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OBRAS DE MARQUES DE CARVALHO
VII
ENTRE AS NYMPHEAS
DO MESMO AUCTOR
O SONHO DO MONARCHA Opusculo
LAVAS Opusculo
PAULINO DE BRITO Opusculo
HORTENCIA 1 volume
O LIVRO DE JUDITH 1 volume
CONTOS PARAENSES 1 volume
J. MARQUES DE CARVALHO
ENTRE AS NYMPHEAS
BUENOS AIRES
Arnoldo Moen,--editor
Calle Florida N.º 314
1896
PRIMEIRA PARTE
SUBJECTIVISMO
A minha esposa
_Esta parte do volume é intima, subjectiva._
_Suas paginas constituem o trabalho d'um artista apaixonado e d'um homem
de coração, durante uma viagem entre as nympheas, na região dos
nenuphares e da Victoria Regia, pelos rios Amazonas, Negro e Madeira, ha
seis annos._
_O labutar objectivo do auctor em busca da expressão naturalista da arte
encontra aqui uma occasião de pausa roborante, emquanto fala a alma, na
livre expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças
affectivas que possue._
_Eu devia esta homenagem ao amparo dos meus desanimos, ao jubilo dos
meus dias prazenteiros,--á insubstituivel companheira a quem dedico esta
metade do volume. Doze annos de intensíssimo affecto necessitavam de uma
commemoração._
Buenos Aires, 1895.
Marques de Carvalho.
O ISOLAMENTO
O ISOLAMENTO
A Coelho Netto
I
Ergui-me com a estrella d'alva, esta manhã.
Oppresso pela atmosphera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a
receber em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia
sacudir valentemente as grandes arvores da floresta, ali perto.
Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente.
Uma alegria sem par empolgou-me o espirito, sem duvida suscitada pela
grandiosa belleza circumdante. Embrenhei-me na matta, seguindo uma
azinhaga. Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmurio das aves que
despertam,--bulicio tepido que só podem avaliar os madrugadores na
roça,--um como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as
innumeras legiões canoras do Amazonas.
Não sei o tempo que andei quasi ás apalpadelas, ao longo do carreiro.
Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só
reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma
bella clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos
rumorejos, agitando as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, ás
vezes, absoluta a tranquillidade das coisas. Por intermittencias,
nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse mysterioso, farfalhante
correr de lagarto, que parece suscitar não sei que extranhos sobresaltos
nas florestas do meu paiz.
Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para
receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, extendido como
um luctador exhausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda
tempestade derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fôfa
disposição dos estôfos valiosos, esse gigante vencido offerecia-me
commodo assento rustico. Entretanto, não utilisei-me d'elle: sentindo-me
bem, sentindo-me feliz, estava longe da fatiga. Por insensivel movimento
de dominio orgulhoso, apenas puz-lhe o pé no dorso, vencedoramente.
Na mesma occasião, porém, penetrou-me o pavor: uma grande ave, um
inhambú graciosíssimo emergiu d'entre as toiças de verdura fresca, de
sob o tronco abatido e ergueu o vôo para o interior do matto, n'um largo
ruflar d'azas com indubitaveis entonações zombeteiras, intoleravelmente
escarninhas.
II
Quedei-me ali muito tempo, a seguir esta ordem de pensamentos.
No entanto, o ceu fôra devassado pelo hilariante clarão com que este
bemdito sol da minha terra doira todas as coisas, em sua
munificencia de soberano insupplantavel. Por toda a parte, só uma coisa
via: luz, luz, luz, esse alastrar de claridade que penetra tudo, que dá
aos objectos uma apparencia de alegria, d'intenso jubilo paradisiaco!
Pelo ar, cantavam sempre a brisa e as aves, estas menos talvez do que
aquella, compromettida a fazer a larga harmonia da alígera volata.
A clareira formava agora um salão redondo alcatifado de velludo
esmeraldino, illuminado d'uma orgia de raios, vibrante da deliciosa
bacchanal dos passarinhos.
Minha alma dilatava-se mais no goso, até ali inexperimentado, de tamanha
quietude, de tão profunda sensação do que é grato na liberdade.
O isolamento! Quanta paz na situação que esta phrase traduz! Que suaves
delicias que meigo langôr frue o espirito no socego completo,
divorciado dos cuidados da vida commum, senhor emfim de sondar a
consciencia propria, com a qual anda, ás vezes, semanas inteiras sem ter
um só instante para escutar-lhe as impressões, para confabular com ella,
extremado dos sêres banaes e falsos que formam a nossa róda habitual!
Haverá porventura alguém que não preze esses momentos de silencio, nos
quaes a alma fala comsigo propria, dizendo coisas ha muito sentidas e
que, entretanto, parecem-lhe,--quando examinadas,--extranhas novidades
jamais ouvidas?
Lembro-me agora da attenta concentração em que surprehendo, algumas
vezes, no alto das ramarias, esses folgazões alados que garganteiam a
todo instante crystallinas fiorituras sonoras. Dir-se-ia
monologarem, resolvendo ponderoso assumpto, tal a profunda gravidade com
que pendem a cabecinha, como recolhidos ao mais intimo de si mesmos.
Conheci um canario ao qual este genero de melancolia era habitual.
Valente cantor, adorado em toda a vizinhança pelo talento com que
desferia os seus bellíssimos gorgeios, valia a pena vel-o, quando
espanejava-se ao sol, muito arripiado e gracioso, revolvendo com o bico,
em rápida immersão, a agua do pequenino tanque de crystal da gaiola
doirada onde vivia.
Tirava horas inteiras para cantar, saltitante e feliz! Podia dizer-se
que empenhava-se em fazer um impossivel, ou que pretendia matar-se n'um
excesso melodico e genial, superior ás forças de seu mesquinho sêr de
passarito delicado!
Porém detinha-se de repente, entre um trinado e um silvo: detinha-se,
interrompendo os elegantes pulinhos e, immovel na travéssa principal,
ficava ali demorados momentos, a curvar a loira cabeça para um e outro
lado, com uma sériedade que poderia fazer sorrir a quem, superficial e
leviano, não ponderasse no mysterio d'aquelle inesperado recolhimento em
que uma alma sonhadora e romantica parecia despertar n'elle com
intercadencias fataes.
Terão também os passaros o prazer do soliloquio, a volupia da meditação?
Terão também a percepção dos gosos inebriantes que provém da certeza de
estarmos sós,--absolutamente sós, que ventura!--emfim libertados da
tyrannia das convenções, capazes de desafivelar a mascara que atam-nos á
face os respeitos mundanos?...
Bem quizera crêr na existencia, n'elles, de um poder de reflexão, pois
d'outro modo não sei explicar aquella postura tão extranha, aquelle ar
philosopho, essa expressão quasi humana,--tão humana, que surprehende!
É que, de certo, sentem o valor do socego, da paz completa, do
tranquillizador influxo da solidão, cujos ineffaveis encantos fascinam,
penetram o organismo d'uma tepidez emolliente, dão este balsamo
incomparavel:--a alegria de viver!
E como assim não acontecer, visto que as aves são as dominadoras do
espaço, os habitantes da matta, onde é de todo sensivel o poder do
isolamento, d'esta situação, que póde ser considerada egoista e
destruidora, porém que o meu espirito acaba de começar a comprehender, a
reverenciar, a amar com descompassados enthusiasmos, porque vae-lhe
perscrutando os largos arcanos de poesia e alento philosophico, o vigor
que insufla a mente para aprofundar-se no estudo subjectivo, no
conhecimento do _eu_, a desillusão a que arrasta-nos em relação ás
pequenas miserias odientas do mundo postiço dos falsos e dos pretensos
civilizados?...
Gloria ao isolamento! Bemdita sejas, ó grande floresta amazonica,
osculada pela ardente paixão do sol, toda sonora dos folguedos da
passarada chilreante, rica de estranhos mysterios e de mysteriosas
riquezas inestimaveis!
GAIVOTAS
GAIVOTAS
I
Um bando de gaivotas, aos pares amoravelmente aproximados, ergueu o vôo
do mattagal e, cortando o espaço por de sobre o borbulhante estirão do
rio, veiu seguindo o vapor, a poucos metros de distancia da pôpa, ora
alteando-se á ponta do mastro, ora descendo rapido, de olhar incisivo e
lesto bico, até esfrolar levemente a agua com as cendradas pennas da aza
desfraldada.
O marulho da agua parecia excital-as, espicaçar-lhes a actividade em
céleres convites de festiva digressão a ignotas paragens, onde o ceu
fosse azul,--muito azul,--e a verdura das ilhas tivesse os tenros e
alegres tons que apresentavam os aningaes das margens defronte das quaes
passavamos n'aquelle instante.
Revoavam jubilosamente, as gaivotas, aproximavam-se do vapor,
descrevendo elegantes circulos, n'uma palpitação d'azas similhante ao
ruflar do leque entre os dedos d'uma bella mulher, quando impéra,
deslumbrante de graça, nos salões selectos. Vinham, parecia quererem
invadir a coberta, participar da ruidosa vida que sobre ella
apresentavam os passageiros, reunidos em intimas palestras.
Sentado á pôpa, eu silenciosamente fitava aquelles aquaticos
viageiros ignorados. Seguia-lhes os caprichosos folguedos sob a limpidez
do ceu, com o olhar perdido traz elles, emprestando-lhes idéas, dando a
mim proprio as razões d'esse livre gaudio perante a pompa triumphal da
tarde moribunda.
Formavam as margens visiveis do rio largas ilhas meio submersas, de que
apenas se viam emergindo da agua,--como braços erguidos para o espaço
n'um enthusiasmo viril de canticos de louvor,--milhares d'arvores
variadíssimas, esparzindo perfumes resinosos e estalando as cascas sob a
demasiada affluencia das tepidas seivas vivificadoras. Como grandes
açafates de caprichosas fórmas espalhados por toda a latíssima extensão
do rio, essas ilhas balouçavam as farfalhantes cômas glaucas, onde os
pássaros, papeando, entreteciam previdentes os diminutos ninhos e a
robustez dos merityzeiros erguia pendentes os pesados cachos de fructos
granadinos.
Pelas margens, começavam a acordar os innominados animaes noctivagos e
um arruido extranho, abafado, levantava-se em surdina sob o machucamento
das folhagens ondulantes.
E a tarde morria a pouco e pouco.
Depois, ao fundo da paizagem, recortaram-se escuras, encobrindo o sol,
as longas montanhas sobre as quaes está erecta Monte-Alegre.
Um dos mais bellos crepusculos vespertinos começou então.
Quadro verdadeiramente formoso! O ceu, entestando com essas montanhas,
apresentava todas as tonalidades do iris, n'uma pujança complexa de
matizes prismaticos, e o sol,--como apertado entre ellas e a brunida
cupula sideral,--disseminava pelo espaço crystalino feixes de raios
luminosos em gigántea expansão que lembrava uma aurora boreal, um enorme
clarão d'apothéose empyrea.
Pelo nascente, subiam gradativas trevas, como poderosíssimo senhor que
sae a combate sem precipitações, na sua convicção d'inilludivel victoria.
Ao mesmo tempo, perto do zenith, un crescentesinho de lua e a estrella
da tarde,--esta quasi tão luminosa como um raio do teu olhar, querida
amiga,--scintillavam merencorios, como annuviados por incognoscivel
saudade, entre longas nuvens delgadas, côr de pérola e lyrio,
rendilhando-se no azul ferrete do firmamento.
As gaivotas, então, que tinham vindo a seguir-nos,--emquanto o meu
olhar, da pôpa do navio, parecia desejar attraíl-as poderoso,--grasnaram
freneticas e, de subito, descrevendo rapido circulo elegantíssimo,
regressaram á terra d'onde tinham partido e fugiram veloces, n'uma
actividade de movimentação d'azas perdendo-se ao longe, na meia
escuridade do crepusculo.
Fiquei sosinho á ré, a fital-as...--a fital-as, oh! não!--a mirar o
ponto do aningal onde se haviam perdido aquelles inconscientes sêres,
que tanto me tinham enleiado o espirito nas invisiveis malhas dos seus
largos circulos graciosos, descriptos no espaço, em reflexões movediças
sobre as gorgolejantes aguas amazonicas.
II
Assim também fugiram-me precipitadas do seio as niveas alegrias, quando,
levado pela embarcação, ausentei-me saudoso da terra onde ficaram as
candidas inflorescencias do meu amor.
Como aquellas gaivotas, preguiçosas e sympathicas, os doces prazeres
familiares deixaram-me seguir sosinho, breve regressaram á terra que
idolátro na minha apaixonada effervescencia de enthusiasmo pela grande
patria digna das maiores dedicações.
Vou-me rio acima, isolado e desconhecido, entre pessôas estranhas,
separado de vossos enlevadores affagos, ó queridos entes cuja
ternura deslaça-me a vida em loiras espadanas de luz puríssima e gentil!
Sigo meditabundo, sem receber na alma entenebrecida um raio do vosso
olhar,--um só raio que me illuminasse o peito, para pôr em relevo dentro
d'elle toda a somma de santos sentimentos para vós,--sómente para
vós--guardados alí!
A abafada canção da agua babujando os flancos do navio faz a surdina
dolente que acompanha as mestas lamentações do meu espirito obsidiado
pela afflicção das saudades.
Ás vezes, a deshoras da noite, quando o firmamento escuro apresenta-se
deserto das suas luzentes tauxiações risonhas, e só a floresta da margem
rebôa agitada pelo cadenciado barulho da possante machina, embalde busco
pelo ceu do meu espirito certo par de estrellinhas annejas,--que são
os doces olhos petulantes de minha filha, fanaes da vida minha.
E só a luminosa palpitação phosphorescente dos pyrilampos tremeluze
rápida no tenebroso velludo dos aningaes da beira.
A solidão augmenta-me os pezares, quando a hora do crepusculo da tarde
vem descaíndo vaga pela terra, deslisando do inflexivel pendulo do tempo
com a dura impassibilidade d'uma desgraça tremenda.
Gaivotas, alegrias do rio! Alegrias, gaivotas do pélago da minha vida!
Porque fugís tão velozes, sem vos deixardes agarrar por estas mãos, que
vagam sem um apoio amoroso, sem vos deixardes aprisionar n'este peito,
fremente de meigas paixões santíssimas?
Rio Madeira, abril.
O Naufragio do Purus
O Naufragio do Purus
A H. Inglez de Souza
I
Este é o sitio em que, ha vinte annos quasi, afundou-se o _Purús_,
arrastando para o leito do rio algumas dezenas de cadaveres colhidos de
surpreza.
O Amazonas aqui, como conservando ainda a triste memoria do luctulento
successo, rola silencioso as suas aguas, cobre-se eternamente com o
intenso crepe, accentuado e mesto, do vasto rio Negro.
Têm as margens a apparencia de um recinto de funeral: socegadas e
desertas, monotonisam o quadro com a ininterrupta ostentação das suas
ramalhudas verduras densíssimas.
Nenhum gorgeio de passaro percebo na larga mudez circumdante.
No alto, o ceu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a
risonha alegria do seu puríssimo azul, adoravel como as pupillas d'uma
imagemzinha da Virgem, que minha Mae, em pequenino, ensinou-me a
reverenciar com o contemplativo respeito das creanças absôrtas!
Passamos n'este mesmo instante sobre o logar onde atufou-se a elegante
embarcação aventureira.
Um pensamento de saudade assalta-me o espirito, agora que deslisei
rápido por cima do líquido sapulchro de tantos infelizes.
Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações
da primeira edade e reproduzo na mente, consoante ás narrações da época,
o pasmoso entrécho do hórrido espectaculo.
Vejo pessôas de todos os sexos e edades, em meio á densa escuridão da
noite, bramindo apavorados gritos, impetrando o auxilio do ceu
impassivel, amaldiçoando o momento final com o tôrvo desespéro das
grandes afflições.
A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro naufrago n'aquelle
pégo, quasi tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de
esforços, conseguirão alcançar a margem anhelada; a mór parte,
porém, certo fraquejará impotente na violencia das aguas e rolará
inanimada aos profundos antros dos caimões!
N'um camarote, vencida, dominada por tredo somno, uma joven mulher
angelical, esposa extremecida e extremosíssima, é surprehendida pelas
aguas em sua descuidosa seminudez inconsciente e logo suffocada sem
haver tempo de reconhecer o perigo por que passa com os seus,--com os
parentes affectuosos e com o infeliz marido, o commandante austero, de
quem separa-a, sem transigencias, a comprehensão do cumprimento do dever.
E ali morre, com o pobre coração retalhado de angustias e amaríssimas
saudades, uma valente mulher de temperamento e actividade virís, guia e
ama de muitos d'aquelles naufragos. É a heroica exploradora d'uma
parte do rio Madeira, a veneranda mãe d'um punhado de homens honrados e
de honestíssimas mulheres,--a idolatrada mãe d'aquella excelsa creatura
que deu-me luz aos olhos e piedosos sentimentos ao coração!
II
Comprehendo agora perfeitamente a dôr que rasgou-te os puros seios
d'alma, querida Mãe, quando correram a referir-te o hórrido successo.
Creança quasi irresponsavel, eu não tinha a percepção completa
d'aquelles affligidíssimos desespêros em que te lançaste, com os olhos
amarados de lágrymas adamantinas.
Entrei a brincar-te com os longos cabellos pretos, minha adoravel amiga,
e um beijo tão sincero como a tua dôr deposeram-te na fronte ensombreada
meus labios deslaçados em simples phrases sem valor.
Hoje, porém, ó Mãe, avalío com justeza a afflicção que em ti causou tão
deshumano flagicio da sorte inclemente. Sondo, linha por linha, todos os
arcanos do teu seio, ausculto-lhe as precipitadas palpitações soluçantes
e lamentosas.
Choravas, inconsolavel e dolentíssima, porque deixaras de ter mãe.
Sinto conhecer-te a intensidade das penas, porque também perdi-te para
sempre e só minha alma pode saber a força de toda a violenta dôr que, ha
seis annos, confrange-a impiedosa, minuto a minuto, persistentemente,
tantas são as vezes que de ti me lembro, inolvidavel mulher que foste a
guia da minha infancia e a amiga insubstituivel da minha adolescencia!
Rio Amazonas--Rio Negro.
Brinde a minha Filha
Brinde a minha filha
Hoje é o dia do teu primeiro anniversario, querida filha.
És pequenina de mais, tens o espirito ainda cerrado á comprehensão
exterior das cousas, para poderes penetrar o jubilo immenso de que devo
estar saturado por esse acontecimento, sobre a vastidão d'esta valente
arteria amazonica, ao tempo que as perspectivas das verdes paizagens
apraziveis se vão succedendo gradativamente, n'uma suavidade que deslisa
tranquilla a meus olhos enlevados nas florituras das folhagens
ramalhudas.
Entretanto, devo escrever estas linhas que, no futuro, destinarei a teus
olhos e a tua alma,--sobretudo á tua alma, querido amor! Intima força
propelle-me a esta communicação silenciosa dos nossos dois espiritos,--o
meu ainda novo, porém já prestes a declinar para as florescencias da
edade madura e o teu velado ainda á vida do espirito, aos sentimentos
santos, pequenino botão de bogary transcendental, que nem sequer pensa
em desabotoar as cerradas corollas aos largos folguedos d'uma existencia
feliz!
E porque não falar-te hoje?
Quem sabe o que o dia de amanhã,--soturno cairel dos arcanos do
tempo,--não guarda para nós envolto nas iriadas roupagens do futuro?
A distancia que entre nós presentemente existe não é motivo bastante
forte para recusar-me ao desejo de escrever estas palavras simples,
destinadas á perfeita simplicidade do teu espirito.... d'aqui a meia
duzia d'annos, quando estejas no caso de entendel-as, meu amôr.
Nem tu sabes que multidão de alegres pensamentos vaga-me no cerebro,
hoje que um anno se completa que pela vez primeira te vi, rosada e
pequenina, quasi imperceptivel átomo-flôr d' uma existencia tão almejada
e bemdita pelo meu espirito milhares de vezes rejubilado!
Como estuava-me o coração, alargado em seus ambitos pelo prazer, todo
aberto ás santas paixões amoraveis de quem começa a gosar as grandes, as
mellifluas, as inebriantes sensações vitaes da paternidade! Com que
ternura immensa não te fitavam meus olhos, rasos d'agua, abertos como
n'um sorriso, revendo a tua pequenina imagem atravez da nervosa
palpitação imperceptivel dos cílios orvalhados das puras lágrymas do
contentamento!
Um mundo de pensamentos risonhos e transcendentaes produzia-se-me no
espirito, em luzida cohorte de festivas alegrias benéficas. Sentia-me
pequeno demais para creal-os, bastante insignificante para soletrar
tramando de emoção todo aquelle mirífico alphabeto enorme da mais santa
das paixões.
Era a completa alegria que manifestava-se d'ess'arte em minha alma,
porque pela primeira vez te via deante de mim, envolta em candidas
faixas, ao collo de tua mãe, que desabrochava o rosto n'um sorriso meio
doloroso e quasi todo espiritualisado já, como n'um altar immaculado,
erguido á tua innocencia pela ternura da Mulher que te deu á luz,
regenerada da culpa da especie pelo immanente martyrio da maternidade!
Hoje, que taes factos completam um anno, dia a dia, os mesmos
sentimentos revoam-me festivos pelo espirito, com egual força de
vitalidade.
Inscrevo-os n'esta folha, registro-os em tua alma, ó flôr, para
offerecer-t'os como presente d'annos em penhor do largo affecto de teu
pae, emquanto, separado de ti por grande distancia, levanto á sorte mil
votos pela tua felicidade futura, por tua existencia, por tua saude,
pela tua angelica pureza de donzella e pela tua inquebrantavel virtude
de esposa.
É bem possivel que não mais exista o auctor d'estas linhas e da tua
existencia quando possas lêr as palavras aqui traçadas.
Não importa! Servirão para lembrar-te que possuiste um pae
amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos todos da sua vida e, por
certo, ainda mesmo o pensamento final da hora derradeira!
Rio Madeira, abril.
O cemiterio da floresta
O cemiterio da floresta
Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante
inesperado espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e
arrasta-me tremula a mão, na tarefa de consignal-o no papel.
Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração
sentiu n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas.
Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio á floresta
densa, abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa
clareira era um cemiterio, um pequeno campo santo solitario e
melancholico,--sympathico todavia,--salpicado de cruzes toscas e negras!
A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro
refulgente do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas.
Ninguém parecia attentar n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a
tripudiante passarada das mattas volitava cheia de inconsciencia,
garridamente estrepitosa e jovial.
Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das
reflexões solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata
fundida.
E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo,
fechando o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia
entoar a langorosa monotonia d'uma surdina risonha do prazer,
sacudida em amplas vibrações de volupia.
Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza
empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos
sonhos acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a
força objectiva para o interior e, eliminando o seu poder observador do
mundo externo, nada comprehendem do que vem, porque só o cerebro
trabalha dentro da materia e o seu meio de acção anniquila-se perante o
vigor do espirito.
De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de
povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos á vaidade dos
homens, entregues á terra com toda a simpleza das grandes devoluções
pungentes, restituidos á obscuridade do nada para sempre, para
sempre furtados á ultima recordação marmorea que lhes lembrasse o nome
na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos?
Quantos heróes ignorados se não occultariam n'aquelle recinto, sob a
leve camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus
cadaveres meio decompostos?
Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o
recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas
cidades, onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido
infiel, respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe
o alvedrio, não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida
a lamentavel memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana,
já com o espirito occupado por amorosos pensares--adulterio
posthumo!--appareceria a ostentar o fingimento d'uma paixão que não
possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao
primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica.
Ali, sim, ao homem honesto e severo, á mulher virtuosa e amante, á
innocente creancinha levada ao descanso perennal após breve apparição na
terra, grato, gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar
alfim, descuidosos na eterna immobilidade dissolvente da ultima
pacificação,--separados de toda a phantasia ephêmera e das convenções
banaes da fallaciosa hypocrisia social.
Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir
o nome d'um sêr cuja existencia o tempo consumiu,--candeia extincta,
apagado fanal do pelago da vida? Recordar o nome d'um morto,
perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de insulto, é uma violação
que põe o finado na emergencia de se lembrarem d'elle os maus, os
pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma vez
negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu espirito.
Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres
das privações no meio d'essa esplendida orgia de verduras amazonicas!
Tão bem vos acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio
escalvado na rapida ribanceira.
A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes á
terra na modesta elaboração d'um acto naturalíssimo e a vida que
fermenta entre as raizes d'essas bellas e grandes arvores viridantes
vae buscar nos vossos cadaveres aquillo que lhe podeis dar:--a cada
minuto um átomo de seiva, tirado á tépida fermentação da vosa carne,
outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada, mas operadora do
beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a prestar-lhe.
Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após á
extincção da minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo,
enterrasse-me o corpo em vossa companhia, ó eternos moradores do
cemiterio da selva! Julgar-me-ia feliz, com a satisfação e o orgulho
d'este ultimo capricho realisado.
Teria, como vós, o supremo _requiem_ dos trillos dos passaros, do
farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas
longinquas regiões do Madeira e dos murmurosos beijos do
gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, ora envolto no
denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas amplas
disseminações de prata fundida que o sol por cima d'elle parece lançar
ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós,
lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos
prantos pluviaes.
Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores
do cemiterio da floresta!
Rio Madeira, abril.
UM ANNIVERSARIO
UM ANNIVERSARIO
Á memoria de minhã irmã
A meu irmão.
Seis annos, hoje, que finou-se a mais santa das creaturas, a mais
querida e amoravel das mães.
Perante a emotividade profundíssima do meu ser, não tem hoje poder as
largas pompas magestosas d'este romper de dia sereno sobre a paizagem
Assoalhada, vibrante de esplendor, fremente de canções d'aves
silvestres. Ao contrario, tudo me parece melancholico, monotono, quasi
hostil, porque recebo as impressões externas atravez dos meus
sentimentos e estes concentram-se nas amaríssimas dôres excitadas pela
inapagavel recordação da morte de minha mãe!
*
Ha d'estas originalidades no fragil espirito humano: diz alegres os dias
pluviosos, encontra-lhes graça, apraz-se em aspirar humidade na
meia-sombra dos nevoeiros,--se algum prazer abala-o jubiloso;
entretanto, encara indifferente ou raivoso as glorias da natureza; não
tem um olhar para as galas triumphaes do espaço azul rutilante,
acolchoado d'alvas nuvens pannejadas harmonicamente; enfastia-se e
agasta-se até com a passiva tranquilidade das coisas, com o chilrear
dos passarinhos,--quando algum desgosto lateja-lhe no coração
encarquilhado ao peso das grandes dores supremas!
*
Estou a recordar-me das funebres e tremendas peripecias d'aquella
inolvidavel tarde de 21 de abril, ha seis annos.
Uma pequenina alcova de matrona,--grave aposento destituido de luxo
banal, apenas confortavel. Ao lado d'um guarda-vestidos, pesado e bom,
uma mesa coberta de frascos de medicamentos com etiquetas multicôres,
borradas de receitas pretenciosamente escriptas em termos barbaros,
chocantes de ouvir, indicando venenos medidos aos millesimos, com
mysterio.
Ao fundo, uma cama austera, toda branca em seus lençóes e colchas, sob
os quaes desenhava-se um corpo longo, pouco amplo, de que apenas via-se,
repoisada em grandes travesseiras alvas, uma cabeça de mulher,
encaixilhada em bastos cabellos negros, lustrosos, apenas aqui e ali, de
longe em longe, irisados de fios brancos que desprendiam o brilho
metallico da prata polida.
Os olhos, semi cerrados, fitavam um ponto unico da parede fronteira,
onde um pequeno raio de sol, atravessando o arco de uma janella da sala,
fixava-se insistente, como receioso de desapparecer além, atraz das
casas da praça, ou desejoso de não abandonar, no meio-tom confuso d'um
crepusculo precoce, aquelle quarto mortuario, em que estava para começar
uma agonia. O olhar de minha mãe persistia fito no luminoso
circulosinho, que accendia de amarello a brancura da parede nua.
Quem sabe o que vém os moribundos nos seus derradeiros momentos lúcidos?
Que visões obsidiam-lhes os ultimos, instantes, subjugando-lhes o
espirito já tão enfraquecido, dominando-os poderosamente? Vêm pela
ultima vez o goso de alguma ventura occulta, entristecem-se pela proxima
separação do encanto da vida ou entrevem já o beatifico descanso
interminavel que aguarda-os no pó da sepultura?
*
Quasi seis horas. Continuavam os olhos presos ao circulo luminoso, que
subira mais, approximando-se do tecto, n'um deslisar de vida que se
extingue suave.
Pelo rosto emaciado de minha mãe não corria sombra de soffrimento. As
faces cavavam-se levemente, o nariz afilava-se, com a transparencia de
cêra dos entes que vão morrer. Entreabertos, os labios deixavam passar a
respiração com um offêjo ciciante e molesto, brandamente. Dir-se-ia
dormitar a enferma, a não serem os olhos, agora um pouco mais abertos do
que antes...
Em torno, alguns parentes vigiavam immoveis, com a expressão
contristada, transida, que temos ao esperar a morte. Á cabeceira, de pé,
encostada ao espaldar do leito, minha irmãsinha chorava em silencio,
enxugava as incessantes lágrymas, suffocava os soluços, para não trair-se.
Quem atrever-se-ia a mostrar que soffria, perante aquelle resignado
soffrimento que tão bem continha-se?
Meu irmão egualmente quedava-se perfilado, os olhos cravados n'esse
rosto pállido, n'essa bemdita fronte eburnea que a virtude aureolava,
n'esses doces labios que presentiamos frios, frigidíssimos, não obstante
o ardente halito que esfrolava-os, ja osculados pela morte!...
Aquelles labios sonorosos, aquelles labios cantantes de mãe
brazileira,--quem poderia mais galvanizal-os, fazel-os vibrar com o
dulcíssimo affecto maternal que era o nosso ineffavel enlevo na quadra
festiva da meninice descuidosa?
Onde iriamos beber os prudentes conselhos que esses puríssimos labios
proferiram, deixaram cair em nossas almas como um desfiar de pérolas
raras em taças de cristal?...
Quem seria, d'ali em deante, a amiga incomparavel, a santa companheira
da nossa adolescencia ardente, a meiga representante d'esse encanecido
vulto,--heroico prototypo da affeição familiar, da honra, da dignidade,
de todos os boníssimos sentimentos,--que foi o nosso Pae?....
Oh! desgraçados que eramos! N'aquelle impassivel expirar de tarde
equatorial pomposa e abrazadora, iamos perder para sempre,--_para
sempre!_--o nosso mais valioso dote, a vida de nossa Mãe!...
*
Seis horas e poucos minutos, Desapparecera do tecto, sempre seguido
pelos olhos da moribunda, o circulo luminoso, a despedida do sol á vida
periclitante. Desmaiara mais, tornara-se apenas uma tênue mancha
amarella, breve transformada em sombra quasi imperceptivel. Depois,
esbatendo-se gradualmente, fôra supprimida. Desappareceu: começou a
agonia na enferma.
É doloroso assistir ao estertor dos moribundos. Terriveis embates
soffremos na alma. Primeiro, o egoismo natural no homem, excitado pela
lembrança de ir perder um ente amado; depois, a constatação de que nunca
mais poderá gosar-lhe do convivio, ouvir-lhe a fala affectuosa,
oscular-lhe a fronte calma, as faces sorridentes com a immensa candura
da virtude. Porém onde haverá mais requintado, mais vivo e agudo
soffrer, do que na propria sensação que experimentamos da agonia do
moribundo amado? Em que série de martyrios archi-excruciantes
classificar esse desespero tôrvo, enlouquecedor, vibrante, que em
nós erguem a comprehensão das dôres a que assistimos e a impotencia de
não podermos participar d'ellas, tomar para nós a maior porção,
attenual-as um pouco, com o osculo das mãos acariciantes e com a ternura
emolliente dos beijos ultra-expressivos dos ultimos, dos supremos
adeuses?...
Vinham-me ao espirito idéas estonteadoras, que levavam-me á meta da dôr.
Ver soffrer a santa mulher que deu-me a vida, que tão feliz foi sempre
em possuir nos braços enlaçantes os filhos queridos e amoraveis, era uma
provação capaz de abalar-me a solidez da razão. E depois, ha sempre, á
beira do tumulo de um ente que viveu em ligação intima comnosco, uma
evocação, rapidíssima porém muito minuciosa, de todo o nosso passado.
E o meu passado... quão unido estava ao d'aquella moribunda, que em vão
buscava, ao vaguear a vista já vidrada pelo aposento, o raio de sol que
viera despedil-a da vida, dar-lhe á alma, por um momento, na hora
extrema, a claridade immaculavel que ella sempre teve na consciencia, na
honra!
Vi-me creança, buliçoso e festivo, sem um desprazer além do provocado
pelas privações dos brinquedos. Vi-me em todas as situações da
existencia, em todas as phases d'uma juventude agitada, em todas as
peripecias das nossas viagens, das nossas diversões, dos nossos gosos.
Em toda a parte, de qualquer modo que manejasse aquellas scenas
retrospectivas, ella apparecia-me sempre como o misericordioso
interprete dos meus votos de felicidade, o meu anjo tutellar, o
amparo inilludivel da minha inexperiencia, o meu aconselhador
ajuizado como todas as boas mães.
Quanta saudade, quanta, do meu passado extincto!...
*
Alguém tinha ido á egreja proxima,--a dez passos d'ali, no lado opposto
do largo,--pedir o soccorro da religião e um levita acudiu, balbuciando
preces indistinctas, a ungir quem ia morrer.
A apparição d'um sacerdote que traz o extremo sacramento a um enfermo
apavora sempre. Ante similhante visita, eu e meu irmão principiamos de
novo a chorar,--nós que pensavamos já ter exgottado as lágrymas, tão
abundante fôra, desde trez dias, o nosso pranto.
Retirando-se o padre,--sempre murmurando orações em latim,--a agonia
augmentou. Vizinhos tinham acudido, serviçaes e bisbilhoteiros.
Causaram-me raiva, quasi molesto-os com uma demonstração mais evidente
do meu enfado pela sua presença, quando desejara, a sós com os meus,
receber o derradeiro alento da querida alma adoravel.
Porque ha de prender-nos a educação n'um circulo igneo, impondo-nos
dominio, heroicos fingimentos, até nos mais tremendos instantes da vida?...
Soluços mais rapidos de minha irmã fizeram-me esquecer esta série de
reflexões, voltaram-me para o leito onde estertorava já a doce
companheira da minha innocencia.
Acabei de comprehender este redobramento de chôro, vendo acercar-se
alguém com uma véla accesa, que foi posta entre as mãos afusadas e
lividas da moribunda.
Minha mae ia morrer! Oh dilacerante, immensa dôr trazida por esta
convicção!
Lancei-me de chôfre a beijar-lhe a fronte camarinhada de suor, os
cabellos sedosos, negros como a afflicção de minha alma, as faces
encovadas, os labios crispados, álgidos, por entre os quaes
esgueirava-se um lancinante estertor crescente, que dizia demasiado a
aproximação do momento fatal... Allucinado, pensei que a minha
vitalidade, a minha florida juventude poderia reanimar, devolver á vida
aquelle espirito immensamente amado e em vão tentava aquecer-lhe o
involucro com o ardentíssimo, impotente contacto dos meus beijos filiaes!
Mas, de subito, houve uma cessação na agonia... Estarreci... Iria minha
alma incrédula defrontar um milagre?... Oh! Deus era bom, Deus
existia então, além da lenda biblica!... O rosto de minha mãe serenara,
conservando, todavia, uma expressão retrahida, grave, como quem escuta a
voz interior d'uma interessante evocação da existencia inteira.
Os cilios palpitaram longos, n'uma projecção calma de sombra nas faces.
Brilharam os olhos, tranquillos de expressão e, vagaroso, subiu o olhar
para o sitio onde cravara-se antes o raio de sol extincto agora.
Logo, porém, desceu, afim de erguer-se ainda, para minha irmã, para meu
irmão, para mim... Demorou-se fito em minhas pupillas lacrymantes esse
inolvidavel olhar, tão sereno como a tranquillidade da sua alma sem
mácula, translucido n'uma expressão de quem medira o alcance do
grande minuto final.
Quem poderá estereotypar o ultimo olhar das mães aos filhos extremecidos?
Attonito, baixei-me a receber o afago d'esse olhar tão expressivo como
um beijo mudo. O milagre providencial ia operar-se, de certo. Eu
abençoava já o eterno Bemfeitor da humanidade... ingênuo no egoismo do
meu almejo.
Os labios, no entanto, descerraram-se. E, emquanto os olhos, um nada
mais vitreos, vagavam sobre os trez rostos dos filhos surprezos,
transidos de admiração e esperança, aquella bôcca lívida moveu-se no
balbucio inextrincavel d'uma phrase indistincta que, certo, era uma
prece, um conselho bom, uma benção, um adeus!
E os olhos fecharam-se, no mesmo calmo palpitar dos longos cilios,
os labios contrahiram-se á passagem d'um suspiro mais longo,--um soluço
dolentíssimo,--e a cabeça pendeu á direita, buscando o meu primeiro
beijo a um cadaver amado, quente do ultimo esforço para dizer-nos com a
vista a intensidade insondavel do seu carinhoso affecto!
*
Ha seis annos passou o horrendo transe que prostrou-me louco sobre os
despojos funebres da mais santa e querida das Mães.
Dura sempre a dôr d'um filho amantíssimo? Creio bem que sim.
Investigando a incalculavel profundez dos meus pezares, cotejando as
impressões de hoje com as do anno passado, com as do outro anno, do
outro e do dia em que estalou sobre mim a grande fatalidade,
verifico a persistencia da mesma dôr molesta, intima, enorme,
saudosamente triste, que levanta-me no espirito uma raiva contra a
gloriosa expansão d'esta manhã rutilante e contra o gorgeio sonoro das
aves, que estão, agora mesmo, a lembrar-me os doces cantos simples da
infancia, quando, todo prazer e venturas, meu coração acolhia-se no
tépido sacrario de affectos e caricias que era para mim o colo amigo e
protector da mais amoravel de todas as mães!
Onde estão os meus deliciosos sorrisos infantis de outr'ora?...
Rio Madeira, 21 de abril.
SEGUNDA PARTE
OBJECTIVISMO
A pesca do Deodato
A pesca do Deodato
Ao Sr. J. T. Lobato de Castro
O tenente-coronel Fernandes salivou com estrépito para longe, afim de
salvar a esteira que se estendia por baixo da maqueira e, ageitando no
longo taquary pintalgado a cabeça de barro topetada de tabaco legitimo
do Acará, proseguiu:
--É como lhes digo. A desobediencia aos preceitos da egreja traz sempre
após si a necessaria e indefectivel punição. Bem o affirma o
ditado:--Deus castiga sem pau nem pedra. É certo que, quasi sempre, a
consequencia lógica da culpa atraza-se tanto, que o peccador impenitente
prolonga uma existencia criminosa no meio da mais impassivel
tranquillidade, como se possivel fôsse á justiça do ceu esquecer. Muitas
vezes, porém, a pena succede-se á culpa sem notavel intermissão e, em
todo o caso, o espirito prudente só tem novo ensejo para arrenegar do
instincto maldoso do homem e colher no exemplo nova convicção da
sabedoria celestial.
Calou-se, pigarreou, fitando com tenacidade, d'um modo quasi severo, o
auditorio resumido e conspicuo: o Antonio Narceja, portuguez enriquecido
n'um barracão á entrada do furo do Pagé; o Dr. Polycarpo Varella,
juiz de direito, cuja recente remoção para Salinas filiava-se a
memoraveis façanhas eleitoraes, nos confins do Paraná, ao expirar a
situação conservadora, havia poucos mezes e Felix Jacaré, um cabôclo
muito republicano, sapateiro de officio, avô do pequenito que
dormitava-lhe ao cólo, esgaravatando machinalmente o nariz com o dedo
titubeante, a cara suja, os labios breiados de assahy, como breiado
estava o peito do camisão de riscadinho azul e branco.
Bateram nove horas n'um relogio pendente da parede caiada. Fóra, bramia
o mar. Pela janella aberta entravam, com a brisa, exhalações salinas e
esse borborinho confuso e melancholico das noites em plena roça. No
tecto de vigamento visivel, trilavam grilos. E, por intercadencias, a
luz do candieiro de porcelana pestanejava de leve, como se também
por ella passasse o arripio mysterioso das coisas tragicas que ali se
falava ou se o apavorasse o tom soturno das considerações philosophicas
do tenente-coronel Fernandes.
--Tem muita razão, acudiu Antonio Narceja, offerecendo obsequiosamente
um phosphoro acceso ao Dr. Varella, que sacára um cigarro de tauary.
--Conforme... obtemperou o Jacaré, cujo espirito de contradição era
conhecido na villa.
--Vou dar-lhe um exemplo, compadre, retorquiu Fernandes, risonho e sereno.
Pigarreou de novo, tornou a salivar. Depois, ageitando-se na rede,
emquanto os companheiros aproximavam curiosos os bancos, principiou.
*
Ha coisa de uns 25 ou 30 annos, vivia no Magoary um preto corpulento e
encanecido, cuja edade ninguém poderia calcular e que toda a redondeza
conhecia como sendo o mais ousado e feliz pescador da localidade.
Methodico, não passava um dia sem ir á pesca; afortunado, não atirava a
tarrafinha sem depois puxal-a repleta de peixes! Era um assombro, um
gosto admiral-o em acção! Parece que rejuvenescia-o o mar. Qualquer que
fôsse o estado do tempo, era infallivel encontral-o todas as noites,
pelas duas horas, descendo ao pequeno porto do barracão, a desencalhar a
canôa e logo fazer-se ao largo.
E que saúde de ferro tinha elle! Jamais conhecera um incommodo, uma dôr
de cabeça! Rijo como o acapú, afrontava os temporaes com a impavidez do
fatalista. E pela madrugada, quem saisse á praia, não deixaria de
descortinar muito ao largo, no mar alto, a pequenina luz intercadente da
canôa do Deodato.
Era rendoso o officio. Quando voltava á casa, depois do nascer do sol, o
pescador trazía atopetado o fundo da embarcação. Ninguém o vencia na
arte da salga, de tal modo que o seu peixe encontrava sempre melhores
offertas do que o dos demais pescadores da costa do Magoary, quando os
procuravam os compradores que iam revender em Belém.
Mas tinha um defeito o Deodato:--era um impio. Deveria possuir a alma
egual á cutis, porque desprezava as leis de Deus e zombava impertinente
de todos os mysterios da religião e de todos os actos do culto catholico.
Em balde buscara algumas vezes o padre
Simplicio--conheceram?--trazei-o á reflexão e demovel-o ao respeito pelo
Senhor. De tudo escarnecia o infeliz e, o que é mais revoltante, possuia
phrases curiosas, sophismas fustigantes, objecções irrespondiveis, para
combater os conselhos do sacerdote. Tudo era inutil. Não havia razão que
o impedisse de ir á pesca ao domingo e dia santificado como em qualquer
outro de trabalho.
--Você ha de acabar mal,--avisava o padre, entre carinhoso e recriminativo.
--Milhor p'ra mim,--retorquia o hereje, sarcastico.
*
Ora, uma tarde, era vespera de não sei que dia santo grande. Creio que a
Egreja rendia culto á Virgem sob a invocação de Senhora de Belém. Fazia
um calor enorme. O ceu estava claro, limpo, muito azul e tranquillo,
como tranquillo estava o mar. Na praia arenosa, as ondas vinham
desdobrar-se preguiçosamente, n'uma languidez ineffavel. Mas, ali perto,
nos mattos, estalavam os galhos, causticados pelo sol. E muito ao longe,
na linha do horizonte, alguns pontos sombrios, a custo avistados a olhos
nus, pareciam nuvens vagabundas no espaço ou podiam ser barcas de pesca
paralysadas á mingua de brisa.
No barracão, Deodato, semi nu, fumava, destrançando as redes. De vez em
quando, assomava a cabeça á porta, a inspeccionar o ceu.
Com a grande pratica que possuia, adivinhava, pressentia calma quasi
completa para toda a noite. Era isto de certo que lhe dava esse pequeno
rictus á commissura dos labios e lhe encrespava levemente a retinta
fronte. Maior trabalho seria o seu, pois far-se-ia necessario o remar
por longo tempo. Emfim, nem tudo podia ser feito á mercê dos desejos
humanos... E volvia á faina, de todo absôrto, fumando sempre.
Á boquinha da noite, appareceu um visitante inesperado á porta do Deodato:
--Póde-se entrar?
Era o padre Simplicio.
Sob o pretexto d'uma visita casual, pelo facto de passar ali proximo, ao
regressar da roça do Xico Sette, o sacerdote penetrava com o intuito de
verificar se o pescador iria aquella madrugada entregar-so ao costumado
trabalho.
A occupação do Deodato mudou-lhe a supposição em certeza.
--Não faça isso, homem de Deus; olhe que a festa é da padroeira da
cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará a falta de respeito...
--Ella bem que s'importa co'a minha vida!--respondeu o preto, com um
encolher de hombros que também poderia significar ao padre Simplicio o
fastio que as suas observações lhe causavam.
--E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse á minha missa, em
vez de ir amanhã á pesca; se eu invocasse a nossa amizade, afim de ser
attendido...
Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla
polpa dos labios os largos dentes alvos e disse com uma convicção
profunda, com um tom sarcastico e decidido:
--Eu ia mesmo, sim, senhor!...
Não houve razões logicas, pedidos, ameaças de penas eternas que o
demovessem. O negro era teimoso. Retirou-se o padre amuado, quasi
colerico, benzendo-se repetidas vezes no meio da escuridão do caminho,
tauxiada de pyrilampos loucos e murmurosa do longinquo coaxar de rãs,
nos lameiros.
*
Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o labio, lançou contra o
padre a reprovação tacita d'um gesto energico dos braços. O diabo do
padréca que tratasse dos seus negocios. E esta!
Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada
e logo atirou-se á rede, vencido pelo somno.
Aquella alma de incredulo estava entorpecida inteiramente. Do contrario,
teria tempo de reflectir nas observações do sacerdote e quiçá algum
sonho o prevenisse da sorte que aguardava a sua irreligiosidade. Mas o
infeliz dormiu como uma pedra até que os gallos das roças proximas
soltaram no ar socegado os seus cantos da madrugada, despertando-o.
Levantou-se o negro e, accendendo o farol, saíu com direcção á praia.