VII

Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra.

Joaquina das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia,

frequentava diariamente a egreja na _perfeita_ observancia dos preceitos

do Divino Mestre.

Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja,

tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do

proximo, assoalhando tôrpemente a vida intima de cada um. Não

distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau

de torpeza e abjecção que encerra o procedimento de vasculhar os actos

menos meritorios que outrem pratique, não alcançam ao mesmo tempo a

quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de

auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda

que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o pó bemdito da

caridade.

A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera

soffrer que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo,

e sem necessidade, ao bando dos renegados.

--Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do

tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o

filho do caminho do peccado em que anda!

E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um

acto dum _valôr altamente humanitario e divino_, como era o de conduzir

uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso de que, para o

conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada ao

desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa

do tio Alameda.

--Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o seu

sorriso de bondade á beata.

--Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita

importancia que lhe quero communicar.

--Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos oiça.

Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço

tabaqueiro, tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a

um signal do velho, cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:

--Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem,

prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para

nos salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram

escriptas e foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até

nós e continuará seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar

de dar geração. Muitos acereditam nas palavras dos santos padres, a quem

Deus encarregou de o representar no mundo e de fazer respeitar a sua

religião. Outros não acreditam em nada d'isso, e esses são os réprobos

condemnados ás penas eternas. Mas o nosso dever, o dever de todo o bom

christão, é, por meio das boas obras e dos bons conselhos, chamar ao

caminho do ceu esses perdidos na escuridão do peccado.

E quando nós temos obrigação de chamar ao caminho do dever esses que

nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra. Joaquina fez o

signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao caminho da

bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram seduzir

pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais

inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).

O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata

queria chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada,

continuou, mais moderada:

--O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o caso...

--Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...

--Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas

palavras, pois que, tratando-se de seu filho...

--De meu filho?!... Que fez elle?

--O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe fará

perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não

oppusér...

--Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!

--Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria Luiza

que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?

--Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!

--Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso

fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a

Deus. Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se

perde. Além d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as

noites lá a casa...

--O meu filho?! O meu João?!

--É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que

consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida,

que já anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus

lençóes, porque, na vespera do Natal do Redemptor--aqui baixou a voz,

fallando com calôr e vehemencia, e meneando os braços nuns gestos

disparatados--espancou um rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria

Luiza!

--Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça isso!

--Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito

socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o

ia matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que

seu filho ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher

perdida.

O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da

beata.

Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado

da mais revoltante hypocrisia:

--Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o

saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma

excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas

eternas.

O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces;

e, meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as

mãos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com

amargura:

--Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me

restam sejam manchados nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de

meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!

* * * * *

--Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr

retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelo _dever de consciencia_

que acabava de cumprir.

--Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com as

lagrimas nos olhos.

--O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.

O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio

Alameda.

Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma

profunda angustia que lhe opprimia a alma.

--Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.

--E o João onde está?

--Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.

Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão

de contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão

alegre. Depois da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e

disse-lhe:

--Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o

que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de

vida que me restam.

Fallava com uma tão pronunciada amargura, que João, prevendo o fim que

elle queria attingir, e commovido mais pelas más impressões que seu pae

teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem trazido (porque

não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do pae,

respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:

--Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um

cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo

obediente...

--Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na

tua bôa fé.

--O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?

--Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu,

que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos

filhos, quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida,

filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha

velhice!

--Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no

chão. Pois isso são contos do mundo, que...

--Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um

grande peccado!

João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:

--Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia

tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa,

por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia

porque ninguem lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha

sido o causador de toda aquella desgraça, o que fazia?

--Soccorria-a...

--E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?

--Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?

--É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe

com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu

tanto queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae

idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a

verdade.

O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho

continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das

suas palavras:

--Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa

ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram,

e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria

Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se

do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na

muito, e eu então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei

de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr

a roda, dando um abraço a cada uma, como é costume. Abracei, porém, a

Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer,

achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas

linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos á pobre

rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade,

tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar

por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que

conheço ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto,

não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram

nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!

«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a

quando a via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me

muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma

certa necessidade de a vêr todos os dias para a animar, e, quando

fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a

recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua mãe que já não

podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me

disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar

outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu,

meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer os

olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.

«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito

desejava fazer-lhe, mas...--e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu

procedimento:--eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres

alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não

morrerem á fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a

soccorrer aquellas infelizes com o pão de cada dia!

O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito,

disse:

--Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, não

devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido

ha mais tempo para commigo, que me não opporia a isso. Mas tambem é

preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu

coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim,

é preciso sempre raciocinar e vêr...

--Meu pae! A Maria Luiza é honesta!--interrompeu o filho com vehemencia.

Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação de a

defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a

minha estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha

resolução é salvál-a por completo da deshonra com que quizeram

maltratal-a!

--Que dizes?! Pois tu queres...

--Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia

jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.

--Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara

debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum

casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha

honra acima de tudo...

--A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se.

Cumpro um dever de consciencia e do coração.

O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente,

disse:

--Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava

ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?

--Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito,

quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da

sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um

individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de

Maria Luiza. Eu todas as noites lá vou, e ella preveniu-me de que,

depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de

mansinho á porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz

mais caso, e passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal

noite--foi na vespera de Natal--fui pôr-me de novo á espreita. Passado

muito tempo, um embuçado approximou-se, muito cautelloso, e bateu

devagar tres pancadas. Ia já a retirar-se, talvez por me não ter visto

sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar

uma bastonada, que é para lá não tornar.

--Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode

ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te

certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da

Maria Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos

certas coisas ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem

um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a

verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.

Precipitaste-te, e agora és censurado e tido como desordeiro, e isso é

muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao tempo, é um dictado

muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.

E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o

que a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes

que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com

quem tenha outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e

felizes; e a felicidade não se alcança com a riqueza.

--Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas,

radiante de alegria e ao mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons

conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como

attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava da sua

bondade!

E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.

O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que

lhe bailavam nos olhos.

Scenas da Aldeia · 第 18 / 29 题