Tenho o genio tranquillo. De temperamento frio, difficilmente me

enthusiasmo. Com respeito a questões graves, nada emprehendo sem antes

prever os resultados do acaso ou do imprevisto. Nunca foi meu fraco a

leviandade. É por isso que faço questão de patentear-lhe a alma da

mulher que o senhor tem deante dos olhos e que espero nunca será

considerada com volubilidade.

Conhece-me agora, querido amigo. Esta carta é uma confissão: nunca fiz

outra egual. Sem falsa vergonha revelo os meus defeitos e fraquezas,

sabendo a quem os confio.

Falemos agora de coisas que interessam á vida physica. Nada tenho a

dizer-lhe sobre o ponto que trata do aposento em questão: approvo o que

fez. Veja que o ninho seja bem discreto, bem mysterioso, para esconder

perfeitamente a felicidade que vae abrigar.

Até amanhã.

ELISA.

II

Jorge,--

Volto do passeio n'este instante com meu marido e encontro a tua carta.

Então, meu querido, já estás mau e injusto sem motivo!

Em primeiro logar, dizes--_a senhora_, o que, na correspondencia, é um

matiz bem accentuado de frieza. Não é bonito isso.

Depois, agastas-te sem razão. Não conheces acaso a minha existencia? Não

ignoras que goso de uma liberdade limitada. Além d'isso, não temos

ambos, eu e tu, as nossas respectivas obrigações? Differentes, sem

duvida, dir-me-ás, porém isso não impede que seja imprescindivel

cumpril-as todas.

Tens graça affirmando que eu podia arranjar um pretexto! Invento-os

todos os dias, mas lá vem um instante em que os argumentos minguam e

mistér se faz pagar o tributo da propria presença, como hoje aconteceu.

Não sejas, pois, injusto:--eu soffreria bastante.

A vida que levo não tem alegrias para mim, acredita-me. E, se vens ainda

augmentar-me os desgostos com recriminações que não mereço, ainda mais

me entristecerás.

Amo-te, bem o sabes. Se não o crês, é porque impede-te o teu

scepticismo. Como provar-te, entretanto, o meu amor?

Vê se sou corajosa: escrevo esta carta (e bem notas com que

tranquillidade), deante de quem sabes. Não posso mostrar mais audacia,

mais temeridade, parece-me. _Elle_ anda ao redor de mim, com

olhares atravessados, que me encolerisariam se eu já não estivesse tão

predisposta contra elle.

Até logo. Não sejas tão mau com a tua

ELISA.

TERCEIRA QUINZENA

I

Meu querido,--

Vou mais uma vez enfastiar-te com a minha prosa quotidiana, porém agora

tenho uma desculpa:--estás doente.

Como te encontras hoje? Cada vez melhor, presumo-o e desejo-o com toda a

minha alma.

O tempo está mau, trata-te bem, não faças imprudencias nem

affrontes o ar humido e doentio das ruas lamacentas depois da chuva

d'esta noite.

Muito penso em ti e soffro extraordinariamente por te não ver ha longos

dias. Tu, meu amigo, que tão bem conheces o coração das mulheres, ainda

desconheces o meu, que, no emtanto, possues inteiramente... ou antes,

conheces demasiado a esse pobre musculo e é por isso que ás vezes o

fazes soffrer bastante.

Adeus, meu amor. Trata-te com cuidado e recebe toda a ternura da tua

ELISA.

II

Jorge,--

Depois do que se passou hontem á noite entre nós, tomo a prudente

resolução de libertal-o da minha presença, que o importuna de certo

tempo para cá. Esta carta é a da sua alforria: sae ao encontro das suas

intenções, que, mais hoje, mais amanhã, seriam propostas de certo.

Não me surprehende a sua conducta. Sinto não haver-me equivocado, porque

amava-o. O sr. é muito caprichoso e nunca teve affeição por mim. Nunca

houve no mundo caracteres tão deseguaes como os nossos. Os nossos gostos

e sentimentos andavam em regiões absolutamente oppostas, bastante tarde

o comprehendo.

Adeus, por tanto. Cure-se, restabeleça depressa a saúde, que eu desejara

saber completa, mesmo sem nunca tornar a vel-o. Adeus.

ELISA.

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Conforme.

A filha do pagé

A filha do pagé

A Martin Garcia Mérou

I

No rio Negro.

Das margens, nenhum som da vida animal perturbava a tranquillidade das

coisas. A pino, o sol mordia as densas vegetações sombrias, fustigava

tenaz uma ou outra borboleta vagabunda sobre os nenuphares exhaustos. O

rio seguia monotono, n'um esvaimento; apenas pelo meio, lá ao

largo, a correnteza fervia em cachões, borbulhava entre escumas

alaranjadas, depurava-se de todos os residuos que acarreta a grande

arteria aquatica.

Pela beirada, aproveitando o remanso, ia subindo vagarosa, impellida

pelo remo de pá, a canôa de pae Francisco, o velho pagé de Curralinho.

Vinha de longe, o solitario viajante. Emprehendêra a operosa navegação,

que almejava fôsse a sua ultima ascensão para o centro, em busca do

absoluto socego onde podesse sondar a sua dôr e dar largas ao pranto que

não seccava ha seis mezes. Fugia do logar onde fôra feliz e poderoso.

Além, no mysterio das florestas intactas, na grandiosidade da natureza

virgem, havia de encontrar o lenitivo para as amarguras da alma

lacerada.

Uma ternura afagava-lhe o espirito, onde renasciam vislumbres de

esperança. Esquecer o passado, não o desejava. Seria buscar o

impossivel. A que ousava aspirar, n'uma humildade de supersticioso, era

á pacificação circumdante, para rever a seu gosto agridoces saudades,

resuscitar as reminiscencias, fruir as meigas recordações dolorosas dos

tempos idos. Era isto querer em demasia?

Remava sempre, semi-nú ao centro da embarcação, com o dorso exposto á

soalheira, suarento, a cabeça ora para deante, ora erguida, no movimento

dado ao remo. Nada via do lado da terra. A vegetação crescia opulenta,

emmaranhara glaucas barreiras invenciveis de raizes, troncos, ramagens e

lianas. Por cima de tudo isto, palmeiras carregadas de tractos

trapejavam brandamente e dos galhos, d'entre massiços mais claros

de folhagens tenras, pendiam as orchídeas, na gala aristocratica dos

seus caprichosos matizes.

Ás vezes, adeante da canôa, pinchava um peixe assustado, levantava

innumeras gottas, achamalotava de arripios fugitivos a negrura do

remanso. Mas o velho quedava-se impassivel, remando sempre, fixo na idéa

de fugir de Curralinho. O aspecto exterior do mundo não o interessava;

debatiam-se-lhe tumultuosamente no espirito milhares de pensamentos

retrospectivos, um só dos quaes era bastante para dominar-lhe a attenção

inteira.

II

Era simples a historia d'esse homem.

Nascêra e crescêra em Curralinho. Filho d'um antigo cabano, fizera-se

pagé quando lhe morrêra o pae.

Desconhecido ao principio, teve de esperar paciente que os seus feitos o

acreditassem na população, trazendo a pouco e pouco o exito que tamanha

fama lhe grangeou depois. Ao chegar á edade madura,--estava

definitivamente consolidada a sua reputação. De muitas leguas ao redor,

vinham durante o anno centenas de pessôas recorrer-lhe ao talento com a

fé cega dos supersticiosos e dos crentes.

Uns,--a nata da gente culta de Curralinho,--tinham-n'o na conta de

brégeiro especulador. Mas a parteira Eudoxia proclamava convicta o

sincero devotamento de pae Francisco áquillo a que ella, com um pouco

menos de propriedade na expressão, chamava o seu sacerdocio. Levava

mesmo o espirito justiceiro a assegurar, com a responsabilidade do

testemunho evidente de cem pessôas, que, para resolver uma situação

difficil de puerperio, mais valiam as imposições cabalísticas da dextra

do apregoado pagé, do que toda a sua longa pratica, d'ella depoente

insuspeita, associada á infallivel interferencia de São Raymundo Nonato.

Especulador ou convicto,--não vem a pêllo esmerilhar o fundo d'aquelle

caracter. Talvez mesmo tivesse ella as duas qualidades que são, quasi

sempre, o acúleo do seu e de identicos mestéres. O que havia de positivo

era a adoração que sentia pela filha,--um encanto de caboclinha

rechonchuda e capitosa, que lhe déra a companheira, momentos antes

de morrer. Fôra essa a unica vez que falhara a sua sciencia de mago.

Será verdadeiro o aphorismo de que santos de casa não fazem

milagres?--perguntava, benzendo-se trez vezes, a velha Eudoxia.

Toda a villa conhecia e estimava a repariguita. O pae tinha-a fóra de

casa, com a gente d'um amigo intimo. Ia vel-a todos os dias e passavam

longas horas sem que elle interrompesse o affectuosíssimo colloquio, que

tão deliciosamente banhava de inenarraveis venturas o seu singelo coração.

Que gloria valia a de ser pae de similhante creatura?

III

Creara-a elle proprio, desde os primeiros dias da dupla viuvez do seu

corpo e da sua alma. Descrever toda a serie de cuidados, de attenções,

esperanças e sustos desenvolvidos por pae Francisco, seria traçar o

poema de um heroismo commum no bemdito solo amazonico.

Fôra elle a sua ama secca,--mas disvelado como nenhuma. Tinha um geito

especial para amimar a pequenita creatura, apaparical-a com terna

bondade, que era um gosto espreital-o no desempenho d'essa funcção

providencial. Havia, assim, n'aquelle extranho ser, duas entidades

heterogeneas, uma dualidade admiravel, que tão profundo contraste

estabelecia entre o terrivel feiticeiro abracadabrante e o pae melifluo,

de olhos deslavados em sorrisos de adoravel meiguice.

Quedava-se o cabôclo, a cada instante, longo tempo a rever na face

inexpressiva da creancinha as feições d'um ente estremecido, para sempre

entregue á dissolvencia definitiva, no sombreado cemiterio da villa. O

seu affecto fazia ricochete na muralha da morte e volvia inflorado de

carinhos, fúlgido de enternecidas esperanças, a formar a aureola

transcendente que exalçava o futuro da creancinha.

Felicia chamara-a, n'um augurio de ventura. Quantas horas não ficava

absôrto, á beira rio, sonhando acordado mil felicidades para o

enlevo da sua alma solitaria, para a filha idolatrada que ali

medrava a seu lado, na força da vida ao ar livre, sem peias physicas a

entorpecer-lhe a pujança da infancia?

Vieram, mais tarde, outros cuidados. Necessario se tornava dar fórma a

um espirito vivo, a uma intelligencia agil e vigorosa. Já não bastavam

as attenções materiaes. A _ama sêcca_ devia tornar-se n'um educador

perfeito e elle soube sel-o com exito, no seu meio, nos limites da

propria visualidade espiritual. Não têm as almas, ainda as mais simples,

um mundo de idéas sãs, um thesouro de sentimentos puros, tão efficazes

na comprehensão dos deveres moraes?

A philosophia do pagé de Curralinho era singela como a simplicidade da

sua existencia, vigorosa como a pujante natureza circumdante.

Mas a creança da vespera tornara-se mulher. Novos sobresaltos para o

pae. Não lhe bastava a convicção de lhe haver insuflado á alma os mais

sãos conselhos. Uma nuvem de desconfiança lhe entenebrecia o coração. Os

sustos perseguiam-n'o sempre, mesmo no meio dos somnos agitados. A sua

preoccupação constante era esta: amparar a filha contra o assalto da

concupiscencia. Se houvesse necessidade de comparal-o a algum personagem

do romantismo, nenhum vulto era mais adequado ao símile do que o do

apaixonado truão de Francisco I.

Pozera-se de má catadura, encanecêra, tornara-se rispido e intolerante

com todo o mundo. Em cada individuo via um ladrão da sua felicidade. E,

nos dialogos com a filha, ao luar, ao longo da ribanceira, dominando o

Amazonas, tinha encantadoras expressões de meiguice, phrases cariciosas

como osculos de creança amimada,--admiraveis esforços para prender e

enleiar definitivamente um affecto que elle receiava--ou

adivinhava?--perder um dia. Esta unica idéa lhe dava febre. Era, então,

n'uma languidez voluptuosa e pura, que recebia os beijos filiaes da

virgem, perfumada a periperioca, agitada n'uma ternura reconhecida.

IV

Este encanto durou pouco. Felicia amara, alfim, outro sêr extranho, com

um novo sentimento cuja diversidade reconheceu tão grande, que não teve

animo para confessal-o.

Ignorando tudo, o pagé contemplava satisfeito, na apparente

tranquillidade da caboclinha, o são producto dos seus conselhos.

Um regatão de longe--lá das bandas de Macapá--fôra o perturbador

d'aquelle singelo coração. Era moço, valente, um bello typo de tapuia

varonil. A sympathia da rapariga fez-se primeiro enthusiasmo doidivanas,

assumiu depois as proporções de violenta paixão.

Felicia não tinha já a mesma fixidez attenta no olhar quando a encarava

o pagé. Distrahida, oppressa por vago mal estar, buscava a solidão,

isolava-se por gosto. O pae attribuia esse estado a causas puramente

physicas. Entretanto, quem surgisse, alta noite, por perto do copiar da

casa onde vivia a moça, havia de enxergal-a nos braços do regatão,

soluçante de amor, gemente de desejos.

Não podia prolongar-se o novo estado de coisas. Um dia, ao amanhecer,

foi o pagé avisado que lhe fugira a filha. Por uma reveladora

coincidencia, desapparecêra também do portosinho da villa a canôa do

regatão.

O velho cambaleara, caíra sem sentidos. Trez semanas esteve á morte,

ardendo em febre, delirando entre pesadêlos horriveis. Todo o

povoado emocionou-se á narração de tamanha dôr. Os mais endurecidos

corações, aquelles que chamavam feiticeiro e perverso a pae Francisco,

tiveram para elle um movimento de sympathia, uma pontinha de dó.

Eudoxia, entretanto, não ficara socegada. Varonil, resoluta, organisou,

com o auxilio de dois amigos que equivaliam a duas dedicações poderosas,

uma expedição em busca de Felicia.

Alguém disséra que o regatão tomara o caminho de Gurupá. Na mesma

direcção seguiram a parteira e seus auxiliares. Dois mezes depois--nem

tanto, talvez--estavam de volta. Rocebeu-os o velho n'um desanimo, com

um sorriso triste, quasi idiota, na face desfigurada.

Tudo inutil. Felicia morrêra em viagem. Havia-a destruido a

variola. O regatão enterrara-a n'uma escarpa e ficara louco, ao

abandonal-a para sempre á orla da floresta, sob uma chuva interminavel

de flôres capitosas.

Pae Francisco manteve-se calado, imperturbavel; só dois grandes fios de

lagrymas deslisaram-lhe pelas faces, cortando o rictus que a immensa dôr

formava em cada commissura dos labios.

Meia hora depois, elle também partia, sem despedidas, n'uma canoinha

leve, subindo o Amazonas.

Eis porque, ha pouco, o encontramos, lavado em suor, a cabeça ora para

deante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Ha alguns mezes já que

saíu de Curralinho. Segue pela beirada, aproveitando o remanso do rio

Negro.

Foge do logar onde fôra feliz. Não terá direito a aspirar ao

lenitivo para a alma lacerada?

Como nenhum som de vida animal perturba a tranquillidade das coisas,

está perscrutando a intensidade dos proprios pezares, sopesando a agonia

do coração encarquilhado.

Vae sempre para o centro, n'uma ascensão dolorosa, martyr da bôa fé. No

espirito, afagado por indefinida ternura, renascem-lhe vislumbres de

esperança. Não é que pretenda esquecer o passado. Busca apenas o socego

absoluto das florestas intactas, para dar largas ao pranto que não secca

ha seis mezes.

Demais, no meio da pacificação circumdante, não poderá elle rever a seu

gosto agridoces saudades e convulsar baixinho, muito baixinho, com a sua

querida Felicia,--não a fugitiva,--mas a outra, a pequenita, a que

o preferia sempre, aquella que elle creara como ama secca e ainda

conservava pura e infantil no fundo do amantíssimo coração?

INDICE

PRIMEIRA PARTE

Subjectivismo

Paginas

O isolamento 15

Gaivotas 27

O Naufragio do Purus 39

Brinde a minha Filha 49

O cemiterio da floresta 57

Um anniversario 67

SEGUNDA PARTE

Objectivismo

A pesca do Deodato 89

Mater dolorosa 113

Yaras paraenses 129

Uma historia de amor 137

A filha do pagé 153

ESTE VOLUME

foi impresso, gravado e brochado

para Arnoldo Moen, editor,

314, Florida, 314

BUENOS AIRES

10 de fevereiro de 1896

End of Project Gutenberg's Entre as Nymphéas, by João Marques de Carvalho

Entre as Nymphéas · 第 3 / 3 段