Este facto seria ainda mais um indicio, se necessario fosse, da origem

architectonica do monumento portuguez. A impressão é, sobretudo, bem

definida vendo ao longe o desenho das suas grandes linhas em noite clara

de estrellas, ou de pouco luar; ora, este effeito cresceria de

intensidade, se o edificio ogival fosse construido em logar elevado, em

vez de occupar um pequeno e fundo valle.

Não se supponha que esta impressão possa provir da elevação do monumento

sobre as edificações proximas, ou do tom escuro da grande molle

desenhando-se mysteriosa e solemnemente nas semi-trevas da noute. Bem

maior e mais alta é a Cathedral de Sevilha, tambem desprovida de grandes

e numerosos elementos verticaes, e o seu enorme contorno não produz

egual impressão. Emquanto á Cathedral de Milão o effeito nocturno é

surprehendente; mas de natureza bem diversa, diremos mais, perfeitamente

caracteristica e propria d'aquelle admiravel colosso.

Sempre que nos foi possivel, não deixámos de ver os grandes monumentos

nas semi-trevas da noite, ou á luz do luar. Não procuramos só o effeito

poetico, ainda que esse é um dos fins das artes plasticas. A physionomia

dos antigos monumentos toma na penumbra da noite uma grandeza especial;

fala mais ao sentimento, que tambem é origem de idéas e excellente

mnemonica.

Assim, a impressão sentimental do Mosteiro da Batalha, principalmente do

claustro, á luz de um luar claro, não se oblitera da memoria; como

jámais esquece o effeito d'esse gigante ogival de Milão, visto de longe

á claridade suave do incomparavel luar de Italia.

Milão estende-se sobre vasta planicie d'esse fertil terreno de alluvião,

de que é formada quasi toda a Lombardia. Do coração da cidade irrompe a

grande molle da Cathedral, dominando tudo em volta de si, elevando-se,

montanha de marmore branco, com as fórmas phantasticas e caprichosas de

um enorme _iceberg_ dos mares septentrionaes. Pelo silencio da noite o

monumento parece velar o somno da cidade, protege-a e fala-lhe quando o

enorme sino do relogio, collocado no alto da grande torre, marca

solemnemente as horas com graves sons, fortes, avelludados e severos,

que parece encherem o espaço entre os Alpes e os Apenninos.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Portico oriental do Claustro principal]

Tornando ao Mosteiro da Batalha, devemos concluir dizendo que o pobre

monumento portuguez não possue ricos vitraes, essa ornamentação tão

bella e caracteristica dos tempos medievaes. É certo que Mousinho de

Albuquerque, a quem já nos referimos, começou a restauração methodica

dos antigos vitraes, que na maior parte encontrou partidos. Este

trabalho tem sido continuado com algum exito; mas bem merecia o

monumento obra mais completa e perfeita.

Da ornamentação subsidiaria dos grandes monumentos religiosos, nada

existe; nem um simples orgão, que daria á bella egreja esse mystico

encanto da musica religiosa.

Assim, temos descripto o Mosteiro da Batalha não com a intenção de lhe

fazer completa monographia, porque esse trabalho exigiria proporções na

descripção, nos planos e nas gravuras bem superiores á do presente

livro, mas com o simples fim de darmos, quanto nos foi possivel,

exemplos nacionaes dos estylos architectonicos.

Quizemos escrever um livro portuguez, feito exclusiva e completamente em

Portugal; tel-o-emos conseguido?...

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Fonte]

CAPITULO QUINTO

RELAÇÃO DOS ARCHITECTOS E MESTRES

Ainda julgamos ser util dar noticia dos nomes dos mestres e architectos,

que em differentes epocas dirigiram as obras do Mosteiro da Batalha;

nomes citados em documentos, dos quaes hoje muitos se devem considerar

perdidos. Esta simples e incompleta enumeração poderá talvez servir para

guiar futuras investigações sobre o Mosteiro da Batalha.

_Affonso Domingues._ Apparecia em documento de 1402, que o dava já por

fallecido. Como a construcção começou em 1387, é muito provavel que

fosse um dos primeiros architectos do Mosteiro, se foi architecto.

Segundo a nossa opinião, expendida n'um dos anteriores capitulos,

Affonso Domingues foi o primeiro _vedor_ real das construcções.

_Mestre Ouguet_, _Huet_ ou _Huguet_. Apparecia como testemunha, no

citado documento de 1402. Depois, documentos de 1450 e 1451 davam-n'o já

como fallecido. D. Francisco de S. Luiz affirma que bem póde ser este

mestre o Aquete, de que falla a tradição. Raczynski concorda com esta

opinião. Emquanto a nós, parece-nos que esta hypothese é forçada, porque

o nome inglez sonicamente correspondente é Hewett e não Hacket. D.

Duarte em 1433 fez doação a este mestre de umas casas, que ficavam perto

do Mosteiro; portanto elle vivia ainda pelo menos n'este anno. Talvez a

casa doada fosse uma destruida ha poucos annos, sendo vendida por baixo

preço a ultima e bella janela antiga.

_Martin Vasques._ Apparecia em documentos de 1450 e 1451, dando-o já

como fallecido. D. Francisco de S. Luiz colloca-o entre os successivos

mestres do Mosteiro, desde 1438 a 1448, anno em que morreu, suppondo,

ignoramos com que fundamento, que este mestre e o seguinte foram os

constructores do segundo claustro, denominado de D. Affonso V.

_Fernão de Evora._ Era sobrinho do precedente mestre. Vinha mencionado

em documentos de 1448 a 1473.

_Mestre Guilherme._ Por morte de Fernão d'Evora, foi nomeado mestre do

Mosteiro por D. Affonso V em 21 de outubro de 1477. (Sousa Viterbo,

_Diccionario_).

_Matheus Fernandes._ Era mestre do Mosteiro, quando em 1480 D. Affonso V

lhe tirou o cargo para o dar a João Rodrigues, cuja competencia declara

superior.

O Sr. Sousa Viterbo pergunta se será outro Matheus Fernandes, alem dos

dois seguintes, ou se o architecto, caído em desgraça, se rehabilitou

depois? Parece-nos mais provavel a primeira hypothese.

_João Rodrigues._ Nomeado em 1480 mestre do Mosteiro por destituição do

antecedente. Deve notar-se que já em 1490 era mestre do Mosteiro o

seguinte Matheus Fernandes. (Sousa Viterbo, _Diccionario_).

_João da Arruda._ Em 1485, sendo mestre do Mosteiro, foi mandado a Beja

por D. João II para avaliar certas propriedades. (Sousa Viterbo,

_Diccionario_).

_Matheus Fernandes._ Um documento de 1503 falava d'este mestre, dizendo:

«o muito honrado Matheus Fernandes, vassalo de El-rei, juiz ordinario na

villa do Mosteiro de Santa Maria da Victoria e mestre de obras do dito

Mosteiro, por El-rei Nosso Senhor.» Em documento de 1497 falava-se em

Margarida Fernandes, sua filha, o que leva a crer que o pae já era

mestre de obras do Mosteiro n'esse anno. Á entrada da egreja da Batalha,

descendo os degraus da porta principal pode lêr-se ainda o seguinte

epitaphio: «Aqui jaz Matheus Fernandes, mestre que foi d'estas obras, e

sua mulher Izabel Guilhelme e levou-o Nosso Senhor aos 10 dias de abril

de 1515, ella levou-a...» A ultima data não foi gravada.

D'aqui se póde concluir que Matheus Fernandes foi mestre de obras do

Mosteiro, desde o principio do reinado de D. Manuel até 1515; ora, como

n'esse periodo a construcção das capellas imperfeitas foi muito activa,

póde, com bastante plausibilidade, attribuir-se-lhe o respectivo plano.

Sua mulher Isabel Guilhelme é provavelmente irmã ou filha de Guilhelme

Belles, ou Belen, mestre vidraceiro que vivia de 1448 a 1473, ou do

precedente mestre Guilhelme, architecto.

_Matheus Fernandes_ (filho). Succedeu ao pae em 1516. Em documento de

1525, apparecia o nome d'este mestre, dando-o vivo; logo não podia ser o

precedente, devendo ser naturalmente seu filho. O nome d'este mestre não

se encontrava em mais documento algum; d'onde D. Francisco de S. Luiz

conclue que foi afastado para outra obra.

_Boutaca_ ou _Boytaca_. Apparecia em documento de 1509, como cavalleiro

fidalgo da casa de El-rei; era tambem citado em documentos de 1512, 1514

e 1519. D. Francisco de S. Luiz dá-o como fallecido em 1528. Raczynski,

sem citar auctoridades, affirma que este mestre italiano foi o

constructor do Mosteiro dos Jeronymos em Belem. Varnhagen, em artigo

publicado no «Panorama», de 9 de dezembro de 1843, diz que em documentos

existentes na Torre do Tombo, descobriu que este mestre italiano Potassi

foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos, bem como provavelmente o da

Egreja da Conceição Velha de Lisboa.

Em 1490 apparece um certo Diogo Boytaca, como auctor do plano do

Convento de Jesus, em Setubal, cuja construcção começou n'esse anno. A

este mesmo architecto concedeu D. Manuel, em 1498, a tença de 8$000 réis

annuaes, a vencer depois do seu casamento.

Sabe-se que depois, em 1512, um Boutaca, residente, ou pelo menos tendo

propriedades, proximo do Mosteiro da Batalha, era casado com Isabel

Amriques. Assim, foi rasoavel suppor que estes dois Butacas eram um só

individuo. Aconteceu, porém, que ha poucos annos se procedeu a obras de

restauração na pequena Egreja de Santa Maria da Victoria, que durante

algum tempo serviu de freguezia á villa nascente; ora, subterradas no

solo d'esta egreja, foram encontradas duas lapides tumulares, que veem

lançar grande confusão nos trabalhos dos archeologos.

A primeira lapide tem o seguinte epitaphio:

_Sepultura, de mestre Boutac, cavalleiro da caza d'El-Rei nosso Senhor e

mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro de 157_...

O ultimo algarismo da data é illegivel.

Na outra lapide, encontrada junto á primeira, lê-se:

_Sepultura de Isabel Amriques, mulher de mestre Boutac. Falleceu em 23

d'Abril de 1522_.

Assim, á primeira vista parece que este Boutac e sua mulher são os

individuos, anteriormente citados. Mas para que isto seja possivel é

necessario admittir que Boutac morreu com 100 annos, pelo menos. De

facto, se elle foi o auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal em

1490 e morreu em 1570, hypothese mais favoravel, entre estas datas

medeiam 80 annos. Ora, qual seria a edade do architecto, aliás

estrangeiro, quando projectou tão grande obra?

Concedamos 20 annos a Boutac, se é o mesmo; viveu, pois, _pelo menos_,

100 annos. Como isto não é nada provavel, resta a hypothese de Boutac

pae e filho; mas, n'este caso deviam existir logo duas mulheres do mesmo

nome Isabel Amriques, morrendo a a segunda 48 annos antes do marido!

O que nos parece singular, tambem, é a orthographia tumular do nome,

duas vezes escripto. Se o _c_ final foi cedilhado, o som é bem proximo

de Potassi.

D. Francisco de S. Luiz classifica Boutaca, entre os mestres de artes ou

officios desconhecidos; ora, é indiscutivel que foi architecto e tão

importante que chegou--elle ou o filho?--a ser _mestre de obras do

reino_.

_João de Castilho._ Varnhagen, no seu opusculo sobre o Mosteiro dos

Jeronymos, em Belem, diz que João de Castilho foi nomeado para as obras

do Mosteiro da Batalha em 4 de julho de 1528, por morte de Matheus

Fernandes, filho, o que não nos parece exacto.

_Miguel da Arruda._ Em 25 de junho de 1533 foi nomeado por D. João III

mestre do Mosteiro, pela renuncia d'este cargo dada por João de

Castilho. (Sousa Viterbo, _Diccionario_).

_Dyonisio da Arruda._ Sobrinho do precedente, a quem substituiu por sua

morte. Foi nomeado por D. João III em 25 de outubro de 1563. (Sousa

Viterbo, _Diccionario_).

_Antonio Gomes._ Apparecia como mestre n'um documento de 1548; n'outro

documento de 1551 era, apenas, mencionado como pedreiro. D. Francisco de

S. Luiz conclue d'este facto, com boa critica, que as obras do Mosteiro

eram muito pouco importantes n'esse tempo.

_Antonio Mendes._ Figurava em documento de 1578, como cavalleiro fidalgo

da casa de El-rei, Nosso Senhor; na certidão da ciza, junta a este

documento, lia-se: «Antonio Mendes, mestre das obras de El-rei Nosso

Senhor». D. Francisco de S. Luiz crê que era um simples titulo

honorifico, dando apenas direito ao vencimento de mestre de obras.

_Guilhelme Bellés_ ou _Bellen_. Apparecia em documentos de 1448, 1463 e

1473, como mestre vidraceiro. Este nome é estrangeiro, parecendo-nos de

origem franceza. Deve notar-se que a Cathedral de Bruges foi sempre

celebre pelos seus vitraes.

_Mestre João._ Apparecia como vidraceiro em documentos de 1489 e de

1528, tendo fallecido n'este anno ou no precedente.

_Antonio Faca._ Apparecia em varios documentos, como mestre vidraceiro,

sendo o primeiro de 1532. Era já fallecido em 1543.

_Antonio Faca_ (filho). Documentos de 1535 e 1538, demonstravam que o

mestre precedente tinha um filho do mesmo nome, designado pelo _moço_.

Como este nome apparecia em documentos de 1543, quando o anterior era já

fallecido, devemos concluir que o filho succedeu ao pae como mestre

vidraceiro. Era já fallecido em 1596.

_Antonio Faca_ (neto). Apparecia em documentos de 1608, o que deixa

presumir o parentesco apontado, Este appellido parece-nos ser

estrangeiro, talvez italiano ou hespanhol.

Mestres de artes ou officios desconhecidos

_Conjati._ Documentos de 1428, 1431 e 1443.

_Miguel._ Documento de 1440.

_Estaço_, 1463. Contemporaneo de Fernão d'Evora.

_Conrate_, 1428.

Officiaes de algumas artes e officios

_Estevam Gomes_, pedreiro, mestre d'obras do Infante D. Pedro, 1428.

_João Affonso_, apparelhador, 1450.

_Gil Eannes_, imaginador, documentos de 1465.

_Affonso Lopes_, imaginador, documentos de 1534, 1544 e 1555.

_Duarte Mendes_, entalhador, documento de 1535.

_Henrique Francez_, entalhador, documento de 1535.

_Pero Faca_, entalhador, documentos de 1549 e 1561.

_Francisco Faca_, pintor, documentos de 1566.

_Alvaro Morato_, pintor, documentos de 1592.

Muitos d'estes dados são extrahidos da Memoria de D. Francisco de S.

Luiz sobre o Mosteiro da Batalha. Os documentos foram, pois, compulsados

por este escriptor, cuja auctoridade é incontestavel. Alguns provéem do

_Diccionario dos Architectos, Engenheiros e Constructores Portuguezes_,

do Sr. Sousa Viterbo.

COLLOCAÇÃO DAS PHOTO-GRAVURAS

Entre pag.

1.^a Schema do uma basilica romana 48-49

2.^a Roma. Basilica de S. Paulo, fachada principal 54-55

3.^a Roma. Basilica de S. Paulo, fachada lateral 56-57

4.^a Roma. Basilica de S. Paulo, interior 58-59

5.^a Roma. Basilica de S. Lourenço, fachada 60-61

6.^a Roma. Basilica de S. Lourenço, interior 62-63

7.^a Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, exterior 68-69

8.^a Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, interior 72-73

9.^a Sé de Lisboa. Planta geral 148-149

10.^a Sé de Lisboa. Ruinas do terramoto de 1755 150-151

11.^a Sé de Lisboa. Fachada principal restaurada 152-153

12.^a Sé de Lisboa. Fachada lateral restaurada 164-165

13.^a Convento de Thomar. Fachada da egreja 202-203

14.^a Convento de Alcobaça. Fachada da egreja 212-213

15.^a Convento da Batalha. Vista geral 222-223

16.^a Convento da Batalha. Planta geral 248-249

17.^a Convento da Batalha. Córte longitudinal da egreja 258-259

18.^a Convento da Batalha. Córte transversal da egreja 260-261

19.^a Convento da Batalha. Córte do claustro principal 262-263

20.^a Convento da Batalha. Portico sul do claustro 264-265

21.^a Convento da Batalha. Fachada principal da egreja 266-267

22.^a Convento da Batalha. Portal do sul da egreja 268-269

23.^a Convento da Batalha. Janela do claustro principal 274-275

24.^a Convento da Batalha. Porta do claustro principal 276-277

25.^a Convento da Batalha. Portico oriental do claustro 278-279

26.^a Convento da Batalha. Fonte no claustro principal 280-281

Estas gravuras, excepto a do n.^o 12--_Fachada lateral da Sé de Lisboa,

restaurada_--são das officinas do Sr. Thomaz Bordallo. A do n.^o 12,

aliás uma das mais difficeis, é das officinas do Sr. Marinho. São, pois,

todas nacionaes.

INDICE

Introducção VII

PARTE PRIMEIRA

Origens da architectura christã

Capitulo 1.^o A lucta entre o paganismo e o christianismo 3

Capitulo 2.^o Os tres primeiros seculos do christianismo 17

Capitulo 3.^o As invasões dos barbaros 33

PARTE SEGUNDA

Os estylos christãos primitivos

V seculo ao X seculo

Capitulo 1.^o Espirito e caracteres do Estylo-Latino 45

Capitulo 2.^o Espirito e caracteres do Estylo-Byzantino 63

Capitulo 3.^o Acção reciproca dos dois estylos christãos

primitivos 81

PARTE TERCEIRA

Os estylos christãos definitivos

X seculo ao XV seculo

Capitulo 1.^o Synthese social dos seculos XI e XII 101

Capitulo 2.^o Espirito e caracteres do Estylo-Romanico 119

Capitulo 3.^o A Sé Patriarchal de Lisboa e a sua

restauração 141

Capitulo 4.^o Synthese social do seculo XIII 167

Capitulo 5.^o Espirito e caracteres do Estylo Ogival 181

Capitulo 6.^o O Estylo Ogival entre nós 201

PARTE QUARTA

O Mosteiro de Santa Maria da Victoria

Capitulo 1.^o Origens e construcção do mosteiro 223

Capitulo 2.^o O estylo architectonico do mosteiro 233

Capitulo 3.^o As epochas da construcção do mosteiro 249

Capitulo 4.^o Descripção do mosteiro 259

Capitulo 5.^o Relação dos architectos e dos mestres 281

Collocação das photo-gravuras 289

Notas:

[1] O seguinte curioso facto demonstra a lenta formação dos estylos

architectonicos. Em 1870, quando a cidade de Lyão esteve ameaçada pelos

exercitos allemães, o Arcebispo Genouilhae fez a promessa de reedificar

a pequena capella de Nossa Senhora de Fourvière, existente n'uma

montanha que domina a grandiosa cidade, se ella fosse poupada pela

guerra. O _milagre_ deu-se e o voto cumpriu-se; sendo elevada uma

sumptuosa egreja n'esse ponto, onde por signal se disfructa um dos mais

bellos e extensos panoramas do mundo.

Os architectos Bossan e depois Perrin, amhos de incontestavel valor,

_sonharam_ a formação de um novo estylo, em que o genio da arte classica

se alliasse ao mysticismo dos estylos christãos n'uma unidade

comprehensivel pelo espirito moderno. Aos constructores não faltava

talento e sciencia para a tentativa, nem lhes escassearam recursos,

porque na egreja, aliás não muito grande, se dispenderam, segundo

informações recebidas que não julgamos exageradas, mais de 9:000 contos.

Pois a tentativa falhou por completo!

É extraordinario o effeito singular, até desagradavel, que produziu no

nosso espirito aquella formidavel _mistura_ de elementos heterogeneos,

constituindo, sem a menor duvida, um _montão_ de fabulosas riquezas e de

preciosos e admiraveis pormenores architectonicos!

Se nos fosse permittida a expressão, diriamos que julgámos assistir a

uma _mascarada_ de estylos, porque, havendo quasi todos, uns tomam as

feições dos outros, conservando algumas das respectivas linhas e

qualidades fundamentaes. Ha de tudo, até o boi Apis ornamentando uma

porta interior em Estylo Egypcio!

Todavia, considerados isoladamente, quasi todos os elementos são

admiraveis de concepção e de execução. O caso é analysal-os separados

uns dos outros. Na fachada, por exemplo, tres lindissimos arcos de fórma

ogival repousam sobre elevadas columnas de linha classica, onde todas as

proporções e modulos foram desprezados. Por cima d'esta arcada rasga-se

uma galeria de caryatides classicas; mas... as estatuas são oito anjos

em posições mysticas, perfeitamente eguaes e com solemnidade byzantina.

O edificio é coroado por frontão tambem de contorno classico, cujo

tympano é preenchido por altos relevos de caracter byzantino. Esta

fachada é ladeada por duas torres, que têem _ares_ de romanicas, não

sendo afinal cousa alguma!

No interior reina egual confusão de estylos, e, para de tudo haver,

grandes superficies das paredes são revestidas por pannos tecidos

ornamentaes.

Eis ao que se chegou pretendendo crear um estylo!

Descendo a montanha, a curta distancia, encontra-se a bella Cathedral de

S. João, um primor ogival como é regra em quasi todas as magnificas

egrejas de Lyão. E todavia o Estylo Ogival fez-se com elementos de

variados e successivos estylos!

A differença está em que a acção dos seculos em lenta evolução combinou

os elementos d'esses estylos, adoçou-lhes as antinomias e esbateu-lhe as

linhas rudes dos caracteres; emfim, penetrou-os intimamente n'um

producto harmonico, como a fusão liga metaes differentes n'uma

constituição physica, onde todos contribuem para um composto homogeneo.

Assim, no seio de uma mulher se produz um novo ser, que se parece com os

antecessores, mantendo a propria originalidade.

Os novos estylos precisam de incubação no seio dos seculos.

Este exemplo da Egreja de Fourvière deve ser citado e apreciado na

Philosophia e na Historia da Arte.

[2] Durante os trabalhos de restauração da porta lateral foram

descobertas umas galerias subterraneas, evidentemente anteriores á

construcção do edificio, porque estão cortadas pelos alicerces d'elle.

Estas galerias têem cêrca de 1^{m},5 de altura por 0^{m},80 de largura,

sendo revestidas de silharia e abobadadas em arco circular com pedras

regulares. As que percorremos parece virem do lado do Castello de S.

Jorge, atravessam a Rua do Limoeiro seguindo por baixo dos edificios

annexos á fachada lateral-norte, até ao liminar da porta lateral da

egreja. Ahi a galeria bifurca-se, lançando em curva um ramo para dentro

da egreja e outro seguindo ao longo da parede do edificio, onde se

encosta a Capella de Bartholomeu Joannes. O primeiro ramo está cortado

pelo carneiro, onde jazem os restos do Cardeal Patriarcha de Lisboa D.

Rodrigo da Cunha, o segundo pelos alicerces da capella ou da torre; mas

ambos continuam manifestamente para alem d'estes pontos.

Será facil encontrar esta galeria fazendo no solo do edificio annexo,

que fica á esquerda do vestibulo da porta lateral, um corte parallelo á

face interna da parede occidental; a pequena altura encontrar-se-á a

galeria, se um dia houver curiosidade de o fazer.

Segundo pensamos, esta galeria, que nunca foi cano de esgoto ou

aqueducto, é de construcção romana e póde ser um caminho secreto, que

ligava o velho castello romano com qualquer outro ponto da cidade, junto

ás margens do Tejo.

Parece-nos muito provavel que os tão falados subterraneos da Sé de

Lisboa se reduzam a esta galeria, que manifestamente percorre o subsolo

da egreja e porventura se ramifica no interior d'ella.

[3] As principaes dimensões da egreja são as seguintes:

Metros

Comprimento da porta ao fim da capella-mór 59,20

Comprimento do transepto 35,00

Largura total das tres naves 21,90

{ Altura 18,70

Nave central {

{ Largura 9,60

{ Altura 9,20

Nave lateral (duas eguaes) {

{ Largura 6,25

{ Altura 18,70

Transepto {

{ Largura 7,80

{ Comprimento 17,80

Capella-mór { Altura 15,65

{ Largura 11,40

Os comprimentos e as larguras referem-se ás superficies interiores das

paredes e aos eixos dos pilares; as alturas aos fechos das abobadas.

[4] Este famoso arrendamento, feito pelo Ministerio das Obras Publicas,

produz 10$000 réis annuaes ao Thesouro!

[5] O convento tem servido de moradia a algumas familias, cujos fogões

de cozinha foram alimentados por taboas arrancadas dos tectos e

naturalmente pelas portas _inuteis_. É provavel que o _uso_ continue com

os effeitos previstos.

[6] É versão geral por 40$000 réis.

[7] A Suissa em outros tempos foi tambem victima da pilhagem de objectos

nacionaes, artisticos e historicos; pois hoje não só a administração

publica os defende, como os repatria, comprando-os quando é possivel. As

gerações actuaes emendam a ignorancia e os erros das gerações passadas.

[8] Observaremos n'este ponto que julgamos muito provavel o esquecimento

de alguns monumentos dignos de menção. Não os conhecemos todos, e dos

que conhecemos, muitos vimol-os sem detido estudo. Assim, haja desculpa

para lacunas e erros, excepto n'aquelles de que damos maia larga

informação.

Temos percorrido, apenas, uma parte do paiz; ora, um trabalho completo e

seguro d'esta natureza nem seria este o livro para o fazer, nem o

poderiamos tentar com algumas probabilidades de exito sem percorrer todo

o paiz, estudando a distribuição dos seus monumentos e o valor

architectonico de cada um. A nossa vida, sempre um pouco trabalhosa, não

nos permittiu em tempo proprio a realisação d'este desejo, se além

d'isso não existissem outras difficuldades obvias.

[9] Varnhagen attribue esta janela a João de Castilho e affirma ter

visto a data de 1533 gravada em qualquer pedra. O illustre engenheiro

condemna-lhe a esthetica com certa violencia, no que não tem rasão

alguma. Esta _loggia_, como muito bem lhe chama Murphy, é um bello

trecho da renascença italiana, ornamentada com espheras armillares e a

cruz de Christo; embora, talvez, um pouco em desharmonia com a porta

descripta, que lhe fica inferior. Foi esta discordancia que feriu em

excesso o talentoso e mallogrado redactor do antigo _Panorama_.

A architectura religiosa na Edade Média · 第 16 / 17 段