de elegancia, ás vezes exagerada. N'este terceiro periodo, os elementos
verticaes tendem a tomar grandes proporções, a ornamentação manifesta-se
riquissima e caprichosa, os coroamentos enchem-se de agulhas e de
pinaculos, uma floresta de corocheos elevados e ponteagudos dá aos
edificios phantastico aspecto, causando a impressão caracteristica de
chammas, principalmente quando illuminados pelos raios do sol poente.
D'esta impressão proveiu, de certo, o ser conhecido este periodo pela
designação de Estylo Ogival _flammejante_, ou _florido_.
Taes são os periodos, que offerece a evolução do novo estylo; devendo,
porém, notar-se n'este ponto o que dissemos ácerca da classificação um
pouco empirica por seculos. A passagem dos estylos faz-se sempre
evolutivamente, sendo impossivel marcar-lhes limites rigorosos e bem
definidos.
No interior as egrejas ogivaes manifestam excepcional grandeza e
elegancia, provindo da elevação dos pilares polystilos e da profundidade
das abobadas, ricamente artezonadas, com fechos ornados de bocetes.
Numerosas janelas e rosaceas, tendo vitraes polychromicos, inundam o
templo de luz doce e poetica. O mysticismo sombrio e severo das egrejas
romanicas, a profunda melancholia que produzem no espirito,
transforma-se nas ogivaes em alegre e suave sentimento religioso.
A egreja romanica traduz a profunda tristeza e o desalento da
Edade-Media, principalmente nos primeiros seculos; a sua expressão é
lugubre, quasi sinistra, como a do espirito monastico que lhe deu
origem. Ha n'ella a impressão desoladora de uma vida rude e cruel,
d'onde a alma procura fugir para o socego eterno. A egreja ogival produz
sensações differentes. Respira-se ali a vida livre e activa, supremo bem
sobre a terra, seguida depois pela felicidade eterna, cuja esperança
irisada illumina o espirito, como os raios do sol, atravessando as
grandes vidraças coloridas, inudam de luz suave e avelludada as naves do
templo.
Nas disposições internas a egreja ogival soffreu algumas modificações
importantes. A cruz latina já havia sido por vezes abandonada ou
alterada no Estylo Romanico, muito embora, tanto n'este estylo como no
ogival, deva ser considerada fórma fundamental e preferida. Pelas
necessidades do culto, sempre crescente em riqueza, os coros ogivaes
tomaram proporções maiores em relação ás naves. A _charola_, quando
existe, é ornada de capellas, a correspondente ao eixo central da egreja
mais elevada e comprida, dedicada ao culto da Virgem. As capellas ao
longo das naves lateraes não se encontram ainda no primeiro periodo
ogival; mas apparecem no fim do segundo, no seculo XIV. Em algumas
egrejas observa-se a inclinação do eixo do côro em relação ao da nave
principal, desvio que citámos e apreciámos no Estylo Romanico de
transição.
A planta circular e a polygonal manifestam-se, tambem, como no estylo
precedente. Em certas egrejas as absides são prismaticas ou
desappareccm, sendo substituidas por paredes planas em que se abrem
grandes janelas. É evidente ser impossivel abranger em curta synthese as
disposições, variaveis em muitos elementos, das plantas das egrejas
ogivaes, que se contam por centenas, se não por milhares em todo o orbe
christão. Uma idéa geral, embora, pouco caracteristica, é o mais a que
se póde chegar n'este momento; todavia, não devemos deixar de
especificar a elegante planta da egreja da Batalha, que descreveremos
n'outra parte d'este livro.
Uma disposição particular muito constante das egrejas ogivaes parece-nos
ser a maior elevação da nave central sobre as colateraes. Nas paredes
d'esta nave, exteriormente fortalecidas por arcobotantes, abrem-se as
grandes janelas do _clerestory_. Ás vezes, desapparecendo o _triforio_,
estas janelas assumem enormes proporções, prestando-se então
admiravelmente aos magnificos quadros dos vitraes polychromicos. Esta
disposição, que dá extrema belleza ás naves centraes, é a da Egreja da
Batalha.
N'algumas egrejas, os ambons primitivos--as tribunas onde era lido o
Evangelho--foram substituidos por galerias elevadas, lançadas entre a
nave central e o côro, com accesso pelos dois lados. Estas galerias,
profusa e ricamente ornamentadas, repousam sobre grandes arcos, por
baixo dos quaes fica livre e desembaraçada a ligação do corpo da egreja
com o côro. D'esta construcção, aliás pouco vulgar e não existente entre
nós, ha exemplos elegantissimos e muito ricos.
Pelo que respeita ás fachadas, a diversidade é maravilhosa; todavia, de
um grande numero de edificios póde deduzir-se um schema de certa
importancia e clareza. Tomaremos, para exemplo, um monumento bem
conhecido, a Cathedral de Notre Dame de Paris. A fachada é dividida em
trez partes verticaes--em geral ha tantas partes definidas, quantas são
as naves interiores da egreja--a do centro comprehende a porta
principal, sobrepujada pela rosacea; as lateraes, correspondendo ás
torres, conteem as portas secundarias e por cima as respectivas janelas
ou rosaceas, que illuminam as naves correspondentes. A fachada offerece,
tambem, tres divisões horisontaes bem distinctas, a primeira envolve as
tres portas, a segunda a rosacea e as janelas ou rosaceas lateraes, a
terceira começa na nascença das torres.
Nas fachadas sem torres, como as das Cathedraes de Milão e de Sevilha,
de cinco grandes naves, e na da Egreja da Batalha de tres, as divisões
verticaes são muito evidentes, accusando, sempre por fórma bem marcada,
o numero e a disposição decrescente das naves interiores.
Este schema parece-nos apenas interessante; porque seria impossivel
abranger a variedade infinita das fachadas ogivaes em curtas regras e
poucos principios. Diremos mais: é quasi impossivel descrever a mais
modesta só com simples palavras oraes ou escriptas.
As torres ogivaes são caracteristicas, de extrema elegancia,
principalmente quando coroadas de elevadas, finas e rendilhadas agulhas.
Offerecem a impressão de força e grandeza, sem duvida; mas a profusa
ornamentação e as grandes janelas, onde reina a ogiva, dão-lhes um
aspecto especial de leveza e elegancia, que não possuem as romanicas.
Algumas vezes as torres da fachada apresentam-se deseguaes; accusando,
assim, a secundaria importancia da egreja na hierarchia ecclesiastica.
Estes e outros caracteres dos templos ogivaes manifestam-se tão
salientes, impressionam tão profundamente a intelligencia e a memoria,
que os menos entendidos e versados na architectura podem distinguil-os,
classificando com relativa facilidade edificios bem definidos.
A ornamentação ogival é em extremo complexa; mas tão harmonica e bem
combinada, que produz a sensação de grande simplicidade. Para bem a
apreciar seria indispensavel estudar elemento a elemento as differentes
partes de um edificio, o que não podemos fazer.
Na ornamentação mural do seculo XIII predomina o reino vegetal; na
Cathedral de Reims, por exemplo, contaram-se mais de trinta especies
vegetaes differentes, espalhadas pelos varios pontos do edificio. Os
ornamentos mais usados são os trifolios, os quadrifolios, as violetas,
as crossas ou arpões, orlando os angulos das pyramides e as linhas dos
frontões e das cornijas, os pinaculos, rematando as cabeças dos
botareos, os nichos com doceis mais ou menos pyramidaes e rendilhados,
zig-zags, cabeças de pregos e algumas outras molduras romanicas. A
antiga ornamentação byzantina, que floresceu ainda no Estylo Romanico,
tende a desapparecer. O trabalho é fino e perfeito; procura-se imitar a
natureza, sem a copiar, com extrema liberdade de concepção e firmeza de
execução.
No seculo XIV esta ornamentação subsiste. Os doceis dos nichos tomam
fórmas mais elevadas e pyramidaes. Os triforios obscuros tornam-se
transparentes, illuminados por janelas. As arcaturas teem n'este periodo
uso mais geral.
No seculo XV, domina nas molduras a secção prismatica. Os doceis dos
nichos accentuam-se em elevação e em caprichosos e ricos ornamentos. Os
caixilhos, ou almofadas, constituem decorações muito vulgares, que
mascaram a nudez das paredes. A ornamentação do seculo XV acompanha,
como é natural, a evolução do estylo, é grandiosa e complexa,
approximando-se das fórmas da renascença.
A esculptura no seculo XIII começa a perder as fórmas tradicionaes e
byzantinas dos seculos anteriores. Tem mais grandeza e naturalidade, sem
prejudicar a uncção religiosa. A architectura emancipou-se da influencia
monastica, a esculptura seguiu-lhe o exemplo. É o elemento profano que
vae preparando successivamente o movimento artistico da renascença, pelo
estudo da natureza e da antiguidade classica.
No seculo XIV apparecem as creações grotescas, algumas assás livres, e
as satyras da vida monastica, de que entre nós existem exemplos. Na
Egreja da Batalha, alguns capiteis mais elevados, segundo nos disseram
operarios que os restauraram, descrevem scenas equivocas, ou pelo menos
pouco edificantes. Não pudémos verifical-o, attendendo a enorme altura
dos capiteis e á pouca claridade do templo. Algumas gárgulas offerecem
disposições parecidas; uma parece symbolisar accentuadamente o classico
deus Priappo.
No antigo Convento da Conceição em Evora, mosteiro de freiras, uma
gárgula representa uma freira, dando á luz uma creança. Na egreja matriz
de Caminha, outra gárgula figura um homem, voltando as costas para
Hespanha em posição assás equivoca. Estas e outras anomalias, aliás
vulgares e caracteristicas n'este estylo, procurámos explical-as,
tratando da organisação das associações _franco-maçonicas_. Em qualquer
caso, são o producto do trabalho independente da acção monastica, talvez
uma manifestação deploravel da liberdade de pensamento, que foi a
aspiração do segundo periodo da Edade-Media.
No seculo XV a esculptura e a pintura libertam-se. A verdade da natureza
traduz-se nas posições e nos actos. Sente-se bem que a Renascença está á
distancia de um seculo. Os esculptores e os pintores teem
individualidade propria, as suas escolas e os seus discipulos; não se
apresentam simples decoradores, manifestando já a dignidade de artistas,
que professam artes independentes.
A pintura mural foi muito usada no Estylo Ogival. No interior, as
abobadas eram, ás vezes, pintadas de azul e constelladas de ouro e
prata. A côr verde applicava-se aos capiteis, a encarnada aos fustes das
columnas. Nas paredes desenhavam-se varios ornamentos, em alguns casos
simulando elementos architectonicos que melhor pertencem á esculptura.
No exterior, a pintura cobria tambem os portaes, as arcaturas e os
pontos principaes do edificio. As folhagens offereciam a côr verde e as
figuras dos porticos eram recamadas de ouro.
A pintura mural rivalisava com a dos grandes vitraes. O tempo fel-a,
porém, desapparecer quasi por completo, habituando a esthetica moderna a
não comprehender nem admirar a polychromia dos edificios, aliás tambem
muito empregada nos Estylos Classicos. A Sainte Chapelle de Paris,
modernamente restaurada, offerece no interior um excellente exemplo da
pintura mural. É, todavia, mais do que provavel que este uso não fosse
geral, pelo menos nas egrejas de menor importancia. Segundo a nossa
opinião, devemos confessal-o, as velhas cathedraes devem aos seculos o
grande beneficio de lhes haverem substituido o effeito garrido da
pintura exterior pela côr sombria e solemne, que provém da acção do
tempo.
Um dos mais bellos ornamentos do Estylo Ogival consiste, sem a menor
duvida, nos vitraes. As vidraças multicolores, rutilantes á luz do sol,
como se fossem de pedrarias, coando serena claridade pelas grandes
superficies irisadas, onde se desenham, envoltos em caprichosa
ornamentação, complexas scenas, paisagens, episodios guerreiros ou
religiosos, nichos rendilhados com grandes figuras asceticas, produzem
effeitos de luz surprehendentes e de extrema belleza esthetica. Estes
vitraes polychromicos causam uma impressão profunda e indelevel, em que
se mistura a poesia da alma com a musica das côres. Sem elles as mais
bellas cathedraes perderiam grande parte do espirito mystico e do seu
finissimo caracter artistico.
Vimos apparecer estes vitraes no ultimo periodo romanico, pelo menos com
mais importante applicação; vamos agora esboçar as transformações, que
soffreram nos seculos seguintes.
No seculo XIII, as vidraças coloridas attingem grande perfeição. A arte
do vidreiro e a pintura aperfeiçoaram-se. Como se chegou a obter na
mesma chapa de vidro côres differentes e esbatidas, as malhas do tecido
de chumbo são maiores, não recortam tanto o desenho, e os tons dos
vitraes manifestam mais harmonia e doçura. As figuras são mais elevadas,
o que provém logicamente dos grandes vãos das janelas. Os ornamentos,
mais cuidados e ricos, harmonisam-se com os do interior do templo.
São variadissimos os motivos; scenas do Novo e Antigo Testamento, lendas
do Christianismo, o florilegio dos martyres, combinam-se com episodios
do tempo e representações de industrias coévas, verdadeiros subsidios de
estudo. Retratos de personagens da epocha, ecclesiasticas e civis,
guerreiros com armaduras e bispos paramentados, constituem recordações
historicas de piedade christã e de votos dos que offereceram estes
despendiosos ornamentos, que embellezam as antigas cathedraes.
No seculo XIV o desenho dos vitraes é mais correcto e as figuras vão
sempre perdendo o caracter byzantino. Os pintores começam a estudar mais
a antiguidade e a natureza, abandonando as fórmas tradicionaes dos
seculos anteriores. A esthetica consegue em bellos effeitos o que perde
em originalidade e espirito de tradição, que aliás encerra sempre
manifestações de belleza mais de accordo com a architectura dos templos.
As côres tornam-se menos vivas, prevalecem as neutras pouco carregadas.
As egrejas precisam de luz, a fim de que os fieis possam ler nos
breviarios os exercicios divinos; as vidraças tornam-se, pois, mais
claras. A Imprensa, inventada no seculo XIV, se esclareceu o mundo,
sacrificou um pouco as velhas cathedraes, desfazendo essa penumbra doce
e encantadora que era a expressão mais adequada ao mysticismo religioso.
Uma ornamentação, embora accessoria, que embelleza as cathedraes
ogivaes, é a rica obra da talha ou a esculptura em madeira,
principalmente nas cadeiras dos córos, que nos estylos mais primitivos
eram de pedra. A perfeição d'este trabalho attinge proporções admiraveis
no seculo XIV. N'este genero de coros, em que a nossa pobreza é extrema,
deve citar-se o da Sé da Guarda. Em Hespanha, pelo contrario, ha
riquezas immensas nos coros e nas respectivas obras de talha. O mais
rico, que temos visto é o da Cathedral de Sevilha, collocado segundo o
uso n'aquelle paiz na nave principal, como no Estylo Latino. Este côro,
admiravel e riquissimo em todo o sentido, parece-nos que deve datar dos
meiados, se não dos fins do seculo XVI.
Antes de finalisar este capitulo, são indispensaveis algumas
considerações geraes de ordem mais ou menos technica, que somos forçados
a desenvolver. Em nenhuma das phases da evolução da arte se manifesta
mais accentuada a influencia do _meio_, do que no Estylo Ogival. Provam
esta asserção a unidade dos seus caracteres geraes e tambem a sua rapida
dispersão nas zonas, onde esse _meio_, como o definimos na introducção
d'este livro, era mais ou menos identico; todavia, a existencia de
elementos e de condições particulares nos differentes paizes tinha de
influir necessariamente nos caracteres da arte.
As construcções ogivaes, obedecendo á influencia do _meio_ particular
das nações, entre as quaes se desenvolveram, tomou feições proprias em
cada uma, muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres geraes do
estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feições
especiaes, diriamos talvez mais nitidamente as physionomias, do ogival
allemão, francez e inglez são por tal fórma definidas, que os grandes
entendedores da arte as distinguem com facilidade.
A evolução e a decadencia do estylo não se manifestaram, tambem, em
identicos periodos: por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e
duradouro o bom estylo, não experimentando quasi o periodo de
decadencia. A Italia, principalmente ao sul, offereceu sempre tenaz
resistencia a todas as innovações artisticas, que mais se distanciavam
do profundo espirito classico, herdado no sangue das gerações
successivas e conservado em numerosos restos dos antigos monumentos. Ao
Estylo Ogival aconteceu facto analogo: as suas construcções appareceram
primeiro nos pontos, onde menos abundavam as romanicas. Não falaremos na
Grecia e no Oriente, porque n'esses paizes o _meio_ social conservou-se
sempre differente.
A estas indicações se deve attender na historia de um estylo, sem
perder, tambem, de vista que a unidade e a harmonia dos edificios são
sempre prejudicadas pela demorada construcção. É sabido, com effeito,
que alguns dos maiores monumentos ogivaes levaram seculos a terminar,
não falando, ainda, nas successivas restaurações, que chegam a alterar a
unidade e o caracter de um edificio.
Um facto, que parece caracteristico tanto no Estylo Romanico como no
Ogival, consiste no pequeno numero de nomes dos grandes architectos, que
nos conservou a historia, emquanto são conhecidos muitos dos classicos.
Tem-se procurado, com excesso de paciencia archeologica, explicar este
facto pela humildade christã dos frades architectos do Estylo Romanico e
pela organisação especial das associações _franco-maçonicas_, principaes
constructoras dos edificios ogivaes.
Talvez em parte fossem estas causas a origem do silencio; não
comparemos, porém, a illustração e o gosto artistico dos cidadãos livres
da Grecia e de Roma com a ignorancia dos barões feudaes e dos
cavalleiros medievaes, que timbravam em não saber ler e escrever,
sellando os documentos com os copos das proprias espadas. Nem
confundamos a plebe d'aquellas florescentes republicas com a multidão
desgraçada e quasi selvagem da Edade-Media. Nos paizes classicos a arte
foi sempre considerada nobre e elevada funcção; na Edade-Media deve ter
sido apenas olhada como simples profissão. Assim, conservaram-se os
nomes dos fundadores dos templos e dos grandes e poderosos da terra,
para quem foi inventada a Historia; os dos pequenos e humildes, embora
geniaes e creadores, mergulharam nas trevas do esquecimento e da
ignorancia medieval.
Alem d'isso, os architectos não punham em evidencia os seus nomes. Aqui
e além dão-se pequenas excepções a esta regra. Quando muito, empregavam
signaes caracteristicos e proprios em qualquer ponto evidente da
construcção. Assim, já o dissemos, na pequena e elegante capella do
Estylo Ogival secundario, agora em via de restauração na Sé de Lisboa, a
flor de lyz, gravada na face de uma columna prismatica, póde bem indicar
a origem franceza do architecto.
Os signaes gravados nos silhares dos monumentos ogivaes tambem são muito
vulgares. Teem sido attribuidos a simples marcas dos canteiros, que
indicavam, talvez para pagamento, as pedras feitas por cada um. O facto
de serem os signaes gravados na pedra e alguns difficeis e complicados,
como se póde verificar no Mosteiro da Batalha, prejudica no nosso
espirito esta hypothese. Mais provavel nos parece que sejam signaes
particulares das differentes lojas maçonicas, ou secções d'ellas, a que
pertenciam os differentes trabalhadores, mestres e architectos. O
assumpto não offerece, aliás, senão o simples valor de curiosidade.
Temos exposto, segundo nos parece, os caracteres principaes do Estylo
Ogival. O trabalho é incompleto, nem podia deixar de o ser em assumpto
tão vasto e complexo, sobre o qual muito se tem escripto e muito ha
ainda para escrever. N'este estylo temos, felizmente, um riquissimo
exemplar no Mosteiro da Batalha, cuja historia e descripção reservamos
para uma parte especial d'este livro. Esta rapida monographia completará
a exposição feita, melhor talvez do que outros desenvolvimentos mais ou
menos didacticos.
Na nossa opinião, o Estylo Ogival é a mais elevada expressão esthetica,
até hoje revelada na evolução da architectura. Para o comprehender não é
necessario ser artista, sabio ou crente; bastará, apenas, possuir algum
sentimento, firmado em instrucção vulgar, e comparar os movimentos do
nosso espirito em face das creações dos melhores estylos.
Nós vimos grandes templos, restos da antiguidade classica, sumptuosas
basilicas, magnificos exemplares byzantinos e romanicos; encontrámol-os
por muita parte. Em longas horas de contemplação e de estudo, procurámos
o espirito d'esses monumentos, transportando-nos aos seculos, que lhes
imprimiram physionomia. As impressões mais perfeitas e harmonicas
foram-n'os dadas, sempre, pelas grandes cathedraes do Estylo Ogival.
CAPITULO SEXTO
O ESTYLO OGIVAL ENTRE NÓS
Eis um capitulo por natureza curto. Se Portugal é, infelizmente, pobre
em monumentos, a sua penuria manifesta-se extrema nos do Estylo Ogival.
O Estylo Romanico deixou entre nós algumas construcções, mais ou menos
importantes, embora, em geral, estragadas depois por inscientes
restaurações, que o cuidado e o gosto moderno vão a pouco e pouco
substituindo, a fim de darem aos edificios a possivel pureza primitiva.
A Sé de Coimbra, egreja romanica do segundo periodo, é bom exemplo
d'este gosto e cuidado.
Pelo paiz inteiro, pelo menos na parte por nós percorrida, encontram-se
de quando em quando trechos do Estylo Romanico de soffrivel valor,
escondidos no mesmo edificio por entre outros ogivaes e da renascença.
Assim, um dos nossos primeiros monumentos, o Convento de Christo em
Thomar, offerece construcções differentes. A subida importancia que
outr'ora teve este Mosteiro, sem duvida o mais rico do paiz, a extrema
e curiosa diversidade de estylos, que elle manifesta, aconselha-nos mais
detida descripção, embora exceda em parte os quadros d'este livro.
[Figura:
1 Terreiro e escadorio. | 6 Sacristia.
2 Adro. | 7 Portaria.
3 Charola, egreja primitiva. | 8 Côro e corpo da egreja.
4 Antiga porta da egreja primitiva. | 9 Claustro de João III--Filippes.
5 Claustro do D. Henrique ou Cemiterio. | 10 Refeitorio.
11 Claustro de Santa Barbara.
]
Na anterior planta estão descriptos os elementos do grande edificio, que
nós suppomos deverem ser considerados verdadeiramente monumentaes; o que
não quer dizer que n'outros pontos, já na parte pertencente ao Estado,
já n'aquella que infelizmente foi vendida, não existam trechos de
verdadadeiro valor artistico e historico, dignos de cuidadosa defeza e
conservação.
[Figura: CONVENTO DE THOMAR--Fachada da Egreja]
A egreja actual é formada por dois corpos, construidos em seculos
differentes. O circular, que parece hoje constituir a charola da egreja,
foi o templo primitivo. Pertence ao Estylo Romanico, talvez terciario,
visto que a ogiva, embora pouco accentuada, se desenha sob as camadas de
estuque, que revestem os oito arcos do recinto octogonal, cuja abobada
forma uma especie de zimborio sobre o altar.
Primitivamente, este recinto tinha o aspecto de torre central,
elevando-se a respectiva abobada bastante acima da abobada anelar da
nave envolvente. A antiga porta de entrada, virada ao nascente, foi
transformada em janela, quando á egreja romanica se annexou o corpo
rectangular. N'esta fórma do primitivo templo sente-se a indiscutivel
influencia de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem.
Nos começos do seculo XV foi construido ao norte da primitiva egreja o
Claustro de D. Henrique ou do Cemiterio, que, embora muito simples e
pequeno, é de assás puro e elegante Estylo Ogival; talvez do terceiro
periodo, se attendermos aos caracteres dos capiteis das columnas, unicos
elementos que poderão servir para rigorosa classificação architectonica
d'este claustro.