A egreja tem tres naves, apenas; a do centro, mais larga e elevada do

que as outras, termina pela abside principal, tambem de maior altura e

comprimento do que as quatro absidiolas, duas de cada lado,

correspondendo as confinantes com a nave central ás naves lateraes, e as

extremas vencendo o excesso de comprimento do transepto sobre a largura

das tres naves. Dada esta disposição, não existe charola. Assim, a nave

central, prolongada pela respectiva abside e cortada pelo transepto,

desenha uma elegante cruz latina. No extremo sul do transepto abre-se

outra porta para a egreja; esta porta, e a da fachada principal, são as

unicas que de fóra a servem. Em poucas palavras eis a descripção da

elegantissima planta do templo.

A egreja é pequena, já o dissemos; mas tão pura de estylo que a pequenez

não lhe sacrifica a majestade. Para formar idea das suas dimensões,

apresentamol-as comparadas com as das Cathedraes de Milão e de Sevilha,

colossos de cinco grandes naves do Estylo Ogival.

Milão Sevilha Batalha

m m m

Comprimento da porta ao fim da abside 148 140 81,18

Largura de todas as naves 57 77 21,97

Comprimento do transepto 87 77 36,12

Largura do transepto 19 16 9,48

Nave central { Altura 46 40 27,73

{ Largura 19 16 9,48

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Córte transversal da Egreja segundo o eixo

do transepte]

N'estas dimensões devemos observar a relação da largura para a altura

das naves centraes. Na Egreja da Batalha esta relação é representada por

1:2,9, emquanto na Cathedral de Milão attinge apenas 1:2,4 e 1:2,50 na

de Sevilha. Differenças similhantes se devem dar nas naves lateraes; por

isso, a expressão de elegancia do edificio portuguez é bem superior ás

dos monumentos italiano e hespanhol.

As naves lateraes são illuminadas por sete janelas, das quaes duas na do

sul mais pequenas, porque ficam em parte inutilisadas pela capella do

fundador. São elegantissimas e correspondem aos vãos interiores das

arcadas da egreja. A nave principal recebe, tambem, luz de cada lado,

por sete janelas do _clerestory_, verdadeiras reducções das anteriores,

abrindo sobre os terraços das naves lateraes, entre os arcobotantes que

amparam o corpo mais elevado do centro.

Estas disposições serão facilmente comprehensiveis estudando e

comparando as pequenas gravuras correspondentes ao corte longitudinal,

segundo o eixo da egreja, ao transversal, segundo o eixo do transepto e

finalmente ao do claustro principal[10].

Por cima da porta principal, uma grande janela maior do que o vão d'esta

porta, fechada por finissimos rendilhados de pedra, derrama luz suave e

multicolor ao longo da nave central. O transepto recebe luz de quatro

janelas, rasgadas sobre as absidiolas e ainda de outra sobre a porta do

extremo sul do mesmo transepto; janela enorme, de dimensões bem

superiores ás da porta, com tympano de quadrifolios sustentado por dois

maineis, entre os quaes existe um tecido de pedra aberto em lozangos. Em

geral, na ornamentação dos tympanos das janelas predominam os

quadrifolios. Insistimos na descripção para darmos idéa da feição

caracteristica do ogival inglez, que se manifesta por toda a parte na

Egreja da Batalha[11].

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Córte do Claustro principal]

_Capella do fundador._ Seguindo a planta, ao entrar na egreja á direita,

depara-se-nos esta capella de fórma quadrada, tendo 20^{m},1 de lado,

juxtaposta á nave do sul, de que inutilisa parte de duas janelas. O

conjunto d'este pequeno edificio é de um encanto grandioso, apesar das

dimensões. O recinto é illuminado profusamente por tres janelas em cada

uma das paredes livres, a do centro magnifica, com sete maineis

sustentando um grande tympano, as lateraes de tres maineis. Arcocelios

de puro estylo, encostados ao lado sul da capella, cobrem os sarcophagos

dos infantes filhos de D. João I e de D. Filippa, cujos restos foram

tambem recolhidos n'outro grande e bello sarcophago, isolado no meio da

capella entre os arcos de um elevado zimborio, ou torre.

Levanta-se esta construcção sobre oito arcos, formando um octogono de

5^m de lado. Estas arcadas sobem e sobre ellas e as paredes lateraes

assentam as abobadas da parte rectangular da capella; depois, as

respectivas paredes crescem, formando exteriormente uma torre octogona,

amparada por arcobotantes, tendo em cada uma das faces uma janela. É

admiravel o effeito d'este mausoleo, quer no interior, quer no exterior,

verdadeira obra prima no genero. Constitue uma creação esthetica tão

feliz no exito, que, ainda visto muitas vezes, causa sempre agradavel

impressão.

_Sacristia._ Da absidiola do norte passa-se para este recinto, tendo

11^{m},95 por 9^{m},47, que nada envolve importante a não ser as duas

respectivas janelas conjugadas, viradas ao nascente. Para a sacristia

abre a pequena casa do _thesouro_.

_Claustro principal._ Encosta-se á nave lateral do norte; mas os

porticos não lhe mascaram as janelas, que abrem sobre os terraços d'este

claustro. Os porticos são, pois, baixos e não affrontam o corpo da

egreja; pelo contrario, completam-n'o, dando-lhe o realce de varios

planos. Este magnifico claustro, tendo 55^{m},3 de lado, é formado de

grandes arcos, encastrados entre fortes botareos, com tympanos

rendilhados repousando sobre cinco finos columnellos; produz um effeito

deslumbrante. Sob um pavilhão, tendo paredes communs com o claustro, no

angulo sudoeste, existe o lavabo, ou a fonte, a que indubitavelmente se

refere a carta citada de D. Duarte. N'este ponto gosa-se de um dos mais

bellos golpes de vista, que offerece o Mosteiro.

_Casa do capitulo._ No portico oriental do claustro depara-se com a

entrada d'este edificio, uma grande porta, ladeada por janelas, uma de

cada lado, manifestando tudo extraordinaria belleza nas linhas geraes e

na ornamentação. A sala forma um quadrado perfeito de 19^{m},95 de lado.

É coberta por um só vão de abobada de extrema elegancia, ricamente

artezonada e com enorme bocete. Esta abobada, cuja geração é um pouco

complexa, constitue uma especie de cupula, dando em projecção horisontal

uma estrella de seis raios. Nos cantos da sala os artezões nascem de

misulas; nas paredes, firmam-se em columnellos, que descem ao pavimento.

Em verdade, é uma das abobadas mais bellas e bem lançadas que temos

visto. Além d'isso, distingue-se pela admiravel perfeição do trabalho;

observação que devemos em rigor applicar a todas as obras ogivaes do

Mosteiro da Batalha.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Portico sul do Claustro principal]

Ácerca da construcção d'esta abobada, considerada muito difficil, correm

varias lendas. É certo que a abobada é bastante abatida; não nos parece,

porém, que a difficuldade extrema da construcção seja o caracter que

mais a recommenda. Bem mais difficil julgamos ser a construcção de uma

abobada unica, como a que por exemplo cobre o extenso transepto da

Egreja do Mosteiro dos Jeronymos, em Belem.

Em frente da porta da entrada d'esta sala, uma grande janela com

vitraes, talvez os mais antigos e melhores do Mosteiro, dá luz ao

recinto. Tambem se vêem por cima das janelas, que ladeiam a porta, duas

pequenas rosaceas. São as unicas, aliás bem insignificantes, que se

encontram em todo o Mosteiro, onde reinam exclusivamente as janelas de

formas elegantissimas, algumas vezes simples, em geral divididas por

maineis.

_Refeitorio._ Communica com o portico occidental do claustro real. Nada

tem notavel; é apenas uma grande sala de 27^{m},3 por 9^{m},7,

abobadada, bastante feia e abaixo do valor architectonico do resto do

edificio.

_Cosinha._ Em communicação directa com o refeitorio existe a cosinha,

tendo 10^{m},17 por 9^{m},34, que por cousa alguma se recommenda.

_Adega, e dispensa._ Este edificio abobadado, tendo 37^{m},36 por

9^{m},34, corre ao longo do portico norte do claustro principal, para

onde abre apenas por tres frestas.

_Portaria._ É uma grande sala, tendo 12^{m},08 por 9^{m},34. Servia de

aula para as lições, que os frades davam a estudantes seculares.

Eis a succinta descripção do plano geral do Mosteiro, na parte que se

refere aos edificios da primeira epoca, os ogivaes. Quizemos dar uma

idéa do conjunto e das disposições relativas, para acompanhar a planta

geral e as gravuras, que, segundo pensamos, muito esclarecem e completam

a descripção.

II

Descripção das fachadas

Descrevamos agora succintamente o exterior do edificio, limitando-nos ás

linhas mais geraes. A fachada principal, que olha para o occidente, é

formada por tres corpos diversos: o da egreja, ladeado ao sul pelo da

capella do fundador e ao norte pelo do refeitorio. Os dois primeiros

estão no mesmo alinhamento, o terceiro avança sobre este alinhamento a

respectiva largura.

_Fachada principal._ Não é ornada de torres. Pertence á categoria das

construcções, de que são exemplo as Cathedraes de Sevilha e de Milão.

Assim, tambem n'esta fachada se notam, perfeitamente marcadas por

botareos encimados de pinaculos, tres divisões verticaes: a do centro

correspondendo á nave principal, e as lateraes ás naves secundarias.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Fachada principal]

A divisão central, de cerca de 30 metros de altura, excede n'um terço

approximadamente as divisões lateraes. Comprehende o unico portal,

sobrepujado por uma grande janela coroada por elegante platibanda. As

divisões lateraes apenas teem as janelas, que illuminam as respectivas

naves. Assim, nas linhas geraes, a fachada define com nitidez as

dimensões e as disposições internas da egreja.

Na divisão central, o portal pouco profundo, de molduras ogivaes

embocetadas e decrescentes, repousando sobre columnellos eguaes, termina

no vão da porta, ornada de tympano de pedra. A parede d'esta divisão da

fachada cresce sobre o portal e quasi a dois terços da altura cessa,

deixando estreita passagem, resguardada por uma platibanda, em frente da

grande janela, que dá luz á nave principal. Esta passagem liga entre si

os terraços das naves lateraes. O corpo medio da egreja, mais elevado do

que os colateraes, é amparado por arcobotantes, dos quaes os mais

proximos da fachada são mais rendilhados e leves.

A ornamentação é de extrema sobriedade. Por cima do portal e da janela,

altas e estreitas arcaturas--melhor lhe chamariamos talvez caixilhos ou

almofadas--cujo lavor pouco sobresae da silharia da parede, parece

sustentarem uma faixa de galões tecidos em losangos. As platibandas do

edificio offerecem fórmas quadrilobadas, repousando sobre cornijas

sustentadas por pequenos modilhões ogivaes. Os botareos centraes da

fachada são ornados de caixilhos ou almofadas, a partir de certa altura.

A simplicidade da ornamentação, despretenciosa e pura, é encantadora e

traduz no emprego geral das arcaturas principalmente e dos caixilhos,

bem como na relação das portas e das janelas e na ausencia de rosaceas,

os caracteres do ogival inglez, apontados por Hope, na citação

anteriormente feita[12].

_Fachada da capella do fundador._ É ainda de maior simplicidade. A parte

quadrada inferior está dividida por quatro botareos, em cujos vãos se

rasgam tres janelas. Dos botareos centraes partem arcobotantes, que

terminam proximo das cabeças de outros oito botareos, revestindo os

angulos da torre octogonal; a cada intervallo corresponde uma das oito

respectivas janelas. A ornamentação, muito sobria e do caracter da

anterior fachada, resume-se nas platibandas, desacompanhadas de

arcaturas. A torre central foi coroada por um grande corucheo. Pena é

que a restauração do Mosteiro não abrangesse até hoje este importante

complemento, que tanto engrandeceria a fachada principal.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Portal do sul]

_Fachada do refeitorio._ Por um muro curto e liso, apenas encimado pela

platibanda já descripta, muro que corresponde a uma pequena extensão do

claustro principal, liga-se a fachada simplicissima do refeitorio e da

cozinha com a da egreja. É um edificio longo, dividido por nove

botareos, entre os quaes se abrem janelas ou frestas, seis do refeitorio

e duas da cozinha. São de verga inteira, sem ornamentação alguma.

Platibanda similhante á do resto do edificio corôa tambem esta

construcção.

Como se vê, o conjunto das fachadas, offerecendo original simplicidade,

é muito sobrio nas linhas geraes e mais ainda na ornamentação, em nada

parecida com as disposições complicadas de outras construcções ogivaes,

principalmente de caracter francez e allemão. Seria isto ainda um

indicio, se necessario fosse, da origem do estylo do Mosteiro da

Batalha.

_Fachada sul._ Desenham-se as duas naves, a lateral com as janelas sobre

parede lisa: as duas primeiras mascaradas em parte pela capella do

fundador. A nave central vê-se por cima, guarnecida de botareos,

sustentados por arcobotantes, encastrando as respectivas janelas do

_clerestory_.

Na parte correspondente ao transepto, outro portal, mais simples do que

o primeiro, constitue a segunda entrada da egreja, tendo por cima a

grande janela que anteriormente descrevemos. Na desproporção dos

respectivos vãos mais se accentua, ainda, a observação de Hope sobre o

ogival inglez. Seguem-se as absides com estreitas janelas e, encostada

ao fundo d'essas absides, a construcção das _capellas imperfeitas_.

_Fachada norte._ A este lado da egreja está encostado o claustro. A

disposição d'esta fachada é em tudo similhante á precedente, salvo a

elegante torre do relogio, coroada de fina e rendilhada agulha.

O córte do edificio pelo claustro, gravura anteriormente apresentada,

completa a descripção das mais importantes fachadas, porque as restantes

se acham, em parte ou no todo, mascaradas pelas _capellas imperfeitas_ e

pelos edificios do antigo convento, ainda hoje existentes.

III

A ornamentação architectonica do Mosteiro

A grande arte traduz-se nas linhas geraes, que a ornamentação deve

acompanhar, realçando-as apenas, sem lhes prejudicar a pureza e as

elevadas qualidades essenciaes. O excesso de ornatos constitue, em

geral, grave symptoma de decadencia na arte ou falta de genio nos

artistas.

Assim, uma das fórmas fundamentaes da belleza é incontestavelmente o

corpo humano; ora, a suprema expressão d'esta unidade esthetica consiste

em o representar em completa nudez. A grande difficuldade está

incontestavelmente em realisal-o.

Os artistas gregos, os geniaes creadores da mais perfeita esculptura do

corpo humano, em que até hoje não tiveram senão bem raros competidores,

descobriram esta lei do bello e enunciaram-n'a em milhares de creações,

algumas das quaes, que resistiram á acção destruidora do tempo e dos

homens, são ainda hoje causa de sincera e profunda admiração. Eis por

que elles representavam quasi sempre Venus e Apollo, symbolos da belleza

humana, em perfeito estado de nudez; e quando excepcionalmente lhes

envolveram os corpos em leves estofos, a ornamentação contribuia para

avigorar e realçar a perfeição das fórmas e das carnes nuas.

Uma das mais formosas estatuas classicas, semi-vestidas, ainda

existente, a Venus Callipygia do Museu de Napoles, arregaça com a mão

esquerda a fina e leve tunica, deixando ver as linhas mais puras e

suaves do corpo humano, traduzidas admiravelmente no antigo marmore de

Paros, a que os seculos deram quasi o tom avelludado e quente de uma

carnadura viva e palpitante. A casta Diana, a sabia e guerreira Minerva

não fogem a esta regra. Uma das melhores estatuas da Galeria Chiaramonti

no Vaticano, Diana contemplando Eudymion adormecido, veste o _peplum_

tão cingido, que por baixo d'elle se desenha o bello torso; a tunica

roçagante é tão fina e sedosa, que atravez do estofo transparente se

vêem as fórmas delicadas e perfeitas da casta deusa.

Assim, na esculptura como na architectura, o genio grego demonstrou que

nas linhas geraes reside a suprema belleza, não sendo a ornamentação

mais do que um accessorio, que, longe de as abafar e deturpar, deve pelo

contrario contribuir para as engrandecer e realçar. A simplicidade, a

pureza e a harmonia da ornamentação são, pois, qualidades indispensaveis

dos grandes estylos da arte[13].

Os primitivos architectos ogivaes do Mosteiro da Batalha executaram esta

lei esthetica com verdadeiros rasgos de genio. Assim, em edificio algum

do mesmo estylo, dos muitos que temos visto, a harmonia e a pureza das

linhas geraes tocam o grau da perfeição, attingido no monumento

portuguez; nem é possivel encontrar segundo, entre os de correspondente

importancia, tão sobrio e puro na ornamentação. Estas qualidades

excepcionaes são exactamente as que originam o seu incontestavel e

elevado valor artistico. A harmonia architectonica entre as linhas

geraes e a ornamentação é tão intima e perfeita, que, ao primeiro golpe

de vista, o monumento portuguez produz a impressão profunda de uma

unidade esthetica.

É muito difficil, se não impossivel, com simples palavras definir

impressões. Certos movimentos do espirito são comprehensiveis, porque,

nascendo da propria essencia da alma, todos os possuimos e os sentimos

em maior ou menor escala. A não ser isto, tornar-se-iam muitas vezes

enigmaticos, visto que a linguagem humana, perfeita para a enunciação de

idéas, é um instrumento incompleto, quando pretende definir a intima e

profunda natureza das sensações e dos sentimentos. Assim, esta expressão

_unidade esthetica_ poderá parecer obscura aos que não tenham larga

cultura intellectual, ou pelo menos não possuam poderosas faculdades

artisticas.

A nossa experiencia tem-nos demonstrado que em taes casos uma simples

comparação vale mais do que longas e didacticas dissertações. Evoquemos

do passado de vinte e cinco seculos uma mulher d'essa belleza singular,

que serviu de modelo aos maiores esculptores da Grecia; vistamol-a,

depois, de qualquer fórma. Ficará sempre uma mulher formosa. Mas o

penteado elegante e alto, o _peplum_ afivelado nos hombros nús, caindo

sobre a tunica leve e roçagante, emfim, esse vestuario que o genio grego

creou para as linhas geraes da belleza jonica, fará da mulher formosa

uma _unidade esthetica_.

Assim, o Mosteiro da Batalha produz-nos a impressão encantadora das

mulheres virgens, honestas e formosas, ornadas com essa extrema e

elegante simplicidade, que é o reflexo exterior e harmonico de um puro

estado da alma.

Já falámos das fachadas do Mosteiro; bem longe estamos d'esses enormes

porticos profundos de caprichosa ornamentação, coroados de grandes

rosaceas, e ladeados de torres immensas, cujas agulhas finas e

rendilhadas parece tocarem as mais altas nuvens. O Mosteiro da Batalha

não offerece esta rica ornamentação. Nem torres, com flechas arrojadas,

nem profundos porticos guarnecidos de grandes esculpturas de

phantasticas e mysticas personagens, possue o modesto e singelo

monumento!

A Cathedral de Milão é povoada por 6:000 estatuas de todas as grandezas,

dispersas pela vasta construcção em nichos de ricos e variadas fórmas. O

Mosteiro da Batalha tem apenas as doze estatuetas do portico; em mais

parte alguma se vê outra estatua, ou um nicho deserto espera ainda a

obra do esculptor!

O interior da egreja é, tambem, de absoluta simplicidade. A ornamentação

limita-se aos pontos, onde era indispensavel: aos capiteis das columnas,

aos tecidos das janelas e, por excepção, aos lambrequins de pedra que

guarnecem o intradorso dos arcos das absides.

Os feixes de columnellos, de extrema elegancia e delicadeza, que

revestem os pilares das naves, sobem a grande altura e ramificam-se nas

abobadas, abrindo-se em simples rede de nervuras singelas. A Cathedral

de Sevilha, no vastissimo cruzeiro e nos primeiros vãos das naves, a de

Milão, em toda a extensão da grande nave, offerecem as abobadas

recamadas de verdadeiras rendas de pedra, entre os meandros de

complicadas nervuras.

As paredes nuas do templo, emolduradas pelos arcos e pelos columnellos,

crescem de baixo até acima sem o mais simples ornamento, sem a mais

ligeira moldura; n'essas superficies immensas brilham, apenas, as

janelas de excellentes proporções, como refulgem os grandes diamantes,

encastoados em velha prata oxidada. A Egreja da Batalha possue a belleza

ideal das suas linhas geraes, a perfeição innegavel da construcção e a

côr de velho marfim, que os seculos deram á antiga pedra. Mais nada.

Em todo o Mosteiro reina egual simplicidade. Na capella do fundador,

cujas disposições elegantissimas já tentámos descrever, a ornamentação é

um pouco mais rica nos lambrequins dos arcos da cupula interna. Não

falaremos no tumulo de D. João I e D. Filippa e nos bellos arcocelios

dos tumulos dos infantes seus filhos, porque na realidade não constituem

verdadeiros elementos de ornamentação architectonica.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Janela do Claustro principal]

No claustro principal póde dizer-se que toda a ornamentação se concentra

tambem nos pontos onde era indispensavel: nos grandes tecidos dos arcos

dos porticos, na porta e nas janelas da casa do capitulo e no pequeno

pavilhão do lavabo, que existe proximo do refeitorio.

Os tympanos dos arcos do claustro, sustentados por finos columnellos,

são em geral magnificos. Apresentamos a gravura de dois arcos: um

servindo de porta, outro de janela. Em ambos, principalmente, no

segundo, ha vestigios e caracteres evidentes de renascença manuelina.

A porta e as janelas da casa do capitulo são excellentes. Na gravura do

portico oriental do claustro podem distinguir-se com certa nitidez estes

elementos. Do interior d'esta bella sala já falámos precedentemente.

O pequeno pavilhão da fonte, ou lavabo, é talvez o ponto do Mosteiro

onde os architectos empregaram mais rica ornamentação, cujo caracter

melhor se comprehende pela inspecção da respectiva gravura, o que não

conseguiriamos em larga descripção.

Se da ornamentação das fachadas e do interior dos edificios passamos

para a dos coroamentos, a lei da simplicidade e da harmonia não soffre

excepção. _Parecem guarnecidos de renda ingleza_, disse-nos um dia

alguem, expressando perfeitamente a impressão, que elles produzem, pela

figura que melhor se adequava ás tendencias e aos habitos do proprio

sexo.

De facto, os coroamentos dos edificios, formando grandes linhas

horisontaes em diversos planos, são contornados por largas fachas

rendilhadas, verdadeiras platibandas, em geral de espaço em espaço

divididas por pilastras lisas, encimadas de pequenos pinaculos. Damos o

desenho de um motivo assás frequente. O parapeito é guarnecido de um

bello entrelaçado, onde predomina a flor de lyz; o corpo da platibanda,

de evidentes quadrilobulos, assenta sobre uma cornija, sustentada por

modilhões arqueados.

[Figura]

Este desenho póde considerar-se o _leit-motiv_ da bella symphonia

ornamental dos coroamentos dos edificios. Por toda a parte foi o fio

conductor, que dirigiu e deu unidade á inspiração do architecto. As

fórmas variam, de certo, um pouco; mas, quasi sem excepção, ha sempre em

todas a acção e a reminiscencia do trecho inicial.

Além d'esta ornamentação nada mais têem hoje os edificios senão dois

pinaculos mais elevados e a agulha, se tal nome merece o elegante e

rendilhado corucheo da pequena torre do relogio. N'outro tempo, a

capella do fundador foi, tambem, coberta por outro corucheo mais

consideravel, ignorando nós as rasões do seu desapparecimento. Julgamos

que este importante elemento architectonico deve ser reconstruido, como

o exige a linha geral da fachada do Mosteiro, que assim ficaria muito

mais completa e majestosa[14].

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Porta do Claustro principal]

As tendencias horisontaes dos coroamentos, dispostos em planos não muito

differentes, a ausencia quasi completa dos elementos verticaes de grande

altura dão ao conjunto do Mosteiro uma fórma acastellada, muito

caracteristica do ogival inglez, que manifesta fortemente, por exemplo,

a Cathedral de York.

A architectura religiosa na Edade Média · 第 15 / 17 段