XII

E Maria Luiza?

Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua

casinha, aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu

coração o balsamo suavissimo da esperança.

Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos

dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das

intemperies?

Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram

affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é

para ella d'um prazer indefinivel.

«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre

que ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras

refrigerio para as mágoas que a affligiam.

E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão

diaria, já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos

polida lhe feria os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de

lagrimas os olhos. A torrente do enxurro foi affrouxando de

impetuosidade; e agora, já de quando em quando lhe sôa ao ouvido um

«adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com uma especie de

arrependimento.

Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando--á tempestade segue-se a

bonança; a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.

Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos

retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que,

longe de se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou

obedecendo aos principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se,

vergonhosa e torpe, no vil sentimento da inveja.

Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a

occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um

proximo regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das

suas amigas em cujo olhar já lia o arrependimento.

E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de

delicias, muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de

gigante. No dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe

toldam o horisonte, ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu

azul, outr'ora carrancudo e tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso

despretencioso e ingenuo, como que annunciando-lhe não sómente o

regresso á vida de outr'ora, mas um mundo desconhecido, uma vida de

fausto...

Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na

meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida,

porque foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a...

Sim! Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias

do sr. Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento,

seis mezes de dedicações, seis mezes que são todo um protesto

eloquentissimo d'um coração apaixonado? Não! Maria Luiza não póde

ouvir-te, ó novo Creso da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos

com que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar

ingenuo e inexperiente d'este santo povo!

Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo

chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!

Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu

futuro--o futuro de ambos!--risonho como o sol ao nascer, lindo e

aromatico como um campo coberto de flôres.

E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem

da bocca d'um profeta.

--Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu

João--Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram

assoprar. Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal

empregado em ti. Convenci-o de que o enganaram. E elle--que coração

d'oiro!--acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu

casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a

tempestade, que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda.

Beijei-lhe as mãos em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas

lagrimas! Que coração aquelle!

--É como o teu, João!

--É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os

sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me

perdoou, mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae

assim, não devemos pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas

malvadas deixarem de fallar, então... verás! verás!

* * * * *

Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha.

Era á tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os

balidos dos cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas

jungidas á canga puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e

as vozes dos lavradores incitando os animaes ao trabalho, e os cantares

alegres das creanças que guardavam as ovelhas.

Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem

prestar attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um

rouxinol que canta em frente da sua janella.

Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo

desprezo da Maria Luiza? Não; porque esta tambem d'ahi a momento

estremeceu, cortando o fio aos seus pensamentos. Estremeceu á voz de um

homem que a saudava da rua.

--Olá! menina! Boa tarde!

Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo

para ella.

Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma

expressão sorridente:

--Boa tarde, sr. Velloso!

--Oh! conhece-me, e eu não tenho a honra de a conhecer!

--Quem o não conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico

é bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos

labios.

--Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de

formosuras.

--Não percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um tanto

embaraçada.

--Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte

alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga

bonita! Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli,

outra mais bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais

bonita que todas as outras!

--E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...

--É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou aqui.

É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento

com que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...

--Oh! senhor! Não tem nada que...

--Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de

contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei

impressionado com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e

perdôe-me se a offendo com a minha franqueza.

--Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor,

que...

--Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas

as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não!

Agora é que realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir

á vontade de contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a

todas as vezes que quizer, durante toda a vida. E então havia de estar

pasmado no meio do caminho, a olhar para si sem dizer palavra? Digo

então o motivo da minha admiração.

--É uma questão de pachôrra...

--Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma

simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua

belleza ter despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha

não sei quê que captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais

captivado fico! Vou-me então embora, para não ter de ficar aqui toda a

vida.

--Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella

sempre com o mesmo sorriso.

--Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se

de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu

agora, dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!--E

accrescentou, com expressão ficticia de pezar--Mas não admira, porque,

segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e

comtudo foi castigado como o maior dos embusteiros e como um grande

criminoso...

--Peço-lhe perdão, se o offendi; eu não queria chamar-lhe impostôr.

Queria sómente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de

verdade--atreveu-se ella a dizer--não deixavam comtudo de ter os seus

enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...

--Ora ainda bem que faz um pouco de justiça aos meus sentimentos. Alguma

justiça... não toda a que elles têm direito. Mas...

--É melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque

sinto que minha mãe chegou agora a casa e...

--Eu retiro-me. E peço-lhe que não fique fazendo fraco conceito das

minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa é crime, peço-lhe

humildemente perdão... e adeus!...

--Adeus, sr. Velloso.

--Bem! Isto não correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus botões.

E, sorrindo, continuou:

--Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o

demonio da rapariga não é peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em

embeiçar com ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,..

Nem parece o que dizem. Mas... as mulheres são impostôras como o diabo.

Nem que eu as não conhecesse! Oh! conheço-as tão bem como a mim mesmo!

Ou talvez melhor, porque muitas vezes não sei o que quero, e o que ellas

querem sei eu muito bem... Com mais duas ou tres palestras, sônda-se a

coisa; por demais é fingir-me apaixonado e prometter-lhe uma vida de

fidalga. Prometter-lhe-hei até casar com ella, pois que duvida ha

n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com uma mulher pobre

de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella ideia! E o

rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa. É para bem d'elle... e

meu!--accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso! Velloso! Não ha

mulher que te resista!...

E caminhava cheio de contentamento, em direcção ao campo, rindo-se

sósinho, como um idiota.

O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dôce penumbra começava já a

inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando,

eram apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao

hombro, se punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo

os rebanhos.

--Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o

sr. Velloso, espraiando a vista pela planicie, empertigando-se e

affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.

Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios

de vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo

brazileiro, interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:

--Adeus!

O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um

quasi imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:

--Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem

as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não

se esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de

costume!

O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa;

uma suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.

O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso

salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que

accendeu, e retrocedeu.

Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e

as Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.

--«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha

remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.

Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou

alguns instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes

distinctas que se alternaram.

Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.

Scenas da Aldeia · 第 22 / 29 题