derruba
Tajassú, que roncando caminha;
Nem lhe escape serpente damninha,
Nem lhe fuja pesado tapir.»
E uma virgem: «Jacy, doce amada,
Dobra os galhos, carrega esses ramos
Do arvoredo co'as frutas que damos
Aos valentes guerreiros, que eu vou
A buscal-os na mata sombria,
Por trazel-os ao moço prudente,
Que venceu tanta guerra valente,
E estes olhos consigo levou.»
E um ancião, que a saudara ja muitos,
Muitos dias: «Jacy, doce amada,
Dá que seja mais longa a jornada,
Dá que eu possa saudar-te o nascer,
Quando o filho do filho, que hei visto
Triumphar de inimigo execrando,
Possa as pontas de um arco dobrando
Contra os arcos contrarios vencer.»
E elles riam os fortes guerreiros,
E as donzelas e esposas cantavam,
E eram risos que d'alma brotavam,
E eram cantos de paz e de amor.
Rude peito criado nas brenhas,
--Rude embora,--terreno é propicio;
Que onde o germen lançou beneficio
Brota, enfolha, verdeja, abre em flôr.
SABINA
Sabina era mucama da fazenda;
Vinte annos tinha; e na provincia toda
Não havia mestiça mais á moda,
Com suas roupas de cambraia e renda.
Captiva, não entrava na senzala,
Nem tinha mãos para trabalho rude;
Desbrochava-lhe a sua juventude
Entre carinhos e affeições de sala.
Era cria da casa. A sinhá moça,
Que com ella brincou sendo menina,
Sobre todas amava esta Sabina,
Com esse ingenuo e puro amor da roça.
Dizem que á noite, a suspirar na cama,
Pensa n'ella o feitor; dizem que um dia,
Um hospede que alli passado havia,
Poz um cordão no collo da mucama.
Mas que vale uma joia no pescoço?
Não pôde haver o coração da bella.
Se alguem lhe acende os olhos de gazella,
É pessoa maior: é o senhor moço.
Ora, Octavio cursava a Academia.
Era um lindo rapaz; a mesma edade
Co'as passageiras flôres o adornava
De cujo extincto aroma inda a memoria
Vive na tarde pallida do outomno.
Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas
Da primeira estação, porque tão cedo
Voaes de nós? Pudesse ao menos a alma
Guardar comsigo as illusões primeiras,
Virgindade sem preço, que não paga
Essa descolorida, árida e sêcca
Experiencia do homem!
Vinte annos
Tinha Octavio, e a belleza e um ar de corte,
E o gesto nobre, e seductor o aspecto;
Um vero Adonis, como aqui diria
Algum poeta classico, d'aquella
Poesia que foi nobre, airosa e grande
Em tempos idos, que ainda bem se foram...
Cursava a Academia o moço Octavio;
Ia no anno terceiro, não remoto
Via desenrolar-se o pergaminho,
Premio de seus labores e fadigas;
E uma vez bacharel, via mais longe
Os curvos braços da feliz cadeira
D'onde o legislador a redea empunha
Dos lepidos frisões do Estado. Emtanto,
Sobre os livros de estudo, gota a gota
As horas despendia, e trabalhava
Por metter na cabeça o jus romano
E o patrio jus. Nas suspiradas ferias
Volvia ao lar paterno; ali no dorso
De brioso corsel corria os campos,
Ou, arma ao hombro, polvorinho ao lado,
Á caça dos veados e cotias,
Ia matando o tempo. Algumas vezes
Com o padre vigario se entretinha
Em desfiar um ponto de intrincada
Philosophia, que o senhor de engenho,
Feliz pae, escutava glorioso,
Como a rever-se no brilhante aspecto
De suas ricas esperanças.
Era
Manhã de estio; erguera-se do leito
Octavio; em quatro sorvos toda esgota
A taça de café. Chapeo de palha,
E arma ao hombro, lá foi terreiro fóra,
Passarinhar no mato. Ia costeando
O arvoredo que além beirava o rio,
A passo curto, e o pensamento á larga,
Como leve andorinha que saísse
Do ninho, a respirar o hausto primeiro
Da manhã. Pela aberta da folhagem,
Que inda não doura o sol, uma figura
Deliciosa, um busto sobre as ondas
Suspende o caçador. Mãe d'água fôra,
Talvez, se a cor de seus quebrados olhos
Imitasse a do céu; se a tez morena,
Morena como a esposa dos Cantares,
Alva tivesse; e raios de ouro fossem
Os cabellos da cor da noite escura,
Que ali soltos e humidos lhe caem,
Como um véu sobre o collo. Trigueirinha,
Cabello negro, os largos olhos brandos
Cor de jaboticaba, quem seria,
Quem, senão a mucama da fazenda,
Sabina, emfim? Logo a conhece Octavio,
E n'ella os olhos espantados fita
Que desejos accendem.--Mal cuidando
D'aquelle extranho curioso, a virgem
Com os ligeiros braços rompe as aguas,
E ora toda se esconde, ora ergue o busto,
Talhado pela mão da natureza
Sobre o modelo classico. Na opposta
Riba suspira um passarinho; e o canto
E a meia luz, e o sussurrar das aguas,
E aquella fada ali, tão doce vida
Davam ao quadro, que o ardente alumno
Trocára por aquillo, uma hora ao menos,
A Faculdade, o pergaminho e o resto.
Subito erige o corpo a ingenua virgem;
Com as mãos, os cabellos sobre a espadua
Deita, e rasgando lentamente as ondas,
Para a margem caminha, tão serena,
Tão livre como quem de extranhos olhos
Não suspeita a cubiça... Véu da noite,
Se lh'os cobrira, dissipára acaso
Uma historia de lagrimas. Não póde
Furtar-se Octavio á commoção que o toma;
A clavina que a esquerda mal sustenta
No chão lhe cae; e o baque surdo accorda
A descuidada nadadora. Ás ondas
A virgem torna. Rompe Octavio o espaço
Que os divide; e de pé, na fina areia,
Que o molle rio lambe, erecto e firme,
Todo se lhe descobre. Um grito apenas
Um só grito, mas unico, lhe rompe
Do coração; terror, vergonha... e acaso
Prazer, prazer mysterioso e vivo
De captiva que amou silenciosa,
E que ama e vê o objecto de seus sonhos,
Ali com ella, a suspirar por ella.
«Flôr da roça nascida ao pé do rio,
Octavio começou--talvez mais bella
Que essas bellezas cultas da cidade,
Tão cobertas de joias e de sedas,
Oh! não me negues teu suave aroma!
Fez-te captiva o berço; a lei somente
Os grilhões te lançou; no livre peito
De teus senhores tens a liberdade,
A melhor liberdade, o puro affecto
Que te elegeu entre as demais captivas,
E de affagos te cobre! Flôr do matto,
Mais viçosa do que essas outras flôres
Nas estufas criadas e nas salas,
Rosa agreste nascida ao pé do rio,
Oh! não me negues teu suave aroma!»
Disse, e da riba os cubiçosos olhos
Pelas aguas estende, emquanto os d'ella,
Cobertos pelas palpebras medrosas
Choram,--de gosto e de vergonha a um tempo
Duas unicas lagrimas. O rio
No seio as recebeu; comsigo as leva,
Como gottas de chuva, indifferente
Ao mal ou bem que lhe povoa a margem;
Que assim a natureza, ingenua e docil
Ás leis do Creador, perpétua segue
Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem
Padecer e saber que sente e morre.
Pela azulada esphera inda trez vezes
A aurora as flôres derramou, e a noite
Vezes trez a mantilha escura e larga
Mysteriosa cingiu. Na quarta aurora,
Anjo das virgens, anjo de azas brancas,
Pudor, onde te foste? A alva capella
Murcha e desfeita pelo chão lançada,
Coberta a face do rubor do pejo,
Os olhos com as mãos velando, alçaste
Para a Eterna Pureza o eterno voo.
Quem ao tempo cortar pudera as azas
Se deleitoso voa? Quem pudera
Suster a hora abençoada e curta
Da ventura que foge, e sobre a terra
O gozo transportar da eternidade?
Sabina viu correr tecidos de ouro
Aqueles dias unicos na vida
Toda enlevo e paixão, sincera e ardente
Nesse primeiro amor d'alma que nasce
E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,
Consciencia; razão, tu lhe fechavas
A vista interior; e ella seguia
Ao sabor dessas horas mal furtadas
Ao captiveiro e á solidão, sem vel-o
O fundo abysmo tenebroso e largo
Que a separa do eleito de seus sonhos,
Nem pressentir a brevidade e a morte!
E com que olhos de pena e de saudade
Viu ir-se um dia pela estrada fóra
Octavio! Aos livros torna o moço alumno,
Não cabisbaixo e triste, mas sereno
E lepido. Com ella a alma não fica
De seu jovem senhor. Lagrima pura,
Muito embora de escrava, pela face
Lentamente lhe rola, e lentamente
Toda se esvae num pallido sorriso
De mãe.
Sabina é mãe; o sangue livre
Gira e palpita no captivo seio
E lhe paga de sobra as dores cruas
Da longa ausencia. Uma por uma, as horas
Na solidão do campo há de contal-as,
E suspirar pelo remoto dia
Em que o veja de novo... Pouco importa,
Se o materno sentir compensa os males.
Riem-se della as outras; é seu nome
O assunto do terreiro. Uma invejosa
Acha-lhe uns certos modos singulares
De senhora de engenho; um pajem moço,
De cobiça e ciume devorado,
Desfaz nas graças que em silencio adora
E consigo medita uma vingança.
Entre os parceiros, desfiando a palha
Com que entrança um chapeo, solenemente
Um Caçanje ancião refere aos outros
Alguns casos que viu na mocidade
De captivas amadas e orgulhosas
Castigadas do céu por seus pecados,
Mortas entre os grilhões do captiveiro.
Assim falavam elles; tal o aresto
Da opinião. Quem evitá-lo póde
Entre os seus, por mais baixo que a fortuna
Haja tecido o berço? Assim falavam
Os captivos do engenho; e porventura
Sabina o soube e o perdoou.
Volveram
Após os dias da saudade os dias
Da esperança. Ora, quiz fortuna adversa
Que o coração do moço, tão voluvel
Como a brisa que passa ou como as ondas,
Nos cabellos castanhos se prendesse
De donzella gentil, com quem atára
O laço conjugal: uma belleza
Pura, como o primeiro olhar da vida,
Uma flôr desbrochada em seus quinze annos,
Que o moço viu n'um dos serões da corte
E captivo adorou. Que há de fazer-lhes
Agora o pae? Abençoar os noivos
E ao regaço trazel-os da familia.
Oh! longa foi, longa e ruidosa a festa
Da fazenda, por onde alegre entrára
O moço Octavio conduzindo a esposa.
Viu-os chegar Sabina, os olhos secos,
Attonita e pasmada. Breve o instante
Da vista foi. Rapido foge. A noite
A seu tremulo pé não tolhe a marcha;
Voa, não corre, ao malfadado rio,
Onde a voz escutou do amado moço.
Ali chegando: «Morrerá comigo.
O fruto de meu seio; a luz da terra
Seus olhos não verão; nem ar da vida
Hade aspirar...»
Ia a cair nas aguas,
Quando subito horror lhe toma o corpo;
Gelado o sangue e tremula recúa,
Vacilla e tomba sobre a relva. A morte
Em vão a chama e lhe fascina a vista;
Vence o instincto de mãe. Erma e calada
Ali ficou. Viu-a jazer a lua
Largo espaço da noite ao pé das aguas,
E ouviu-lhe o vento os tremulos suspiros;
Nenhum deles, comtudo, o disse á aurora.
ULTIMA JORNADA[27]
I
E ella se foi n'esse clarão primeiro,
Aquella esposa misera e ditosa;
E elle se foi o perfido guerreiro.
Ella serena ia subindo e airosa,
Elle á força de incognitos pesares
Dobra a cerviz rebelde e luctuosa.
Iam assim, iam cortando os ares,
Deixando embaixo as fertiles campinas,
E as florestas, e os rios e os palmares.
Oh! candidas lembranças infantinas!
Oh! vida alegre da primeira taba;
Que aurora vos tomou, aves divinas?
Como um tronco do matto que desaba,
Tudo caiu; lei barbara e funesta:
O mesmo instante cria e o mesmo acaba.
De esperanças tamanhas o que resta?
Uma historia, uma lagrima chorada
Sobre as ultimas ramas da floresta.
A flôr do ipê a viu brotar maguada,
E talvez a guardou no seio amigo,
Como lembrança da estação passada.
Agora os dois, deixando o bosque antigo,
E as campinas, e os rios e os palmares,
Para subir ao derradeiro abrigo,
Iam cortando lentamente os ares.
II
E elle clamava á moça que ascendia;
«--Oh! tu que a doce luz eterna levas,
E vais viver na região do dia,
«Vê como rasgam barbaras e sevas
As tristezas mortaes ao que se afunda
Quasi na fria região das trevas!
«Olha esse sol que a criação inunda!
Oh quanta luz, oh! quanta doce vida
Deixar-me vae na escuridão profunda!
«Tu ao menos perdoa-me, querida!
Suave esposa, que eu ganhei roubando,
Perdida agora para mim, perdida!
Ao maldito na morte, ao miserando,
Que mais lhe resta em sua noite impura?
Sequer allivio ao coração nefando.
«Nos olhos trago a tua morte escura.
Foi meu odio cruel que há decepado,
Ainda em flôr, a tua formosura.
«Mensageiro de paz, era enviado
Um dia á taba de teus pais, um dia
Que melhor fôra se não fôra nado.
Ali te vi; ali, entre a alegria
De teus fortes guerreiros e donzellas,
Teu doce rosto para mim sorria.
«A mais bella eras tu entre as mais bellas,
Como no céu a creadora lua
Vence na luz as vívidas estrellas.
«Gentil nasceste por desgraça tua;
Eu covarde nasci; tu me seguiste;
E ardeu a guerra desabrida e crua.
«Um dia o rosto carregado e triste
Á taba de teus pais volveste, o rosto
Com que alegre e feliz d'ali fugiste.
«Tinha expirado o passageiro gosto,
Ou o sangue dos teus, correndo a fio,
Em teu seio outro affecto havia posto.
«Mas, ou fosse remorso, ou já fastio,
Ias-te agora leve e descuidada,
Como folha que o vento entrega ao rio.
«Oh! corça minha fugitiva e amada!
Anhangá te guiou por mau caminho,
E a morte poz na minha mão fechada.
«Feriu-me da vingança agudo espinho;
E fiz-te padecer tão cruas penas,
Que inda me doe o coração mesquinho.
«Ao contemplar aquellas tristes scenas
As aves, de piedosas e sentidas,
Chorando foram sacudindo as pennas.
«Não viu o cedro ali correr perdidas
Lagrimas de materno amado seio;
Viu somente morrer a flôr das vidas.
«O que mais houve da floresta em meio
O sinistro expectaculo, de certo
Nenhum estranho contemplal-o veio.
«Mas, se alguem penetrasse no deserto,
Vira cair pesadamente a massa
Do corpo do guerreiro; e o craneo aberto,
«Como se fôra derramada taça
Pela terra jazer, ali chamando
O feio grasno do urubú que passa.
«Em vão a arma do golpe irão buscando,
Nenhuma houve; nem guerreiro ousado
A tua morte ali foi castigando.
«Talvez, talvez Tupan, desconsolado,
A pena contemplou maior do que era
O delicto; e de colera tomado,
«Ao mais alto dos Andes estendera
O forte braço, e da arvore mais forte
A setta e o arco vingador colhêra;
«As pontas lhe dobrou, da mesma sorte
Que o junco dobra, sussurrando o vento,
E de um só tiro lhe enviou a morte.”
Ia assim suspirando este lamento,
Quando subitamente a voz lhe cala,
Como se a dor lhe suffocára o alento.
No ar se perdêra a lastimosa falla,
E o infeliz, condenado á noite escura,
Os dentes range e treme de encontral-a.
Leva os olhos na viva aurora pura
Em que vê penetrar, já longe, aquella
Doce, mimosa, virginal figura.
Assim no campo a timida gazella
Foge e se perde; assim no azul dos mares
Some-se e morre fugidia vela.
E nada mais se viu fluctuar nos ares;
Que elle, bebendo as lagrimas que chora,
Na noite entrou dos immortaes pesares,
E ella de todo mergulhou na aurora.
OS ORISES[28]
(Fragmento)
I
Nunca as armas christans, nem do Evangelho
O lume criador, nem frecha extranha
O valle penetraram dos guerreiros
Que, entre serros altissimos sentado,
Orgulhoso descança. Unico o vento,
Quando as azas desprega impetuoso,
Os campos varre e as selvas estremece,
Um pouco leva, ao recatado asylo,
Da poeira da terra. Acaso o raio
Alguma vez nos asperos penedos,
Com fogo escreve a assolação e o susto.
Mas olhos de homem, não; mas braço affeito
A pleitear na guerra, a abrir ousado
Caminho entre a espessura da floresta,
Não affrontára nunca os atrevidos
Muros que a natureza a pino erguêra
Como eterna atalaia.
II
Um povo indocil
Nessas brenhas achou ditosa patria,
Livre, como o rebelde pensamento
Que ímpia força não doma, e airoso volve
Inteiro á eternidade. Guerra longa
E porfiosa os adestrou nas armas;
Rudes são nos costumes mais que quantos
Ha criado este sol, quantos na guerra
O tacape meneiam vigoroso.
Só nas festas de plumas se ataviam
Ou na pelle do tigre o corpo envolvem,
Que o sol queimou, que a rispidez do inverno
Endureceu como os robustos troncos
Que só verga o tufão. Tecer não usam
A preguiçosa rede em que se embale
O corpo fatigado do guerreiro,
Nem as tabas erguer como outros povos;
Mas á sombra das arvores antigas,
Ou nas medonhas cavas dos rochedos,
No duro chão, sobre mofinas ervas,
Acham somno de paz, jamais tolhido
De ambições, de remorsos. Indomavel
Essa terra não é; prompto lhes volve
O semeado pão; vecejam flôres
Com que a rudez tempera a extensa matta,
E o fructo pende dos curvados ramos
Do arvoredo. Harta messe do homem rude,
Que tem na ponta da farpada setta
O pesado tapir, que lhes não foge,
Nhandu, que á flôr de terra inquieto voa,
Sobejo pasto, e deleitoso e puro
Da selvagem nação. Nunca vaidade
De seu nome souberam, mas a força,
Mas a destreza do provado braço
Os foros são do imperio a que hão sugeito
Todo aquelle sertão. Murmuram longe,
Contra elles, as gentes debelladas
Vingança e odio. Os ecos repetiram
Muita vez a pocema de combate;
Nuvens e nuvens de afiadas settas
Todo o ar cobriram; mas o extremo grito
Da victoria final só delles fôra.
III
Despem armas de guerra; a paz os chama
E o seu barbaro rito. Alveja perto
O dia em que primeiro a voz levante
A ave sagrada, o nume de seus bosques,
Que de agouro chamamos, Cupuaba
Melancholica e feia, mas ditosa
E benefica entre eles. Não se curvam[29]
Ao nome de Tupan, que a noite e o dia
No céu reparte, e ao rispido guerreiro
Guarda os sonhos do Ybake e eternas danças.
Seu deus unico é ella, a bemfazeja
Ave amada, que os campos despovoa
Das venenosas serpes,--viva imagem
Do tempo vingador, lento e seguro,
Que as calumnias, a inveja e o odio apagam,
E ao conspurcado nome o alvor primeiro
Restitue. Uso é delles celebrar-lhe
Com festas o primeiro e o extremo canto.
IV
Terminára o cruento sacrificio.
Ensopa o chão da dilatada selva
Sangue de caitetus, que o pio intento
Largos mezes cevou; barbara usança
Tambem de alheios climas. As donzellas,
Mal sahidas da infancia, inda embebidas
Nos ledos jogos de primeira edade,
Ao brutal sacrificio... Oh! cala, esconde,
Labio christão, mais barbaro costume.
V
Agora a dansa, agora alegres vinhos,
Trez dias ha que de inimigos povos
Esquecidos os trazem. Sobre um tronco
Sentado o chefe, carregado o rosto,
Inquieto o olhar, o gesto pensativo,
Como alheio ao prazer, de quando em quando
Á multidão dos seus a vista alonga,
E um rugido no peito lhe murmura.
Quem a fronte enrugara do guerreiro?
Inimigo não foi, que o medo nunca
O sangue lhe esfriou, nem vão receio
Da batalha futura o desenlace
Lhe fez incerto. Intrepidos como elle
Poucos vira este céu. Seu forte braço,
Quando vibra o tacape nas pelejas,
De rasgados cadaveres o campo
Inteiro alastra, e ao peito do inimigo,
Como um grito de morte a voz lhe soa.
Nem só nas gentes o terror infunde;
É fama que em seus olhos cor da noite,
Inda creança, um genio lhe deixara
Mysteriosa luz, que as forças quebra
Da onça e do jaguar. Certo é que um dia
(A tribu o conta, e seus pagés o juram)
Um dia em que, do filho acompanhado,
Ia costeando a orla da floresta,
Um possante jaguar, escancarando
A bocca, em frente do famoso chefe
Estacára. De longe um grito surdo
Solta o jovem guerreiro; logo a setta
Embebe no arco, e o tiro sibilante
Ia já disparar, quando de assombro
A mão lhe afrouxa a distendida corda.
A fera o colo timida abatêra,
Sem ousar despregar os fulvos olhos
Dos olhos do inimigo. Ureth ousado
Arco e frechas atira para longe,
A massa empunha, e lento, e lento avança;
Trez vezes volteando a arma terrivel,
Enfim despede o golpe; um grito apenas
Unico atroa o solitario campo,
E a fera jaz, e o vencedor sobre ella.
OCCIDENTAES
O DESFECHO
Prometheu sacudiu os braços manietados
E supplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos seculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.
Mais dez, mais cem, mais mil e mais um billião,
Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...
Subito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a aguia em cima os olhos espantados.
Pela primeira vez a viscera do heroe,
Que a immensa ave do céu perpetuamente roe,
Deixou de renascer ás raivas que a consomem.
Uma invisivel mão as cadeias dilue;
Frio, inerte, ao abysmo um corpo morto rue;
Acabára o supplicio e acabára o homem.
CIRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
--«Quem me dera que fosse aquella loura estrella,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!»
Mas a estrella, fitando a lua, com ciume:
--«Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega columna á gothica janella,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bella!»
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
--«Misera! tivesse eu aquella enorme, aquella
Claridade immortal, que toda a luz resume!»
Mas o sol, inclinando a rutila capella:
--«Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbella...
Por que não nasci eu um simples vagalume?»
UMA CREATURA
Sei de uma creatura antiga e formidavel,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciavel.
Habita juntamente os valles e as montanhas;
E no mar, que se rasga, á maneira de abysmo,
Espreguiça-se toda em convulsões extranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o bello e o monstruoso.
Para ella o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbavel, como
Pelo vasto areal um vasto paquyderme.
Na arvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flôr, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o fructo;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o polluto e o impolluto;
Começa e recomeça uma perpetua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
A ARTHUR DE OLIVEIRA, Enfermo
Sabes tu de um poeta enorme
Que andar não usa
No chão, e cuja estranha musa,
Que nunca dorme,