Nos fins do mesmo seculo XV e principios do XVI elevou-se a construcção

do actual corpo da egreja, que abre para o primitivo templo circular,

transformado em capella-mór, por grande arco, rasgado na respectiva

parede. A nova entrada, olhando o sul, é formada por um magnifico e

elegante portal. Assim, antes da construcção do Claustro de D. João III,

vulgarmente chamado dos Filippes, toda a fachada sul da egreja,

comprehendendo este portal e duas grandes janelas de volta inteira, bem

como a fachada Occidental, ficavam livres e visiveis.

O côro, outr'ora guarnecido de excedente obra de talha, occupa quasi

metade do corpo da egreja e firma-se sobre a abobada da casa do

capitulo. Por esta fórma, a fachada occidental, ladeada por dois

formosos e originaes botareos, offerece entre elles na parte superior

uma rosacea, abrindo no côro, e na inferior, illuminando a casa do

capitulo, uma magnifica janela com rica ornamentação de algas, embora na

realidade um pouco pesada. Toda esta parte do edificio é do Estylo da

Renascença do primeiro periodo, entre nós chamado manuelino,

manifestando-se na fachada occidental grande influencia do oriente,

principalmente na decoração dos botareos e da janela das algas.

Pouco depois do meiado do seculo XVI foi construido e encostado á

fachada sul da egreja, da qual mascara grande parte, o Claustro de D.

João III, erradamente denominado dos Filippes. Este claustro, que faz

recordar os magnificos pateos dos palacios florentinos, é de excellente

Estylo da Renascença italiana. Emquanto a nós, se não constitue o unico

exemplar nacional d'este estylo, deve pelo menos ser considerado o mais

puro e completo. Para o claustro, ou mais rigorosamente para este pateo,

abria outr'ora a porta do refeitorio, que da parte monumental é elemento

integrante e indispensavel, como o indica a planta.

Esta bella e ampla sala abobadada pertence tambem ao Estylo da

Renascença; hoje, porém, encontra-se separada do monumento, havendo sido

murada a respectiva porta. Embora seja propriedade do Estado, anda ha

longos annos arrendada ao proprietario de parte do Mosteiro e da

respectiva cêrca, servindo-lhe de celleiro! Todos os esforços empregados

até agora para acabar com este arrendamento, ainda os mais recentes

feitos pelo Conselho dos Monumentos Nacionaes, têem sido

infructiferos[4]!

Do Claustro do Cemiterio passa-se para a sacristia, peça de secundario

valor architectonico, construida nos fins do seculo XVI em Estylo da

Renascença, frio e pesado, que faz lembrar muito a singular physionomia

da renascença do Escurial.

Esta succinta descripção demonstra a importancia architectonica do

Mosteiro de Thomar, bello exemplar onde se casam os mais perfeitos

estylos com ornamentações ricas e caracteristicas. Devemos, porém,

observar que, no rigor da palavra, a parte não monumental do grande

edificio monastico envolve tambem elementos e trechos de bastante valor

artistico. Assim, no Claustro da Micha, não comprehendido na planta

junta, existem tres grandes salas, onde a tradição affirma que se

reuniram as Côrtes de Thomar. Se é possivel duvidar d'esta tradição,

embora o estylo das salas seja da epoca, não padece duvida alguma que

todas, principalmente a da Nobreza, são bellas e dignas de conservação,

ou talvez melhor de salvamento, porque o tempo e o vandalismo acabarão

por destruil-as sem remedio[5].

Além d'isso, o Mosteiro manifesta riquissima construcção quer em

materiaes, quer em trabalho; assim, por exemplo, os corredores para onde

abrem as cellas, na realidade multiplas, vastas e sobrepostas galerias

cortando-se em angulo recto, são cobertos por tectos de volta inteira e

apainelados de excellente carvalho do norte. De espaços em espaços,

encontram-se n'estas galerias bellos trechos e baixos-relevos da pura

arte da renascença.

A conservação em que tudo isto se encontra, exceptuando os edificios

monumentaes descriptos, menos descurados hoje, é quasi deploravel na

parte pertencente ao Estado; porque a outra parte do Mosteiro, talvez a

maior, encravada nas pertenças nacionaes sem ordem e sem nexo, bem como

a bella cêrca e outras valiosas propriedades conventuaes, foram vendidas

por somma irrisoria[6].

Entre todos os mosteiros nacionaes, exceptuando o de Mafra e o de

Alcobaça, suppomos que o de Thomar é o maior e o segundo na ordem da

riqueza artistica e historica. Uma administração nacional sensata e

illustrada teria conservado completo e mobilado este bello monumento,

como typo da vida e dos costumes monasticos. Seria, por assim dizer, um

exemplar unico no mundo. Hoje, alienada parte do edificio, vendidos a

desbarate ou roubados os moveis e os livros, esta restauração seria

quasi impossivel; mas, no que nos resta ao menos, o edificio deveria ser

conservado como excellente exemplo de uma feição caracteristica e

importante das organisações sociaes dos seculos passados[7].

Grande parte das egrejas no norte do paiz, foram primitivamente do

Estylo Romanico do primeiro ou do segundo periodo, mas são de

construcção acanhada e pobre, offerecendo cobertura de madeira. No sul

ainda a escassez de monumentos é maior. Em todo o Algarve, depara-se-nos

apenas a Sé de Faro e a de Silves, que merecem alguma attenção. Julgamos

que a ultima obedece aos principios das construcções do norte: Estylo

Romanico do terceiro periodo--transição--naves cobertas de madeira, côro

abobadado, mas tudo em lastimoso estado de conservação artistica.

A Egreja Matriz de Caminha parece-nos constituir um bello exemplo d'este

typo de egrejas do norte. Sem duvida, a primeira construcção foi

romanica do segundo periodo. Soffreu, depois, grandes restaurações no

tempo da renascença manuelina. A fachada, composta de tres corpos

distinctos desenhando as naves internas, é d'este definido estylo.

No interior, muito interessante, existem tres naves. A cobertura é de

carvalho e de castanho, com vigas descobertas. Arcos de volta inteira

sobre columnas delgadas dividem as naves. As paredes lateraes d'estas

naves não tinham primitivamente capellas; as que hoje existem são dos

seculos XVI e XVII. A egreja acha-se revestida até á altura dos capiteis

das naves por azulejos ordinarios, datados de 1690. D'ahi para cima as

paredes estão caiadas. O templo primitivo não tinha côro sobre a porta

principal, o que existe na actualidade é de construcção moderna.

A capella-mór, tambem manuelina, é coberta por uma bonita abobada. No

exterior d'esta capella-mór corre um bello friso de corda e por baixo

d'elle outro, simulando uma cadeia de ferro. É o primeiro que vimos

n'este genero. Na fachada lateral da egreja ha uma bonita porta da

renascença. A construcção é toda de granito. Em geral, os ornatos estão

muito apagados, porque o granito empregado tem o grão muito grosso e

esborôa-se, exposto á acção do tempo. Fazemos esta ligeira descripção

para darmos idéa de um typo assás vulgar das nossas egrejas secundarias

do norte e do seu estado actual.

Parece-nos dever concluir, do que temos visto, que as construcções

religiosas em Portugal foram bastante activas nos seculos XI e XII, isto

é, no periodo romanico. O periodo ogival não manifesta a mesma

actividade. Na Sé de Lisboa, como nas de Evora e de Braga e n'outros

pontos, o ogival apparece certamente; mas, em geral, parece-nos que foi

trazido pelas restaurações dos edificios e pela construcção de capellas

annexas.

Assim, na Sé de Lisboa, como vimos, a charola é ogival, guarnecida de

capellas, resultando da restauração da antiga charola do romanico

secundario, estylo a que pertence a egreja. O claustro é tambem ogival e

deve datar da restauração da charola. Á esquerda, logo a principio da

nave lateral da egreja, foi construida nos meiados do seculo XIV uma

elegantissima capella ogival, por testamento de Bartholomeu Joannes.

Esta capella é talvez, apesar das suas pequenas dimensões, um dos mais

ricos exemplares do ogival francez do segundo periodo, existente em

Portugal. As suas disposições fazem lembrar--até certo ponto e com a

devida modestia--as da Sainte Chapelle de Paris. Está hoje em adeantada

restauração; devendo constituir, em breve, a unica construcção completa

do Estylo Ogival em Lisboa.

A Egreja do Carmo, como o attestam as respectivas ruinas, foi um

edificio ogival do segundo periodo, de certa grandeza e de bastante

valor architectonico, muito embora diminuido por evidentes restaurações,

sobre tudo na capella-mór e nas capellas lateraes das naves, que a

primitiva egreja não devia ter. Esta construcção, começada alguns annos

depois da do Mosteiro da Batalha, seguiu-lhe o plano, pelo menos nas

disposições geraes; sem, comtudo, ter podido nunca manifestar a

elegancia e a pureza de estylo do seu bello modelo. É para lamentar que

o terremoto de 1755 inutilisasse o unico edificio ogival importante de

Lisboa. Hoje, não seria rasoavel restaural-o completamente; mas

dever-se-ia tentar, com proveito para a arte nacional e para a decoração

da cidade, a _restauração das ruinas_,--se nos consentem a expressão--o

que não seria obra difficil nem dispendiosa.

Da Egreja de Alcobaça já falámos anteriormente, classificando-a de

preferencia no Estylo Romanico de transição. Julgamos, pois, opportuno

apresentar agora as rasões de ordem architectonica, em que fundamos esta

classificação, que póde ser talvez impugnada.

Este edificio religioso, um dos maiores se não o maior que entre nós

existe, é attribuido tambem a D. Affonso Henriques; sendo, portanto,

coévo da Sé de Lisboa; seria, porém, completamente edificado no seculo

XII, ou apenas restaurado e engrandecido n'esse seculo um templo

primitivo existente?

Confessamos não possuir elementos sufficientes para dar fundada resposta

a esta pergunta, embora nos inclinemos para a segunda hypothese. Esta

investigação, que aliás teria importancia para o estudo perfeito do

monumento, é dispensavel no caso presente, em que apenas procuramos

classifical-o e firmar a nossa opinião em affirmações claras e

positivas.

Em seguida, apresentamos a planta da parte monumental do Mosteiro de

Alcobaça, famoso pela grandeza do edificio, pelas ricas propriedades

conventuaes e pelas tradições de opulencia gastronomica dos frades

beneditinos, que o habitaram.

[Figura:

1 Egreja. | 5 Sacristia.

2 Sala dos Reis. | 6 Capella do Santissimo.

3 Sala dos tumulos. | 7 Claustro de D. Diniz.

4 Vestibulo. | 8 Sala do Capitulo.

]

A parte monumental é relativamente pequena em relação á enorme

superficie do Mosteiro; todavia, a egreja deve em comprimento

considerar-se a maior do paiz.

A fachada foi, evidentemente, restaurada, ou melhor, reconstruida já no

periodo da renascença, talvez a partir dos meiados do seculo XVII,

aproveitando-se pelo menos parte do antigo portal. Esta fachada

manifesta-se fria e pesada, pertencendo ao estylo, assás espalhado entre

nós, que de bom grado chamariamos _jesuitico_; porque nos parece

traduzir a ferrea disciplina, o caracter forte e combatente, o methodo

implacavel e severo d'essa machina de guerra religiosa, chamada

Companhia de Jesus, que, durante seculos, dominou a sociedade

portugueza, organisando-a á sua imagem e similhança nas instituições, na

philosophia, na sciencia, na religião e até nas manifestações

estheticas.

É preciso, em verdade, confessar que a fachada da Egreja de Alcobaça,

apesar das qualidades indicadas, offerece elevado cunho de severidade e

um grande aspecto solemne, que até certo ponto se nos impõe, resgatando

os defeitos do respectivo estylo. É como a disciplina e o espirito

jesuiticos, aos quaes, por mais antipathicos que se manifestem á nossa

intelligencia e ao nosso sentimento, não podemos deixar de reconhecer

grandeza e de tributar um odiento respeito.

[Figura: CONVENTO DE ALCOBAÇA--Fachada da Egreja]

A egreja no interior não exprime, tambem, o sentimento religioso, que se

apodera da alma em edificios ogivaes d'esta natureza, principalmente na

bella Egreja do Mosteiro da Batalha. Este facto provém talvez mais de

condições secundarias do que das disposições geraes architectonicas. É

possivel que a impressão fosse profundamente modificada, se a egreja

tivesse um dia completa e perfeita restauração e os vitraes

polychromicos produzissem a suave e poetica luz, que hoje falta por

completo ao grande templo. Em todo o caso, a egreja não deixa de causar

uma sensação profunda de majestosa e solemne severidade, exactamente

aquella que produzem os edificios romanicos e, sem duvida, provém da

synthese caracteristica dos elementos fundamentaes do estylo.

A egreja tem tres elevadas naves, cujas respectivas abobadas se elevam a

egual altura. As lateraes são muito estreitas e como excepção, que

julgamos assás rara, inflectem-se em angulo recto, acompanhando os

braços do transepto. A capella-mór, relativamente pequena, é envolvida

pela charola, onde foram abertas capellas. Suppomos que estas capellas

devem ter sido construidas no periodo ogival; estão, porém, tão cobertas

de obra de talha dourada, que não é facil fazer seguras affirmações

sobre este ponto.

As columnas romanicas da capella-mór, bem caracterisadas, segundo

pensamos, do periodo secundario, são visiveis da charola; pela frente,

estão mascaradas por intercolumnios classicos semicirculares, de

construcção relativamente moderna, muito elegantes: o inferior da Ordem

Jonica e superior da Composita. N'este ponto reside, sem duvida, uma das

difficuldades e um dos problemas de qualquer futura restauração.

O Claustro de D. Diniz--damos-lhe a designação vulgar--fica encostado á

parede norte da egreja, commum a ambas as construcções. É um bello e

grande claustro, o terceiro na ordem architectonica dos que existem no

paiz, considerando o primeiro o do Mosteiro da Batalha pela unidade e

delicioso estylo e o segundo o do Mosteiro dos Jeronymos. Primitivamente

este claustro apenas teve, como o da Batalha, porticos inferiores,

segundo todas as probabilidades cobertos por terraços; nos fins do

seculo XV ou no XVI foram construidos os porticos superiores, cuja

cobertura é de madeira e telhados amouriscados.

A Sala do Capitulo abre no portico oriental inferior do claustro. É uma

bella peça architectonica; sobretudo, a grande porta, ladeada de quatro

janelas, duas de cada banda, constitue um dos melhores exemplares

romanicos, existentes no paiz. Ninguem acreditará, por certo, que esta

porta e estas janelas, tão puras e caracteristicas, se acham muradas,

ficando separada da parte monumental a respectiva sala, que outr'ora

serviu de _picadeiro_ ao regimento de cavallaria aquartelado no velho

Mosteiro e hoje está occupada pelo _gymnasio_ militar!

Os restantes edificios, exceptuando a chamada Sala dos Reis, são

construcções posteriores, annexas ou encostadas ao antigo monumento. Por

pouco se recommendam, embora sejam elementos integrantes e

indispensaveis da parte monumental.

A Sala dos Reis deve ser coéva da egreja e do claustro, quer seja

primitivo o seu estado actual, quer resulte de posteriores

reconstrucções. Não tem valor architectonico. A sua designação provém de

umas estatuas (?!) de gêsso com olhos pintados, que sobre misulas de

pedra _ornam_ as paredes do recinto. Uma só phrase define estas

grotescas personagens: _ridiculas e vergonhosas_. Seria uma obra de

misericordia artistica e de amor patrio tirar d'ali aquelles _mônos_,

que attestam a esthetica dos gordos frades de Alcobaça e nos envergonham

perante nacionaes e estrangeiros, hoje começando a affluir em visita ao

monumento.

A Sala dos Tumulos, abrindo no ramo sul do transepto, é de construcção

posterior á da egreja. Edificio vulgar, contém, apenas, alguns

sarcophagos de valor, principalmente o de D. Pedro I e o de D. Ignez de

Castro, magnificos exemplares do Estylo Ogival, embora um pouco

damnificados pelas profanações, que em geral soffreram as nossas ricas

sepulturas _no tempo dos francezes_. É a defeza habitual da incuria e

falta de respeito pelas tradições e pelos mortos.

Tambem, muito posteriormente á construcção da egreja, uma das capellas

envolventes da charola foi rasgada para ligar o templo com a sacristia

actual. Esta sacristia, de Estylo da Renascença, é muito pobre e quasi

glacial. Parece-nos posterior á restauração da fachada. No extremo da

sacristia vê-se um Relicario circular, todo forrado de talha dourada e

de bustos de madeira, em geral assás feios e mal feitos, que encerravam

as reliquias. Apesar dos defeitos e do pessimo estylo, se esta palavra

se póde applicar ao caso, este Relicario deveria ser restaurado, como

exemplar dos costumes religiosos do tempo.

Em frente da sacristia encontra-se uma capella, actualmente do

Santissimo, sem valor architectonico absolutamente algum. Todavia, no

vestibulo, que serve esta capella e á sacristia, as duas respectivas

portas são de excedente Estylo da Renascença manuelina.

Eis a succinta descripção da planta da parte monumental do Mosteiro de

Alcobaça. No resto do edificio nada encontramos que mereça attenção a

não ser a Sala da Bibliotheca, do Estylo da Renascença, vastissimo salão

com estuques modernos a caír em pedaços e ameaçando proxima e perigosa

ruina. Nos vãos das respectivas janelas existem ainda vestigios da

antiga ornamentação, onde se nota a influencia dos frescos e pinturas

muraes de Pompeia, tão usadas depois da descoberta, no meiado do seculo

XVIII, e das excavações d'esta antiga cidade romana, situada nas margens

do Golpho de Napoles.

Não mencionaremos a _pantagruelica_ cozinha dos gastronomos frades de

Alcobaça, que, segundo parece, a todas as artes preferiam, a julgar pelo

_sanctuario_, a arte culinaria e as famosas _tremendas_, pequenas

refeições de um arratel de toucinho assado!

A que estylo pertencem a egreja e o claustro, ao Romanico de transição

ou ao Ogival primario?

É claro que em face d'estes edificios vamos collocar-nos como os

classificadores zoologicos ou botanicos em frente de novos exemplares.

Além d'isso, não temos a pretensão de resolver o problema; desejamos,

apenas, enuncial-o claramente, o que em mathematica se considera meia

resolução.

Comecemos pela egreja, fazendo notar não só a impressão particular, que

ella produz, mas tambem a circumstancia de que tanto este edificio, como

o claustro e a casa do capitulo se encontram tão ligados, tendo paredes

communs, que no respectivo conjunto a construcção deve ter sido pelo

menos quasi simultanea.

Enumeremos, pois, os principaes caracteres romanicos bem definidos

d'estas construcções.

A egreja offerece os seguintes:

1.^o Os pilares das arcadas, que dividem as naves, são rectangulares,

massiços e muito fortes, embora assás elevados. Os cinco primeiros de

cada lado, a contar do transepto, têem columnas nichadas nos quatro

angulos. Nas faces exteriores d'estes pilares, as columnas, que

sustentam os arcos da nave central perpendiculares ao respectivo eixo,

são chanfradas em certa altura, não chegando ao pavimento. Nos oito

pilares seguintes, tambem de cada lado, desapparecem as columnas

nichadas e as das faces exteriores assentam sobre fortes misulas. Todas

estas columnas, que revestem de grandes em grandes espaços os pilares

rectangulares, embora sejam muito elevadas, manifestam relativamente

grande grossura.

Estamos, pois, bem longe dos pilares polistylos ogivaes. Assim, se a um

architecto dessem isoladamente a secção d'estes pilares e parte da sua

elevação, cremos que não duvidaria em classifical-os romanicos.

2.^o Em algumas bases das columnas da egreja apparecem garras, cuja

fórma nos parece accentuadamente romanica.

3.^o As portas da Sala dos Reis, a da entrada para o claustro e a do

refeitorio, no portico norte d'este claustro, manifestamente primitivas,

são _caracterisadamente_ romanicas.

4.^o Os arcos primitivos da capella-mór são de puro Estylo Romanico.

5.^o As janelas da capella-mór, as orientaes do transepto e as lateraes

das naves, excepto a ultima de cada lado proximas do transepto, são de

volta inteira.

D'esta exposição suppomos dever concluir a supremacia do arco continuo

nos elementos fundamentaes da egreja. A ogiva apparece, sem duvida, mas

nem ao menos é dominante. Assim, na abobada da nave central apresenta-se

pouco accentuada e se o é nas lateraes, póde o facto attribuir-se á

condição da egual altura dos fechos das abobadas nas tres naves, que

obrigou o constructor a dar maior ponto aos arcos, pronunciando a ogiva.

É verdade que o portal da fachada principal é ogival; mas nada prova que

esse portal seja o primitivo. Além d'isso, os respectivos capiteis, de

folhagens e galões com muito pequeno relevo, são mais romanicos do que

ogivaes.

Passemos agora ao claustro:

1.^o A porta e as janelas da Sala do Capitulo são _absolutamente_

romanicas.

2.^o Os porticos inferiores são formados de dois ou tres arcos geminados

de ogiva bem definida, com pequenas rosaceas sobre os angulos

curvilineos; mas o grande arco envolvente é _sempre_ de volta inteira.

3.^o O pavilhão da fonte tem janelas nas quaes a ogiva mal se desenha.

Se a tudo isto juntarmos que o coroamento do edificio, na parte

primitiva, é formado de ameias, repousando sobre forte e simples

cachorrame, teremos dado a summula dos argumentos architectonicos, em

que nos fundamos para a classificação do monumento.

Outros mais entendidos do que nós que os apreciem, porque na realidade

não temos em geral grande amor ás nossas idéas e em todas as occasiões

da nossa vida, sem sacrificio de vaidade, temos procurado apenas a

verdade.

Este bello Mosteiro de Alcobaça teve sorte egual ao de Thomar. Não o

venderam, é certo; mas transformaram-n'o em caserna e abandonaram-n'o á

pilhagem. Verdade seja que hoje lá vamos com diminuta somma restaurando

lentamente o magnifico claustro.

Afóra isto, nada mais existe no paiz do Estylo Ogival, pelo menos que o

conheçamos, a não ser em pequenos edificios e em trechos encravados em

egrejas romanicas; eis o que nos parece incontestavel. Assim, na

realidade, o unico monumento puro, completo e relativamente grande, que

Portugal possue do Estylo Ogival, é o Mosteiro da Batalha; por isso mais

detidamente o vamos estudar e descrever.

Da Renascença não é tão accentuada a nossa pobreza. Durante os seculos

XVI, XVII e XVIII reparou-se e construiu-se bastante entre nós. As

construcções são em geral acanhadas, é certo; ás vezes, de um estylo de

pessimo gosto, como o de quasi todas as egrejas d'esse estylo frio,

deselegante, disciplinado e monotono, que, segundo dissemos, parece ter

nascido da influencia do espirito jesuitico, dominante n'esses seculos.

Mas edificios existem, como o Mosteiro dos Jeronymos em Belem, o Palacio

da Ajuda, o Convento de Mafra, o Convento da Madre de Deus e a Egreja da

Estrella em Lisboa, o Convento de Santa Joanna em Aveiro e ainda alguns

outros, que possuem qualidades estheticas e architectonicas dignas de

admiração e louvor.

D'este ponto não nos podemos occupar n'este livro, limitado pela prévia

definição do assumpto; reservando para mais tarde o delicado estudo do

Estylo da Renascença, se podérmos ainda tentar e realisar este

trabalho[8].

PARTE QUARTA

O MOSTEIRO DE SANTA MARIA DA VICTORIA

NA BATALHA

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Vista geral]

CAPITULO PRIMEIRO

ORIGENS E CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO

O Mosteiro da Batalha é, sem possivel contestação, o nosso primeiro

monumento do Estylo Ogival, quasi poderiamos dizer o unico entre nós

pela unidade e grandeza, porque os outros offerecem valor secundario.

Tivemos occasião de apreciar esta asserção no capitulo precedente.

A verdade é, ainda, que deve ser considerado, não pelas dimensões mas

pela architectura, um dos primeiros do mundo. Seria inutil, com effeito,

comparal-o com as enormes Cathedraes de Milão, Sevilha, Strasburgo e

Colonia. A pequena Egreja da Batalha caberia quasi nos transeptos das

duas primeiras cathedraes, vastos colossos de cinco grandes naves, cujas

abobadas se elevam a mais de quarenta metros nas naves centraes.

A architectura religiosa na Edade Média · 第 12 / 17 段