Livros compra, um philosopho procura;

Revolve a creação, prescruta a vida;

Vê se espancas a longa noite escura

Em que a esteril razão andou mettida;

Talvez aches a palma da ventura

No campo das sciencias escondida.

Que a tua mente as illusões esqueça:

Se o coração morreu, vive a cabeça!

LXXVI

Ora, por não brigar co'os meus leitores,

Dos quaes, conforme a curta ou longa vista,

Uns pertencem aos grupos novadores,

Da fria communhão materialista;

Outros, seguindo exemplos dos melhores,

Defendem a theoria idealista;

Outros, emfim, fugindo armas extremas,

Vão curando por ambos os systemas.

LXXVII

Direi que o nosso Heitor, após o estudo

Da natureza e suas harmonias,

(Oppondo a consciencia um forte escudo

Contra divagações e fantasias);

Depois de ter aprofundado tudo,

Planta, homem, estrellas, noites, dias,

Achou esta lição inesperada:

Veiu a saber que não sabia nada.

LXXVIII

«Nada! exclama um philosopho amarello

Pelas longas vigilias, afastando

Um livro que ha de ver um dia ao prelo

E em cujas folhas ia trabalhando.

Pois eu, doutor de borla e de capello,

Eu que passo os meus dias estudando,

Hei de ler o que escreve penna ousada,

Que a sciencia da vida acaba em nada?»

LXXIX

Aqui convinha intercalar com geito,

Sem pretenção, nem pompa nem barulho,

Uma arrancada apostrophe do peito

Contra as vãs pretenções do nosso orgulho;

Conviria mostrar em todo o effeito

Essa que é dos espiritos entulho,

Sciencia vã, de magnas leis tão rica,

Que ignora tudo, e tudo ao mundo explica.

LXXX

Mas, urgindo acabar este romance,

Deixo em paz o philosopho, e procuro

Dizer do vate o doloroso trance

Quando se achou mais pecco e mais escuro.

Valêra bem n'aquelle triste lance

Um sorriso do céu placido e puro,

Raio do sol eterno da verdade,

Que a vida aquece e alenta a humanidade.

LXXXI

Que! nem ao menos na sciencia havia

Fonte que a eterna sêde lhe matasse?

Nem no amor, nem no seio da poesia

Podia nunca repousar a face;

Atrás d'esse fantasma correria

Sem que jámais as fórmas lhe palpasse?

Seria acaso a sua ingrata sorte

A ventura encontrar nas mãos da morte?

LXXXII

A morte! Heitor pensára alguns momentos

N'essa sombria porta aberta á vida;

Pallido archanjo dos finaes alentos

De alma que o céu deixou desilludida;

Mão que, fechando os olhos somnolentos,

Põe o termo fatal á humana lida;

Templo de gloria ou região do medo,

Morte, quem te arrancára o teu segredo?

LXXXIII

Vasio, inutil, ermo de esperanças

Heitor buscava a noiva ignota e fria,

Que o envolvesse então nas longas tranças

E o conduzisse á camara sombria,

Quando, em meio de pallidas lembranças,

Surgiu-lhe a idéa de um remoto dia,

Em que cingindo a candida capella

Estava a pertencer-lhe uma donzella.

LXXXIV

Elvira! o casto amor! a esposa amante!

Rosa de uma estação, deixada ao vento!

Riso dos céus! estrella rutilante

Esquecida no azul do firmamento!

Ideal, meteoro de um instante!

Gloria da vida, luz do pensamento!

A gentil, a formosa realidade!

Unica dita e unica verdade!

LXXXV

Ah! porque não ficou calmo e tranquillo

Da ingenua moça nos divinos braços?

Porque fugira ao casto e alegre asylo?

Porque rompêra os mal formados laços?

Quem pudera jámais restituil-o

Aos estreitos, fortissimos abraços

Com que Elvira apertava enternecida

Esse que lhe era o amor, a alma e a vida?

LXXXVI

Será tempo? Quem sabe? Heitor hesita;

Tardio pejo lhe enrubece a face;

Punge o remorso; o coração palpita

Como se vida nova o reanimasse;

Tenue fogo, entre a cinza, arde e se agita...

Ah! se o passado alli resuscitasse

Reviverião illusões viçosas,

E a gasta vida rebentara em rosas!

LXXXVII

Resolve Heitor voltar ao valle amigo,

Onde ficára a noiva abandonada.

Transpõe o lar, affronta-lhe o perigo,

E chega emfim á terra desejada.

Sobe o monte, contempla o cedro antigo,

Sente abrir-se-lhe n'alma a flôr murchada

Das illusões que um dia concebêra;

Rosa extincta da sua primavera!

LXXXVIII

Era a hora em que os serros do oriente

Formar parecem luminosas urnas;

E abre o sol a pupilla resplendente

Que ás folhas sorve as lagrimas nocturnas;

Frouxa briza amorosa e diligente

Vai acordando as sombras taciturnas;

Surge nos braços d'essa aurora estiva

A alegre natureza rediviva.

LXXXIX

Campa era o mar; o valle estreito berço;

De um lado a morte, do outro lado a vida,

Canto do céu, resumo do universo

Ninho para aquecer a ave abatida.

Inda nas sombras todo o valle immerso,

Não acordára á costumada lida;

Repousava no placido abandono

Da paz tranquilla e do tranquillo somno.

XC

Alto já ia o sol, quando descera

Heitor a opposta face da montanha;

Nada do que deixou desparecêra;

O mesmo rio as mesmas hervas banha.

A casa, como então, garrida e austera,

Do sol nascente a viva luz apanha;

Iguaes flôres, nas plantas renascidas...

Tudo alli falla de perpetuas vidas!

XCI

Desce o poeta cauteloso e lento.

Olha de longe; um vulto ao sol erguia

A veneranda fronte, monumento

De grave e celestial melancolia.

Como sulco de um fundo pensamento

Larga ruga na testa abrir se via,

Era a ruina talvez de uma esperança...

Nos braços tinha uma gentil criança.

XCII

Ria a criança; o velho contemplava

Aquella flôr que ás auras matutinas

O perfumoso calix desbrochava

E entrava a abrir as petalas divinas.

Triste sorriso o rosto lhe animava,

Como um raio de lua entre ruinas.

Alegria infantil, tristeza austera,

O inverno torvo, a alegre primavera!

XCIII

Desce o poeta, desce, e preso, e fito

Nos bellos olhos do gentil infante,

Treme, comprime o peito... e após um grito

Corre alegre, exaltado e delirante,

Ah! se jámais as vozes do infinito

Podem sahir de um coração amante,

Teve-as aquelle... Lagrimas sentidas

Lhe inundárão as faces resequidas!

XCIV

«Meu filho!» exclama, e subito parando

Ante o grupo ajoelha o libertino;

Geme, soluça, em lagrimas beijando

As mãos do velho e as tranças do menino.

Ergue-se Antero, e frio e venerando,

Olhos no céu, exclama: «Que destino!

Murchar-lhe, viva, a rosa da ventura;

Morta, insultar-lhe a paz da sepultura!»

XCV

«Morta!--Sim!--Ah! senhor! se arrependido

Posso alcançar perdão, se com meus prantos,

Posso apiedar-lhe o coração ferido

Por tanta mágoa e longos desencantos;

Se este infante, entre lagrimas nascido,

Póde influir-me os seus affectos santos...

É meu filho, não é? perdão lhe imploro!

Veja, senhor! eu soffro, eu creio, eu choro!»

XCVI

Olha-o com frio orgulho o velho honrado;

Depois, fugindo aquella scena estranha,

Entra em casa. O poeta, acabrunhado,

Sobe outra vez a encosta da montanha;

Ao cimo chega, e desce o opposto lado

Que a vaga azul entre soluços banha.

Como fria ironia a tantas mágoas,

Batia o sol de chapa sobre as aguas.

XCVII

Pouco tempo depois ouviu-se um grito,

Som de um corpo nas aguas resvalado;

Á flôr das vagas veio um corpo afflicto...

Depois... o sol tranquillo e o mar calado.

Depois... Aqui termina o manuscripto,

Que ora em lettra de fôrma é publicado.

Nestas estrophes pallidas e mausas,

Para te divertir de outras lembranças.

AMERICANAS

(1875)

POTYRA[6]

Os Tamoyos, entre outras presas que fizeram,

levaram esta india, a qual pretendeu o capitão

da empreza violar: resistiu valorosamente dizendo

em lingua brasilica: «Eu sou christã e casada;

não heide fazer traição a Deus e a meu marido;

bom podes matar-me e fazer do mim o que quizeres.»

Deu-se por a affrontado o barbaro, e em vingança

lhe acabou a vida com grande crueldade.

VASC. _Chr. da Comp. de Jesus_, liv 3°.

I

Moça christã das solidões antigas,

Em que aurea folha reviveu teu nome?

Nem o eco das mattas seculares,

Nem a voz das sonoras cachoeiras,

O transmitiu aos seculos futuros.

Assim da tarde estiva ás auras frouxas

Tenue fumo do colmo no ar se perde;

Nem de outra sorte em moribundos labios

A humana voz expira. O horror e o sangue

Da miseranda scena em que, de envolta

Co'os longos, magoadissimos suspiros,

Christã Lucrecia, abriu tua alma o voo

Para subir ás regiões celestes,

Mal deixada memoria aos homens lembra.

Isso apenas; não mais; teu nome obscuro,

Nem tua campa o brazileiro os sabe.

II

Ja da férvida luta os ais e os gritos

Extinctos eram. Nos baixeis ligeiros

Os tamoyos incolumes embarcam;

Ferem co'os remos as serenas ondas

Até surgirem na remota aldêa.

Atrás ficava, luctuosa e triste,

A nascente cidade brazileira,[7]

Do inopinado assalto espavorida,

Ao céu mandando em côro inuteis vozes.

Vinha já perto rareando a noite,

Alva aurora, que á vida accorda as selvas,

Quando a aldêa surgiu aos olhos torvos

Da expedição nocturna. Á praia saltam

Os vencedores em tropel: transportam

Ás cabanas despojos e vencidos,

E, da vigilia fatigados, buscam

Na curva, leve rede amigo somno,

Excepto o chefe. Oh! esse não dormira

Longas noites, se a troco da victoria

Precisas fossem. Traz comsigo o premio,

O desejado premio. Desmaiada

Conduz nos braços tremulos a moça

Que renegou Tupan, e as rudes crenças[8]

Lavou nas aguas do baptismo santo.

Na rode ornada de amarellas pennas

Brandamente a depõe. Leve tecido

Da captiva gentil as fórmas cobre;

Veste-as de mais a sombra do crepusculo,

Sombra que a tibia luz da alva nascente

De todo não rompeu. Inquieto sangue

Nas veias ferve do indio. Os olhos luzem

De concentrada raiva triumphante.

Amor talvez lhes lança um leve toque

De ternura, ou já soffrego desejo;

Amor, como elle, asperrimo e selvagem,

Que outro não sente o heroe.

III

Heroe lhe chamam

Quantos o hão visto no fervor da guerra

Medo e morte espalhar entre os contrarios

E avantajar-se nos certeiras golpes

Aos mais fortes da tribu. O arco e a flecha

Desde a infancia os meneia ousado o affouto;

Cedo apprendeu nas solitarias brenhas

A pleitear ás feras o caminho.

A força oppõe á força, a astucia á astucia,

Qual se da onça e da serpente houvera

Colhido as armas. Traz ao collo os dentes

Dos contrarios vencidos. Nem dos annos

O numera supera o das victorias;

Tem no espaçoso rosto a flôr da vida,

A juventude, e goza entre os mais bellos

De real primazia. A cinta e a fronte

Azues, vermelhas plumas alardeam,

Ingenuas galas do gentio inculto.

IV

Da captiva gentil cerrados olhos

Não se entreabrem á luz. Morta parece.

Uma só contracção lhe não perturba

A paz serena do mimoso rosto.

Junto della, cruzados sobre o peito

Os braços, Anagê contempla e espera;

Soffrego espera, em quanto ideias negras

Estão a revoar-lhe em torno e a encher-lhe

A mente de projectos tenebrosos.

Tal no cimo do velho Corcovado

Proxima tempestade engloba as nuvens.

Subito ao seio turgido e macio

Anciosas mãos estende; inda palpita

O coração, com desusada força,

Como se a vida toda alli buscasse

Refugio certo e ultimo. Impetuoso

O vestido cristão lhe despedaça,

E á luz já viva da manhã recente

Contempla as nuas fórmas. Era acaso

A syncope chegada ao termo proprio,

Ou, no pejo offendida, ás mãos extranhas

A desmaiada moça despertára.

Potyra accorda, os olhos lança em torno,

Fita, vê, comprehende, e inquieta busca

Fugir do vencedor ás mãos e ao crime...

Misera! opõe-se-lhe o irritado gesto

Do asperrimo guerreiro; um ai lhe sobe

Angustioso e triste aos labios tremulos,

Sobe, murmura e suffocado expira.

Na rede envolve o corpo, e, desviando

Do terrivel tamoyo os lindos olhos,

Entrecortada prece aos céus envia,

E as faces banha de serenas lagrimas.

V

Longo tempo correra. Amplo silencio

Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte

Pouco a pouco despira o torvo aspecto.

Ao trabalhado espirito, revolto

De mil sinistros pensamentos, volve

Benigna calma. Tal de um rio engrossa

O volume extensissimo das aguas

Que vão enchendo de pavor os ecos,

Vencendo no arruido o vento e o raio,

E pouco a pouco atenuando as vozes,

Adelgaçando as ondas, tornam mansas

Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina,

Para tomar nos braços a formosa

Por cujo amor incendiara a aldêa

Daquellas gentes pallidas de Europa.

Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto,

O rosto inda de lagrimas molhado,

Do coração estas palavras solta:

«--Lá entre os meus, suave e amiga morte,

Ah! porque me não deste? Houvera ao menos

Quem escutasse de meus labios frios

A prece derradeira; e a santa benção

Levaria minha alma aos pés do Eterno...

Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a;

Um só allivio imploro. Não receies

Embeber no meu sangue a ervada setta;

Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa

Ter em sagrado leito o ultimo somno!»

Disse, e fitando no indio avidos olhos,

Esperou. Anagê sacode a fronte,

Como se lhe pesara ideia triste;

Crava os olhos no chão; lentas lhe saem

Estas vozes do peito.

«Oh! nunca os padres

Pisado houvessem estas plagas virgens!

Nunca de um deus estranho as leis ignotas

Viessem perturbar as tribos, como

Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto

Os guerreiros pelejam: matam, morrem.

Ante o fulgor das armas inimigas

Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa

Valor nativo e raro em peito livre.

Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas

Nestas mattas vastissimas. De sangue

Extranhos rios hão de, ao mar correndo,

Tristes novas levar á patria delles,

Primeiro que o tamoyo a frente incline

Aos inimigos peitos. Outra força,

Outra e maior nos move a guerra crua;

São elles, são os padres. Esses mostram

Cheia de riso a boca e o mel nas vozes,

Sereno o rosto e as brancas mãos inermes;

Ordens não trazem de cacique alheio,

Tudo nos levam, tudo. Uma por uma

As filhas de Tupan correm trás elles,

Com ellas os guerreiros, e com todos

A nossa antiga fé. Vem perto o dia

Em que, na imensidão destes desertos,

Ha de ao frio luar das longas noites

O pagé suspirar sozinho e triste

Sem povo nem Tupan!»

VI

Silenciosas

Lagrimas lhe espremeu dos olhos negros

Esta lembrança de futuros males.

«--Escuta!» diz Potyra. O indio estende

Imperioso as mãos e assim prossegue:

«--Tambem com elles foste, e foi comtigo

Da minha vida a flôr! Teu pai mandara,

E com ele mandou Tupan que eu fosse

Teu esposo; vedou-m'o a voz dos padres,

Que me perdeu, levando-te consigo.

Não morri; vivi só para esta affronta;

Vivi para esta insolita tristeza

De maldizer teu nome e as graças tuas,

Chorar-te a vida e desejar-te a morte.

Ai! nos rudes combates em que a tribu

Rega de sangue o chão da virgem terra

Ou tinge a flôr do mar, nunca a meu lado

Teu nobre vulto esteve. A aldêa toda,

Mais que o teu coração, ficou deserta.

Duas vezes, mimosas rebentaram

Do lacrimoso cajueiro as flôres,

Desde o dia funesto em que deixaste

A cabana paterna. O extremo lumo

Expirou de teu pai nos olhos tristes;

Piedosa chamma consumiu seus restos,

E a aldêa toda o lastimou com prantos.

Não de todo se foi da nossa vida;

Parte ficou para sentir teus males.

Antes que o ultimo sol á melindrosa

Flôr do maracujá cerrasse as folhas

Um sonho tive. Merencorio vulto,

Triste como uma fronte de vencido,

Cor da lua os cabellos venerandos,

O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse),

«Corre á vizinha habitação dos brancos,

«Vai, arranca Potyra á lei funesta

«Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena;

«Nos braços traze a fugitiva corça;

«Vincula o teu destino ao dela; é tua.»

«--Impossivel! Que vale um vago sonho?

Sou esposa e christã. Impio, respeita

O amor que Deus protege e sanctifica:

Mata-me; a minha vida te pertence:

Ou, se te pesa derramar o sangue

Daquella a quem amaste, e por quem foste

Lançar entre os christãos a dor e o susto,

Faze-me escrava; servirei contente

Emquanto a vida allumiar meus olhos.

Toma, entrego-te o sangue e a liberdade

Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!»

Calou-se, e reclinada sobre a rede,

Potyra murmurava ignota prece,

Olhos fitos no proximo arvoredo,

Olhos não ermos de profunda magua.

VII

Ó Christo! em que alma penetrou teu nome

Que lhe não désse o balsamo da vida?

Pelo vento dos seculos levado,

Vidente e cego, o maximo dos seres,

Que fora do homem nesta escassa terra,

Se ao mysterio da vida lhe não désses,

Ó Christo! a eterna chave da esperança

Philosophia stoica, ardua virtude,

Creação de homem, tudo passa e expira.

Tu só, filha de Deus, palavra amiga,

Tu, suavissima voz da eternidade,

Tu perduras, tu vales, tu confortas.

Neste sonho iriado de outros sonhos,

Varios como as feições da natureza,

Nesta confusa agitação da vida,

Que alma transpõe a derradeira edade

Farta de algumas passageiras glorias?

Torvo é o ar do sepulchro; alli não viçam

Essas cansadas rosas da existencia

Que ás vezes tantas lagrimas nos custam,

E tantas mais antes do occaso expiram.

Flôr do Evangelho, nuncia de alvos dias,

Esperança christã, não te ha murchado

O vento arido e secco; és tu viçosa

Quando as da terra languidas inclinam

O seio, e a vida lentamente exhalam.

Esta a consolação ultima e doce

Da esposa indiana foi. Captiva ou morta,

Antevia a celeste recompensa

Que aos humildes reserva a mão do Eterno.

Naquelle rude coração das brenhas

A semente evangelica brotara.

VIII

Das duas condições deu-lhe o guerreiro

A peor,--fel-a escrava; e eil-a apparece

Da sua aldea aos olhos espantados

Qual fôra em dias de melhor ventura.

Despida vem das roupas que lhe ha posto

Sobre as polidas fórmas uso extranho,

Não sabido jamais daquelles povos

Que a natureza ingenua doutrinara.

Vence na gentileza ás mais da tribu,

E tem de sobra um sentimento novo,

Pudor de esposa e de christã,--realce

Que ao indio accende a natural volupia.

Simulada alegria lhe descerra

Os labios; riso á flôr, escasso e dubio,

Que mal lhe encobre as vergonhosas maguas.

Á voz do seu senhor accorre humilde;

Não a assusta o labor; nem dos perigos

Conhece os medos. Nas ruidosas festas,

Quando ferve o canim, e o ar atrôa[9]

Pocema de alegria ou de combate,

Como que se lhe fecha a flôr do rosto.

Ja lhe descae então no seio oppresso

A graciosa fronte; os olhos fecha,

E ao céu voltando o pensamento puro,

Menos por si, que pelos outros pede.

Nem só o ardor da fé lhe abraza o peito;

Lacera-lh'o tambem agra saudade;

Chora a separação do amado esposo,

Que, ou cedo a esquece, ou solitario geme.

Se, alguma vez, fugindo a extranhos olhos,

Não já crueis, mas cubiçosos della,

Entra desatinada o bosque antigo,

E a dor expande em lobregos soluços,

Co'o doce nome accorda ao longe os écos,

Farta de amor e prodiga de vida,

Ouve-as a selva, e não lhe entende as maguas.

Outras vezes pisando a ruiva areia

Das praias, ou galgando a penedia

Cujos pés orla o mar de nivea espuma,

As ondas murmurantes interroga;

Conta ao vento da noite as dores suas;

Mas... fieis ao destino e á lei que as rege,

As preguiçosas ondas vão caminho,

Crespas do vento que sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da manhã, partem ás vezes,

Com seus arcos, os destros caçadores,

E alguns da rija estaca desatando

Os nós de embira ás rapidas igaras,

A pesca vão pelas ribeiras proximas,

Das esposas, das mães que os lares velam,

Grata alegria os corações innunda,

Menos o della, que suspira e geme,

E não aguarda doce esposo ou filho.

Triste os vê na partida e no regresso,

E nessa melancholica postura,

Simelha a acacia langue e esmorecida,

Que já de orvalho ou sol não pede os beijos.

As outras...--Raro em labios de felizes

Alheias maguas travam. Não se pejam

De seus olhos azuis e alegres pennas

Os sahis sobre as arvores pousados,

Se ao perto voa na campina verde

De anuns luctuoso bando; nem os trillos

Das andorinhas interrompe a nota

Que a jurity suspira.--As outras folgam

Pelo arraial dispersas; vão-se á terra

Arrancar as raizes nutritivas,

E fazem os preparos do banquete

A que hão de vir mais tarde os destemidos

Senhores do arco, alegres vencedores

De quanto vive na agua e na floresta.

Da captiva nenhuma inquire as maguas.

Comtudo, algumas vezes, curiosas

Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:

--«Pois que á taba voltaste, em que teus olhos

Primeiro viram luz, que magua funda

Lhes distilla tão longo e amargo pranto,

Amargo mais do que esse que não busca

Recatado silencio?»--E ás doces vozes

A christã desterrada assim responde:

--«Potyra é como aquella flôr que chora

Lagrimas de alvo leite, se do galho

Mão cruel a cortou. Oh! não permitta

O céu que ímpia fortuna vos separe

Daquelle que escolherdes. Dor é essa

Maior que um pobre coração de esposa.

Esperanças... Deixei-as nessas aguas

Que me trouxeram, complices do crime,

Á taba de Tupan, não allumiada

Da palavra celeste. Algumas vezes,

Raras, alveja em minha noite escura

Não sei que tibia aurora, e penso: Acaso

O sol que vem me guarda um raio amigo,

Que hade accender nestes cansados olhos

Ventura que já foi. As asas colhe

Guanumby, e o aguçado bico embebe

No tronco, onde repousa adormecido

Até que volte uma estação de flôres.[10]

Ventura imita o guanumby dos campos:

Accordará co'as flôres de outros dias.

Doce illusão que rapido se escoa,

Como o pingo de orvalho mal fechado

N'uma folha que o vento agita e entorna.»

E as virgens dizem, apiedando o gesto:

--«Potyra é como aquella flôr que chora

«Lagrimas de alvo leite, se do galho

«Mão cruel a cortou!»

X

Era chegado

O fatal prazo, o desenlace triste.

Tudo morre,--a tristeza como o gozo;

Rosas de amor ou lyrios de saudade,

Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo.

Costeando as longas praias, ou transpondo

Extensos valles e montanhas, correm

Mensageiros que ás tabas mais vizinhas

Vão convidar á festa as gentes todas.

Era a festa da morte. Indio guerreiro,

Trez luas ha captivo, o instante aguarda

Em que ás mãos de inimigos vencedores,

Cáia expirante, e os vinculos rompendo

Da vida, a alma remonte além dos Andes.

Corre de boca em boca e de eco em eco

A alegre nova. Vem descendo os montes,

Ou abicando ás povoadas praias

Gente da raça illustre. A onda immensa

Pelo arraial se estende pressurosa.

De quantas côres natureza fertil

Tinge as proprias feições, copiam elles

Engraçadas, vistosas louçanias.

Vários na edade são, varios no aspecto,

Todos iguais e irmãos no herdado brio.

Dado o amplexo de amigo, acompanhado

De suspiros e pesames sinceros

Pelas fadigas da viagem longa,

Rompem ruidosas danças. Ao tamoyo

Deu o Ibake os segredos da poesia;

Cantos festivos, moduladas vozes,

Enchem os ares, celebrando a festa

Do sacrificio proximo. Ah! não cubra

Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos

Destes polidos tempos! Rudes eram

Aquelles homens de asperos costumes,

Que ante o sangue de irmãos folgavam livres,

E nós, soberbos filhos de outra edade,

Que a voz fallamos da razão severa

E na luz nos banhamos do Calvario,

Que somos nós mais que elles? Raça triste

De Cains, raça eterna...

XI

Poesias Completas · 第 4 / 10 段