rebrilhavam estrellas, espelhando na superficie lisa do mar as suas
cabecinhas irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as arvores do
mattagal. Coaxavam sempre as rãs, emquanto os sapos cururús dialogavam
com enthusiasmo. E, ao longe, dominando esses mil arruidos da noite,
vibrava ainda o cantar dos gallos, com um não sei que de
profundamente triste, n'uma plangencia de alma condemnada.
Instantes depois, a canôa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sôpro
de brisa. A calmaria era completa. Elle, desde a tarde, esperava aquillo
mesmo.
Mas, apezar da edade, tinha ainda bons musculos o velho pescador. Remava
á direita, remava á esquerda e o seu barquinho a pouco e pouco se
afastava, impávido, cortando a vaga indolente.
Á pôpa, como de alcatéa, velava o farol, ia deixando pela esteira da
embarcação um rastro luminoso, que se prolongava desmesuradamente, em
direcção á terra.
Além d'este, nenhum outro signal de vida poderia enxergar-se mais em
toda aquella extensão de costa nem sobre a linha do horisonte, do lado
do mar alto. Quem se atreveria a ir pescar na madrugada do dia
festivo consagrado á padroeira de Belém?
D'isto mesmo deveria recordar-se o Deodato, quando se achava já a mais
de duas milhas de distancia, porque, fazendo meia volta ao corpo, olhou
para traz e teve no rosto renegrido uma suprema expressão de ironia
sorridente.
--Tolos!--rosnou, volvendo logo a remar com furia, cravando a vista nas
redes colhidas ao fundo da canôa.
*
Meia hora depois, algumas pequenas nuvens sombrias tinham-se erguido lá
muito ao longe, escalavam o ceu, vinham galgando distancias,
desdobravam-se assombrosamente. Fitou-as o pescador, desconfiado.
--Ué!--exclamou. Vento ou trovoada?
Apezar da incerteza, ergueu o mastro, preparou a diminuta vela de
muruxy. E estava contente, porque já não precisaria de empregar maior
esforço. O remo já começava a cansal-o, que diabo...
Mas convinha aproveitar o tempo. Levantou-se ainda, tomou uma das rêdes
e, com um gesto largo e facil, fel-a descrever um circulo por sobre a
cabeça, lançando-a depois á distancia que reputou conveniente.
Colhendo-a, sentiu-a leve sobremaneira e não tardou em verificar que a
estréa fôra de todo improductiva. Não viéra um só peixe!
Era estranho, porque aquelle sitio já tinha fama de rico em cardumes.
Longinqua fulguração de relampago fel-o erguer o olhar. As nuvens
tinham subido ainda mais, haviam-se estendido em quasi dois terços do
espaço, pareciam agora as pesadas colgaduras de uma camara ardente.
Segundo relampago, muito distante, scintilou então. E uma pequena aragem
soprou fresca do lado do poente.
Decididamente, ia cair a trovoada. Não podia Deodato perder um segundo:
içou a véla, manobrou no sentido de aproveitar o vento. E assim
afastou-se ainda mais de terra. Iria experimentar o mar a meia milha d'ali.
Quando, depois de lançar a rêde em outro sitio, se dispunha a puxal-a,
pareceu-lhe estar extremamente pesada. Um sorriso de alegria
entreabriu-lhe os grossos labios. E então? Elle bem sabia que aquillo
era infallivel!
Mas imaginem o seu assombro quando, depois de longos esforços,
conseguiu trazer á flôr da agua a rêde que julgava repleta e de repente
sentiu-a tornar-se completamente leve, encontrando-a logo de todo vasia,
sem uma unica pescada!
Deodato não era homem para impressionar-se, porém não deixou de achar
bastante extranho similhante facto.
N'esse momento, o espaço illuminou-se com um grande relampago, seguido
do estrugir medonho do trovão.
O vento augmentara, passava agora sibilando nas cordas do pequeno
mastro, enfunando a véla com raiva, arrastando a canôa n'uma furia,
n'uma vertigem, á luz dos relampagos successivos, no meio de coriscos
que esfusiavam caprichosos por todos os lados.
Comprehendeu o negro que a trovoada ia ter maiores proporções do que as
que lhe attribuira ao principio. Nada mais poderia fazer n'essa
noite. Aquillo era praga do Simplicio, pensava. Bem descontente,
resolveu regressar. Quiz passar o panno para bombordo, porém não teve a
precisa ligeireza e o vento, já de todo impetuoso, quasi invencivel,
arrancou-lhe das mãos o chicote da espia e n'um momento arrebatou a vela
em farrapos, n'um redemoinho sibilante pelo espaço.
Só lhe restava o alvitre da resignação. E elle, habituado ás
inclemencias, affeito a mil e uma tempestades, sentou-se sereno á pôpa,
depois de abaixar o mastro: resolvera esperar o desenlace da crise.
O que presenceou então foi horrivel. Choviam raios á direita, á
esquerda, por toda a parte. O ceu estava negro, agitado de ribombos
infernaes, a cada minuto illuminado tetricamente, deixando a
descoberto as grossas massas das nuvens fugidías.
E o preto, longe de assustar-se, ali estava na barca, de braços
cruzados, sorrindo com cynismo. O mar tinha um aspecto que se casava com
a attitude hostil do espaço. Por toda a parte erguiam-se compactas
collinas liquidas, escancaravam-se horriveis, hiantes valles
phosphorescentes. Não chovia ainda, mas o vento, que zunia aos ouvidos
do negro incredulo, cuspia sobre elle milhares de gottas salitrosas
tiradas ás ondas freneticas, trementes.
De subito, a amplidão toda se convulsionou, vibrou n'um estrepito
pavoroso, repercutindo um som innominado, jamais percebido pelo Deodato
em situações identicas. Avermelhado clarão illuminou tudo, revelou aos
olhos do negro toda a magestade d'aquella scena para a pintura da
qual, meus amigos, não tenho senão palavras inexpressivas e phrases sem
colorido.
Ficou estarrecido o pescador. Sentira que a fragil embarcação era com
vigor sacudida! Mas a força que assim operava não vinha decerto do
embate das ondas. E a canôa tremia toda, rangia, vibrava
incessantemente, como se um braço de Adamastor a agitasse n'uns empuxões
cyclopicos e interminaveis.
--Que diabo é is...
Não pôde continuar. Deante d'elle, rodeado d'uma auréola de chammas,
tresandando a enxofre, emergia Satanaz! Levantou-se indizivel alarido:
os raios duplicaram o faiscar, ribombos estalaram mais cavernosos. Por
seu turno, o vento engrossou ainda mais as vagas, que chegaram
quasi a cobrir o barquinho.
Porém só durou um segundo o estupôr de Deodato. Qualquer outro homem
succumbiria de medo. Elle, entretanto, como envergonhado d'esse instante
de susto que tivéra ha pouco, arrastou-se com esforço, ergueu a meio o
corpo ensopado e transido. Depois, levantando o olhar e o punho para o
ceu, proferiu, ou antes bramiu feroz imprecação satanica.
O diabo,--porque era elle em pessoa que assim surgira do mar,--empunhara
uma espia e, correndo, cabriolando por cima das ondas loucas, entrou a
puxar o batel para o lado de terra.
Aquella corrida frenetica durou um momento. D'ali a pouco, barco e
tripolante desfaziam-se de encontro ás pedras d'uma enseada, perto
da capellinha do logar. Viram os meus amigos a acção da justiça de Deus?
----
Calou-se o tenente coronel Fernandes. Estava offegante, com os labios
sêccos, o olhar animado.
Mas resoou no aposento uma gargalhada stentorica, que despertou o
molequito no cólo do avô.
Era este proprio, o Felix Jacaré, quem zombara d'aquelle modo. Logo, com
entonação escarninha, ponderou:
--Não creiam n'essa balela de seu c'roné. O tar Deodato não foi pescá,
ficou na rêde muito socegado e despois sonhô essas coisa, 'hi 'sta. Seu
padre Simpricio, antão, arranjô o resto...
MATER DOLOROSA
MATER DOLOROSA
A Bellarmino Carneiro.
Ante-manhã.
O vapor seguia rio acima, bem perto da margem, tão perto que, ás vezes,
as ramarias sussurrantes da floresta roçavam na coberta, estendiam
galhos sombrios por de sobre a borda.
Ainda não haviam despertado as aves. O rio estava ali muito socegado,
reflectindo o mattagal, banhando os aningaes avelludados. Não
começára o arruido de passaros com que a alvorada é recebida, mas
persistiam, comtudo, os derradeiros murmurios dos animaes e insectos
noctivagos.
A bordo mesmo, á ré, tudo parecia descansar ainda.
Só o compassado resfolegar da machina denunciava que alguns entes
velavam a meia-nau, attentos aos avisos do pratico de quarto.
Ao nascente, começava a desenhar-se uma tenue claridade,--o início do
fugaz crepusculo amazonico. A sombria noite diluia o negrume n'um suave
frouxel cinzento, muito mal esboçado, indeciso quasi. Estavam longe as
meias tintas côr de pérola e lyrio, precursoras das tonalidades rosadas
e azues, que a seu turno precedem as estridencias rubras e alaranjadas,
em breve esbatidas na tranquillidade definitiva dos aspectos mais
claros do dia adeantado.
Ia amanhecer.
Em uma porta de camarote, á pôpa, assomara um vulto sombrio de mulher.
Esteve ali um momento. Logo encaminhou-se á borda, perscrutando a
escuridão, por um lado, por outro, attentamente.
Aquelle vulto vestia um trajo simples, de rigoroso lucto.
Saudou-o da matta um silvo de passaro,--a primeira manifestação do
despertar das aves.
O ambiente reacendia. Vinham da floresta virgem aromas capitosos de
cumarú e baunilhas. Pelos cipós que desciam dos galhos, formando
emmaranhamentos caprichosos, deviam escorrer as preciosas resinas que
trescalavam tão fortes effluvios.
A mulher inspirou com força. Queria banhar os pulmões n'aquella
olencia. Em seguida, suspirou um suspiro triste; suspiro de viuva?
suspiro de mãe inconsolavel?
Clareara um pouco mais. Ja se percebia todo o labyrintho de braços
folhudos que as arvores estendiam no ar, em contorsões. Uma suavidade
paradisíaca se diffundia na meia tinta da luz crepuscular. Era quasi sol
nado. Os passarinhos já haviam encetado o canoro certamen, volitavam
céleres. Á beira-rio, nenuphares ostentavam-se opulentos por de sobre as
polposas folhas que pareciam caprichos de esculptura em marmore verde.
Mil flôresinhas silvestres salpicavam a vegetação das margens, sem
nenhum acanhamento de uma ou outra victoria-régia que se dignava
mostrar-se entre os massiços dos mururés, os quaes recebiam da
correnteza um brando movimento de balouço. E, de um a outro lado do rio,
eram grandes bandos altíssimos d'aves aquaticas,--patos grasnadores,
pavõesinhos gemebundos, garças, cegonhas, toda a migração alada dos
desertos amazonicos. Estava ali a natureza intacta, no seu inalterado
aspecto milionario, tal como a viram os primeiros habitantes, as tribus
lacustres que fôram as raças autochtones.
O vapor seguia sempre adeante, rente a terra, na mesma monotonia.
Aquella ascensão parecia o desvirginamento d'um éden.
Iniciou-se a bordo a tarefa quotidiana. Alguns marinheiros appareceram
trazendo baldes, desdobrando mangas para irrigação. Rompeu a subitas o
sol, por além das mattas, n'um deslumbramento.
Fugiu veloz para o camarote a madrugadora passageira.
*
Horas mais tarde, o commandante atravessou o tombadilho, foi bater-lhe á
porta. Seguiam-n'o trez ou quatro pessôas, que se conservaram a curta
distancia, dissimulando a custo grande curiosidade.
Era de certo esperada a visita, porque, immediatamente, a mulher saíu a
recebel-a. Com a luz do dia, via-se que era uma anciã, de rosto enrugado
e fronte encanecida. Não tinha aquella physionomia outra expressão que a
do mais fundo soffrimento. E os olhos brilhavam extranhos, muito negros
e dilatados, entre longos cilios sedosos.
--Já estamos,--disse-lhe o commandante.
Ella penetrou de novo no aposento, mas volveu passado um instante.
Trazia uma corôa de saudades,--uma corôa tosca, evidentemente barata. E,
com o sorriso triste, murmurou ao capitão uma palavra de agradecimento.
Depois, apertando com as mãos crispadas a humilde corôa sobre o coração,
foi ajoelhar-se junto á borda, suspirando, soluçando, toda desfeita em
pranto.
Ali perto, na floresta, rebrilhavam flôres de sonho,--extranhas
orchídeas gigantes, catléas variegadas, osculadas de coleopteros
zumbidores. Crescia triumphal o canto dos passarinhos.
*
O grupo de passageiros arredára-se, n'um movimento de involuntario
respeito por aquella sincera dôr ignorada. No meio d'elles, o
commandante sentou-se taciturno e falou:
--Não notam? Estou emocionado. Ha doze annos que vejo, em cada viagem,
duas vezes repetir-se este espectaculo e, no entanto, até aqui me não
familiarisei com elle. A prova é que abala-me ainda, como da vez
primeira que a elle assisti. Onde encontrar explicação para isto? De
certo que no immenso impulso d'essa dôr, na grandeza do sentimento que a
provoca e que ha de haver compungido o coração dos senhores todos, não é
verdade?
O grupo teve um movimento egual de assentimento. Em algumas physionomias
brilhava uma curiosidade inequivoca. Mas o capitão proseguia:
--Vou referir-lhes a causa d'este espectaculo com que não contavam
certamente os meus amigos. Esta senhora é a viuva do antigo
commerciante C. A., de Belém. O marido possuia seringaes no alto
Madeira, administrados por um primo. Raras vazes vinha a estas paragens:
a escala dos seus negocios no Pará impedia-o de visitar a propriedade,
perto da fronteira boliviana.
Tinham um filho unico,--o pequenito Anselmo,--um mimo de creança, que os
senhores haviam de estimar se o vissem, uma só vez bastava. Moreno,
olhos negros e vivazes, tinha na franca physionomia alegre a
manifestação exacta d'um espirito aberto e elevado. Sympathico a valer,
bem educado aos onze annos, todos o queriam sobremaneira.
Esta creança, um dia, perdeu o pae. Aquella senhora que ali está em
pouco tempo soube que os seus haveres se achavam reduzidos. Ella,
que sempre vivera na abundancia, não teve uma palavra de queixa.
Abençoando á memoria do eterno ausente, resolveu retirar-se para o
seringal, trabalhar como o ultimo cabôclo, afim de attender á instrucção
do pequeno. Para este voltaram-se todos os seus affectos. Quem ignora
ahi como sabem amar as dôces mães amazonicas?
Dona Maria não tinha parentes proximos. Emprehendeu a viagem sem
saudades, n'este mesmo vapor. Trazia comsigo o retrato vivo do morto,
cuja existencia era continuada na louçania dos onze annos risonhos da
creança.
A bordo, corriam felizes os dias. O Anselmito brincava sem pezares,
tinha em cada passageiro um camarada. E a bôa senhora quedava-se horas
esquecidas a fital-o de longe, no enlêvo da sua alma reflexiva,
folheando recordações posthumas, revendo saudades discretas.
Foi ha doze annos. Uma tarde, não sei que passara ao menino: estava mais
brincalhão do que nunca. Ia por toda a parte, correndo, risonho, amavel
com toda a gente. De subito, um grito resoou, acompanhado d'um brado
d'alma, indescriptivelmente lancinante! Olhem, ainda o tenho aqui, a
vibrar-me nos ouvidos, esse grito de mãe desesperada!
O Anselmo cavalgara o parapeito, n'um instante de descuido de todos nós
e, perdendo o equilibrio, rolara para o abysmo. Foi além, defronte
d'aquella immensa sapupêma. Em breves minutos lá estaremos. Parou o
vapor, desceram escaleres, fez-se inuteis pesquizas durante vinte e
quatro horas seguidas.
O cadaver adorado não appareceu.
De então para cá--e quantas viagens tenho eu feito?--a infeliz mãe não
deixa o _Mahissy_. O seu affecto retempera-se em passar incessantemente
por sobre o sitio onde as aguas caudalosas do Madeira tragaram aquelle
corpinho tão fragil e tão querido. De cada vez que por aqui singramos,
dona Maria ajoelha-se lacrimosa e, ao chegar ao logar fatídico, arroja
piedosamente ao rio uma corôa de saudades artificiaes. Não tem aqui
flôres naturaes, a pobre; mas acaso não são bem viridantes as flôres do
seu coração, as tristes flôres do pezar eterno?
Nunca mais foi a terra. O seringal, vendeu-o logo, pela metade do preço,
Gasta o dinheiro em passagens para si, e corôas para o anjinho. Já devem
estar bem reduzidos os capitaes da desgraçada. Causa-me isto uma
lastima profunda. Mas attendam...
*
Dona Maria erguera-se, n'um impulso desvairado. Levantou por cima da
cabeça a mesquinha corôa toda banhada de sol e arrojou-a á agua.
O rio tragou a funebre contribuição, fechou-se murmuroso, em circulos
concentricos. A anciã tornara a cair genuflexa, soluçante e
transfigurada no seu apaixonado desespero.
Em terra, bem á orla da floresta ancestral, mil aves garrulavam na copa
gigante d'uma feroz sapupema secular.
Yaras paraenses
YARAS PARAENSES
No copiar da chacara, aquella noite, haviam-se reunido alguns vizinhos
do commendador Esteves, o principal proprietario do Pinheiro.
Rêdes fechavam os angulos, pendentes dos esteios. Era uma roda de
homens. Todos balouçavam-se, acalorados, aguardando o assahy que n'esse
momento a mulata Josepha amassava na cosinha.
O luar de agosto penetrava em diagonal, diaphano, trazendo toda a
melancholia profundíssima das incomparaveis noites equatoriaes. Da
matta pouco distante, lavada de luar, vinha o monotono arruido dos
insectos nocturnos, o alarido dos cururús teimosos. Na gaiola pendente
do tecto sem fôrro, um caraxué silvava. E do rio, que corria ali perto,
ao fundo da ribanceira, subiam com a brisa refrigerante os rumores dos
barcos de pesca fazendo-se ao largo, para a foz.
Fumava-se, conversava-se. Haviam já discutido os negocios do dia, na
capital. Esteves encetara mesmo um poucochinho de politica. Portuguez de
nascimento, não queria immiscuir-se em assumptos partidarios; mas tinha
por elles sua predilecção e nunca deixava de externar uma ou outra
opinião, sempre muito conservador e ordeiro.
N'essa tarde, viera com elle passar a noite na rocinha o velho Barriga,
seu aviado do alto Xingú. Era um cabôclo adiposo, de ventre
proeminente e face larga. Apparencia insignificante, matreirice innata:
o typo commum do seringueiro indígena. Trouxera a mulher, que já estava
recolhida ao quarto destinado ao casal.
Achava-se também presente o subdelegado Fonseca, antigo solicitador dos
auditorios, agora enviado ao Pinheiro afim de preparar recursos para uma
eleição proxima. Era esta a sua especialidade, ao que parecia. Em todo o
caso, rendia mais do que a primitiva profissão. Um presidente vindo da
Côrte não tivéra extraordinaria difficuldade para convencel-o d'isto.
Mas a palestra veiu naturalmente a versar sobre assumptos do sertão. A
um quint'annista de direito, que villegiaturava todo o anno,
explicara já o Barriga a pesca do pirarucú e o preparo da grude de
gurijuba. O quint'annista era, n'este ponto, d'uma ignorancia absoluta:
não admirava a sua curiosidade.
Os demais circumstantes escutavam n'um silencio discreto, bocejando. Nas
intercadencias da narrativa, apenas se ouvia o ranger das escápulas pelo
movimento das rêdes e o farfalhar dos galhos, matta fóra.
Uma voz reclamou um conto indígena, uma lenda amazonica. Não
comprehendeu a phrase o Barriga. Quedara-se a olhar o interlocutor,
cortado.
--Historias de bôto, do curupira, da mãe d'agua,--explicou o subdelegado.
--Han!--rosnou o cabôclo. Tudo isso é mentira, acredite!
--Como! Pois o senhor atreve-se a negar o que todos no sertão
asseguram ser verdade evidentíssima?
Sorriu o velho, superiormente. Tinha no rosto uma profunda piedade, pela
bôa fé do cidadão. Ergueu-se, afivelou o cós da calça e, espreitando
para o lado do quarto da mulher, congregou os companheiros em circulo
diminuto. Estava transfigurado: era um philosopho stoico.
--Vocês ouviram já falar em yaras, não?--perguntou. Pois é tudo mentira
também.
E abaixando a voz:
--Só ha uma especie de yaras,--proseguiu. Essas, porém, não vivem no
fundo dos rios da minha terra, estão, ahi, na cidade; vi hoje á tarde
uma porção, quando fui com seu Esteves tomar o vapor. São as mulatinhas
cheirosas a periperioca e jasmins, sabem? as verdadeiras yaras
encantadas. Mas precisamente não é para o abysmo das aguas que
arrastam a gente!...
--Seu Barriga, venha dormir!--gritou no outro extremo do copiar a
encanecida e rotunda esposa do velho cabôclo do Xingú.
Uma historia de amor
(DOCUMENTOS HUMANOS)
Uma historia de amor
(DOCUMENTOS HUMANOS)
PRIMEIRA QUINZENA
I
Senhor,--
Não posso attendel-o. Tenho deveres sagrados a cumprir, uma posição
social a zelar. Esqueça-me.
(_Sem assignatura_).
II
Senhor,--
Julgo-o um cavalheiro e acredito-o sincero, por causa da assiduidade com
que me procura. Acceito o seu convite para jantar,--mas somente no
intuito de o dissuadir d'essa loucura que nunca poderá ser
correspondida. Até logo.
ELISA.
III
Sympathico amigo,--
Porque insiste? Estimo-o como um camarada, quasi como a um irmão. Não
posso, entretanto, perdoar-lhe a impertinencia:--meu marido nunca será
enganado.
ELISA.
SEGUNDA QUINZENA
I
Bom amigo,--
Exactamento como o senhor, estou bastante incommodada por tremenda
enxaqueca, que obrigou-me a ficar deitada até agora. A sua amavel carta,
cheia de phrases tão meigas, traz-me certo lenitivo e me dá a energia
necessaria para tomar a penna. Demais d'isto, a satisfação de
escrever-lhe faz-me esquecer os proprios soffrimentos.
Não me agradeça tanto o serão de hontem, ao jantar. Se o sr.
comprazeu-se com a minha companhia, o mesmo aconteceu commigo; não
tenho, pois, merito algum em fazer o que ditam os meus mais caros
desejos.
Quanto mais conversamos, mais vou eu descobrindo no meu bom amigo
sentimentos e gostos que correspondem aos meus. A surpreza rejubila-me;
similhante analogia de caracter e de idéas é demasiado rara para que eu
deixe de admirar-me, sobretudo se encarar as barreiras sociaes que nos
separam e a differença de classe a que pertencemos.--A sua cartinha de
hoje é uma pequena obra-prima de cariciosas phrases. Quero crel-o,
desejo acredital-o. Já não posso duvidar do senhor. Julgo-o sincero,
porque _nada_ o obriga a ter procedimento egual ao seu. O sr. é
demasiado superior de espirito para ligar tanta importancia a uma vulgar
questão de materialismo. Por consequencia, a logica me compeliu a
suppol-o franco em seus sentimentos apparentes. Quanto a mim,
entrego-me toda ao senhor, intellectualmente. Juro-lhe que sou sincera,
mesmo--e sobretudo--nas minhas ingenuidades.
O sr. é sceptico, já m'o disse; isto é, preveniu-me do trabalho que eu
teria para fazer-me acreditar. Não ignoro as prevenções que têm os
homens pelos sentimentos affectados. Todas as mulheres são enganadoras,
voluveis, mentirosas, mas todas têm, comtudo, momentos de real
sinceridade. Encontro-me em um d'esses momentos. E note, meu caro Jorge,
que não digo isto para differençar-me das demais mulheres e tornar-me
importante aos seus olhos. Não, porque possúo todos os defeitos acima
enumerados. Melhor do que ningúem, sabe-o o senhor, porque estou prestes
a enganar o homem com quem vivo. Verdade é que esse homem é um
imbecil e que nunca sympathisarei com tal cathegoria de caracter. Não
digo isto para desculpar-me aos meus proprios olhos, pois só me importo
com a minha consciencia e não com alheias opiniões. Digo-o, sim, á laia
de informações a respeito dos meus sentimentos reaes, no intuito de
fazer-lhe comprehender que, do senhor para mim e reciprocamente, deve
estabelecer-se uma corrente de escrupulosa sinceridade, pela simples
razão de que eu e o sr. não somos impellidos um para o outro por outro
interesse que não seja o nosso capricho,--ou, se mais lhe apraz e para
falar mais exactamente, pela especie de correlação que existe entre os
nossos dois espiritos.
Como vê, sou mais franca do que o sr. É talvez um mal. Por
principio, uma mulher, posto que enamorada, nunca deve revelar
inteiramente a sua alma. Eu, porém, tenho-o na conta do mais leal dos
homens, do mais generoso dos corações. Serei algum dia despertada
cruelmente d'este adoravel sonho?
Percebo que tenho ainda muitas coisas a dizer-lhe: tomo, pois, outra
folha de papel. Ha de fazel-o sorrir tamanha expansão. Que quer? Tenho
tantas phrases agitando-se-me na cabeça.... Emfim, perdôe-me. Desejo que
o sr. me conheça bem e saiba completamente o que sou e o que quero.
Não imagina até que ponto aprecio a attenção tão firme mostrada para
commigo, vae fazer um mez. Agradeço-lh'o deveras, porque isto me
satisfaz immenso. Lembra-se da carta em que lhe pedia que me
esquecesse? Pois bem; hoje tem o meu querido amigo a razão por que lhe
dizia essas palavras. Não o conhecia bem e receiava affeiçoar-me
demasiado a um homem cujas apparencias eram as de um aristocratico
_viveur_.--Sinto que hei de amal-o, que hei de amal-o talvez mais do que
o sr. deseja e o amor é, ás vezes, cruel tyranno intransigente e
molesto. O sr. agora está prevenido: póde defender-se. Não venha um dia
lamentar-se pelo facto de haverem-se tornado demasiado serios os meus
sentimentos.