Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de
chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creança.
Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das
estrellas.
Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco
adeantada da noite--eram nove e meia.
Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e
recolher com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes
estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunião e
cavaqueira nos cafés, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar é um
cenaculo de alegria, paz e amôr, e sómente ás vezes, quando nas noites
longas de inverno podem dispôr de algum tempo de distracção, juntam-se,
até ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde
ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites dão para tudo»,
dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que
se estabelecem os principaes pontos de reunião--os nucleos da ingenua
cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos
que mais impressionaram a curiosidade publica.
Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as
folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de
estrellas, parecia um immenso campo cheio de flôres.
A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se
cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na
sombra.
Em seguida um outro vulto--o vulto d'um homem encapotado--se deslocou do
escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.
--Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao
approximar-se.
--Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de Helena.
--Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos
desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que
ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o
apoquenta e que só tenho podido exprimir por olhares!
--Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo
que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é
insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me
parece ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não
tenho experiencia do mundo...
--Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que
da sua parte houvesse para commigo egual affecto!
--Ha! Talvez mais...
--Oh! Não diga isso!--E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor
crescente--É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem
limites!...
--Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar
este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a
razão, em que esta ficou vencida por aquelle...
--Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha a felicidade de poder
mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as
aspirações do meu coração!
--Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez
sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o
poder de fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha
felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu
coração suspira, a vida inteira.
--É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi
muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas
agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!
--Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um
sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas
essas...
--Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha
transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!
E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco,
transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão
candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava
nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo
sensações até ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.
--Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris
as mãos tremulas d'ella.
--Acredito. Eu tambem o amo muito...
--Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um
sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!
--Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo. Mas peço-lhe que falle
mais baixo, porque Deus me livre que alguem ouvisse!
--Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha
mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos
vissem?
--Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos
livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!
--Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.--E,
baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe
palavras ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio
dulcissimo.--Helena, meu amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta
felicidade, que o julgo quasi impossivel! Se eu fosse pobre, talvez
acreditasse no que dizes. Ahi está para que serve o dinheiro! Para nos
lançar o coração no desespero! Helena! Juras que me amas?
--Juro!...
A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do
pescoço, com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com
meiguice:
--E juras amar-me sempre?
--Sempre!...
--E muito? Tanto como eu a ti?
--Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por
aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.
Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava
inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um
salpico de lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.
E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da
portaria que se fechava occultando á exigua claridade da estrada as
sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados--um, com um sentimento
todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo
lubrico...................................................................
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A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se
abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.
Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:
--O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha,
Joaquim?!
--Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos
annunciando um paraiso de felicidades.
--Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de
tamanha melancholia!
--Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa--a nossa
casa!--d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá
juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha;
e havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de
mandar fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.
--Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha felicidade?
--Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por
esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!
E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:
--Adeus. Até ámanhã.
--Adeus Joaquim!
Helena conservou-se á porta até ver desapparecer o vulto do seu
bem-amado numa curva da estrada.
Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o
piar lugubre d'uma ave nocturna.
Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:
--Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...