Mas o tropel de fóra avulta e cresce

E os tres accorda. A virgem, lentamente,

Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço

Que dos dous a separa... O tenro collo

Curva ante o pae, e na enrugada dextra

O osculo imprime, herdada usança antiga

De filial respeito. As mãos lhe toma

Enternecido o velho; olhos com olhos

Alguns instantes rapidos ficaram,

Até que elle, voltando o rosto ao moço:

«--Perdoai,--disse,--se o paterno affecto

Me atou a lingua. Vacillar é justo

Quando á pobre ruina a flôr lhe pedem

Que unica lhe nasceu,--unica adorna

A aridez melancholica do extremo,

Pallido sol... Não protesteis! Roubal-a,

Arrancal-a aos meus ultimos instantes,

Não o fareis de certo. Pouco importa

Dês que a metade lhe levaes da vida,

Dês que seu coração, comvosco parte

Affeições minhas.--Ao demais, o sangue

Que lhe corre nas veias, condemnado,

Nuno, será dos vossos...» Longo e frio

Olhar estas palavras acompanha,

Como a arrancar-lhe o pensamento interno.

A donzella estremece. Nuno o alento

Recobra e falla: «Puro sangue é elle,

Se lhe corre nas veias. Tão mimosa,

Candida creatura, alma tão casta,

Inda nascida entre os incréos da Arabia,

Deus a votara á conversão e á vida

Dos eleitos do céu. Aguas sagradas

Que a lavaram no berço, já nas veias

O sangue velho e impuro lhe trocaram

Pelo sangue de Christo...»

VI

Neste instante

Cresce o tumulto exterior. A virgem

Medrosa toda se conchega ao collo

Do velho pae. «Ouvis? Fallae! é tempo!

Nuno prossegue.--Este commum perigo

Chama os varões á rispida batalha;

Com elles vou. Se um galardão, emtanto,

Merecer de meus feitos, não á patria

Irei pedil-o; só de vós o espero,

Não o melhor, mas o unico na terra,

Que a minha vida...» Rematar não pôde

Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova

Da imminente peleja

E a decisão de combater por ella,

Inteiras sente as forças que se perdem

A donzella, e bem como ao rijo vento

Inclina o collo o arbusto

Nos braços desmaiou do pae. Volvida

A si, na pallidez do rosto o velho

Attenta um pouco, e suspirando: «As armas

Empunhae; combatei; Angela é vossa.

Não de mim a havereis: ella a si mesma

Toda nas vossas mãos se entrega. Morta

Ou feliz é a escolha; não vacillo:

Seja feliz, e folgarei com ella...»

VII

Sobre a fronte dos dous, as mãos impondo,

Ao seio os conchegou, bem como a tenda

Do patriarcha santo agasalhava

O moço Isaac e a delicada virgem

Que entre os rios nasceu. Delicioso[21]

E solemne era o quadro; mas solemne

E delicioso embora, ia esvair-se

Qual celeste visão, que accende a espaços

O animo do infeliz. A guerra, a dura

Necessidade de immolar os homens,

Por salvar homens, a terrivel guerra

Corta o amoroso vinculo que os prende

E á moça o riso lhe converte em lagrimas.

Misera és tu, pallida flôr; mas soffre

Que o calor deste sol te acurve o calix,

Morta, não, nem já murcha,--mas apenas

Como cançada de queimor do estio.

Soffre; a tarde virá serena e branda

A reviver-te o alento; a fresca noite

Choverá sobre ti piedoso orvalho

E mais risonha surgirás á aurora.

VIII

Foge á estancia da paz o hardido moço;

Esperança, fortuna, amor e patria

A guerrear o levam. Já nas veias

O vivo sangue irrequieto pulsa,

Como ancioso de correr por ambas,

A bella terra e a suspirada noiva.

Triste quadro a seus olhos se apresenta;

Nos femininos rostos vê pintados

Incerteza e terror; lamentos, gritos

Soam de entorno. Voam pelas ruas

Homens de guerra; homens de paz se aprestam

Para a crua peleja; e, ou nobre estancia,

Ou choupana rasteira, armado é tudo

Contra a forte invasão. Nem lá se deixa

Quieto, a sós com Deus, na estreita cella,

O solitario monge que ás batalhas

Fugiu da vida. O patrimonio santo

Cumpre salval-o. Cruz e espada empunha,

Deixa a serena região da prece

E voa ao torvelinho do combate.

IX

Entre os fortes alumnos que dirige

O ardido Bento, a perfilar-se corre[22]

Nuno. Estes são os que o primeiro golpe

Descarregam no attonito inimigo.

Do militar officio ignoram tudo,

De armas não sabem; mas o brio e a honra

E a lembrança da terra em que primeiro

Viram a luz, e onde o perdel-a é doce,

Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo

Do nobre esforço e galhardia rara,

Com que inda nos humbraes da vida que orna

Tanta esperança, tanto sonho de ouro,

Resolutos a morte encaram, prestes

A retalhar nas dobras

Da vestidura funebre da patria

O piedoso lençol que os leve á campa,

Ou com ella cingir o eterno louro.

X

Ó mocidade, ó baluarte vivo

Da cara patria! Já perdida é ella,

Quando em teu peito enthusiasmo santo

E puro amor se extingue, e áquelle nobre,

Generoso despejo e ardor antigo

Succede o frio calcular, e o torpe

Egoismo, e quanto ha hi no humano peito,

Que é fructo nosso e podre... Muitos caem

Mortos alli. Que importa? Vão seguindo

Avante os bravos, que a invasão caminha

Implacavel e dura, como a morte,

A pelejar e a destruir. Tingidas

Ruas de extranho sangue

E sangue nosso, lacerados membros,

Corpos de que ha fugido a alma cançada,

E o denso fumo e os funebres lamentos,

Quem nessa confusão, miseria e gloria

Conhecerá da juvenil cidade

O aspecto, a vida? Aqui da infancia os dias

Nuno vivêra, á vecejante sombra

Do seu patrio arvoredo, ao som das vagas

Que inda batendo vão na amada areia;

Risos, jogos da verde meninice,

Esta praia lhe lembra, aquella pedra,

A mangueira do campo, a tosca cerca

De espinheiro e de flôres enlaçadas,

A ave que voa, a brisa que suspira,

Que suspira como elle ha suspirado,

Quando rompendo o coração do peito

Ia-lhe empós dessa visão divina,

Realidade agora... E ha de perdel-as

Patria e noiva? Esta ideia lhe esvoaça

Torva e surda no cerebro do moço,

E ao contrahido espirito redobra

Impeto e forças. Rompe

Por entre a multidão dos seus, e investe

Contra o duro inimigo; as balas voam,

E com ellas a morte, que não sabe

Dos escolhidos seus a terra e o sangue,

E indistinctos os toma; elle, no meio

Daquelle horrivel turbilhão, parece

Que a faisca do genio o leva e anima,

Que a fortuna o votára á gloria.

XI

Soam

Enfim os gritos de triunmpho; e o peito

Do povo que lutou respira á larga,

Como ao que, após ardua subida, chega

Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos

Estende pelo azul dos céus, e a vida

Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue

A victoria custára; mas, se em meio

De tanta gloria ha lagrimas, soluços,

Gemidos de viuvez, quem os escuta,

Quem as vê essas lagrimas choradas

Na multidão da praça que troveja

E folga e ri? O sacro bronze que usa

Os fieis convidar á prece, e a morte

Do homem pranteia lugubre e solemne,

Ora festivo canta

O comum regosijo; e pela aberta

Porta dos templos entra a frouxo o povo

A agradecer com lagrimas e vozes

O triumpho,--piedoso instincto da alma,

Que a Deus levanta o pensamento e as graças.

XII

Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado,

Voa nas asas rutilas e leves

Da fortuna e do amor. Como ao indiano,

Que, ao regressar das porfiadas lutas,

Por estas mesmas regiões entrava,

A encontral-o saía a meiga esposa,

--A recente christã, entre assustada

E jubilosa coroará teus feitos

Co'a melhor das capelas que hão pousado

Em fronte de varão,--um doce e longo

Olhar que inteiro encerra a alma que chora

De gosto e vida! Voa o moço á estancia

Do ancião; e ao pôr na suspirada porta

Olhos que traz famintos de encontral-a,

Frio terror lhe empece os membros. Frouxo

Ia o sol transmontando; lenta a vaga

Melancholicamente ali gemia,

E todo o ar parecia arfar de morte.

Qual se pallida a víra, já cerrados

Os desmaiados olhos,

Frios os doces labios

Cansados de pedir aos céus por elle,

Nuno estacára; e pelo rosto em fio

O suor lhe caiu da extrema angustia;

Longo tempo vacilla;

Vence-se emfim, e entra a mansão da esposa.

XIII

Quatro vultos na camara paterna

Eram. O pae sentado,

Calado e triste. Reclinada a fronte

No espaldar da cadeira, a filha os olhos

E o rosto esconde, mas tremor continuo

De um abafado soluçar o esbelto

Corpo lhe agita. Nuno aos dous se chega;

Ia a fallar, quando a formosa virgem,

Os lacrimosos olhos levantando,

Um grito solta do intimo do peito

E se lhe prostra aos pés: «Oh! vivo, és vivo!

Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,

Aqui te envia... Salva-o tu, se pódes,

Salva meu pobre pae!» Estremecendo,

Nella e no velho fita Nuno os olhos,

E agitado pergunta: «Qual ousado

Braço lhe ameaça a vida?» Cavernosa

Uma voz lhe responde: «O sancto officio!»

Volve o mancebo o rosto

E o merencorio aspecto

De dous familiares todo o sangue

Nas veias lhe gelou.

XIV

Solemne o velho

Com a voz, não frouxa, mas pausada, falla:

«Vês? Todo o brio, todo o amor no peito

Te emudeceu. Só lastimar-me podes,

Salvar-me, nunca. O carcere me aguarda,

E a fogueira talvez; cumpril-a, é tempo,

A vontade de Deus. Tu, pae e esposo

Da desvalida filha que ahi deixo,

Nuno, serás. A relembrar com ella

Meu pobre nome, applacareis a immensa

Colera do Senhor...» Sorrindo ironico,

Estas palavras ultimas lhe caem

Dos labios tristes. Ergue-se: «Partamos!

Adeus! Negou-me Aquelle que no campo

Deixa a arvore ancian perder as folhas

No mesmo ponto em que as nutriu viçosas,

Negou-me ver por estas longas serras

Ir-se-me o ultimo sol. Brando regaço

A filial piedade me daria

Em que eu dormisse o derradeiro somno,

E em braços de meu sangue transportado

Fora em horas de paz e de silencio

Levado ao leito extremo e eterno. Vive

Ao menos tu...»

XV

Um familiar lhe corta

O adeus ultimo: «Vamos: é já tempo!»

Resignado o infeliz, ao seio aperta

A filha, e todo o coração n'um beijo

Lhe transmitiu, e a caminhar começa.

Angela os lindos braços sobre os hombros

Trava do austero pae; flôres dissereis

De parasita, que enroscou seus ramos

Pelo cançado tronco, esteril, secco

De arvore antiga: «Nunca! Hão de primeiro

A alma arrancar-me! Ou se heis peccado, e a morte

Pena hade ser da commettida culpa,

Convosco descerei á campa fria,

Juntos a mergulhar na eternidade.

Israel tem vertido

Um mar de sangue. Embora! á tona delle

Verdeja a nossa fé, a fé que anima[23]

O eleito povo, flôr suave e bella

Que o medo não desfolha, nem já secca

Ao vento mau da colera dos homens!»

XVI

Trémula a voz do peito lhe saía.

Das mãos lhe trava um dos algozes. Ella

Entrega-se risonha,

Como se o calix da amargura extrema

Pelos meles da vida lhe trocassem

Celeste e eterna. O coração do moço

Latejava de espanto e susto. Os olhos

Pousa na filha o desvairado velho.

Que ouviu?--Attenta nella; o lindo rosto

O céu não busca jubiloso e livre,

Antes, como travado de agra pena,

Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso

Entre si mesma uma oração, e o nome

De Jesus repetia, mas tão baixo,

Que o coração do pae mal pôde ouvir-lh'o.

Mas ouviu-lh'o; e tão forte amor, tamanho

Sacrificio da vida a alma lhe rasga

E deslumbra. Escoou-se um breve tempo

De silencio; elle e ella, os tristes noivos,

Como se a eterna noite os recebêra,

Gelados eram; levantar não ousam

Um para o outro os arrasados olhos

De mal contidas e teimosas lagrimas.

XVII

Nuno, enfim, lentamente e a custo arranca

Do coração estas palavras: «Fôra

Misericordia ao menos confessal-o

Quando ao fogo do barbaro inimigo

Me era facil deixar o derradeiro

Sopro da vida. Premio é este acaso

De tamanho lidar? Que mal te hei feito,

Por que me dês tão barbara e medonha

Morte, como esta, em que o cadaver guarda

Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto

Da vida que fugiu?» Angela os olhos

Magoados ergue; arfa-lhe o peito afflicto,

Como o dorso da vaga que intumesce

A asa da tempestade. «Adeus!» suspira,

E a fronte abriga no paterno seio.

XVIII

O rebelde ancião, domado emtanto,

Afracar-se-lhe sente dentro d'alma

O sentimento velho que bebera

Com o leite dos seus; e sem que o labio

Transmitta a ouvidos de homem

O duvidar do coração, murmura

Dentro de si: «Tão poderosa é essa

Ingenua fé, que inda negando o nome

Do seu Deus, confiada acceita a morte,

E guarda puro o sentimento interno

Com que o véu rasgará da eternidade?

Ó Nazareno, ó filho do mysterio,

Se é tua lei a unica da vida

Escreve-m'a no peito; e dá que eu veja

Morrer commigo a filha de meus olhos

E unidos irmos, pela porta immensa

Do teu perdão, á eternidade tua!»

XIX

Mergulhára de todo o sol no occaso,

E a noite, clara, deliciosa e bella,

A cidade cobriu,--não socegada,

Como costuma,--porém leda e viva,

Cheia de luz, de cantos e rumores,

Victoriosa enfim. Elles, calados,

Foram por entre a multidão alegre,

A penetrar o carcere sombrio.

Donde ao mar passarão, que os leve ás praias

Da ancian Europa. Carregado o rosto,

Ia o pae; ella, não. Serena e meiga,

Entra affouta o caminho da amargura,

A custo soffreando internas maguas

Da amarga vida, breve flôr como ella,

Que inda mais breve a mente lhe affigura.

Anjo, descera da região celeste

A pairar sobre o abysmo; anjo, subia

De novo á esphera luminosa e eterna,

Patria sua. Levar-lhe-ha Deus em conta

O muito amor e o padecer extremo,

Quando romper a tunica da vida

E o silencio immortal fechar seus labios.

JOSÉ BONIFÁCIO

De tantos olhos que o brilhante lume

Viram do sol amortecer no occaso,

Quantos verão nas orlas do horizonte

Resplandecer a aurora?

Innumeras, no mar da eternidade,

As gerações humanas vão cahindo;

Sobre ellas vae lançando o esquecimento

A pesada mortalha.

Da agitação esteril em que as forças

Consumiram da vida, raro apenas

Um eco chega aos seculos remotos,

E o mesmo tempo o apaga.

Vivos transmite a popular memoria

O genio creador e a sã virtude,

Os que o patrio torrão honrar souberam,

E honrar a especie humana.

Vivo irás tu, egregio e nobre Andrada!

Tu, cujo nome, entre os que á pátria deram

O baptismo da amada independencia,

Perpetuamente fulge.

O engenho, as forças, o saber, a vida

Tu votaste á liberdade nossa,

Que a teus olhos nasceu, e que teus olhos

Inconcussa deixaram.

Nunca interesse vil manchou teu nome,

Nem abjectas paixões; teu peito illustre

Na viva chamma ardeu que os homens leva

Ao sacrificio honrado.

Se teus restos ha muito que repousam

No pó commum das gerações extinctas,

A patria livre que legaste aos netos

E te venera e ama,

Nem a face mortal consente á morte

Que te roube, e no bronze redivivo

O austero vulto restitue aos olhos

Das vindouras edades.

«Vede (lhes diz) o cidadão que teve

Larga parte no largo monumento

Da liberdade, a cujo seio os povos

Do Brasil te acolheram.»

«Póde o tempo varrer, um dia, ao longe,

A fabrica robusta; mas os nomes

Dos que o fundaram viverão eternos,

E viverás, Andrada!»

A VISÃO DE JACIUCA

Prestes de novo a batalhar, chegavam

Os valentes guerreiros. Mas onde elle,

O duro chefe da indomavel tribu,

O senhor das montanhas? Affirmava

Tatupeba que o vira, antes da aurora,

Erguer-se, e ao longo do visinho rio,

Por algum tempo caminhar calado,

Como se o abafára um pensamento

E lhe impedíra o somno. Vão receio

De batalhar? Oh! não! Quasi na infancia,

A torva catadura viu da guerra,

Officio de homens, que aprendeu brincando

Com seu pae, extremado entre os guerreiros,

E na bravura e na prudencia; a frecha

Ninguem soubera menear como elle,

Nem mais veloz nem mais certeira nunca.

A lentos passos caminhando chega,

Enfim, o bravo Jaciuca. Torvo

E mereneorio traz o duro aspecto.

«--Vamos (diz elle) a descansar na taba,

Entre festas e dansas; penduremos

As armas nossas, que sobeja ha sido

A gloria, e a doce paz nos chama.»

Leve,

Surdo rumor entre os guerreiros soa;

Vai subindo, é rugido, é já tumulto,

Como o grunhir de tajassús no matto,

Que se approxima e cresce. Jaciuca

Olhos quietos pelo campo estende;

Seu feio rosto é como a rocha dura

Que o raio quebra, mas não lasca o vento.

Fecha os labios e pensativo espera.

Tatupeba, que a raiva a custo esconde,

Ergue-se então; crava-lhe os fulvos olhos,

Como a afiada ponta de uma frecha.

Seu porte, entre os irmãos, semelha á vista

Jequitibá robusto; mais que todos,

Terror inspira e universal respeito.

Ergue-se e fala:--«Longos soes hei visto,

Pelejei muitas guerras; a meu lado

Vi cair mais valentes do que folhas

Arranca o furacão; mas nunca o animo

Dos lidadores abalou a palavra

Como essa tua; nunca os braços nossos

Ficar deixaram nos desertos campos

Os ossos não vingados dos guerreiros.

Que genio mau te insinuou tal crime?»

Assim fallando, Tatupeba o solo

Com a planta feriu. Os olhos todos

Pendem da boca do sombrio chefe.

Silencioso Jaciuca ouvira

As fallas do guerreiro; silencioso

E quieto ficou. Após instantes,

A fronte sacudiu, como expellindo

Ideias más que o cerebro lhe turvam,

E a voz lhe rompe do intimo do peito.

«Ó guerreiros (diz elle), aqui deitados

Estivestes a noite, e toda inteira

A dormistes de certo; eu, não distante,

Do rio á margem a trabalhar commigo,

Afiava na mente atra vingança;

Até que os frouxos membros descaíram

Sobre a macia relva, e um tempo largo

Assim fiquei entre vigilia e somno.

Viam meus olhos ondular as aguas,

Mas no alheado pensamento os ecos

Sussurravam da infancia. Um genio amigo

Aos tempos me levava em que no rosto

De meu pae aprendi, com frio pasmo,

A rara intrepidez, válida herança,

Que tanto custa ao perfido inimigo.»

«De repente, uma luz pallida e triste

Inunda o campo: transparente nevoa

E luminosa aquillo parecia,

Ou baço reflectir da branca lua

Que nuvens cobrem. Livido e curvado,

Içayba a meus olhos apparece.

Vi-o qual era antes da fria morte;

Só a expressão do rosto lhe mudára;

Energicas não tinha, mas serenas

As feições. «Vem comigo!» Assim me falla

O extincto bravo; e, subito estreitando

Ao peito o corpo do saudoso amigo,

Juntos voámos á região das nuvens.

«Olha!» disse Içayba, e o braço alonga

Para a terra. Ó guerreiros! largo espaço

Era prêsa de alheio senhorio.

Fitei os olhos mais; e pouco a pouco,

Como enche o rio e todo o campo alaga,

Umas gentes extranhas se estendiam

De sertão em sertão. Presas do fogo

As mattas vi, abrigo do guerreiro,

E ao torvo incendio e ás invasões da morte

Vi as tribus fugir, ceder a custo,

Com lagrimas alguns, todos com sangue,

A virgem terra ao barbaro inimigo.

Mau vento os trouxe de remota praia

Aquelles homens novos, jamais vistos

De guerreiro ancião, a quem não coube

Sequer a gloria de morrer contente

E todo reviver na ousada prole.

Era o termo da vida que chegára

Ao povo de Tupan! Grito de morte

Unico enchia os ares,--um suspiro

De tristeza e terror, que reboava

Pelos recessos da floresta antiga

E talvez ameigava o peito ás feras...

Surdos os manitós deixado haviam

Os seus fortes heroes; surdos se foram

Entre os genios folgar da raça nova,

E rir talvez das lagrimas choradas

Pelos olhos das virgens... Oh! se ao menos

Fora pranto de livres! Era a morte

A menor das angustias; vi curvada

E captiva rojar no po da terra

A fronte do guerreiro, agora altiva,

Livre, como o condor que frecha as nuvens;

Não kanitar a cinge, mas vergonha,

Melancholico adorno do vencido.

O rosto desviei do extranho quadro.

«Olha!» repete o pallido Içayba.

Olhei de novo, e na saudosa taba,

Que os nossos arcos defender souberam,

Em vez da sombra do piaga santo,

Que, ao som do maracá, colhia as vozes

Do pensamento eterno, e as infundia

No seio do guerreiro, como o fumo

Do petum lhe dobrava impeto e força,

Um vulto descobri de vestes negras,

Nua quasi a cabeça, e cor de espuma

Alguns cabellos raros. Tinha o rosto

Alvo e quieto. Em suas mãos sustinha

Extenso lenho com dois curtos braços.

Ia só; todo o campo era deserto.

Nem um guerreiro! um arco!«--A tribu?»

--«Extinta!»

«A tal palavra, uma pesada sombra

A vista me apagou, e pela face

Senti rolar a lagrima primeira.

O sinistro espectaculo mudára.

Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos

Achei-me junto do visinho rio,

Reclinado como antes, e defronte

A pallida figura de Içayba.

«--Torna á taba, me disse o extincto moço;

«Luas e luas volverão no espaço

«Antes da morte, mas a morte é certa,

«E terrivel será. Nação bem outra,

«Sobre as ruinas da valente raça

«Virá sentar-se, e brilhará na terra

«Gloriosa e rica. Uma chorada lagrima,

«Talvez, talvez, no meio de triunphos

«Ha de ser a tardia, escassa paga

«Da morte nossa. Poupa ao menos essa

«Derradeira esperança de guardal-o

«Todo o valor para o supremo dia

«E com honra ceder a extranhas hostes;

«Salva ao menos as ultimas reliquias

«Desta nação vencida; não se rasguem

«Peitos que irmãos ao mesmo sol nasceram

«E Anhangá fez contrarios... Todos elles[24]

«Poucos serão para a tremenda luta,

«Mas de sobra hão de ser para choral-a.»

«Assim fallára o pallido Içayba;

Alguns instantes contemplou meu rosto,

Calado e firme. A cachoeira ao longe

Interrompia apenas o silencio;

E eu morto, eu mesmo me sentia morto.

Elle um triste suspiro magoado

Soltou do peito; os apagados olhos

Ás estrellas ergueu, sereno e triste,

E de novo rompendo o voo aos ares,

Como uma frecha penetrou nas nuvens.»

A GONÇALVES DIAS

Ninguém virá, com titubeastes passos.

E os olhos lacrimosos, procurando

O meu jazigo...

GONÇALVES DIAS.--_Últimos Cantos._

Tu vive e gosa a luz serena e pura.

J. BAZILIO DA GAMA.--_Uraguai, c. V._

Assim vagou por alongados climas,

E do naufragio os humidos vestidos

Ao calor enxugou de extranhos lares

O lusitano vate. Acerbas penas

Curtiu naquelas regiões; e o Ganges,

Se o viu chorar, não viu pousar calada,

Como a harpa dos exules profetas,

A heroica tuba. Elle a embocou, vencendo

Co'a lembrança do ninho seu paterno,

Longas saudades e miserias tantas.

Que monta o padecer? Um só momento

As maguas lhe pagou da vida; a patria

Reviu, apoz a suspirar por ella;

E a velha terra sua

O despojo mortal cobriu piedosa

E de sobejo o compensou de ingratos.

Mas tu, cantor da America, roubado

Tão cedo ao nosso orgulho, não te coube

Na terra em que primeiro houveste o lume

Do nosso sol, achar o ultimo leito!

Não te coube dormir no chão amado,

Onde a luz frouxa da serena lua,

Por noite silenciosa, entre a folhagem

Coasse os raios humidos e frios,

Com que ella chora os mortos... derradeiras

Lagrimas certas que terá na campa

O infeliz que não deixa sobre a terra

Um coração ao menos que o pranteie.

Vinha contudo o pallido poeta

Os desmaiados olhos estendendo

Pela azul extensão das grandes aguas,

A pesquizar ao longe o esquivo fumo

Dos patrios tectos. Na abatida fronte

Ave da morte as asas lhe roçára;

A vida não cobrou nos ares novos,

A vida, que em vigilias e trabalhos,

Em prol dos seus, gastou por longos annos,

Co'essa largueza de animo fadado

A entornar generoso a vital seiva.

Mas, que importava a morte, se era doce

Morrel-a á sombra deliciosa e amiga

Dos coqueiros da terra, ouvindo acaso

No murmurar dos rios,

Ou nos suspiros do nocturno vento,

Um eco melancholico dos cantos

Que elle outrora entoára? Traz do exilio

Um livro, monumento derradeiro

Que á patria levantou; alli revive

Toda a memoria do valente povo

Dos seus Tymbiras...

Subito, nas ondas

Bate os pés, espumante e desabrido,

O corcel da tormenta; o horror da morte

Enfia o rosto aos nautas... Quem por elle,

Um momento hesitou quando na fragil

Tabua confiou a unica esperança

Da existencia? Mysterio obscuro é esse

Que o mar não revellou. Ali sosinho,

Travou naquella solidão das aguas

O duello tremendo, em que a alma e corpo

As suas forças ultimas despendem

Pela vida da terra e pela vida

Da eternidade. Quanta imagem torva,

Pelo turbado espirito batendo

As fuscas azas, lhe tornou mais triste

Aquelle instante funebre! Suave

É o arranco final, quando o já frouxo

Olhar contempla as lagrimas do affecto,

E a cabeça repousa em seio amigo.

Nem affectos nem prantos; mas somente

A noite, o medo, a solidão e a morte.

A alma que alli morava, ingenua e meiga,

Naquele corpo exiguo, abandonou-o,

Sem ouvir os soluços da tristeza,

Nem o grave salmear que fecha aos mortos

O frio chão. Ella o deixou, bem como

Hospede mal acceito e mal dormido,

Que prossegue a jornada, sem que leve

O osculo da partida, sem que deixe

No rosto dos que ficam,--rara embora,--

Uma sombra de pallida saudade.

Oh! sobre a terra em que pousaste um dia,

Alma filha de Deus, ficou teu rasto

Como de estrella que perpétua fulge!

Não viste as nossas lagrimas; comtudo

O coração da patria as ha vertido.

Tua gloria as seccou, bem como orvalho

Que a noite amiga derramou nas flôres

E o raio enxuga da nascente aurora.

Na mansão a que foste, em que ora vives,

Has de escutar um eco do concerto

Das vozes nossas. Ouvirás, entre ellas,

Talvez, em labios de indiana virgem!

Esta saudosa e suspirada nenia:

«Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros!

Virgens da matta, suspirai commigo!»

«A grande agua o levou como invejosa.

Nenhum pé trilhará seu derradeiro

Funebre leito; elle repousa eterno

Em sítio onde nem olhos de valentes,

Nem mãos de virgens poderão tocar-lhe

Os frios restos. Sabiá da praia

De longe o chamará saudoso e meigo,

Sem que ele venha repetir-lhe o canto.

Morto! é morto o cantor de meus guerreiros!

Virgens da matta, suspirai comigo!»

Ele houvera do Ybake o dom supremo

De modular nas vozes a ternura,

A colera, o valor, tristeza e magua,

E repetir aos namorados ecos

Quanto vive e reluz no pensamento.

Sobre a margem das aguas escondidas,

Virgem nenhuma suspirou mais terna,

Nem mais válida a voz ergueu na taba,

Suas nobres acções cantando aos ventos,

O guerreiro tamoyo. Doce e forte,

Brotava-lhe do peito a alma divina.

Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros!

Virgens da matta, suspirai comigo!

Poesias Completas · 第 6 / 10 段