Era n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam
no adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual,
emquanto outros, já velhos, e algumas mulheres, de todas as idades,
entravam religiosamente na egreja.
Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do
evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado
por um sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada
para a missa.
O tempo deslisava, havia já uma semana, sereno e cheio de doçura. Á
quadra invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre:
parecia que se tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era
desmentido apenas por algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam
tristes e graves como esqueletos, como querendo lembrar á natureza que
não era aquella a epocha de ostentar as suas galhardias.
Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taças de
crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria
ficticia para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico,
lembravam os sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.
O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda
chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhaço da egreja
espreitando o sol, levantou vôo, ás primeiras badaladas do sino, e foi
adejando para os lados do campo.
Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por
tres alazões, atravessava o adro, absorvendo a attenção de todos.
Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos,
typo de brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir--fato claro de
casimira, e calças d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar
sem difficuldade com as botas calçadas; parecia alem d'isso, a avaliar
pela quantidade de bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia
de oiro que lhe bamboleava no collete cuja abertura lhe abrangia quasi
toda a altura do peito, que era um brazileiro rico.
Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita
gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a
sua imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, vê as pessoas
e as coisas que julga n'uma esphera inferior á sua.
Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios á _pose_ do pedaço
d'asno--de que logo o apodaram--no qual os mais velhos reconheceram o
filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha a _bisnaga_.
--Então vocês não se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos aos
quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade--d'aquelle
garotêlho que a Quiteria _bisnaga_ tinha?
--Ah! sim! Dá uns ares d'elle, dá!
--Pois é este figurão que ahi vae. Andava por ahi á maçã do chão, todo
esfarrapado e ranhoso. A mãe pôl-o a servir alli em casa do fallecido
pae do Silveira, que era um lavrador rico, como vocês sabem. Esteve lá
uns dois annos, se tanto, até que um dia pede dinheiro emprestado ao
patrão para ir para o Brazil, na condição de lh'o mandar quando o
ganhasse. O patrão disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o
ganhares, manda-m'o; e se o não ganhares, fica por intenção da minha
alma.
--E ganhou-o bem, logo se vê!
--Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e
mandou-lhe tambem dizer que só voltaria á terra quando estivesse tanto
ou mais rico do que elle; que, do contrario, não punha cá mais os pés!
--Ora vejam o que é a sorte!
--É assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada á mãe.
--Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e já não apparece na feira
dos cinco a comprar e vender creação!
--Já não tem necessidade d'isso. Até parece que anda mais nova.
--É verdade! Olha a _bisnaga_! Se ella não tivesse tido a habilidade de
arranjar aquelle filho, não tinha agora uma velhice tão mimosa.
--Meu caro... é a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco
mais ou menos, pobre como Job, sem saber lêr nem escrever...
--Ora vejam!
--Quero dizer... elle aprendeu lá a lêr, mas isso foi já depois de estar
bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter
alguma instrucção. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois
dizem que tem uma bôa fortuna.
--Meu amigo:
«Se fôres ao mar pescar,
Que a fortuna te não deixe.»
--Isso, isso! Ah! Ah! Ah!
«Lança as redes, vem-te embora,
Quanto mais burro, mais peixe.»
E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:
--Vamos para a missa, que deve estar a começar.
* * * * *
Nesse mesmo dia, á tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a
digestão do jantar, preguiçosamente espernegado num escabello,
saboreando um aromatico charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente
em espiraes na atmosphera, elle contemplava com os olhos indolentemente
semi-cerrados.
Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a
cosinha não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar
apropriado para isso.
A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos
serviços domesticos d'esse dia--dia de gala em casa da tia
Quiteria--ultimava as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um
frango, uma posta de vitella e outra de carneiro e mais uns guisados,
deram ás paredes denegridas a honra de as mimosear com um fumo mais
agradavel, impregnado de aromas recendentes que espantaram metade da
visinhança.
--Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e
cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura
com o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem cá o seu filho...
--É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos
annos o não via?
--Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre de
vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me
não conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que
eu, sempre...
--Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para
alli, que lá o encontras.
O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é
necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era
um antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na
procura de ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que
corrêra logo a dar os parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho,
a quem achou muito desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que
não parecia até vir de terras brazileiras.
Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio
perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:
--Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!
--Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o
brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.
--Ora então, com sua licença. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha
chegado, mal parecia que não viesse visital-o, porque, sempre foi um
rapaz com quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando
jogavamos o pião?...
--Ah! sim! sim! interrompeu o _bisnaga_ com expressão de desdem.
--Depois, pensei lá commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda,
embora eu seja pobre e elle esteja rico...
--Arranjei uns patacos, é verdade. Não é muito, mas... contentar.
--Teve sorte! Teve sorte! É porque Deus lhe achou merecimentos para
isso. Ah! quem o viu e quem o vê! Quando nós iamos á cata de ninhos,
acolá por...
--Ah! sim! sim! Olha lá uma coisa: tu não fumas?
--Fumo...
E, puxando por um _kentuk_, ajuntou:
--É que eu não queria... faltar ao respeito...
--Ah! sim! Deixa lá isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do
bolso do casaco.
O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois dêdos no
charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso
mixto de parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na
bôcca.
--Espera lá, homem! É preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que
saisse o fumo?
E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que
tirou da boquilha de aros de oiro.
O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o
metter na bôcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se
chamam de _espera gallego_ por causa da grande demora do enxofre entrar
em combustão, e, raspando-o nas calças de saragoça, com elle accendeu o
charuto.
Entretanto, a _bisnaga_ recebe a visita, na cosinha, de varias visinhas
que a vêm felicitar pelo alegrão que a vinda do seu Joaquim lhe veio
dar.
Este, abrindo a bôcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo
companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de
rapaz:
--Olha lá uma coisa: a respeito de _pequenas_, como vae isso por ahi?
E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.
--Ha por ahi uns peixões bem bons!
--Sim?
--Conheceu a tia Joanna Maneta?
--A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria...
Bem sei, bem sei. Então?
--Então, tem lá uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois annos!
--E será facil de...
--Ai! Ai! Ai! Isso é só chegar-lhe!--e esfregava, um de encontro ao
outro, os dêdos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi
um par d'ellas que não vão assim com duas razões! Querem só que os
rapazes lhes fallem em casorio. Mas vossa senhoria não precisará de
muito trabalho. Isto de mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se não é
uma é outra. Porque ha por ahi bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz
da orelha, tem lá o tio Alameda!
--Alguma filha geitosa, hein?
--Oh! de estalo! Isso é o que ha de melhor por estas redondezas. Mas
está nova!...
--Que edade tem?
--Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Além d'isso, era uma grande
desfeita ao velho, que é muito respeitado, e quer-lhe como á luz dos
olhos.
--Isso de desfeita é o menos. O diabo é ella ser menor.
--Pois é isso... Ah! a proposito do tio Alamêda! Não sei se vossa
senhoria sabe que elle, além d'essa rapariga, tem um filho ahi dos seus
vinte e quatro a vinte e cinco annos?
--Não sabia, mas fico sabendo.
--E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serôdia?
--Hum! Não me reccordo, não.
--Bem, é a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serôdia, uma rapariga
toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um
gosto ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem; é até
chamado o rei dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, não
ha ninguem que se lhe compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era
derrota certa. Ora essa tal filha da Serôdia, e que se chama Maria
Luiza, deu em ir cantar sempre com elle; em todas as festas onde
appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro! Até algumas vezes
ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de proposito. Mas
mais tarde é que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella, tanto que
se tem feito os esforços para o retirar, porque dizem que casa com ella,
e não ha meio; e é porque, segundo consta, a rapariga é mal empregada
n'elle, porque se portava mal, e, além de elle ser um bello rapaz,
estimado de todos, dá um desgosto ao pobre velho do pae, que não faz
ideia. Ora por estas razões, é uma obra de caridade desviar o rapaz
d'alli. Isto de mulheres, vossa senhoria sabe-o melhor do que eu, porque
tem corrido mundo, em lhe cheirando a riqueza, illudem-se como ratos!
--Ah! Ah! Ah! Queres então dizer que, com duas arrastaduras de aza e
outras tantas promessas...
--Ora nem mais! Além d'isso, não é mau petisco! E como anda toda inchada
por o rapaz andar assim pela beiça, sabendo toda a gente o que ella foi,
era bem feito.
--Oh! diabo! Mas é preciso fazer isso com geito. Não vá o rapaz fazer
alguma...
--Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do
rapaz, começarei a metter-lhe em cabeça que a rapariga anda a perder a
cabeça com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e,
finalmente, quando vossa senhoria começar a entrar em combate, ella, com
certeza, não resiste, e então eu direi ao rapaz se fôr preciso, que foi
ella até que se entregou a vossa senhoria. Verá depois como elle até me
agradece o cuidado que tive em lhe abrir os olhos.
--Bem. Arranja lá as coisas, e, quando fôr occasião, mostra-me a
rapariga. Agora ouve lá uma outra coisa: não ha por ahi quem queira
vender uma propriedade bem situada, que seja fertil, isto é, com agua em
abundancia, e onde se possa fazer uma casa?
--Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que
fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da
Nóra. É um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se
vê o campo todo...
--Pois isso é que me convinha comprar.
--Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver
resolvido...
--Paga-se-lhe bem e...
--E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.
--Pois é isso. Vamos então lá.