Levantou-se na aldeia uma celeuma contra o brazileiro, que, no dizer de
toda a gente, era um seductor de donzellas.
Dois dias volvidos sobre os ultimos acontecimentos, durante os quaes o
brazileiro não abandonara á noite o seu posto de observação, toda a
freguezia, conhecedora dos successos que elle causara, augmentados,
naturalmente, pela phantasia popular, murmurava indignada contra esse
homem que viera, com a presumpção do seu dinheiro, interromper a paz e o
socego da aldeia e lançar a desgraça no seio d'uma tão boa e santa
gente.
A propria Maria Luiza, o espirito do mal até ahi, passou a ser a pobre
avesinha da silveira arrebatada nas garras do gavião.
Nos dois dias que se seguiram áquelle em que Helena recebeu a carta de
Velloso, este, á mesma hora, fôra para o mesmo ponto da alameda dos
eucalyptos, na esperança de que Helena, quando o irmão desistisse de o
perseguir, apparecesse á porta.
Porém, naquellas duas noites seguintes, a decepção do brazileiro foi
indizivel, quando não viu apparecer João a vigial-o, nem tão pouco
Helena dava signal de si.
--Que se terá passado?... pensava, ao retirar-se.
Os dias passava-os em sua casa e na do visinho, que lhe communicava as
impressões que a seu respeito occupavam o espirito popular.
Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor:
nem sua propria mãe, que ás vezes lhe queria manifestar os seus
queixumes da vida lamentavel que elle levava, obtinha licença para lhe
tocar nesse ponto.
Elle começou a sentir remorsos da sua conducta.
Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo
devorador, elle não se atrevia mesmo já a apparecer na presença dos
obreiros que se occupavam na construcção da sua nova habitação.
--Ó senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manhã do
terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamêda ficou sem
filho nenhum em casa! Ficou com elle o moço, mais aquella rapariga que
lá tem, filha do fallecido João da Junqueira, e dizem que vão casar para
ficar na companhia do velho...
Mas o Neves achou inutil continuar, a não ser que quizesse fallar para
as paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos
calcanhares, e, como um ébrio, sem dizer palavra, deixou o visinho
embasbacado a olhar para elle, fallando comsigo:
--Mas onde diabo irá elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a
tempo! Onde irão elles já!
E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de
presumpção:
--Ora ahi está para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre como
eu, succedia-lhe isto? Olha lá se eu me incommodo com nada! Não tenho
dinheiro; assim, as mulheres não esperam nada de mim, por isso não deito
a perder ninguem! Nem me perco a mim!...
* * * * *
O brazileiro, como um allucinado, penetrou no páteo do tio Alamêda.
Parou, olhou em roda, e não viu ninguem. Chorou então ao vêr-se só
n'aquelle recinto, onde cada objecto despertava na sua memoria uma
saudade do dia em que pela primeira vez alli entrou, e arrancava ao seu
coração uma gotta de sangue que lhe assomava aos olhos transformada
n'uma lagrima.
A porta da casa estava fechada; e elle, não podendo resistir á desolação
do seu coração, sentou-se no tronco d'uma oliveira que estava estendido
no pateo. Appoiou a fronte sobre as mãos e deu curso ás lagrimas que lhe
affluiam aos olhos........................................................
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Meia hora depois, sentia que lhe tocavam n'um hombro.
Olhou, e viu na sua frente, ao pé de si, o tio Alamêda, a olhal-o com um
olhar velado por uma profunda angustia e cheio de ternura.
Instinctivamente, estendeu para o velho os braços e cingiu-lhe os
joelhos, proferindo estas palavras com desalento:
--Perdão! Perdão para um infeliz!
O velho, tentando erguel-o, disse, com as lagrimas rolando pelas faces
enrugadas:
--Levante-se! Que Deus lhe perdôe, assim como eu lhe perdôo.
O brazileiro ergueu-se, e, com voz trémula o angustiada, perguntou:
--Helena para onde foi?!
--Helena foi procurar a felicidade que o senhor lhe não podia dar.
Morreu para mim e para o mundo.
--Para um convento?!...
--É verdade! E meu filho partiu na companhia d'ella com tenção de
embarcar para o Brazil. Acompanhou-os o nosso bom e santo prior, que
prometteu internal-a n'um recolhimento.
--Oh! Isto e cruel!
--Sim! É cruel, para um pae que, d'um instante para outro, se vê privado
da companhia de seus dois queridos filhos. Um, para nunca mais voltar.
Outro... quem sabe?! Talvez tambem para nunca mais me tornar a vêr, nem
voltar a esta casa onde viveu vinte e cinco annos tão feliz e contente!
Os dois choravam. O brazileiro não ousou interromper as lamentações do
velho, que proseguia:
--O senhor está vivo graças ás minhas lagrimas que puderam conter o
braço armado de meu filho. Agora, que Deus o reservou, não queira
continuar na sua senda de opprobios por onde tem caminhado. Ainda pode
compensar uma parte d'esta serie de infelicidades que causou.
Arrependa-se do passado, e faça por esquecel-o com um futuro glorioso.
Eu, pela minha parte, perdôo-lhe; Helena, que tem um coração d'oiro,
tambem lhe perdoará, e meu filho da mesma maneira. Falta só Deus. Para
conquistar o seu perdão, faça o que eu já lhe disse: salve o passado com
o futuro.
--Mas Helena... como poderei obter o seu perdão, se...
--Deus lhe transmittirá a sua prece. Não precisa de o ouvir, para lançar
sobre a sua memoria o perdão que se concede ainda aos maiores
criminosos.
O brazileiro estendeu ao velho a mão, e, com firmeza e resolução, disse:
--Aperte esta mão: é a mão de um rehabilitado.
E, conservando apertada na sua mão mimosa a mão rugosa do velho,
continuou, com voz pausada:
--Fui criminoso; mas fui um criminoso inconsciente. Farei como o senhor
me diz e como me dicta a minha consciencia, procurando no futuro
regenerar-me do passado. Se, até aqui, o meu dinheiro tem sido olhado
como um instrumento criminoso para eu conseguir fins vergonhosos e
deshonestos e como uma base tôsca sobre a qual eu edificava, sem olhar
para o berço pobre onde nasci, o meu castello de opulencia, quero que
para o futuro seja olhado como um maná celeste que, descendo ao seio da
miseria, vá mitigar a angustia dos necessitados. Quero que elle seja a
alavanca que me erga do lodaçal em que me sepultei. Já que eu, nascido
na pobreza, tive a sorte de me elevar de modo a poder estender as azas
na mesma camada atmospherica onde os ricos se libram sem lançar um olhar
para baixo a contemplar, com olhos de piedade, as luctas cruciantes da
miseria, eu quero, então, descer d'essa altura para penetrar nos
tugurios pestilentos, nas espeluncas, para alimentar quem tem fome,
aquecer quem tirita de frio, e seccar as lagrimas de quem chora.
O velho abraçou-o commovido, e accrescentou:
--E d'esse modo será amado dos homens e abençoado de Deus; e subirá mais
alto, muito mais alto do que aquelles que, conservando-se lá em cima,
não lançam um olhar de misericordia cá para baixo!