Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo
a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a
vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só
inspiravam tristeza, começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e
tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando,
cantando, juntam a sua alegria á alegria da natureza, parecem inebriados
com tanta doçura.
Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã--uma manhã de
agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de
vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da
atmosphera d'uma extrema limpidez--uma d'estas manhãs cheia de vida que,
gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um
desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.
O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com
um sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo
de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas
por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados,
recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para
nunca mais voltar, e, na sua profunda abstracção, estremece á voz d'um
homem que, por detraz de si, o chama.
--Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?
Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus,
de arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de
orvalho.
--É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe
parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então
anda caçando, logo de manhã?
--Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli
pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para
me entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao
almoço. Entrei por aqui dentro sem pedir licença...
--Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas
ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o
receber.
--Muito obrigado! Muito obrigado!
--Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço
e...
--Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!
--Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que
me fique obrigado...
--Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa, e...
--Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve
trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...
--Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...
--Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de
almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe
fallo...
--Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o prazer
de almoçar na sua amavel companhia.
--Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.
E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a
cerca de cem metros.
Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da
agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca
novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um
anno de fome; applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá
el-rei o carro e o carril».
--Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o
maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a
queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».
O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas
considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com
monosyllabos, acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo.
Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como
quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vêem um dia
deitados em leitos fôfos e voluptuosos e gostam de alardear os seus
haveres, elle fallou dos seus negocios, das transacções dos seus
capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na
aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde
andava já a construir uma casa, etc., etc.
Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.
--Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O sr. Velloso almoça hoje
comnosco. Prepara-lhe o almoço.
Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador
sorriso o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com
uma mesura envolvendo-a num olhar de sympathia.
O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena,
coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e
linguiça.
Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as
calças empoeiradas.
--Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está
prompto o almoço?
--Sim senhor.--E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede para
almoçar.
--Um hospede? E quem é?
--O brazileiro, o sr. Velloso.
--O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!
--Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás
zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.
--Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito
com elle?
--Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma
leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido
ao irmão, affastou-se, dizendo:
--Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!
Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo
angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto
entre as mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza......................
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Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se cortezmente e muito
reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente gente o
tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com
que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por
outra, fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem
egualmente á sua casa nova, logo que estivesse concluida.
--Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae
ficar uma obra bôa, e...
--Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!
--Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou
merecimentos para isso.
O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e,
estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.
--Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me
entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do
brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima
sempre que lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr.
Velloso.
--Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro
partiu--dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho!
Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter
muito bom coração. Parece muito bom sujeito.
--Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como
num echo, Helena.
Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares
incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e
João, pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho,
precedido de Paulo, murmurava comsigo:
--Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á
minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da
minha irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e
verá quanto peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no
Brazil? Experimenta! Experimenta, que o cacete t'o dirá!...
E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num
intelligivel crescendo:
--Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem
se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então
uns pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para
cá com as tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem
então lá um palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro,
que--Ah! Ah! Ah! até dá vontade de rir!--me vem dizer «que tome conta na
Maria Luiza, que anda tôla pelo _bisnaga_! Que era só elle fazer um
gesto, que a rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a
peito fazer-me alguma desfeita!» Que grande bruto me saiste,
Francisquinho das Neves! Que se livre mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria
Luiza! Que dois brutos me sairam o _bisnaga_ e o Neves! Este, embruteceu
com o dinheiro; o outro, embruteceu talvez pela grande vontade d'elle!
Ah! Ah! Ah!
--Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!
--Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem.
Não digas do que ouviste, percebes?
--Sim senhor.
--Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...
--Não ha duvida, patrão.
X
O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de
Jesus.
Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam
áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um
individuo, com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da
tia Maria das Neves passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um
cão fiel, prompto a defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem.
Com uma differença, porém: o cão serve seu amo a troco do alimento que
lhe dá, e o Neves dedicou-se ao Velloso de corpo e alma, imbecilmente,
com a dedicação dos espiritos boçaes que se inclinam, sem mesmo saberem
nem procurarem saber o motivo, a uma causa.
Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das
ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.
--Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após o
que foi logo procurar o visinho--parece-me que estou apaixonado pela
filha do Alameda.
--Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?
--Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um
bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras!
E é por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no
negocio.
--Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da
rapariga, ainda tem coragem de...
--És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a
valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de
pugnar pela honra da minha futura noiva. Percebes?
--Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...
--Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a
tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo!--E, fallando mais
confidencialmente, continuou--Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a
Helena. Não sei se me comprehendes...
--Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!
--Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste.
Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para
elle não andar de pé atraz commigo.
--Percebo muito bem.
--Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o
que has-de fazer.--E ajuntou com um sorriso malicioso:--E é mais uma
sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...
--Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de
as levar todas a fio!...
--Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais
bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que
a minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto
em questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais
um pio dás sobre o caso: só dizes ao filho do Alameda que aquillo foi um
gracejo da tua parte...
--Sei muito bem.
--Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.
--Já está mais que percebido.
--Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a
rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando
uma certa amizade... um certo amôr... até que...
--Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...
Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia--ou talvez o
dissesse instinctivamente!--a cathegoria do seu baixo mister.