Tres annos depois erguia-se, no sopé d'um outeiro de suave declive, uma
casa de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie
que, semeada de casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua
frente.
O outeiro era revestido em toda a volta do seu sopé por pampanos verdes
de vides que o engrinaldavam como uma immensa corôa de verdura que
estremecia sob o sopro da viração; e no seu planalto estendia-se um
pinheiral de pinheiros miudos e distanciados que cresciam por entre um
tapete de urzes floridas, dando, visto de longe, a ideia de um jardim
suspenso de Babylonia.
Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manhã
pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do
Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava,
parecia uma d'aquellas vivendas phantasticas que nós, quando fomos
pequenos, anteviamos atravez da nossa imaginação infantil, excitada pela
narração d'um conto de fadas ou de princezas encantadas que nossa avó
nos contava ao serão.
Todos os dias, á tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera
limpida, e o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saía
d'aquella vivenda e ia passear pelas veredas do outeiro, contemplando,
ditoso, as varzeas sorridentes por onde serpéa o poetico Vouga.
Ao passar por elle, os aldeãos descobriam-se respeitosos e cheios de
acatamento, envolvendo-o n'um olhar dôce de sympathia e veneração, e ás
vezes ficavam-se a contemplal-o com expressão de intimo jubilo até o
verem desapparecer na curva de um atalho.
Nunca um mendigo se lhes approximava que não voltasse com aspecto
sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.
--São uns santos! São uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se.
Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, cá no mundo!
Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a
fome, a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a
noite estendia o seu manto negro sobre a aldeia, uma mão esmoler e
caritativa saía a ministrar o alento aos infelizes que, por vergonha ou
impossibilidade, não ousavam sair do seu tugurio onde se debatiam com os
horrores da miseria.
Essa mão que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos
infelizes e se subtraía modesta aos ósculos de gratidão, era de Maria
Luiza, a esposa do dôno d'aquella casa, tão rico como caritativo, que
distribuia santamente os rendimentos da sua riqueza.
O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos
antes, circulando em volta d'aquelles dois sêres, tanto emocionaram a
alma popular, e o sr. Velloso é agora a caridade personificada, amado
dos infelizes, respeitado por todos os que o conhecem.
Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de
cabeça calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi
todos os dias passar alguns momentos com elles.
Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais
que em todo o resto da vida.
Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua
companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam
esses dois seres--Paulo e Julia--que a Providencia lhe atirara pela
porta dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes
faltara.
Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua
Mãe: «ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso,
conserve-os na sua companhia».
E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a
necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.
Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e
perguntou-lhe:
--Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente
fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha
companhia abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia
para ella. Convém que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da
minha vida. Vou perfilhar Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia
que, se concordares com ella, dispensa isso. Queres casar com Julia?
O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos,
sem poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.
--Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com Julia?
--Se quero!...
Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a
paixão da sua alma, manifestou quanto amôr occultara durante dois
annos no seu peito.
--Bem! disse o tio Alamêda cheio de contentamento. Pela tua resposta,
vejo que gostas d'ella a valer, não é verdade? Não sabes quanto estou
contente com isso. É preciso agora saber se é do gosto d'ella casar
comtigo. Vae chamal-a.
E Paulo, não cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.
Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues
cheios de doçura e de submissão:
--Que quer, pae?
--Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com
Paulo, fazias-me a vontade?
Julia fitou os olhos no chão, ruborisada, dando naquelle silencio a
resposta mais eloquente que lhe podia dictar o seu coração apaixonado.
O velho, comprehendendo então nesse momento que o seu desejo era a unica
felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e
poisando paternalmente a mão na cabeça loira da creança, disse com
extrema bondade, pondo-se em pé:
--E tiveste a coragem de me não revelares esse segredo, hein? Vejo que o
amas a valer, e não me tinhas dito nada, minha másinha?
Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a
contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com
candura.
--Está bem; continuou o tio Alamêda. Quando o nosso João vier, o que não
ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua
chegada com o vosso casamento; e...
O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria, onde estava um
homem, com uma porção de cartas numa das mãos e um sacco de couro a
tiracóllo.
--Ill.mo senhor José Nunes da Alamêda!
E estendeu um braço com uma carta na mão.
Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto,
estremeceu. Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil,
occultou o rosto no avental, soluçando.
O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trémula:
--Que é, Julia?! Alguma nova desgraça que nos sobreveio?!...
Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces
banhadas de lagrimas, estendendo a carta para o velho.
--Seja o que Deus quizer! Lê, filha, lê. Estou resignado com a vontade
de Deus!
E, appoiando-se, curvado, sobre o bastão que segurava com ambas as mãos,
meneava dolorosamente a cabeça.
Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e
desdobrou a carta.
Paulo tinha-se approximado, egualmente pállido, e, sem proferir uma
palavra, collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabeça
á d'ella e olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as
lettras que não entendia, porque não sabia lêr.
Julia lêu para si a primeira linha, a participação do óbito de João, e,
deixando cair os braços, olhou, banhada em pranto, para o velho.
Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoção:
--Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade.
E, estendendo as mãos para os jovens, que estavam na sua frente
semelhando os conjuges em frente do padre, disse:
--Levou-me os filhos, e deixou-me a vós. Sois os meus pupillos, e d'ora
avante sereis meus filhos.
Abraçou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada
pelos soluços:
--E que Deus abençoe o vosso amôr, como eu o abençôo!