Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra.
Joaquina das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia,
frequentava diariamente a egreja na _perfeita_ observancia dos preceitos
do Divino Mestre.
Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja,
tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do
proximo, assoalhando tôrpemente a vida intima de cada um. Não
distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau
de torpeza e abjecção que encerra o procedimento de vasculhar os actos
menos meritorios que outrem pratique, não alcançam ao mesmo tempo a
quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de
auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda
que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o pó bemdito da
caridade.
A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera
soffrer que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo,
e sem necessidade, ao bando dos renegados.
--Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do
tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o
filho do caminho do peccado em que anda!
E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um
acto dum _valôr altamente humanitario e divino_, como era o de conduzir
uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso de que, para o
conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada ao
desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa
do tio Alameda.
--Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o seu
sorriso de bondade á beata.
--Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita
importancia que lhe quero communicar.
--Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos oiça.
Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço
tabaqueiro, tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a
um signal do velho, cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:
--Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem,
prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para
nos salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram
escriptas e foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até
nós e continuará seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar
de dar geração. Muitos acereditam nas palavras dos santos padres, a quem
Deus encarregou de o representar no mundo e de fazer respeitar a sua
religião. Outros não acreditam em nada d'isso, e esses são os réprobos
condemnados ás penas eternas. Mas o nosso dever, o dever de todo o bom
christão, é, por meio das boas obras e dos bons conselhos, chamar ao
caminho do ceu esses perdidos na escuridão do peccado.
E quando nós temos obrigação de chamar ao caminho do dever esses que
nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra. Joaquina fez o
signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao caminho da
bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram seduzir
pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais
inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).
O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata
queria chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada,
continuou, mais moderada:
--O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o caso...
--Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...
--Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas
palavras, pois que, tratando-se de seu filho...
--De meu filho?!... Que fez elle?
--O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe fará
perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não
oppusér...
--Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!
--Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria Luiza
que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?
--Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!
--Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso
fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a
Deus. Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se
perde. Além d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as
noites lá a casa...
--O meu filho?! O meu João?!
--É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que
consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida,
que já anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus
lençóes, porque, na vespera do Natal do Redemptor--aqui baixou a voz,
fallando com calôr e vehemencia, e meneando os braços nuns gestos
disparatados--espancou um rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria
Luiza!
--Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça isso!
--Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito
socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o
ia matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que
seu filho ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher
perdida.
O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da
beata.
Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado
da mais revoltante hypocrisia:
--Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o
saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma
excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas
eternas.
O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces;
e, meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as
mãos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com
amargura:
--Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me
restam sejam manchados nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de
meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!
* * * * *
--Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr
retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelo _dever de consciencia_
que acabava de cumprir.
--Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com as
lagrimas nos olhos.
--O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.
O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio
Alameda.
Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma
profunda angustia que lhe opprimia a alma.
--Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.
--E o João onde está?
--Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.
Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão
de contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão
alegre. Depois da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e
disse-lhe:
--Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o
que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de
vida que me restam.
Fallava com uma tão pronunciada amargura, que João, prevendo o fim que
elle queria attingir, e commovido mais pelas más impressões que seu pae
teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem trazido (porque
não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do pae,
respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:
--Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um
cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo
obediente...
--Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na
tua bôa fé.
--O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?
--Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu,
que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos
filhos, quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida,
filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha
velhice!
--Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no
chão. Pois isso são contos do mundo, que...
--Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um
grande peccado!
João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:
--Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia
tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa,
por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia
porque ninguem lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha
sido o causador de toda aquella desgraça, o que fazia?
--Soccorria-a...
--E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?
--Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?
--É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe
com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu
tanto queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae
idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a
verdade.
O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho
continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das
suas palavras:
--Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa
ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram,
e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria
Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se
do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na
muito, e eu então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei
de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr
a roda, dando um abraço a cada uma, como é costume. Abracei, porém, a
Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer,
achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas
linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos á pobre
rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade,
tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar
por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que
conheço ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto,
não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram
nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!
«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a
quando a via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me
muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma
certa necessidade de a vêr todos os dias para a animar, e, quando
fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a
recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua mãe que já não
podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me
disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar
outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu,
meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer os
olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.
«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito
desejava fazer-lhe, mas...--e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu
procedimento:--eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres
alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não
morrerem á fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a
soccorrer aquellas infelizes com o pão de cada dia!
O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito,
disse:
--Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, não
devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido
ha mais tempo para commigo, que me não opporia a isso. Mas tambem é
preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu
coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim,
é preciso sempre raciocinar e vêr...
--Meu pae! A Maria Luiza é honesta!--interrompeu o filho com vehemencia.
Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação de a
defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a
minha estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha
resolução é salvál-a por completo da deshonra com que quizeram
maltratal-a!
--Que dizes?! Pois tu queres...
--Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia
jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.
--Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara
debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum
casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha
honra acima de tudo...
--A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se.
Cumpro um dever de consciencia e do coração.
O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente,
disse:
--Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava
ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?
--Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito,
quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da
sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um
individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de
Maria Luiza. Eu todas as noites lá vou, e ella preveniu-me de que,
depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de
mansinho á porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz
mais caso, e passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal
noite--foi na vespera de Natal--fui pôr-me de novo á espreita. Passado
muito tempo, um embuçado approximou-se, muito cautelloso, e bateu
devagar tres pancadas. Ia já a retirar-se, talvez por me não ter visto
sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar
uma bastonada, que é para lá não tornar.
--Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode
ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te
certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da
Maria Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos
certas coisas ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem
um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a
verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.
Precipitaste-te, e agora és censurado e tido como desordeiro, e isso é
muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao tempo, é um dictado
muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.
E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o
que a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes
que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com
quem tenha outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e
felizes; e a felicidade não se alcança com a riqueza.
--Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas,
radiante de alegria e ao mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons
conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como
attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava da sua
bondade!
E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.
O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que
lhe bailavam nos olhos.