XV

No dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu

capote e, pegando no marmeleiro--seu inseparavel companheiro

nocturno--saiu de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um

quarto d'hora, e, na volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse

affirmado bem para um ponto do escuro das arvores, teria notado uma

negrura mais densa. Fôra o Velloso que escolhera aquelle ponto para seu

posto de observação, donde se descortinava, atravez da negrura daquella

noite sem luar, o vulto da casa de Helena, divisando-se no seguimento da

estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu allumiado pelas estrellas.

João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro

fronteiro.

O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.

Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas

folhas das arvores.

Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi

imperceptiveis, na torre de Eiról.

Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.

Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada

mais se ouviu na estrada deserta.

* * * * *

O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes

acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que

resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca

do succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia

seguinte a Maria Luiza.

Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o

remorso lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades,

attribuindo a causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não

comprehendia.

Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se

faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á

hora das Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do

campo, e não respondera á sua salvação.

--Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.

--A mãe que diz?! Encontrou-o...

--Encontrei-o alli acima.

--Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel

anciedade.

--Ao toque das Ave-Marias.

E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o

coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.

A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para

Maria Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de

quem se recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo

remorso.

Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a

João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar

a ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava

interrogar ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso

ironico; e, não achando outro remedio que pudesse alliviar a afflicção

em que a via, resolveu, sem o communicar á filha, ir a casa do tio

Alamêda saber da saude de João, pois outro motivo não podia haver que o

impedisse de sair, senão a doença.

Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não

oppunha obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e

foi no mais firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas

que obrigavam o seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro

dia, se dirigiu para lá, eram dez horas da manhã.

Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de

sobreiro para uma chavêlha.

--Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!

--Muito bom dia, sr.ª Rita.

--Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?

--Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha

que tempos tambem que a não vejo!

--Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para

cima...

--E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu

aido, porque já não posso, estou velho.

--Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em

socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito.

--Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por

elles o que pude...

--Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns

bons filhos.

--Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.

--Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou

dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...

--Dirá...

--Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João

pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para

comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom

coração...

--Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe

isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que

não reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso,

apezar do que para ahi diziam...

--Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e

por isso...

--Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um

rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um

pobre...

--Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma

grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só

tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de

Natal--na noite de ceia--e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois

ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em

chorar, que até me retalha o coração.

--Pois olhe que eu não sei o motivo...

--Então elle não está doente?!

--Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas

fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de

manhã, levantou-se e foi para o trabalho.

--Sim?!

--É verdade.

E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que

viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade

de sua filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.

Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do

trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de

Maria Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito

contristada, saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si

á filha que outra vida não fazia senão chorar.

--Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que quanto

mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou?

Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!

--Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar

por contos...

--Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu

logar, procederia d'outra fórma.

E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do

filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer

acontecimento grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois

seres que tanto se amavam.

Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a

Helena.

Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de

fallar com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle,

cuja significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por

uma terrivel angustia, tinha emmagrecido.

O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a

dôr que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a

phisicamente. Uma unica consolação encontrara para a mágua: as

lagrimas--esse terno confidente dos infelizes--que vertia a sós na

reclusão da sua alcova, que lhe alliviavam as amarguras do coração mas

lhe desbotavam as côres do rosto e tarjavam de roxo as cavidades dos

olhos.

Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo

a carta, vinda da parte de Velloso.

Correu ao seu quarto e leu:

«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de

tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as

noites vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa

portaria que é para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr

apparecer como o meu anjo salvador, vejo teu irmão, que me espia,

esconder-se na escuridão do muro fronteiro, e, depois de, durante cerca

de duas horas de cruel espectativa, me conservar no meu posto de

observação, vejo-o retirar-se.

Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho

de te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena,

e vae, com certeza, ferir de tal modo o teu coração bondoso, que até

receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta

chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de

communicar-t'o, principio, pedindo-te que conserves a maior presença de

espirito e confies em Deus para que não te faça desanimar á vista do que

vaes lêr.

Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a

respeito de teu irmão que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria

Luiza, que eu não conhecia. Dizia-se que ella fôra uma mulher leviana, e

que por isso não era digna da dedicação de teu irmão, um rapaz querido e

estimado de toda a freguezia; que este perdia muito no seu conceito se

casava com ella, segundo constava. Como não me interessava com o caso,

apenas lamentei a sorte de teu irmão, com quem eu não tinha relações.

Depois, porém, que te conheci, que te comecei a amar com este amôr louco

que te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra

d'elle e minha, porque era irmão da minha noiva, affastal-o do caminho

errado que trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador.

Convencido como estava, pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza

tinha sido uma fraca mulher, e que agora se mostrava outra para

conservar teu irmão na illusão em que andava, resolvi que ella

resvalasse ao lodoçal d'outrora, para que teu irmão, abrindo os olhos,

visse a desgraça que estivera imminente de si.

Consegui, com effeito, graças ás minhas promessas, o meu intento.

Jurei-lhe até que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas

de que a accusavam. E... cruel decepção! Maria Luiza estava pura, tão

pura como tu, minha Helena, quando...»

Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta até este ponto,

sentiu uma nuvem toldar-lhe a vista e, amarfanhando a carta, caiu de

bruços sobre o leito num chôro convulsivo, murmurando em delirio, a voz

cada vez mais apagada:

--A lua estava tão triste!... Um môcho, a piar mais triste, fez-me

calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito

feliz!....................................................................

..........................................................................

Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expressão de bondade,

tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar

ancioso, e perguntou ao pae, sentado á cabeceira da sua cama:

--Pae?... A carta?...

--Está aqui, minha filha. Socéga. A agitação faz-te mal; não é verdade,

sr. doutor?

--É verdade. Ella quer muito socêgo de espirito. É o unico remedio que

lhe receito.

--É coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o

velho.

--Não. Não vale de nada. Ámanhã pode levantar-se. Mas has-de estar muito

socegadinha hoje, ouviste?

Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:

--Leu essa carta, meu pae?

--Filha da minha alma, não ouviste o que disse o senhor doutor? Não te

preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socéga...

--Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em

sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas

que era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade não é

aqui. Já vê que não agito o espirito a modos de me fazer mal.

--Mas não falles mais n'isso. Ámanhã fallaremos e...

--O pae leu a carta toda?

--Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e até quem a leu foi o

João.

--O João?! E que disse?!

--O João está socegado. Está na cozinha. Mas peço-te por amôr de Deus

que não falles mais nisso hoje.

E, pegando-lhe numa das mãos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas

nos olhos, dizia:

--Faz-me a vontade, sim, filha?...

Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja

leitura não queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.

Scenas da Aldeia · 第 25 / 29 题