É lindo!
LYSIAS.
Queres tu, outras estrophes mais?
Dar-t'as-hei quais as teve a celebrada Lais.
Casa, rico jardim, servas de toda a parte;
E estatuas e paineis, e quantas obras d'arte
Podem servir de ornato ao templo da belleza,
Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza
Tu ha de faltar, mimosa, e só quero um penhor.
Quero... quero-te a ti.
MYRTO.
Pois que! já quer a flôr,
Quem desdenhando a flôr, só lhe pede o perfume?
LYSIAS.
Esqueceste o perdão?
MYRTO.
Ficou-me este azedume.
LYSIAS.
Venus póde apagal-o.
MYRTO.
Eu sei, creio e não creio.
LYSIAS.
Hesitar é ceder: agrada-me o receio.
Em assumpto de amor, vontade que fluctua
Está prestes a entregar-se. Entregas-te?
MYRTO.
Sou tua!
SCENA VIII
LYSIAS, MYRTO, CLEON.
CLEON.
Demorei-me demais?
LYSIAS.
Apenas o bastante
Para que fosse ouvido um coração amante.
A Lesbiana é minha.
CLEON.
És d'elle, Myrto!
MYRTO.
Sim;
Eu ainda hesitava; ele fallou por mim.
CLEON.
Quantos amores tens, filha do mal?
LYSIAS.
Presinto.
Uma lamentação inutil. «A Corintho
Não vai quem quer,» lá diz aquelle velho adagio.
Navegavas sem leme; era certo o naufragio.
Não me viste sulcar as mesmas aguas?
CLEON.
Vi,
Mas contava com ella, e confiava em ti.
Mais duas illusões! Que importa? Inda são poucas;
Desfação-se uma a uma estas chimeras loucas.
Ó arvore bemdita, ó minha juventude,
Vão-te as flôres caindo ao vento aspero e rude!
Não vos maldigo, não; eu não maldigo o mar
Quando a nave sossobra; o erro é confiar.
Adeus, formosa Myrto; adeus, Lysias; não quero
Perturbar vosso amor, eu que já nada espero;
Eu que vou arrancar as profundas raizes
Desta paixão funesta; adeus, sede felizes!
LYSIAS.
Adeus! Saudemos nós a Vénus e a Lyeo.
AMBOS.
_Io Pœan!_ ó Baccho! Himenêo! Himenêo!
PALLIDA ELVIRA
(A FRANCISCO PAZ)
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne
les reconnait pas et pleure sa patrie.
Ainsi l'homme dans le bonheur possédé
ne reconnait pas son rêve et soupire.
DANIEL STERN.
I
Quando, leitora amiga, no occidente
Surge a tarde esmaiada e pensativa;
E entre a verde folhagem rescendente
Languida geme viração lasciva;
E já das tenues sombras do oriente
Vem apontando a noite, e a _casta diva_
Subindo lentamente pelo espaço,
Do céu, da terra observa o estreito abraço;
II
N'essa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil belleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar ás lucidas espheras?
Não sentes n'essa mágoa e n'esse enleio
Vir morrer-te uma lagrima no seio?
III
Sêntel-o? Então entenderás Elvira,
Que assentada á janella, erguendo o rosto,
O vôo solta á alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então porque suspira,
Victima já de um intimo desgosto,
A meiga virgem, pallida e calada,
Sonhadora, anciosa e namorada.
IV
Mansão de riso e paz, mansão de amores
Era o valle. Espalhava a natureza,
Com dadivosa mão, palmas e flôres
De agreste aroma e virginal belleza;
Bosques sombrios de immortaes verdores,
Asylo proprio á inspiração accesa,
Valle de amor, aberto ás almas ternas
N'este valle de lagrimas eternas.
V
A casa, junto á encosta de um outeiro,
Alva pomba entre folhas parecia:
Quando vinha a manhã, o olhar primeiro
Ia beijar-lhe a verde gelosia:
Mais tarde a fresca sombra de um coqueiro
Do sol quente a janella protegia;
Pouco distante, abrindo o solo adusto,
Um fio d'agua murmurava a custo.
VI
Era uma joia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho crystallino
Pendia. Ao fundo, á sombra, se occultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bella,
De amor sonhava a pallida donzella.
VII
Não me censure o critico exigente
O ser pallida a moça; é meu costume
Obedecer á lei de toda a gente
Que uma obra compõe de algum volume.
Ora, no nosso caso, é lei vigente
Que um descorado rosto o amor resume.
Não tinha Miss Smolen outras côres;
Não n'as possue quem sonha com amores.
VIII
Sobre uma mesa havia um livro aberto;
Lamartine, o cantor aereo e vago,
Que enche de amor um coração deserto;
Tinha-o lido; era a pagina do _Lago._
Amava-o; tinha-o sempre alli bem perto,
Era-lhe o anjo bom, o deos, o orago;
Chorava aos cantos da divina lyra....
É que o grande poeta amava Elvira!
IX
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,
Com lagrimas de amor, os versos santos,
Aquella eterna e languida harmonia
Formada com suspiros e com prantos;
Quando escutava a musa da elegia
Cantar de Elvira os magicos encantos,
Entrava-lhe a voar a alma inquieta,
E com o amor sonhava de um poeta.
X
Ai, o amor de um poeta! amor subido!
Indelevel, purissimo, exaltado,
Amor eternamente convencido,
Que vai além de um tumulo fechado,
E que, através dos seculos ouvido,
O nome leva do objecto amado,
Que faz de Laura um culto, e tem por sorte
Negra fouce quebrar nas mãos da morte.
XI
Fosse eu moça e bonita... N'este lance
Se o meu leitor é já homem sisudo,
Fecha tranquillamente o meu romance,
Que não serve a recreio nem a estudo;
Não entendendo a força nem o alcance
De semelhante amor, condemna tudo;
Abre um volume serio, farto e enorme,
Algumas folhas lê, boceja... e dorme.
XII
Nada perdes, leitor, nem perdem nada
As esquecidas musas; pouco importa
Que tu, vulgar materia condemnada,
Aches que um tal amor é lettra morta.
Pódes, cedendo á opinião honrada,
Fechar á minha Elvira a esquiva porta.
Almas de prosa chã, quem vos daria
Conhecer todo o amor que ha na poesia?
XIII
Ora, o tio de Elvira, o velho Antero,
Erudito e philosopho profundo,
Que sabia de cór o velho Homero,
E compunha os annaes do Novo Mundo;
Que escrevêra uma vida de Severo,
Obra de grande tomo e de alto fundo;
Que resumia em si a Grecia e Lacio,
E n'um salão fallava como Horacio;
XIV
Disse uma noite á pallida sobrinha:
«Elvira, sonhas tanto! devaneias!
«Que andas a procurar, querida minha?
«Que ambições, que desejos ou que idéas
«Fazem gemer tua alma innocentinha?
«De que esperança vã, meu anjo, anceias?
«Teu coração de ardente amor suspira;
«Que tens?--Eu nada,» respondia Elvira.
XV
«Alguma cousa tens!» tornava o tio;
«Porque olhas tu as nuvens do poente,
«Vertendo ás vezes lagrimas a fio,
«Magoada expressão d'alma doente?
«Outras vezes, olhando a agua do rio,
«Deixas correr o espirito indolente,
«Como uma flôr que ao vento alli tombára,
«E a onda murmurando arrebatára.»
XVI
«--_Latet anguis ïn herba..._» Neste instante
Entrou a tempo o chá... perdão, leitores,
Eu bem sei que é preceito dominante
Não misturar comidas com amores;
Mas eu não vi, nem sei se algum amante
Vive de orvalho ou petalas de flôres;
Namorados estomagos consomem;
Comem Romeos, e Julietas comem.
XVII
Entrou a tempo o chá, e foi servil-o,
Sem responder, a moça interrogada,
C'um ar tão soberano e tão tranquillo
Que o velho emmudeceu. Ceia acabada,
Fez o escriptor o costumado chylo,
Mas um chylo de especie pouco usada,
Que consistia em ler um livro velho;
N'essa noite acertou ser o Evangelho.
XVIII
Abríra em S. Matheus, n'aquelle passo
Em que o filho de Deus diz que a açucena
Não labora nem fia, e o tempo escasso
Vive, co' o ar e o sol, sem dôr nem pena;
Leu e estendendo o já tremulo braço
A triste, á melancolica pequena,
Apontou-lhe a passagem da Escriptura
Onde lêra lição tão recta e pura.
XIX
«Vês? diz o velho, escusas de cansar-te;
«Deixa em paz teu espirito, criança:
«Se existe um coração que deva amar-te,
«Ha de vir; vive só d'essa esperança.
«As venturas do amor um deos reparte;
«Queres têl-as? põe n'elle a confiança.
«Não persigas com supplicas a sorte;
«Tudo se espera; até se espera a morte!
XX
«A doutrina da vida é esta: espera,
«Confia, e colherás a anciada palma;
«Oxalá que eu te apague essa chimera
«Lá diz o bom Demophilo que á alma;
«Como traz a andorinha a primavera,
«A palavra do sabio traz a calma,
«O sabio aqui sou eu. Ris-te, pequena?
«Pois melhor; quero ver-te uma açucena!»
XXI
Paliava aquelle velho como falla
Sobre côres um cego de nascença.
Pear a juventude! Condemnal-a
Ao somno da ambição vivaz e intensa!
Co' as leves azas da esperança ornal-a
E não querer que rompa a esphera immensa!
Não consentir que esta manhã de amores
Encha com frescas lagrimas as flôres
XXII
Mal o velho acabava e justamente
Na rija porta ouviu-se uma pancada.
Quem seria? Uma serva diligente,
Travando de uma luz, desceu a escada.
Pouco depois rangia brandamente
A chave, e a porta aberta dava entrada
A um rapaz embuçado que trazia
Uma carta, e ao doutor fallar pedia.
XXIII
Entrou na sala, e lento, e gracioso,
Descobriu-se e atirou a capa a um lado;
Era um rosto poetico e viçoso
Por soberbos cabellos coroado;
Grave sem gesto algum pretencioso,
Elegante sem ares de enfeitado;
Nos labios frescos um sorriso amigo,
Os olhos negros e o perfil antigo.
XXIV
Demais, era poeta. Era-o. Trazia
N'aquelle olhar não sei que luz extranha
Que indicava um alumno da poesia,
Um morador da classica montanha,
Um cidadão da terra da harmonia,
Da terra que eu chamei nossa Allemanha,
N'uns versos que hei de dar um dia a lume,
Ou n'alguma gazeta, ou n'um volume.
XXV
Um poeta! e de noite! e de capote!
Que é isso, amigo autor? Leitor amigo.
Imagina que estás n'um camarote
Vendo passar-se em scena um drama antigo,
Sem lança não conheço D. Quixote,
Sem espada é apocrypho um Rodrigo;
Heróe que ás regras classicas escapa,
Póde não ser heróe, mas traz a capa.
XXVI
Heitor (era o seu nome) ao velho entrega
Uma carta lacrada; vem do norte.
Escreve-lhe um philosopho collega
Já quasi a entrar no thalamo da morte.
Recommenda-lhe o filho, e lembra, e allega,
A provada amizade, o esteio forte,
Com que outr'ora, acudindo-lhe nos transes,
Salvou-lhe o nome de terriveis lances.
XXVII
Dizia a carta: «Crime ou virtude,
«É meu filho poeta; e corre fama
«Que já faz honra á nossa juventude
«Co' a viva inspiração de etherea chamma;
«Diz elle que, se o genio não o illude,
«Camões seria se encontrasse um Gama.
«Deos o fade; eu perdôo-lhe tal sestro;
«Guia-lhe os passos, cuida-lhe do estro.»
XXVIII
Lida a carta, o philosopho erudito
Abraça o moço e diz em tom pausado:
«Um sonhador do azul e do infinito!
«É hospede do céu, hospede amado.
«Um bom poeta é hoje quasi um mytho,
«Se o talento que tem é já provado,
«Conte co' o meu exemplo e o meu conselho;
«Boa lição é sempre a voz de um velho.»
XXIX
E trava-lhe da mão, e brandamente
Leva-o junto d'Elvira. A moça estava
Encostada á janella, e a esquiva mente
Pela extensão dos ares lhe vagava.
Voltou-se distrahida, e de repente
Mal nos olhos de Heitor o olhar fitava,
Sentiu... Inutil fora relatal-o;
Julgue-o quem não puder experimental-o.
XXX
Ó santa e pura luz do olhar primeiro!
Elo de amor que duas almas liga!
Raio de sol que rompe o nevoeiro
E casa a flôr á flôr! Palavra amiga
Que, trocada um momento passageiro,
Lembrar parece uma existencia antiga!
Lingua, filha do céu, doce eloquencia
Dos melhores momentos da existencia!
XXXI
Entra a leitora n'uma sala cheia;
Vai isenta, vai livre de cuidado:
Na cabeça gentil nenhuma idéa,
Nenhum amor no coração fechado.
Livre como a andorinha que volteia
E corre loucamente o ar azulado.
Venham dous olhos, dous, que a alma buscava...
Era senhora? ficará escrava!
XXXII
C'um só olhar escravos elle e ella
Já lhes pulsa mais forte o sangue e a vida;
Rapida corre aquella noite, aquella
Para as castas venturas escolhida;
Assoma já nos labios da donzella
Lampejo de alegria esvaecida.
Foi milagre de amor, prodigio santo.
Quem mais fizera? Quem fizera tanto?
XXXIII
Preparára-se ao moço um aposento.
Oh! reverso da antiga desventura!
Têl-o perto de si! viver do alento
De um poeta, alma languida, alma pura!
Dá-lhe, ó fonte do casto sentimento,
Aguas santas, baptismo de ventura!
Emquanto o velho, amigo de outra fonte,
Vai mergulhar-se em pleno Xenophonte.
XXXIV
Devo agora contar, dia por dia,
O romance dos dous? Inutil fôra;
A historia é sempre a mesma; não varia
A paixão de um rapaz e uma senhora.
Vivem ambos do olhar que se extasia
E conversa co'a alma sonhadora;
Na mesma luz de amor os dous se inflammam;
Ou, como diz Philinto: «Amados, amam.»
XXXV
Todavia a leitora curiosa
Talvez queira saber de um incidente;
A confissão dos dous;--scena espinhosa
Quando a paixão domina a alma que sente.
Em regra, confissão franca e verbosa
Revela um coração independente;
A paz interior tudo confia,
Mas o amor, esse hesita e balbucia.
XXXVI
O amor faz monosyllabos; não gasta
O tempo com analyses compridas;
Nem é proprio de boca amante e casta
Um chuveiro de phrases estendidas;
Um volver d'olhos languido nos basta
Por conhecer as chammas comprimidas;
Coração que discorre e faz estylo,
Tem as chaves por dentro e está tranquillo.
XXXVII
Deu-se o caso uma tarde em que chovia,
Os dous estavão na varanda aberta.
A chuva peneirava, e além cobria
Cinzento véu o occaso; a tarde incerta
Já nos braços a noite a recebia,
Como amorosa mãe que a filha aperta
Por enxugar-lhe os prantos magoados.
Eram ambos immoveis e calados.
XXXVIII
Juntos, ao parapeito da varanda,
Viam cahir da chuva as gottas finas,
Sentindo a viração fria, mas branda,
Que balançava as frouxas casuarinas.
Raras, ao longe, de uma e de, outra banda,
Pelas do céu tristissimas campinas,
Viam correr da tempestade as aves
Negras, serenas, lugubres e graves.
XXXIX
De quando em quando vinha uma rajada
Borrifar e agitar a Elvira as tranças,
Como se fôra a briza perfumada
Que á palmeira sacode as tenues franças.
A fronte gentilissima e engraçada
Sacudia co'a chuva as más lembranças;
E ao passo que chorava a tarde escura
Ria-se n'ella a aurora da ventura.
XL
«Que triste a tarde vai! que véu de morte
«Cobrir parece a terra! (o moço exclama),
«Reproducção fiel da minha sorte,
«Sombra e choro.--Porque? pergunta a dama;
«Diz que teve dos céus uma alma forte...
«--É forte o bronze e não resiste á chamma;
«Leu versos meus em que zombei do fado?
«lllusões de poeta mallogrado!»
XLI
«Somos todos assim. E nossa gloria
«Contra o destino oppôr alma de ferro;
«Desafiar o mal, eis nossa historia,
«E o tremendo duello é sempre um erro.
«Custa-nos caro uma fallaz victoria
«Que nem consola as mágoas do desterro,
«O desterro,--esta vida obscura e rude
«Que a dôr enfeita e as victimas illude.
XLII
«Contra esse mal tremendo que devora
«A seiva toda á nossa mocidade,
«Que remedio haveriamos, senhora,
«Senão versos de affronta e liberdade?
«No emtanto, bastaria acaso um'hora,
«Uma só, mas de amor, mas de piedade,
«Para trocar por seculos de vida
«Estes de dôr acerba e envilecida.»
XLIII
Al não disse, e, fitando olhos ardentes
Na moça, que de enleio enrubecia,
Com discursos mais fortes e eloquentes
Na exposição do caso proseguia;
A pouco e pouco as mãos intelligentes
Traváram-se; e não sei se conviria
Accrescentar que um osculo... Risquemos,
Não é bom mencionar estes extremos.
XLIV
Duas sombrias nuvens afastando,
Tenue raio de sol rompêra os ares,
E, no amoroso grupo desmaiando,
Testemunhou-lhe as nupcias singulares.
A nesga azul do occaso contemplando,
Sentirão ambos irem-lhe os pezares,
Como nocturnas aves agoureiras
Que á lua fogem medrosas e ligeiras.
XLV
Tinha mágoas o moço? A causa d'ellas?
Nenhuma causa; fantasia apenas;
O eterno devanear das almas bellas,
Quando as dominam fervidas camenas;
Uma ambição de conquistar estrellas,
Como se colhem lucidas phalenas;
Um desejo de entrar na eterna lida,
Um querer mais do que nos cede a vida.
XLVI
Com amores sonhava, ideal formado
De celestes e eternos esplendores,
A ternura de um anjo destinado
A encher-lhe a vida de perpetuas flôres.
Tinha-o emfim, qual fôra antes creado
Nos seus dias de mágoas e amargores;
Madrugavão-lhe n'alma a luz e o riso;
Estava á porta emfim do paraiso.
XLVII
N'essa noite, o poeta namorado
Não conseguiu dormir. A alma fugíra
Para ir velar o doce objecto amado,
Por quem, nas ancias da paixão, suspira;
E é provavel que, achando o exemplo dado,
Ao pé de Heitor viesse a alma de Elviva;
De maneira que os dous, de si ausentes,
Lá se achavão mais vivos e presentes.
XLVIII
Ao romper da manhã, co'o sol ardente,
Briza fresca, entre as folhas sussurrando,
O não-dormido vate acorda, e a mente
Lhe foi dos vagos sonhos arrancando.
Heitor contempla o valle resplendente,
A flôr abrindo, o passaro cantando;
E a terra que entre risos acordava,
Ao sol do estio as roupas enxugava.
XLIX
Tudo então lhe sorria. A natureza,
As musas, o futuro, o amor e a vida;
Quanto sonhára aquella mente accesa
Dera-lhe a sorte, emfim, compadecida.
Um paraiso, uma gentil belleza,
E a ternura castissima e vencida
De um coração creado para amores,
Que exhala affectos como aroma as flôres.
L
E ella? Se conheceste em tua vida,
Leitora, o mal do amor, delirio santo,
Dôr que eleva e conforta a alma abatida,
Embriaguez do céu, divino encanto,
Se a tua face ardente e enrubecida
Pallejou com suspiros e com prantos,
Se ardeste emfim, naquella intensa chamma,
Entenderás o amor de ingenua dama.
LI
Repara que eu não fallo desse enleio
De uma noite de baile ou de palestra;
Amor que mal agita a flôr do seio,
E ao chá termina e acaba com a orchestra;
Não me refiro ao simples galanteio
Em que cada menina é velha mestra,
Avesso ao sacrifício, á dor e ao choro;
Fallo do amor, não fallo do namoro.
LII
Eden de amor, ó solidão fechada,
Casto asylo a que o sol dos novos dias
Vai mandar, como a furto, a luz coada
Pelas frestas das verdes gelosias,
Guarda-os ambos; conserva-os recatada.
Almas feitas de amor e de harmonias,
Tecei, tecei as vividas capellas,
Deixai correr sem susto as horas bellas.
LIII
Cá fóra o mundo insipido e profano
Não dá, nem póde dar o enleio puro
Das almas novas, nem o doce engano
Com que se esquecem males do futuro.
Não busqueis penetrar n'este oceano
Em que se agita o temporal escuro.
Por fugir ao naufragio e ao soffrimento,
Tendes uma enseada,--o casamento.
LIV
Resumamos, leitora, a narrativa.
Tanta strophe a cantar ethereas chammas
Pede compensação, musa insensiva,
Que fatigais sem pena o ouvido ás damas.
Demais, é regra certa e positiva
Que muitas vezes as maiores famas
Perde-as uma ambição de tagarella;
Musa, aprende a lição; musa, cautela!
LV
Mezes depois da scena relatada
Nas strophes, a folhas,--o poeta
Ouviu do velho Antero uma estudada
Oração ciceronica e selecta;
A conclusão da arenga preparada
Era mais agradavel que discreta.
Dizia o velho erguendo olhos serenos:
«Pois que se adoram, casem-se, pequenos!»
LVI
Lagrima santa, lagrima de gosto
Vertem olhos de Elvira; e um riso aberto
Veio inundar-lhe de prazer o rosto
Como uma flôr que abrisse no deserto.
Se iam já longe as sombras do desgosto;
Inda até li era o futuro incerto;
Fez-lh'o certo o ancião; e a moça grata
Beija a mão que o futuro lhe resgata.
LVII
Correm-se banhos, tiram-se dispensas,
Vai-se buscar um padre ao povoado;
Prepara-se o enxoval e outras pertenças
Necessarias agora ao novo estado.
Notam-se até algumas differenças
No modo de viver do velho honrado,
Que sacrifica á noiva e aos deuses lares
Um estudo dos classicos jantares.
LVIII
«Onde vás tu?--Á serra!--Vou comtigo.
«--Não, não venhas, meu anjo, é longa a estrada.
«Se cansares?--Sou leve, meu amigo;
«Descerei nos teus hombros carregada.
«--Vou compôr encostado ao cedro antigo
«Canto de nupcias.--Seguirei calada;
«Junto de ti, ter-me-has mais em lembrança;
«Musa serei sem perturbar.--Criança!»
LIX
Brandamente repelle Heitor a Elvira;
A moça fica; o poeta lentamente
Sobe a montanha. A noiva repetíra
O primeiro pedido inutilmente.
Olha-o de longe, e timida suspira.
Vinha a tarde cahindo frouxamente,
Não triste, mas risonha e fresca e bella,
Como a vida da pallida donzella.
LX
Chegando, emfim, á c'rôa da collina,
Víram olhos de Heitor o mar ao largo,
E o sol, que despe a veste purpurina,
Para dormir no eterno leito amargo.
Surge das aguas pallida e divina,
Essa que tem por deleitoso encargo
Velar amantes, proteger amores,
Lua, musa dos candidos palores.
LXI
Respira Heitor; e livre. O casamento?
Foi sonho que passou, fugaz idéa
Que não pôde durar mais que um momento.
Outra ambição a alma lhe incendeia.
Dissipada a illusão, o pensamento
Novo quadro a seus olhos patenteia,
Não lhe basta aos desejos de sua alma
A enseada da vida estreita e calma.
LXII
Aspira ao largo; pulsam-lhe no peito
Uns impetos de vida; outro horizonte,
Tumidas vagas, temporal desfeito,
Quer com elles lutar fronte por fronte.
Deixa o tranquillo amor, casto e perfeito,
Pelos brodios de Venus de Amathonte;
A existencia entre flôres esquecida
Pelos rumores de mais ampla vida.
LXIII
Nas mãos da noite desmaiára a tarde;
Descem ao valle as sombras vergonhosas;
Noite que o céu, por mofa ou por alarde,
Torna propicia ás almas venturosas.
O derradeiro olhar frio e covarde
E umas não sei que strophes lamentosas
Solta o poeta, emquanto a triste Elvira,
Viuva antes de noiva, em vão suspira!
LXIV
Transpõe o mar Heitor, transpõe montanhas;
Tu, curiosidade, o ingrato levas
A ir ver o sol das regiões extranhas.
A ir ver o amor das peregrinas Evas.
Vai, em troco de palmas e façanhas,
Viver na morte, bracejar nas trevas;
Fazendo amor, que é livro aos homens dado,
Copioso almanach namorado.
LXV
Inscreve n'elle a moça de Sevilha,
Longas festas e noites hespanholas,
A indiscreta e diabolica mantilha
Que a fronte cinge a amantes e a carolas.
Quantos encontra corações perfilha,
Faz da bolsa e do amor largas esmolas:
Esquece o antigo amor e a antiga musa
Entre os beijos da lepida andaluza.
LXVI
Canta no seio turgido e macio
Da fogosa, indolente Italiana,
E dorme junto ao laranjal sombrio
Ao som de uma canção napolitana.
Dão-lhe para os serões do ardente estio,
Asti, os vinhos; mulheres, a Toscana.
Roma adora, embriaga-se em Veneza,
E ama a arte nos braços da belleza.
LXVII
Vê Londres, vê Paris, terra das ceias,
Feira do amor a toda a bolsa aberta;
No mesmo laço, as bellas como as feias,
Por capricho ou razão, iguaes aperta;
A edade não pergunta ás taças cheias,
Só pede o vinho que o prazer desperta;
Adora as outoniças, como as novas,
Torna-se heróe de rua e heróe de alcovas.
LXVIII
Versos quando os compõe, celebram antes
O alegre vicio que a virtude austera;
Canta os beijos e as noites delirantes,
O esteril gozo que a volupia gera;
Troca a illusão que o seduzia d'antes
Por maior e tristissima chimera;
Ave do céu, entre os osculos creada,
Espalha as plumas brancas pela estrada.
LXIX
Um dia, emfim, cansado e aborrecido,
Acorda Heitor; e olhando em roda e ao largo,
Vê um deserto, e do prazer perdido
Resta-lhe unicamente o gosto amargo;
Não achou o ideal appetecido
No longo e profundissimo lethargo:
A vida exhausta em feitos e esplendores,
Se alguma tinha, eram já murchas flôres.
LXX
Ora, uma noite, costeando o Rheno,
Ao luar melancolico,--buscava
Aquelle gozo simples, doce, ameno,
Que á vida toda outr'ora lhe bastava;
Voz remota, cortando o ar sereno,
Em derredor os échos acordava;
Voz aldeã que o largo espaço enchia,
E uma canção de Schiller repetia.
LXXI
«A gloria! diz Heitor, a gloria é vida!
Porque busquei nos gozos de outra sorte
Esta felicidade appetecida,
Esta resurreição que annulla a morte?
Ó illusão fantastica e perdida!
Ó mal gasto, ardentissimo transporte!
Musa, restaura as apagadas tintas!
Revivei, revivei, chammas extinctas!»
LXXII
A gloria? Tarde vens, pobre exilado!
A gloria pede as illusões viçosas,
Estro em flôr, coração electrisado,
Mãos que possam colher ethereas rosas;
Mas tu, filho do ocio e do peccado,
Tu que perdeste as forças portentosas
Na agitação que os animos abate,
Queres colher a palma do combate?
LXXIII
Chamas em vão as musas; deslembradas,
Á tua voz os seus ouvidos cerram;
E nas paginas virgens, preparadas,
Pobre poeta, em vão teus olhos erram;
Nega-se a inspiração; nas despregadas
Cordas da velha lyra, os sons que encerram
Inertes dormem; teus cansados dedos
Correm debalde; esquecem-lhe os segredos.
LXXIV
Ah! se a taça do amor e dos prazeres
Já não guarda licor que te embriague;
Se nem musas nem languidas mulheres
Têm coração que o teu desejo apague;
Busca a sciencia, estuda a lei dos seres,
Que a mão divina a tua dôr esmague;
Entra em ti, vê o que és, observa em roda,
Escuta e palpa a natureza toda.
LXXV