architectonica, permitta-se-nos a phrase, que, mais talvez do que em
nenhum outro ponto, o monumento produz, visto do canto do claustro
principal, no terrado junto ao pequeno pavilhão da fonte. Jámais outros
grandes monumentos, dos que vimos, nos provocaram tão profunda sensação
e sempre repetida; a não ser, talvez, a grande charola da Cathedral de
Milão.
A construcção do Mosteiro da Batalha começou, pois, quando no continente
o Estylo Ogival resvalava para a decadencia; pelo mesmo tempo,
erguiam-se em Sevilha e Milão duas enormes cathedraes de estylo bem
menos puro. Esta coincidencia da pureza architectonica do Mosteiro da
Batalha com a da arte ingleza parece-nos assás caracteristica; outras
rasões ha, porém, que ainda mais apertam estas relações.
Em assumpto tão delicado procuremos a opinião de um mestre inglez, bem
conhecido historiador da arte. «Nós não encontramos, tambem, em
Inglaterra, diz Hope, esses porticos profundos, cheios de estatuas e
encimados de grande rosaceas, que se vêem nas Cathedraes de Strasburgo,
Reims, París, Chartres, Amiens e outros pontos. Apenas podemos formar
idéa d'isto pela rosacea, relativamente insignificante, da egreja de
Exester. Por toda a parte--em Inglaterra--o portal e a rosacea são
substituidos por uma porta e uma janela sem proporção alguma entre si, a
porta sendo muito pequena e a janela muito grande.»
Não multiplicamos as citações para evitar longa exposição e porque esta
nos parece caracteristica.
Olhando a fachada principal e a do sul do Mosteiro, porque a egreja está
orientada, como era costume, voltando a capella-mór para o oriente,
encontraremos realisada a regra do historiador inglez, principalmente na
ultima. Outras similhanças se manifestam nos caracteres do coroamento e
da ornamentação, que seria prolixo descrever. Além d'isso, em todo o
edificio predominam as grandes janelas com maior ou menor numero de
maineis; só duas insignificantes rosaceas existem na casa do capitulo e
essas talvez não sejam primitivas.
Uma observação fizemos logo n'uma das nossas primeiras visitas ao
Mosteiro da Batalha, guiado, de certo, pelas presumpções e pelos factos
historicos, a que nos havemos mais tarde de referir; pareceu-nos que a
feição, a physionomia artistica do Mosteiro offerecia grandes analogias
com a da Cathedral de York, apesar das profundas differenças nas
respectivas linhas geraes.
Assim, foi com alguma surpreza e contentamento que se nos deparou,
depois, a seguinte opinião de Raczynski, cuja obra sobre as Artes em
Portugal é bem conhecida: «logo que eu conheci, diz este sabio, a
soberba Egreja da Batalha pelas gravuras de Murphy, achei-lhe tal
analogia com a Cathedral de York, que não me restou duvida sobre a
origem commum d'estes edificios».
Ora, deve notar-se que este grande critico da arte não podia ter
presumpções fundadas, nem perfeito conhecimento dos factos historicos
portuguezes, que o levassem, como a nós, a ser bem guiado ou enganado
por elles. O testemunho é, pois, valioso e insuspeito.
É tambem verdade que Murphy, o architecto inglez de quem já falámos e a
quem Raczynski se refere, no seu livro _Viagens em Portugal_, diz que
Falkenstein bibliothecario em Dresde, lhe escreveu: «ser fóra de duvida
que a maior parte das cathedraes ogivaes eram obra da inspiração de
architectos, ou pedreiros livres--_franco-maçons_. Havendo, tambem,
acrescenta Murphy, recebido informações de empregados dos archivos de
Lisboa, que lhe affirmaram ter sido um architecto inglez, chamado
Stephen Stephenson, o constructor do Mosteiro da Batalha.
«Foi a Rainha D. Filippa, continúa Murphy, filha do duque João de
Lencastre e neta de Eduardo III, de Inglaterra, quem deve ter tido maior
acção na escolha do architecto. É fóra de duvida que Stephen Stephenson
fazia parte dos _free and accepted masons_, cujo centro em Inglaterra
era York--_grand-loge of free masons at York_.» Esta observação
valiosissima podia ter guiado Raczynski; mas não seria sufficiente para
lhe formar a opinião das parecenças, visto que lhe faltavam outros
elementos.
A affirmação de Murphy póde ser contestada; d'ella se conclue, porém,
embora implicitamente, que o architecto inglez encontrára os caracteres
do Estylo Ogival da sua nação no Mosteiro da Batalha, aliás não
acceitaria nem exporia as hypotheses apresentadas.
Por todas estas rasões, parece-nos demonstrado que o estylo do Mosteiro
é do ogival inglez. Vejamos ainda se os factos historicos e as
respectivas datas, bem como outros argumentos, corroboram esta
conclusão.
Em primeiro logar, a construcção da Cathedral de York, levada a effeito
pelos _franco-maçons_ da loja-mestra d'aquella cidade, começou cêrca do
anno de 1245 e tinha terminados os principaes elementos, naves,
transepto, etc., etc., de 1291 a 1360. As obras do mosteiro da Batalha,
havendo sido iniciadas em 1387, permittem as datas não só a influencia
directa da Cathedral de York sobre o monumento portuguez, mas explicam
até esta influencia pela possibilidade de ter sido feito o plano
respectivo por architectos inglezes da loja-mestra dos _franco-maçons_
d'aquella cidade, chamados depois a Portugal por D. João I para o
executarem.
Um facto muito secundario na apparencia parece-nos avigorar esta
presumpção. Alguns nomes portuguezes dos elementos architectonicos
ogivaes são perfeitas adulterações das palavras correspondentes
inglezas, por exemplo: o _maynel_, ou pinazio das janelas, traduzido por
_mainel_, o _butress_ transformado em _botareos_, a _gargoil_ em
_gargula_. Estes termos, pelo menos, são de origem ingleza.
Assim tambem, nos tempos modernos, os operarios inglezes, que primeiro
trabalharam no caminho de ferro entre Lisboa e Porto, deixaram, entre
outros termos especiaes, os _rails_, carris, traduzidos pelo portuguez
popular em _ralhes_ e as _sleepers_, travessas, transformadas em
_chulipas_. A analogia tem aqui grande importancia e demonstra, a nosso
ver, que na primitiva construcção do Mosteiro da Batalha trabalharam
operarios inglezes; ora, sendo inglezes, a logica leva-nos a suppor que
deviam ser de York, pertencentes á grande corporação _franco-maçonica_,
que levantou a grande cathedral d'esta cidade.
Os factos da historia do tempo mais corroboram ainda esta fundada
presumpção. É impossivel fazer n'este ponto um quadro completo d'essa
phase historica nacional; por isso, citaremos apenas, apreciando-os e
comparando-os, alguns factos culminantes, que mais directamente
interessam o presente assumpto.
As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse
tempo, em que não existia representação diplomatica permanente, Portugal
tinha n'aquella nação dois embaixadores, cujos nomes a historia
conservou: D. Fernando Affonso de Albuquerque e Lourenço Annes Fogaça.
Eduardo III, o pae do celebre _Principe Negro_, acabava de crear
condados para dois dos seus filhos, dando-lhes soberania quasi
independente: o de Leicester, para João de Gaunt, e o de York, para
Eduardo de Langley. Os condados eram limitrophes e no segundo
approximava-se do fim a construcção da grande cathedral, que passa por
ser a melhor da Inglaterra e uma das melhores do mundo.
Sem entrarmos em outros pormenores, digamos que em começos de 1386
chegaram a Portugal emissarios de João de Gaunt, duque de Leicester,
annunciando a sua chegada e pedindo navios. De facto, o duque
desembarcou na Corunha, em 25 de junho do mesmo anno. Em novembro
seguinte, n'uma conferencia realisada no Porto, ficou ajustado o
casamento de D. João I com D. Filippa de Lencaster, filha do duque
inglez. Assim, em fevereiro de 1387 realisou-se no Porto o casamento.
A fórma, pela qual os factos se precipitam em tempos, em que as
communicações eram difficeis, demonstra as relações intimas e constantes
das duas côrtes. É, pois, natural que D. João I, informado pelo duque de
Leicester das magnificencias da Cathedral de York, cuja fama corria já
por toda a Inglaterra, lhe pedisse esses _celebres architectos e
officiaes de cantaria de longes terras_, de que fala Frei Luiz de Sousa.
Esta presumpção é logica e humana. Seria absolutamente impossivel suppor
que D. João I não falasse ao duque, seu futuro genro e auxiliar na
guerra, na batalha de Aljubarrota e no cumprimento do voto; como
impossivel é, tambem, que a tal respeito o interlocutor não se referisse
á Cathedral de York. É muito provavel, portanto, haverem sido
encommendados os planos para Inglaterra, ou pedidos os architectos para
os fazer em Portugal, dirigindo depois a respectiva construcção. A
proxima vinda para Portugal de Filippa de Lencaster facilitava esta
resolução.
De certo, estes raciocinios só por si poderiam representar simples
coincidencias de datas; mas ponderados e cotejados com os restantes, já
desenvolvidos, assumem um caracter de plausibilidade de incontestavel
valor.
Ora, não existe duvida alguma em que architectos e operarios da
loja-mestra _franco-maçonica_ de York foram os constructores da grande
cathedral; portanto, é rigorosamente logico e muito natural que a essa
corporação se fossem buscar os elementos para a construcção do Mosteiro
da Batalha. A prova da cathedral ingleza, quando outra não houvesse,
daria nome e fama universal aos seus habeis constructores.
É, além d'isso, muito provavel que as associações _franco-maconicas_
fossem empreiteiras, como existem sociedades modernas. Em qualquer
tempo, a eguaes necessidades sociaes correspondem instituições
similhantes, ou pelo menos equivalentes. Se assim não aconteceu,
manifesta-se ainda provavel que estas associações _franco-maçonicas_,
creadas tambem para defeza dos respectivos operarios de todas as ordens,
se garantissem por meio de contratos de trabalho. Qualquer d'estes
factos, ambos naturaes e logicos, explica a existencia do _védor_, ou
fiscal das obras, Fernão Rodrigues, que vivia no tempo de D. Duarte.
Assim, ficaria egualmente fundamentada a nossa hypothese: Affonso
Domingues poderia muito bem ter sido o primeiro _védor_ real das obras
do Mosteiro da Batalha.
De todos estes raciocinios e factos, expostos e comparados, resulta,
segundo pensamos, a plena convicção de que o Mosteiro da Batalha, sendo
do Estylo Ogival inglez, foi planeado e construido por architectos e
operarios inglezes, que faziam parte da associação _franco-maçonica_ da
grande-loja de York.
[Figura: CONVENTO DA BATALHA--Planta geral.
LEGENDA
PRIMEIRA EPOCHA
1 EGREJA.
2 CAPELLA DO FUNDADOR.
3 SACRISTIA.
4 THESOURO.
5 CLAUSTRO PRINCIPAL.
6 CASA DO CAPITULO.
7 PONTE OU LAVABO.
8 REFEITORIO.
9 COZINHA.
10 ADEGA E DISPENSA.
11 PORTARIA.
SEGUNDA EPOCHA
12 CLAUSTRO DE D. AFFONSO V.
TERCEIRA EPOCHA
13 VESTIBULO.
14 CAPELLAS IMPERFEITAS.]
CAPITULO TERCEIRO
AS EPOCHAS DA CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO
Como dissemos em anterior capitulo, os edificios, constituindo o antigo
Convento da Ordem de S. Domingos, na Batalha, foram construidos em
epochas differentes. Depois da extincção das ordens religiosas, esteve o
Mosteiro completamente abandonado durante longos annos, caindo em ruinas
parte d'elle e soffrendo graves prejuizos a parte monumental, exposta á
acção do tempo e ás grosseiras depredações, praticadas pela ignorancia
popular.
Mais tarde, quando começaram com algum methodo e continuidade as obras
de conservação e restauração dos edificios, uns foram arrasados como
inuteis, porque formavam as arruinadas pertenças do convento, e outros
para desaffrontar a parte monumental do Mosteiro. A planta geral, que
apresentamos, traduz o estado actual e definitivo d'estes edificios.
Em tres epochas muito proximas, quasi successivas, foram elles
construidos. Na planta procurámos distinguir estas epochas, dando tons
diversos ás construcções respectivas existentes. Assim, temos:
1.^a Epocha. Envolve, bem nitidamente definidos pelas intimas ligações,
a capella sepulcral do fundador, a egreja, a sacristia, o claustro
principal, a casa do capitulo, a portaria, a adega, a cozinha e o
refeitorio.
2.^a Epocha. Comprehende actualmente o claustro de D. Affonso V e alguns
dos antigos annexos.
3.^a Epocha. Abrange, apenas, as chamadas _capellas imperfeitas_, que
mais rigorosamente se deveriam denominar _incompletas_, porque o nome
lhes vem de estarem ainda em grande parte por acabar, e o respectivo
vestibulo.
Da historia dos edificios da primeira epocha já nos occupámos nos
anteriores capitulos, por serem do monumento os que pertencem ao Estylo
Ogival. Não será, todavia, longa e escusada digressão, determo-nos um
pouco na apreciação dos edificios das outras epochas.
Os edificios da segunda epocha eram assás vulgares; apenas o claustro
chamado de D. Affonso V, cujo reinado durou de 1438 a 1481, offerece
algum valor architectonico. É do Estylo Ogival, muito espaçoso e
simples, não manifestando ornamentação alguma, nem até nos proprios
capiteis das columnas prismaticas dos porticos. Apesar d'isso, as suas
linhas geraes são agradaveis, embora tenha de luctar com a proximidade
do bello claustro monumental. Sem duvida, foi construido para servir de
centro ás pertenças do convento, que principalmente para elle abriam.
O Cardeal D. Francisco de S. Luiz admitte que a construcção d'este
claustro se deve attribuir aos mestres Martin Vasques e Fernão de Evora.
O primeiro d'estes mestres, segundo o mesmo auctor, dirigiu as obras de
1438 a 1448. Como este claustro era o centro das pertenças conventuaes,
a respectiva construcção deve ter acompanhado de perto a dos edificios
da primeira epocha.
Os edificios da terceira epocha reduzem-se ás _capellas imperfeitas_ e
ao respectivo vestibulo, que são peças de elevado valor architectonico,
onde a primeira physionomia do Estylo da Renascença se desenha com
excessiva nitidez e se accentua, á medida que a ornamentação se
manifesta nas partes superiores do edificio, parecendo marcar-lhe varios
e successivos periodos de construcção.
Julgamos indiscutivel que este conjunto é obra do reinado de D. Manuel,
que durou de 1495 a 1521. Assim, logo no interior do vestibulo, por
baixo das lindas janelas que o illuminam, uma ao norte outra ao sul,
vê-se em logar superior o caracteristico _E_, letra do nome d'este rei,
Emmanuel, cercada de uns lavores, que por signal têem dado tratos á
imaginação dos archeologos pacientes, e por baixo as seguintes legendas
em caracteres romanos: _perfectum fuit anno domini 1509_. Ora, é mais do
que natural que as paredes do vestibulo crescessem simultanea e
parallelamente com a elevação das paredes das capellas.
O Cardeal D. Francisco de S. Luiz, que estudou o monumento, infere, não
sabemos com que criterio, que esta data corresponde á suspensão das
obras. Julgamos infundado este asserto. Não é natural nem logico suppor
que a suspensão se désse n'esse anno, quando D. Manuel no seu
testamento, feito em 1517, recommenda com a maior instancia ao seu
successor que as mande acabar.
N'este documento, com effeito, lêem-se textualmente os seguintes
periodos: «item, rogo muito e encomendo que se mandem acabar as Capellas
da Batalha naquella maneira que milhor parecer, que seja conforme á
outra obra e asy lhe dem entrada para a Igreja do Mosteiro da milhor
maneira que parecer, e mandem mudar para ellas, sendo primeiro de todo
acabadas, e asy seus Altares, e todas as outras cousas necessarias:
El-Rei Duarte, que foy o primeiro principiador dellas, e assy El-Rey D.
Affonso meu thio, e El-Rey D. João, que Deus aja, e o Principe D.
Affonso, meu sobrinho».
As phrases terminantes d'esta parte do testamento parece indicarem D.
Duarte como iniciador das obras, quer este principe tivesse apenas o
pensamento de construir um pantheon de familia, que D. Manuel depois
adoptou, quer lhe lançasse os fundamentos, sobre os quaes depois, e
muito mais tarde, começaram a crescer os edificios. Em nossa opinião só
a tanto se poderia ter alargado a iniciativa de D. Duarte, não só porque
o reinado d'este principe, de 1433 a 1438, foi curtissimo; mas ainda
porque em principios do seculo XV seria impossivel em qualquer parte,
principalmente em Portugal, o emprego do estylo d'estas capellas.
N'este tempo reinava o Estylo Ogival no seu estado de pureza, e a
evolução da arte não manifestára ainda os primeiros symptomas da
renascença. Além d'isso, a carta, anteriormente citada, de D. Duarte a
Fernão Rodrigues, védor das obras do Mosteiro da Batalha, corrobora esta
presumpção. O principe não teria deixado de referir-se ás obras das
capellas, sendo natural ter maior interesse pelas da sua propria
iniciativa. A construcção devia, pois, estar parada e ter ainda pequena
importancia no principio do reinado de D. Manuel, se na realidade passou
de simples plano.
Todas estas presumpções são fortalecidas por outras rasões, que
seguidamente vamos adduzir, muito embora não pretendamos alongar esta
exposição e fazer detida descripção d'esta parte do Mosteiro.
A grande porta das _capellas imperfeitas_ é uma das melhores, das mais
ricas e bellas, se não a melhor que temos visto até hoje, fóra e dentro
do paiz. Deve ser considerada incontestavelmente um primor de elegancia,
de ornamentação e de execução; mas um architecto ogival não a poderia
ter creado, por maior genio e sciencia que possuisse. A potente
concepção do artista, fosse elle quem fosse, já estava fortemente
aquecida pela renascença e enthusiasmada pelas glorias das viagens
portuguezas ao Oriente. Sente-se, vê-se isto n'aquellas pedras, quasi
cinzeladas.
Sem a pretensão de descrever, o que é indescriptivel sem o auxilio de
planos e desenhos minuciosos, diremos, apenas, que na face voltada para
o vestibulo, a de ornamentação mais sobria e pura, as molduras da porta
estão, de cima até abaixo, absolutamente cobertas de pequenos anneis
encadeados, em cujos espaços circulares se lêem caracteristicas
legendas. No alto da porta, em dois grandes anneis similhantes, que a
fraca claridade do vestibulo mal deixa perceber, lêem-se em caracteres
gothicos as palavras gregas: _pante taray_. Nos anneis mais pequenos
repete-se sempre outra legenda, tambem em grego: _tanyas erey_.
Sem falarmos nos erros orthographicos, que provêem de se empregar muitas
vezes n'esse tempo o _y_ por _i_, estas legendas completam-se na
symbolica e imperativa phrase: _depressa por toda a parte descobre
regiões_. É o grito da alma portugueza dos seculos XV e XVI que o
architecto deixou gravado na pedra do formoso monumento!
Na face voltada para o recinto das capellas, o estylo parece mudar de
physionomia. Os rendilhados assumem proporções phantasticas. A pedra
parece trabalhada por joalheiros. A nossa memoria occorrem essas
filigranas delicadissimas, que a India e a China nos enviam, abertas em
sandalo e marfim!
Se é licito, deante de tal primor, lembrar defeitos, talvez seja esta
ornamentação, levada ao ultimo excesso de finura e riqueza, aquelle que
impressiona o nosso espirito, principalmente quando passamos
abruptamente do grande estylo, simples, puro e ideal dos edificios da
primeira epocha para os das _capellas imperfeitas_. Que nos perdoe o
poderoso e genial creador d'esta maravilha architectonica!
Ora, se é possivel duvidar de que as paredes do vestibulo crescessem
simultaneamente com as do recinto das _capellas imperfeitas_, duvida que
aliás para nós não existe, seria um absurdo insustentavel fazer egual
supposição ácerca da porta monumental, que dá entrada _unica_ para este
recinto.
Devia ter um genio prophetico o architecto ogival, que em começos do
seculo XV, durante o reinado de D. Duarte, projectasse esta porta
monumental de accentuada renascença, com indiscutiveis influencias
orientaes na ornamentação e nas legendas, excepcionalmente escriptas em
lingua grega!
No interior do recinto das capellas a physionomia do estylo muda
sensivelmente. Até á altura das janelas em começo, a influencia ogival
ainda é profunda; embacia-se mais, depois, accentuando-se os caracteres
da renascença. Por cima da magnifica porta, que acabamos de indicar, uma
bella janela accusa já fortemente a renascença italiana, que aliás se
manifesta na ornamentação geral d'esta parte superior do edificio. Aos
espiritos um pouco versados na historia e nos caracteres dos estylos
occorre que algum tempo deve ter separado estas duas construcções
sobrepostas, realisadas por architectos differentes[9].
De facto, parece que depois da interrupção da construcção das _capellas
imperfeitas_, ainda no tempo de D. Manuel, as obras tiveram andamento.
Assim, D. Sebastião, para continuação dos trabalhos, mandou dar em 1574,
pela Casa da India, 400$000 réis annuaes, impostos sobre o contrato da
pimenta. Já n'este tempo tinhamos addicionaes! Segundo consta, este
imposto pouco ou nada produziu; mas isto não prova que o mesmo rei não
concedesse outros fundos para esta construcção, que lhe mereceu as
attenções. Depois, em 1591, Filippe I--o celebre _demonio do meio
dia_--mandou fazer o orçamento, como se diria hoje, para terminação das
_capellas imperfeitas_; mas o dinheiro nunca chegou de Hespanha, onde
mal dava para a grandiosa obra da construcção do Mosteiro de S.
Lourenço, no Escurial.
Seja como for, a parte superior das _capellas imperfeitas_ pela feição
especial do seu estylo parece-nos de construcção posterior á outra
parte, devendo datar dos meiados do seculo XVI.
Apesar do seu incontestavel valor architectonico, a elevação d'este
edificio, na situação onde se encontra, foi um grave e irremediavel
erro, que se tornaria monstruoso se a construcção tivesse sido
finalisada e posto em directa communicação o pantheon dynastico com a
egreja primitiva, como D. Manuel indicava no seu testamento. Por esta
fórma, as absides do templo ogival ficariam quasi sem luz e as
communicações directas só podiam ser rasgadas, ou na abside central, a
capella-mór, ou nas duas absidiolas lateraes adjacentes, estragando
completamente a bella egreja ogival.
Ainda no estado actual as _capellas imperfeitas_ prejudicam muito a luz
das janelas inferiores das cinco absides do templo, principalmente das
tres comprehendidas no vestibulo, tirando-lhes os bellos effeitos dos
vitraes, atravessados pelos primeiros raios do sol nascente, tão
procurados pelos architectos da edade media.
Pensar em demolir as _capellas imperfeitas_, dado o seu grande valor
historico e architectonico, constituiria um crime de lesa-arte; mas o
que poderia fazer-se com vantagem para ambos os monumentos, um ganhando
luz para as respectivas absides, outro para a soberba porta acima
descripta, seria demolir a abobada do vestibulo, deixando-lhe apenas as
paredes lateraes, onde existem, como dissemos, duas bellas janelas, que
devem ser respeitadas.
Eis em rapidos traços a summaria enumeração das construcções da terceira
epocha. Se excede os quadros d'este livro, exige-a a descripção do
Mosteiro, que não ficaria completa, se a este trabalho por inopportuno
nos houvessemos poupado.
[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Córte longitudinal segundo o eixo da
Egreja]
CAPITULO QUARTO
DESCRIPÇÃO GERAL DOS EDIFICIOS DA PRIMEIRA EPOCHA
--Estylo Ogival--
Por ordem logica, deveriamos, talvez, começar pela descripção exterior
das fachadas do Mosteiro, porque estes elementos se apresentam primeiro
á nossa observação; todavia, alteramos esta ordem, visto ser impossivel
bem avaliar e estudar uma construcção, sem previamente haver formado
clara idéa das disposições geraes da respectiva planta.
I
Plano geral dos edificios ogivaes
_Egreja_. Está orientada, como era costume, na direcção leste-oeste,
correspondendo a porta da fachada principal ao poente e abrindo as
bellas janelas das cinco absides sobre o oriente, d'onde o templo devia
receber a primeira luz radiante da madrugada, atravez dos vitraes
polychromicos. A absurda escolha do local para a construcção das
_capellas imperfeitas_ inutilisa, em grande parte e sem remedio, este
effeito poetico, procurado em quasi todas as cathedraes romanicas e
ogivaes.