Calou-se o maracá. As roucas vozes
Dos férvidos guerreiros já reclamam
O brutal sacrificio. Ás mãos das servas
A taça do cauim passara exhausta.
Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.
Da nação guayanaz nos rudes campos
Nasceu. Nos campos da saudosa patria
Industriosa mão não sabe ainda
Alevantar as tabas. Cova funda
Da terra, mãe comum, no seio aberta,[11]
Os acolhe e protege. O chão lhes forra
A pele do tapir; continua chamma
Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo
Do guayanaz que chega a extrema edade,
Ou de mortal doença accomettido,
Não expirar aos olhos de outros homens;
Vivo o guardam no bojo da igaçaba,
E á fria terra o dão, como se fôra
Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes.
Do almo, doce licor que extrai das flôres
Mãe do mel, iramaya, larga cópia
Pelos robustos membros lhe coaram
Seis anciãs da tribu. Rubras pennas
Na vasta fronte e nos nervosos braços
Garridamente o enfeitam. Longa e forte
A mussuranna os rins lhe cinge e aperta.
Entra na praça o funebre cortejo.
Olhar tranquillo, inda que fero, espalha
O indomado captivo. Em pé, defronte,
Grave, silencioso, ao sol mostrando
De feias cores e vistosas plumas
Singular harmonia, aguarda a victima
O executor. Nas mãos lhe pende a enorme
Tagapema enfeitada, arma certeira,
Arma triumphal de morte e de exterminio.
Medem-se rosto a rosto os dois contrarios
C'um sorriso feroz. Confusas vozes
Enchem subito o espaço. Não lhe é dado
Ao vencido guerreiro haver a morte
Silenciosa e triste em que se passa
Da curva rede á fria sepultura.
Meigas aves que vão de um clima a outro
Abrem placidamente as asas leves,
Não tu, guerreiro, que encaraste a morte,
Tu combate! Vencido e vencedores
Derradeiros escarneos se arremessam;
Gritos, injurias, convulsões de raiva,
Vivo clamor accorda os longos ecos
Das penedias proximas. A clava
Do executor girou no ar trez vezes
E de leve caiu na grossa espadua
Do arquejante captivo. Já na boca,
Que o desprezo e o furor n'um riso entreabrem,
Orla de espuma alveja. Avança, corre,
Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço
A mussurana, cujas pontas tiram
Dois mancebos robustos. Nas cavernas
Do longo peito lhe murmura o odio,
Surdo, como o rumor da terra inquieta,
Pejada de vulcões. Os labios morde,
E, como derradeira injuria, á face
Do executor lhe cospe espuma e sangue.
Não vibra o arco mais veloz o tiro,
Nem mais segura no aterrado cervo
Feroz succuriuba os nós enrosca,
Do que a pesada, enorme tagapema
A cabeça de um golpe lhe esmigalha.
Cae fulminada a vitima na terra,
E alegre o povo longamente applaude.
XII
Na voz universal perdeu-se um grito
De piedade e terror: tão fundo entrára
Naquella alma roubada á noite escura
Raio de sol christão! Potyra foge,
Pelos bosques atonita se entranha
E pára á margem de um pequeno rio;
Pousa na relva os tremulos joelhos
E nas mimosas mãos esconde o rosto.
Não de lagrimas era aquelle sitio
Ou só de doces lagrimas choradas
De olhos que amor venceu:--macia relva,
Leito de sesta a amores fugitivos.
Da verde, rara abobada de folhas
Tepida e doce a luz coava a frouxo
Do sol, que, além das arvores, tranquillo,
Metade da jornada ia transpondo.
Longe era ainda a hora melancholica
Em que a geremma cerra a miuda folha,
E o lume azul o pyrilampo accende.
De pé, a um velho tronco descoroado
Da copada ramagem, resto apenas,
Vestigio do tufão, a indiana moça
Languidamente encosta o esbelto corpo.
Neste ameno recesso tudo é triste,
Porque é alegre tudo. Não mui longe
Um desfolhado ipê conserva e guarda
Flôres que lhe ficaram de outro estio,
Como esperança de folhagem nova,
Flôres que a desventura lhe ha negado,
A ella, alma esquecida nesta terra,
Que nada espera da estação vindoura.
Olha, e de inveja o coração lhe estalla.
Pelo tronco das arvores se enroscam
Parasitas, esposas do arvoredo,
Mais fieis não, mais venturosas que ella.
Morrer? Descanso fôra ás maguas suas,
Mais que descanço, perduravel gozo,
Que a nossa eterna patria aos infelizes
Deste desterro guarda alvas capellas
De não-murchandas e cheirosas flôres.
Tal lhe falava no intimo do peito
Desespero cruel. Alguns instantes
Pela cansada mente lhe vagaram
De voluntaria, abreviada morte,
Luctuosas ideias. Mal comprehende
Esses desmaios da creatura humana
Quem não sentiu no coração rasgado
Abatimento e enôjo; ou, mais do que isto,
Esse contraste immenso e irreparavel
Do amor interno e a solidão da vida.
Rapido espaço foi. Prompto lhe volve
Doce resignação, christã virtude,
Que desafia e que assoberba os males.
As debeis mãos levanta. Já dos labios
Solta nas azas de oração singella
Lastimas suas... Na folhagem secca
Ouve de cautos pés rumor sumido,
Volve a cabeça...
XIII
Tremulo, calado,
Anagê crava n'ella os olhos turvos
Dos vapores da festa. As mãos inermes
Lhe pendem; mas o peito--ó misera!--esse,
Esse de mal contido amor transborda.
Longo instante passou. Alfim: «Deixaste
A festa nossa (o barbaro murmura);
Mysteriosa vieste. Dos guerreiros
Nenhum te viu; mas eu senti teus passos,
E vim comtigo ao ermo. Ave mesquinha,
Inutil foges; gavião te espreita,[12]
Minha te fez Tupan.» Em pé, sorrindo,
Escutava Potyra a voz severa
De Anagê. Breve espaço abria entre ambos
Alcatifado chão. A fatal hora
Chegara alfim? Não o perscruta a moça;
Tudo acceita das mãos do seu destino,
Tudo, excepto... No proximo arvoredo
Ouve de uma ave o pio melancholico;
Era a voz de seu pae? a voz do esposo?
De ambos talvez. No animo da escrava
Restos havia dessa crença antiga
Antiga e sempre nova: o peito humano
Raro de obscuros elos se liberta.
XIV
--«Nasceste para ser senhora e dona:
Anagê não te veda a liberdade;
Quebra tu mesma os nós do captiveiro.
Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;
Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro,
Adornada por ti, será mais nobre;
Mais forte o braço em que pousar teu rosto.
Sou menos bello que esse esposo ausente?
Rudes feições compensa amor sobejo.
Vem; ver-me-has companheira nos combates,
E, se inimiga frecha entrar meu seio,
Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres?
Outro destino escolhe. Cauteloso,
Tece o japú nos elevados ramos
Das elevadas arvores o ninho,
Onde o inimigo lhe não roube a prole.
Ninho ha na serra ao nosso amor propicio;
Viveremos alli. Troveje em baixo
A inubia convidando a guerra os povos;
Leva de arcos transforme estas aldêas
Em campos de combate,--ou já dispersas
As fugitivas tribus vão buscando
Longes sertões para chorar seus males,
Viveremos alli. Talvez, um dia,
Quando eu passar á mysteriosa estancia
Das delicias eternas, me pergunte
Meu velho pai:--«Teu arco de guerreiro
Em que deserta praia o abandonaste?
Salvar-me-ha teu amor do eterno pejo.»
XV
Doce era a voz e triste. Rasos d'agua
Os olhos. Foi desmaio de tristeza
Que o gesto dissipou da esquiva moça.
Volve ao Tamoyo vingativa ideia.
--«Minha (diz elle) ou morres!» Estremece
Potyra, como quando a brisa passa
Ao de leve na folha da palmeira,
E logo fria ao barbaro responde:
--«Jaz esquecido em nossas velhas tabas
O respeito da esposa? Acaso é digna
Do sangue do Tamoyo esta ameaça?
Que desvalia aos olhos teus me coube,
Se a outro me ligaram natureza,
Religião, destino? A liberdade
Nas tuas mãos depuz; com ella a vida.
É tudo, quasi tudo. Honra de esposa,
Oh! essa deves respeital-a! Vai-te!
Ceva teu odio nas sangrentas carnes
Do prostrado captivo. Aqui chorando,
Na solidão d'estes bosques mal fechados,
As maviosas brisas meus suspiros
Entregarei; leval-os-hão nas azas
La onde geme solitario o esposo.
Vai-te!» E as mimosas mãos colhendo ao rosto,
Alçou a Deus o pensamento amante,
Como a centelha viva que a fogueira
Extincta aos ares sobe. Immovel, muda,
Longo tempo ficou. Diante d'ella,
Como ella immovel, o tamoyo estava.
Amor, odio, ciume, orgulho, pena,
Oppostos sentimentos se combatem
No attribulado peito. Generoso
Era, mas não domado amor lhe dava
Inspiração de crimes. Não mais prompto
Cae sobre a triste corça fugitiva
Jaguar de longa fome esporeado,
Do que elle as mãos lançou ao colo e á fronte
Da misera Potyra. Ai! não, não diga
A minha voz o lamentoso instante
Em que ella, ao seu algoz volvendo anciosa
Turvos olhos: «Perdoo-te!» murmura,
Os labios cerra e immaculada expira!
XVI
Estro maior teu nome obscuro cante,
Moça christã das solidões antigas,
E eterno o cinja de virentes flôres,
Que as mereces. De não sabido bardo
Estes gemidos são. Languidas brisas
No taquaral á noite sussurrando,
Ou enrugando o molle dorso ás vagas,
Não tem a voz com que domina os echos
Despenhada cachoeira. São, comtudo,
Mas que debeis e tristes, no concerto
Da orquestra universal cabidas notas.
Alveja a nebulosa entre as estrellas,
E abre ao pé do rosal a flôr da murta.
NIANI
(HISTORIA GUAYCURU)
Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal
melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim
se passaram trez mezes, quando um dia, estando
deitada na sua rustica cama, lhe deram a noticia
que seu desleal marido se tinha casado com uma
rapariga de menor esphera. Senta-se então Nanine
na cama, como arrebatada, chama para junto de
si um pequeno indio que era seu cativo, e diz-lhe
na presença de varios antecris: «És meu captivo;
dou-te a liberdade, com a condição de que te
chamarás toda a vida Panenioxe.»
F. RODRIGUES PRADO, _Hist. dos Indios Cavalleiros._
...che piange
Vedova sola.
DANTE
I
Contam-se historias antigas
Pelas terras de além-mar,
De moças e de princezas,
Que amor fazia matar.
Mas amor que entranha n'alma
E a vida soe acabar,
Amor é de todo o clima,
Bem como a luz, como o ar.
Morrem delle nas florestas
Aonde habita o jaguar,
Nas margens dos grandes rios
Que levam troncos ao mar.
Agora direi um caso
De muito penalisar,
Tão triste como os que contam
Pelas terras de além-mar.
II
Cabana que esteira cobre
De junco trançado a mão,
Que agitação vae por ella!
Que ledas horas lhe vão!
Panenioxe é guerreiro
Da velha, dura nação,[13]
Cayavaba ha já sentido
A sua lança e facão.[14]
Vem de longe, chega á porta
Do afamado capitão;
Deixa a lança e o cavallo,
Entra com seu coração.
A noiva que elle lhe guarda
Moça é de nobre feição,
Airosa como agil corça
Que corre pelo sertão.
Amores eram nascidos
Naquella tenra estação
Em que a flôr que hade ser flôr
Inda se fecha em botão.
Muitos agora lhe querem,
E muitos que fortes são;
Niani ao melhor delles
Não dera o seu coração.[15]
Casal-os agora, é tempo;
Casal-os, nobre ancião!
Limpo sangue tem o noivo,
Que é filho de capitão.[16]
III
«--Traze a minha lança, escravo,
Que tanto peito abateu;
Traze aqui o meu cavallo
Que largos campos correu.»
«--Lança tens e tens cavallo
Que meu velho pae te deu;
Mas aonde te vás agora
Onde vais, esposo meu?»
«--Vou-me á caça, junto á cova
Onde a onça se metteu...»
«--Montada no meu cavallo,
Vou comtigo, esposo meu.»
«--Vou-me ás ribas do Escopil,
Que a minha lança varreu...»
«--Irei pelejar na guerra,
A teu lado, esposo meu.»
«--Fica-te ahi na cabana
Onde o meu amor nasceu.»
«--Melhor não haver nascido
Se já de todo morreu.»
E uma lagrima,--a primeira
De muitas que ella verteu,--
Pela face cobreada
Lenta, lenta lhe correu.
Enxugal-a, não a enxuga
O esposo que já perdeu,
Que elle no chão fita os olhos,
Como que a voz lhe morreu.
Traz o escravo o seu cavallo
Que o velho sogro lhe deu;
Traz-lhe mais a sua lança
Que tanto peito abateu.
Então, recobrando a alma,
Que o remorso esmoreceu,
Com esta dura palavra
Á esposa lhe respondeu:
«--A bocayuva trez vezes
No tronco amadureceu,[17]
Desde o dia em que o guerreiro
Sua esposa recebeu.»
«Trez vezes! Amor sobejo
Nossa vida toda encheu.
Fastio me entrou no seio,
Fastio que me perdeu.»
E pulando no cavallo,
Sumiu-se... desapareceu...
Pobre moça sem marido,
Chora o amor que lhe morreu!
IV
Leva o Paraguay as aguas,
Leva-as no mesmo correr,
E as aves descem ao campo
Como usavam de descer.
Tenras flôres, que outro tempo
Costumavam de nascer,
Nascem; vivem de egual vida;
Morrem do mesmo morrer.
Niani, pobre viuva,
Viuva sem bem o ser,
Tanta lagrima chorada
Já te não pode valer.
Olhos que amor desmaiára
De um desmaiar que é viver,
O choro empana-os agora,
Como que vão fenecer.
Corpo que fôra robusto
No seu cavallo a correr,
De continua dor quebrado
Mal se póde já suster.
Collar de prata não usa,
Como usava de trazer;
Pulseiras de finas contas
Todas as veiu a romper.[18]
Que ella, se nada ha mudado
Daquelle eterno viver,
Com que a natureza sabe
Renascer, permanecer,
Toda é outra; a alma lhe morre,
Mas de um continuo morrer,
E não ha magua mais triste
De quantas podem doer.
Os que out'rora a desejavam,
Antes della mal haver,
Vendo que chora e padece,
Rindo se põem a dizer:
«--Remador vai na canoa,
Canoa vae a descer...
Piranha espiou do fundo
Piranha, que o vae comer.
Ninguem se fie da braza
Que os olhos veem arder,
Sereno que cae de noite
Ha de fazel-a morrer.
Panenioxe, Panenioxe,
Não lhe sabias querer.
Quem te pagára esse golpe
Que lhe vieste fazer!»
V
Um dia,--era sobre tarde,
Ia-se o sol a afundar;
Calumby cerrava as folhas
Para melhor as guardar.
Vem cavaleiro de longe
E á porta vai apear.
Traz o rosto carregado,
Como a noite sem luar.
Chega-se á pobre da moça
E assim começa a falar:
«--Guaycurú dói-lhe no peito
Tristeza de envergonhar.
Esposo que te ha fugido
Hoje se vae a casar;
Noiva não é de alto sangue,
Porém de sangue vulgar.»
Ergue-se a moça de um pulo,
Arrebatada, e no olhar
Rebenta-lhe uma faisca
Como de luz a expirar.
Menino escravo que tinha
Acerta de ali passar;
Niani attentando nelle
Chama-o para o seu logar.
«--Cativo és tu; serás livre,
Mas vaes o nome trocar;
Nome avesso te pozeram...
Panenioxe has de ficar.»
Pela face cobreada
Desce, desce com vagar
Uma lagrima: era a ultima
Que lhe restava chorar.
Longo tempo alli ficára,
Sem se mover nem fallar;
Os que a veem naquella magoa
Nem ousam de a consolar.
Depois um longo suspiro,
E ia a moça a expirar...
O sol de todo morria
E ennegrecia-se o ar.
Pintam-n'a de vivas cores,
E lhe lançam um collar;[19]
Em fina esteira de junco
Logo a vão amortalhar.
O triste pae suspirando
Nos braços a vae tomar,
Deita-a sobre o seu cavallo
E a leva para enterrar.
Na terra em que dorme agora
Justo lhe era descançar,
Que pagou foro da vida
Com muito e muito penar.
Que assim se morre de amores
Aonde habita o jaguar,
Como as princesas morriam
Pelas terras de além-mar.
A CHRISTÃ NOVA
...essa mesma foi levada
captiva para uma terra estranha.
NAUM, cap. III, v. 10
PARTE I
I
Olhos fitos no céu, sentado á porta,
O velho pae estava. Um luar frouxo
Vinha beijar-lhe a veneranda barba
Alva e longa, que o peito lhe cobria,
Como a nevoa na encosta da montanha
Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite,
E silenciosa: a praia era deserta,
Ouvia-se o bater pausado e longo
Da somnolenta vaga,--unico e triste
Som que a mudez quebrava á natureza.
II
Assim talvez nas solidões sombrias
Da velha Palestina
Um propheta no espirito volvera
As desgraças da patria. Quão remota
Aquella de seus paes sagrada terra,
Quão differente desta em que ha vivido
Os seus dias melhores! Vago e doce,
Este luar não allumia os serros
Estereis, nem as ultimas ruinas,
Nem as ermas planicies, nem aquelle
Morno silencio da região que fôra
E que a historia de todo amortalhára.
Ó torrentes antigas! aguas santas
De Cedron! Já talvez o sol que passa,
E vê nascer e vê morrer as flôres,
Todas no leito vos seccou, em quanto
Estas murmuram placidas e cheias,
E vão contando ás deleitosas praias
Esperanças futuras. Longo e longo
O devolver dos seculos
Será, primeiro que a memoria do homem
Teça a mortalha fria
Da região que inda tinge o albor da aurora.
III
Talvez, talvez no espirito fechado
Do ancião vagueavam lentamente
Estas ideias tristes. Junto á praia
Era a austera mansão, donde se via
Desenrolarem-se as serenas vagas
Do nosso golpho azul. Não a enfeitavam
As galas da opulencia, nem os olhos
Entristecia co'o medonho aspecto
Da miseria; não pródiga nem surda
A fortuna lhe fora, mas aquella
Mediana sobria, que os desejos
Contenta do philosopho, lhe havia
Doirado os tectos. Guanabara ainda
Não era a flôr aberta
Da nossa edade; era botão apenas,
Que rompia do hastil, nascido á beira
De suas ondas mansas. Simples e rude,
Ia brotando a juvenil cidade,
Nestas incultas terras, que a lembrança
Recordava talvez do antigo povo,
E o guáu alegre, e as rispidas pelejas,
Toda essa vida que morreu.
IV
Sentada
Aos pés do velho estava a amada filha,
Bella como a açucena dos Cantares,
Como a rosa dos campos. A cabeça
Nos joelhos do pae reclina a moça,
E deixa resvalar o pensamento
Rio abaixo das longas esperanças
E namorados sonhos. Negros olhos
Por entre os mal fechados
Cilios estende á serra que recorta
Ao longe o céu. Morena é a face linda
E levemente pallida. Mais bella,
Nem mais suave era a formosa Ruth
Ante o rico Booz, do que essa virgem,
Flôr que Israel brotou do antigo tronco,
Corada ao sol da juvenil America.
V
Mudos viam correr aquellas horas
Da noite, os dous: ele voltando o rosto
Ao passado, ella os olhos ao futuro.
Cansam-lhe enfim ao pensamento as azas
De ir voando, atravez da espessa treva,
Frouxas as colhe, e desce ao campo exiguo
Da realidade. A delicada virgem
Primeiro volve a si; os lindos dedos
Corre-lhe ao longo da nevada barba,
E: «--Pae amigo, que pensar vos leva
Tão longe a alma?» Estremecendo o velho.
«--Curiosa!--lhe disse,--o pensamento
E como as aves passageiras: voa
A buscar melhor clima.--Opposto rumo
Ias tu, alma em flôr, aberta apenas,
Tão longe ainda do calor da sesta,
Tão remota da noite... Uma esperança
Te sorria talvez? Talvez, quem sabe,
Uns namorados olhos que me roubem,
Que te levem... Não córes, filha minha!
Esquecimento, não; lembrança ao menos
Ficar-te-ha do paterno affecto; e um dia,
Quando eu na terra descansar meus ossos,
Haverás doce balsamo no seio
Da affeição juvenil... Sim; não te accuso;
Ama: é a lei da natureza, eterna!
Ama: um homem será da nossa raça...»
VI
Estas palavras taes ouvindo a moça,
Turbada os olhos descaiu na terra,
E algum tempo ficou calada e triste,
Como no azul do céu o astro da noite,
Se uma nuvem lhe empana a meio a face.
Subito a voz e o rosto alevantando,
Com dissimulação,--peccado embora,
Mas innocente:--«Olhai, a noite é linda!
O vento encrespa mollemente as ondas,
E o céu é todo azul e todo estrelas!
Formosa, oh! quão formosa a terra minha!
Dizei: além desses compridos serros,
Além daquelle mar, á orla de outros,
Outras como esta vivem?»
VII
Fresca e pura
Era-lhe a voz, voz d'alma que sabia
Entrar no coração paterno. A fronte
Inclina o velho sobre o rosto amado
De Angela.--Na cabeça osculo santo
Imprime á filha; e suspirando, os olhos
Melancholicamente ao ar levanta,
Desce-os e assim murmura:
«Vaso é digno de ti, lyrio dos vales,
Terra solene e bella. A natureza
Aqui pomposa, compassiva e grande,
No regaço recebe a alma que chora
E o coração que tumido suspira.
Comtudo, a sombra pesarosa e errante
Do povo que acabou pranteia ainda
Ao longo das areias,
Onde o mar bate, ou no cerrado bosque
Inda povoado das reliquias suas,
Que o nome de Tupan confessar podem
No proprio templo augusto. Ultima e forte
Consolação é esta do vencido
Que viu tudo perder-se no passado,
E unico salva do naufragio imenso
O seu Deus. Patria não. Uma ha na terra
Que eu nunca vi... Hoje é ruina tudo,
E viuvez e morte. Um tempo, emtanto,
Bella e forte ella foi; mas longe, longe
Os dias vão da fortaleza e gloria
Escoados de todo como as aguas
Que não volvem jamais. Oleo que a unge,
Finas telas que a vestem, atavios
De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,
E a flôr de trigo e mel de que se nutre,
Sonhos, são sonhos do propheta. É morta[20]
Jerusalem! Oh! quem lhe dera os dias
Da passada grandeza, quando a planta
Da senhora das gentes sobre o peito
Pousava dos vencidos, quando o nome
Do que ha salvo Israel, Moysés...»
«--Não! Christo,
Filho de Deus! Só elle ha salvo os homens!»
Isto dizendo, a delicada virgem
As mãos postas ergueu. Uma palavra
Não disse mais; no coração, emtanto,
Murmurava uma prece silenciosa,
Ardente e viva, como a fé que a anima
Ou como a luz da lampada
A que não faltou oleo.
VIII
Taciturno
Esteve longo tempo o ancião. Aquella
Alma infeliz nem toda era de Christo
Nem toda de Moyses; ouvia attento
A palavra da Lei, como nos dias
Do eleito povo; mas a doce nota
Do Evangelho não raro lhe batia
No alvoroçado peito,
Solemnissima e pura... Descambava
No entanto a lua. A noite era mais linda,
E mais augusta a solidão. Na alcova
Entre a pallida moça. Da parede
Um Christo pende; ela os joelhos dobra,
Os dedos cruza e reza,--não serena,
Nem alegre tambem, como costuma,
Mas a tremer-lhe nos formosos olhos
Uma lagrima.
IX
A lampada accendida
Sobre a meza do velho, as largas folhas
Allumia de um livro. O maximo era
Dos livros todos. A escolhida lauda
Era a do canto dos captivos que iam
Pelas ribas do Euphrates, relembrando
As desgraças da patria. A sós, com elles,
Suspira o velho aquelle psalmo antigo:
Junto os rios da terra amaldiçoada
De Babylonia, um dia nos sentamos,
Com saudades de Sião amada.
As harpas nos salgueiros penduramos,
E ao relembrarmos os extintos dias
As lagrimas dos olhos desatamos.
Os que nos davam cruas agonias
De captiveiro, alli nos perguntavam
Pelas nossas antigas harmonias.
E diziamos nós aos que fallavam:
«Como em terra de exilio amargo e duro
Cantar os hymnos que ao Senhor louvavam?»
Jerusalem, se inda n'um sol futuro,
Eu desviar de ti meu pensamento
E teu nome entregar a olvido escuro,
A minha dextra a frio esquecimento
Votada seja; apegue-se á garganta
Esta lingua infiel, se um só momento
Me não lembrar de ti, se a grande e santa
Jerusalem não for minha alegria
Melhor no meio de miseria tanta.
Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle dia
Da abatida Sião, lembra-lh'o aos duros
Filhos de Edom, e á voz que alli dizia:
Arruinai-a, arruinai-a; os muros
Arrazemol-os todos; só lhe baste
Um montão de destroços mal seguros.
Filha de Babylonia, que peccaste,
Abençoado o que se houver comtigo
Com a mesma oppressão que nos mostraste!
Abençoado o barbaro inimigo
Que os tenros filhos teus ás mãos tomando,
Os for, por teu justissimo castigo,
Contra um duro penedo esmigalhando!
PARTE II
I
Era naquella doce e amavel hora
Em que vem branqueando a alva celeste,
Quando parece que remoça a vida
E toda se espreguiça a natureza.
Alva neblina que espalhara a noite
Frouxamente nos ares se dissolve,
Como de uns olhos tristes
Foge co'o tempo a já ligeira sombra
De consoladas maguas. Vida é tudo.
E pompa e graça natural da terra,
Mas que não seja no ermo,
Onde seus olhos rutilos espraia
Livres a aurora, sem tocar vestigios
De obras caducas do homem, onde as aguas
Do rio bebe a fugitiva corça,
Vivo aroma nos ares se difunde,
E aves, e aves de infinitas cores
Voando vão e revoando tornam,
Inda senhoras da amplidão que é sua,
Donde as hade fugir o homem um dia
Quando a agreste solidão entrar o passo
Creador que derruba. Já de todo
Nado era o sol; e á viva luz que innunda
Estes meus patrios morros e estas praias,
Sorrindo a terra moça
Noiva parece que o virgineo seio
Entrega ao beijo nupcial do amado.
E hade os funebres véus lançar a morte
Na verdura do campo? A natureza
A nota vibrará da extrema angustia
Neste festivo cantico de graças
Ao sol que nasce, ao Creador que o envia,
Como renovação de juventude?
II
Coava o sol pela miuda e fina
Gelosia da alcova em que se apresta
A recente christã. Singelas roupas
Traja da ingenua cor que a natureza
Pintou nas plumas que primeiro brota
O seu patrio guará. Vinculo frouxo
Mal lhe segura a luzidia trança,
Como ao desdem lançada
Sôbre a espadua gentil. Joia nenhuma,
Mais que seus olhos meigos, e essa doce
Modestia natural, encanto, enlevo,
Casta flôr que aborrece os mimos do horto,
E ama livre nascer no campo, á larga,
Rustica, mas formosa. Não lhe ensombram
As tristezas da vespera o semblante,
Nem da secreta lagrima na face
Ficou vestigio.--Descuidosa e alegre,
Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,
E repete baixinho um nome... Oh! se elle
Espreital-a pudesse ali risonha,
A sós comsigo, entre o seu Christo e as flôres
Colhidas ao tombar da extincta noite,
E vecejantes inda!
III
De repente,
Aos ouvidos da moça enamorada
Chega um surdo rumor de soltas vozes,
Que ora crescendo vae, ora se apaga,
Extranho, desusado. Eram... São elles,
Os francezes, que vem de longes praias
A cobiçar a perola mimosa,
Nictheroy, na alva-azul concha nascida
De suas aguas recatadas. Rege
O atrevido Duclerc a flôr dos nobres,
Cuja tez branca requeimára o fogo
Que o vivo sol dos tropicos dardeja,
E a lufada dos ventos do oceano.
Cobiçam-te elles, minha terra amada,
Como quando nas faixas sempre-verdes
Eras envolta; e rude, inda que bello,
O aspecto havias que poliu mais tarde
A clara mão do tempo. Inda repetem
Os ecos do reconcavo os suspiros
Dos que vieram a buscar a morte,
E a receberam dos varões possantes
Companheiros de Estacio. A todos elles,
Prole de Luso ou geração da Gallia,
Captivara-os a nayade escondida,
E o sol os viu travados nessa longa
E sangrenta porfia, cujo premio
Era teu verde, candido regaço.
Triunphára o trabuco lusitano
Naquele exticnto seculo. Vencido,
O pavilhão francez volvera á patria,
Pela agua arrastando o longo crepe
De suas tristes, mortas esperanças.
Que vento novo o desfraldou nos ares?
IV
Angela ouvira as vozes da cidade,
As vozes do furor. Já receiosa,
Tremula, foge á alcova e se encaminha
Á camera paterna. Ia transpondo
A franqueada porta... e pára. O peito
Rompe-lh'o quasi o coração,--tamanho
É o palpitar, um palpitar de gosto,
De sorpresa e de susto. Aquelles olhos,
Aquella graça mascula do gesto,
Graça e olhos são delle, o amado noivo,
Que entre os mais homens elegeu sua alma
Para o vínculo eterno... Sim, que a morte
Póde arrancar ao seio humano o alento
Ultimo e derradeiro; os que deveras
Unidos foram, volverão unidos
A mergulhar na eternidade. Estava
Junto do velho pae o gentil moço,
Elle todo agitado, o ancião sombrio,
Calados ambos. A attitude de ambos,
O mysterioso, gelido silencio,
Mais que tudo, a presença nunca usada
Daquelle homem ali, que mal a espreita
De longe e a furto, nos instantes breves
Em que lhe é dado vel-a, tudo á moça
O animo abala e o coração enfia.
V