consummado. O antigo bispo de Roma já usava em volta da tiára a primeira
corôa da soberania terrestre, que o punha ao lado dos reis christãos,
cuja consciencia elle dominava pelo espirito da religião. Senhor quasi
absoluto, depois da _querela das investiduras_, d'essa machina immensa
que se chama hierarchia ecclesiastica, levando a acção poderosa até ás
consciencias mais humildes e obscuras, no seculo XIII, o Papa era o
primeiro poder da Europa. Assim, o Papado fôra o espirito das Cruzadas e
o feudalismo o seu braço armado, que na lucta gastou as forças e perdeu
quasi os bens, herdados em grande parte pela egreja, cujas enormes
riquezas não satisfizeram nunca as suas ambições colossaes.
A atmosphera de liberdade, embora fraca, que se formou no seculo XIII,
deixára florescer, emfim, a cultura das artes e da sciencia. Grandes
discussões philosophicas enchem o seculo. Promove-as a theologia. Os
profundos dialecticos e os sabios pertencem em regra ás Ordens
Religiosas, é certo; mas nos sombrios claustros penetrára a luz de fóra.
A Escholastica n'esse periodo tomou uma feição nova e caracteristica,
que trazia em si os germens da liberdade do pensamento. A philosophia da
Edade-Media offerece, com effeito, tres periodos differentes; no
primeiro, a theologia subordina a sciencia; no segundo, estes dois
principios caminham a par, depois dividem-se, seguindo rumos
divergentes.
No segundo periodo, durante o seculo XIII, os talentos mais elevados e
cultos travam renhidas luctas de palavras e de escriptos, nem sempre
incruentas; uns são pelo _realismo_ de Alberto, o grande doutor, e do
seu genial discipulo Thomaz de Aquino, outros pelo _nominalismo_ de Duns
Scott, o doutor subtil. O discipulo excedeu o mestre. Santo Thomaz de
Aquino foi o chefe da eschola, que definiu os principaes dogmas da
egreja e preparou a constituição definitiva do Catholicismo, no concilio
de Trento.
O _nominalismo_, fundado sobre as doutrinas de Aristoteles, desenvolvia
as bases da sciencia; o methodo da observação e da experiencia
recomeçava o seu caminho, interrompido por longos seculos. No seculo
XIII viveu o franciscano Roger Bacon, que só por si define uma eschola e
illustra um seculo. Philosopho, astrologo e alchimista, cujo saber
immenso nas azas do genio chega a saír fóra dos limites do seu tempo,
Bacon descobre, ou pelo menos prevê factos e verdades, que hão de
manifestar-se nos seculos seguintes.
Arnaldo de Villanova, outro profundo sabio do seculo, medico e
alchimista, discute a metaphysica escholastica e combate-a á luz dos
principios da sciencia ainda vacillante e incerta, mas procurando já
firmar-se nas bases do positivismo moderno. A sua vigorosa critica não
se atemorisa ante os perigos de atacar os erros da eschola philosophica
triumphante nas doutrinas de um dos maiores sabios e casuistas do tempo.
«Que importa, escreve o grande luctador, que Alberto, o grande doutor,
affirme que as folhas de salva lançadas n'uma fonte fazem sobrevir a
tempestade? _Lancemos folhas de salva n'uma fonte e vejamos se a
tempestade sobrevem_».
A revolta do livre pensamento attinge o dogmatismo da Escholastica
orthodoxa, a essencia do methodo experimental está claramente definida
n'esta ironica e simples phrase. Arnaldo de Villanova é um precursor,
como Roger Bacon e os escholasticos revolucionarios nominalistas, d'esse
methodo, que ha de produzir a sciencia moderna e por meio d'ella o
espantoso progresso do seculo XIX.
N'estes primeiros movimentos revolucionarios do _nominalismo_ sentem-se
já energicas aspirações da liberdade do pensamento. As suas doutrinas
são a semente, que, ao calor do estudo, das luctas, e pela acção do
tempo, ha de produzir, por ininterrupta evolução, a reforma religiosa do
seculo XVI e a philosophia do seculo seguinte. Os adeptos do
_nominalismo_ são perseguidos e as doutrinas consideradas heterodoxas;
mas, como correspondem a necessidades organicas do espirito humano, se
os martyres ficam desconhecidos, as suas idéas preparam o futuro. Os
primeiros luctadores contra o poder de Roma, Arnaldo de Brescia,
discipulo de Abelard o _nominalista_, em Italia, Pedro de Vaux em
França, Lollard e Wiclef em Inglaterra, são os precursores de João Huss
e depois de Luthero, Melancton, Calvino, Zwinglio e Knox, os fundadores
victoriosos da _reforma religiosa_ do seculo XVI.
No seculo XIII, a esthetica experimenta, tambem, uma acção profunda. Um
dos maiores genios, de entre os que têem engrandecido a Humanidade, o
florentino Dante Allighieri, cujas feições energicas e tragicas nos
conservou o pincel de Giotto, aperfeiçoa, se não cria litterariamente a
primeira e mais bella das linguas latinas, a italiana, em que teve como
discipulos e commentadores Petrarcha e Boccacio. Genio colossal,
fortalecido por sciencia profunda e inspirado por grandes sentimentos,
attingindo a febre da paixão, Dante revoluciona a poesia e quebra os
velhos moldes dos poetas da decadencia.
A sua prodigiosa lyra, tendo todas as cordas desde a sublime epopeia até
ao delicado lyrismo, produz o mais gigantesco poema, creado pela
intelligencia humana, a Divina Comedia, onde o poeta se revela sabio,
theologo, historiador do seu tempo, ás vezes apaixonado e injusto, se
quizerem, mas sempre supremo artista. Dante, talvez a figura principal
do seculo XIII, a quem os seculos seguintes não fizeram perder ainda na
poesia a posição culminante, é a mais pura e clara expressão d'esse
espirito classico, sempre vivo no solo da grande Italia. A liberdade do
pensamento, como nova e rica seiva, inflora no poeta esse vivido
espirito, impellindo-o para fóra da esphera humana e levando-o a
procurar no Inferno, no Purgatorio e no Paraiso, symbolos da metaphysica
theologica, um campo infinito, onde podiam exercer-se intelligencia e
phantasia tão excepcionaes.
As outras bellas-artes, excepto a musica para a qual não chegára ainda o
momento historico, bem mais tarde manifestado, principalmente em fins do
seculo XVIII e no seculo XIX, offerecem um caracteristico movimento
correspondente.
Até ao seculo XIII, a influencia do espirito byzantino mantivera-se
preponderante, sobretudo na pintura e na esculptura, aliás ainda
subordinadas á architectura, de que constituiam artes auxiliares e
complementares. Ora, as artes do oriente, como vimos, haviam ficado
estacionarias, crystallisando em fórmas hieraticas e convencionaes. A
inspiração e a liberdade dos pintores e dos esculptores foram
esterilisadas por esse immovel e hybrido espirito oriental. Os artistas
copiavam-se successiva e reciprocamente, procurando amoldar a
espontaneidade do proprio talento a antigas e consagradas formulas, a
que as tradições religiosas contribuiam para dar quasi força de dogmas.
Foi ainda a Italia, que deu os primeiros gritos, sacudindo essa
lethargia; foi ainda o espirito classico, reanimado pela liberdade do
pensamento, que despedaçou a rede dos formalismos tradicionaes e da
ignorancia technica, que envolvia e suffocava a inspiração dos pintores
e esculptores.
Esta reacção inicia-a Cimabué, libertando-se dos liames das escolas
byzantinas. Giotto, seu discipulo, pintor, esculptor e architecto,
segundo o uso e as necessidades do tempo, opéra a revolução. A correcção
do desenho e o rigor do colorido, a expressão e a vida, isto é, a
verdade na arte que só nasce do estudo da natureza, são o resultado
d'essa outra victoria do espirito humano. Os dois primeiros mestres
italianos do seculo XIII ficam sendo na historia os precursores da
grande arte da renascença, poderoso movimento que tambem a Italia quasi
exclusivamente realisará nos fins do seculo XV e durante o seculo XVI,
no grande periodo em que floresceram homens como Leonardo de Vinci,
Raphael Sanzio e Miguel Angelo Buonaroti.
A architectura e as artes secundarias annexas saem dos conventos, vindo
expor novos productos e novas creações á luz da liberdade nascente. Já
não são as grandes communidades religiosas, que monopolisam as
construcções, crystallisando-as um pouco e enviando de convento para
convento os architectos mais famosos e os planos mais completos. A
esthetica, como a sciencia, manifesta energica expansão. A arte
revoluciona-se e liberta-se.
Nas communas constituem-se grandes corporações de artes e officios. As
associações de architectos e de operarios de todas as ordens, que nos
seculos precedentes trabalhavam sob a direcção monastica, esse resto dos
gremios romanos, ou formados á sua imagem, emancipam-se, libertam-se do
jugo ecclesiastico nas producções artisticas, tomando definitivo
caracter civil, embora subordinadas e protegidas pelo espirito
religioso, que imperou sempre durante toda a Edade-Media.
São, com effeito, as corporações _franco-maçonicas_ que vão construir
muitos, se não todos os edificios ogivaes mais grandiosos e celebres.
Houve-as em Inglaterra, tendo um dos centros principaes em York. Foram
incontestavelmente os _free-stones-masons_, que elevaram um dos grandes
monumentos ogivaes inglezes, a cathedral de York. Teve-as a Allemanha,
com o principal centro em Strasburgo, onde Erwing Steinbach construiu a
grande e formosa cathedral, um dos primeiros monumentos do Estylo
Ogival, que serviu de exemplo a tantos outros e cuja fama deu á
loja-mestra a supremacia sobre quasi todos os centros principaes
allemães e ao seu presidente o grão-mestrado supremo. Existiram em
França, onde predominou a loja-mestra de Paris, construindo as grandes
cathedraes de Amiens, Reims e outras, Notre-Dame e a Saint-Chapelle em
Paris. Encontravam-se, emfim, na propria Italia, onde aliás o Estylo
Ogival experimentou energicas reacções classicas, principalmente ao sul.
Foram os _magistri comacini_, que, sem a menor duvida, construiram o
colosso ogival, a cathedral de Milão.
Como estas associações tiveram grande influencia sobre a formação e a
dispersão do Estylo Ogival, parece-nos conveniente entrar em alguns
pormenores ácerca da sua organisação no seculo XIII, visto que das
respectivas origens provaveis e evolução constituinte já falámos em
precedentes capitulos.
Não póde existir, a nosso ver, a menor duvida em que estas corporações
_franco-maçonicas_, que se estendiam pela França, Allemanha e
Inglaterra, chegando pelo menos ao norte da Italia, tinham entre si
intimas relações, offerecendo um caracter internacional bem definido.
Esta affirmação resulta não só da propria natureza das associações de
mutuo auxilio e de defeza dos interesses dos respectivos associados; mas
é, ainda, demonstrada pela essencia e tradição das associações
_franco-maçonicas politicas_, em que as primeiras se transformaram,
durante os seculos XVI e XVII.
A grande unidade do Estylo Ogival e a sua rapida dispersão nas zonas,
aliás extensas, em que floresceu, devem ser attribuidas em grande parte
ás relações muito apertadas entre as corporações maçonicas do mesmo paiz
e assás intimas entre as de nações differentes. Em 1459, por exemplo, a
assembléa capitular de muitas lojas allemãs, reunida em Strasburgo,
reconheceu como grão-mestre o presidente da loja-mestra d'esta cidade.
Mais do que provavel nos parece que em França e em Inglaterra se
procedesse por identica fórma; é a consequencia logica dos fins d'estas
associações de trabalho e de soccorro mutuo.
Alem d'isso, as deslocações dos associados de uns para outros paizes, em
procura de trabalho ou por outras quaesquer causas, só por si
constituiriam, n'esse tempo de construcções muito activas, constantes
relações internacionaes, quando não existissem outras officiaes e
regulares, como é assás provavel. O operario associado em viagem
encontrava, naturalmente, a protecção e o apoio das associações do mesmo
genero, formadas em outros paizes. Este facto dava-se com as associações
romanas e corresponde á tendencia internacional das poderosas
associações operarias. Assim, na Edade-Media o trabalho teve uma
organisação muita extensa e protectora, que a moderna Internacional
tentou debalde realisar no ultimo quartel do seculo XIX.
A constituição interna d'estas sociedades _franco-maçonicas_ é, como a
sua historia, assás obscura. Visto que fixavam os proprios salarios dos
differentes trabalhadores, parece-nos logico que estas associações se
ligassem por simples contractos pessoaes, ou porventura em muitos casos
por contractos de empreitadas parciaes ou geraes, como se pratica nos
modernos tempos. Evidentemente, estas presumpções fundam-se apenas na
logica e no principio de que em todas as epocas a eguaes necessidades
corresponderam, sempre, instituições e processos analogos ou
equivalentes.
Deve notar-se que estas associações foram muito protegidas durante a
Edade-Media. Altas personagens civis e ecclesiasticas faziam d'ellas
parte como _socios honorarios_, no periodo da sua maior grandeza. Foi
até a existencia numerosa d'estes elementos estranhos ao trabalho, que,
depois da decadencia e transformação do Estylo Ogival, facilitou a
conversão das associações primitivas em corporações politicas,
conservando os symbolismos dos officios, os provaveis signaes de
reconhecimento, as praticas secretas e o espirito internacional,
protector e caridoso, da maçonaria moderna, que foi nos ultimos seculos
um instrumento poderoso de movimentos sociaes.
É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras de varios edificios,
elevados na sua respectiva esphera de acção; sabe-se, como a partir dos
meiados do seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram grande
incremento. Sendo assim, a elaboração dos planos seria a tarefa dos
maiores e mais habeis architectos e, por logica divisão do trabalho, as
particularidades caberiam ao pessoal technico, que por ordem hierarchica
se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo merito. Esta
hypothese é corroborada pelo espirito disciplinado e methodico, que
constitue a melhor garantia de producções completas e perfeitas em obras
collossaes.
Esta divisão do trabalho devia chegar ao ultimo extremo. Assim, sabe-se
que as construcções eram dirigidas por um mestre ou architecto,
escolhido provavelmente em harmonia com a grandeza da obra, sob cujas
ordens turmas de dez homens trabalhavam, dirigidos a seu turno por um
mestre pedreiro. Esta organisação explica a grandeza da concepção dos
planos, a analogia, quasi similhança, que manifestam muitos dos seus
elementos e, emfim, a extrema diversidade da ornamentação no mesmo
edificio. Póde notar-se, por exemplo, que as altas agulhas de Zurich,
Vienna, Colonia e Landshut offerecem reminiscencias muito accentuadas
das de Strasburgo.
A extrema variedade de ornamentação, a diversidade dos capiteis, no
mesmo edificio numerosissimos e poucas vezes repetidos, esses
symbolismos grotescos uns, pornographicos outros, espalhados nos
capiteis e constituindo algumas gargulas, não podem ser explicados senão
pela extrema liberdade de acção dos esculptores e lavrantes de pedra,
mais numerosos e inferiores. Este uso caracteristico, já mencionado no
Estylo Romanico, conservou-se depois ainda nos paizes, como o nosso,
onde a _franco-maçonaria_ teve, quando muito, residencia accidental.
Isto exposto, o perfil do seculo XIII póde desenhar-se em poucas
palavras. O pensamento humano, activo e energico, procura conquistar a
liberdade na esphera moral e politica. O feudalismo perde lentamente as
forças e empobrece. Pelo contrario, a burguezia progride, accumula
riquezas pelo commercio e pela industria, e trabalha. As communas
multiplicam-se e florescem. N'este estado social, um poder predomina, o
Papado e a hierarchia ecclesiastica, pela intelligencia e illustração,
pelo prestigio da religião sobre as consciencias e pelo poderio de
riquezas immensas. As futuras reacções da _reforma_ estão ainda
embryonarias e latentes. A sciencia busca despir as faixas da theologia
e da metaphysica, approximando-se lentamente do methodo experimental,
que ha de ser o poderoso instrumento da rapida e prodigiosa evolução
social e scientifica dos seculos XVIII e XIX. Tambem a arte, conforme a
propria essencia, _observa_ e _experimenta_, retemperando-se no estudo
da Natureza.
Em summa, a liberdade hesitante bruxoleia ainda; mas os tenues raios de
luz são sufficientes para dissipar as sombras medievaes, deixando ver o
caminho do futuro e os direitos da Humanidade. Eis como comprehendemos a
synthese do brilhante seculo XIII.
CAPITULO QUINTO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO OGIVAL
A formação do Estylo Ogival resulta logicamente do _meio_ social do
seculo XIII. A phase da evolução da arte corresponde-lhe com rigor. É o
espirito do seculo que toma fórma nas pedras dos monumentos, descobrindo
novas combinações de antigos elementos, empregando-os com mais arrojo e
inspiração esthetica, mais sciencia e experiencia de construcção. Assim,
na realidade o Estylo Ogival é a floração esplendida do romanico, aberta
á luz e ao calor do sol nascente da liberdade do pensamento.
Onde se manifestou primeiro o Estylo Ogival? É impossivel fixal-o. Os
seus productos, mais ou menos originaes, elevam-se por toda a parte,
onde o _meio_ foi identico; como certas plantas nascem em sólos
afastados, quando são de natureza similhante. É certo, todavia, que se
desenvolve e progride com maior rapidez, principalmente entre as nações
onde teve mais tarde maior preponderancia a _reforma religiosa_,
vencedora na Allemanha e em Inglaterra, em França vencida após longas e
tenazes luctas: mas deixando sempre um permanente fermento religioso. Na
Hespanha, em Portugal e na Italia, onde a Inquisição e a Companhia de
Jesus esmagaram a _reforma_ logo á nascença, o caminho do novo estylo
manifesta-se, pelo contrario, mais penoso e lento.
N'aquelles paizes, que hão de ser o foco das futuras luctas da religião,
entre o dogma e a disciplina de um lado e do outro a liberdade do
pensamento e da interpretração da Biblia, a dispersão do ogival foi
rapida e fecunda. Os reis, os pequenos senhores feudaes seculares e
ecclesiasticos, as communas e as ordens religiosas, numerosas e ricas
depois das Cruzadas, rivalisavam em construcções grandiosas,
espalhavam-n'as por toda a parte com piedade religiosa, onde havia
tambem muita emulação humana. Assim, por exemplo, resolvendo a
construcção da grande Cathedral de Sevilha, o respectivo Cabido
escrevia: «construamos obra tão grandiosa e magnifica que os vindouros
possam dizer que estavamos loucos».
As associações _franco-maçonicas_, fornecendo um exercito de
constructores desde os architectos até aos mais simples operarios,
facilitavam este grande movimento, imprimindo-lhe a rapidez e a unidade
de feições, que anteriormente notámos.
Recordando n'este ponto o que escrevemos ácerca da abobada e das
consequencias logicas do respectivo emprego, bem como as doutrinas
expostas no mesmo sentido sobre o arco ogival, procuremos agora definir
os caracteres do Estylo Ogival, que aliás se ligam intimamente com os do
romanico terciario. O arco em ogiva, diminuindo muito os impulsos
horisontaes sobre os supportes, permittia dar-lhes menos espessura,
fossem pilares ou paredes. A elevação dos edificios, dando-lhes
incontestavelmente elegancia e nobreza, foi a consequencia necessaria do
emprego d'este arco. Os architectos ogivaes aperfeiçoaram o systema,
empregando as _abobadas artezonadas_, ou de nervuras, d'onde decorreram
modificações importantes na arte da construcção dos edificios. É este,
sem duvida, o caracter mais importante do Estylo Ogival.
Figuremos por um instante que da abobada da nave central da Egreja da
Batalha, bem conhecida de todos, tiravamos a silharia encastrada entre
os artezões, como o parenchyma das folhas vegetaes enche os meandros das
nervuras salientes. Da folha ficaria uma fina renda de estreitas malhas,
da abobada um grande arcabouço de arcos ogivaes parallelos sobre pilares
correspondentes, formando successivos tramos quadrados eguaes. Outros
arcos em ogiva, perpendiculares entre si e cortando-se nos fechos,
ligariam de angulo para angulo os quatro pilares do tramo. Emfim, uma
nervura recta ao longo do eixo da nave pareceria dar rigidez e
estabilidade ao systema, encadeando os vertices dos arcos parallelos e
perpendiculares.
Se a figura foi exposta com alguma clareza, comprehender-se-á com
pequeno esforço de intelligencia o systema das abobadas ogivaes. Tudo
consiste, em summa, no artificio de descarregar, o mais possivel, as
pressões verticaes e os impulsos horisontaes da abobada sobre os
pilares. Em theoria tambem a silharia entre os pilares poderia
desapparecer, deixando um pavilhão aberto, uma especie de esqueleto
formado pelos pilares, reforçados por arcobotantes, e pelos arcos,
constituindo as nervuras ou artesões das abobadas.
As conclusões logicas d'este systema de construcção são de extrema
evidencia. As pressões verticaes e os impulsos horisontaes dos arcos
determinam certa espessura aos pilares. As primeiras não podéram ser
supprimidas; mas os impulsos horisontaes foram diminuidos pela fórma
ogival da curva e podem ainda, ser, contrariados pelo lado de fóra por
botareos salientes, e pela ligação d'estes botareos a outros exteriores
por meio de arcobotantes. Assim por este modo, um edificio ogival pode
ser _theoricamente_ reduzido a um esqueleto de pedra, como as casas de
Lisboa representam um esqueleto de madeira, antes de preenchidos os
intervallos com a alvenaria das paredes e de fechada a cobertura dos
tectos.
É evidente que este systema da construcção ogival permitte o facil
rasgamento de grandes vãos abertos, portas, janelas e rosaceas, entre os
intervallos dos botareos e dos arcobotantes; por isso, ao contrario do
romanico, o Estylo Ogival abunda n'estes elementos, multiplicando as
janelas e as rosaceas para illuminar as grandes naves e os transeptos,
que attingem alturas muito elevadas em relação á respectiva largura, ás
vezes, alturas relativas enormes, como succede na Egreja da Batalha.
Pretender dar mais clareza a uma exposição d'esta ordem, sem desenhos ou
modelos, seria caír em diffusão de palavras, que mais complicaria ainda
o assumpto. É, pois, contraproducente tental-o. A imaginação do leitor,
impellida por estes traços, preencherá as lacunas.
Expostas estas generalidades, inutil será entrar em divagações sobre o
emprego da ogiva, o que aliás já fizemos succintamente no segundo
periodo do Estylo Romanico. A ogiva foi conhecida e empregada muito
antes do estylo a que deu o nome, é facto incontestavel. Não conhecido
nem empregado era o systema das abobadas, tal como o havemos descripto.
Eis qual foi a verdadeira creação dos architectos ogivaes.
Em verdade, este systema ainda póde considerar-se a conclusão logica e
scientifica do emprego da ogiva e das suas respectivas qualidades
estheticas e mechanicas. O arco de volta inteira podia, com effeito, ter
sido applicado ao systema com alguns resultados, sómente implicando
grande sacrificio da elegancia e da majestade do edificio. Parece-nos,
pois, um verdadeiro circulo vicioso investigar, se o arco em ogiva deu
origem ao novo systema de abobadas, se este systema exigiu a fórma
quebrada do arco. Emquanto a nós, se houvesse vantagem em fixar opinião
sobre este ponto, admittiriamos, como mais natural e logica, a primeira
hypothese.
O Estylo Ogival manifesta uma duração de tres seculos. Vimol-o nascer
com o feudalismo na decadencia, durará durante a agonia d'esta
instituição e desapparecerá com ella, transformando-se em novo estylo.
Está definitivamente formado a partir dos meiados do seculo XIII,
constituindo o primeiro periodo. As construcções d'este periodo são
harmonicas e regulares, mas a sua feição é ainda um pouco fria e severa.
No seculo XIV adquire feições mais elegantes e distinctas. N'este
segundo periodo, que os architectos denominaram _radiante_, devido a
disposições caracteristicas de certos elementos de construcção e
ornamentação, os edificios são mais puros e alegres, mais elevados e
finos, emfim mais ideaes, d'esse espirito que principiou a manifestar-se
no seculo anterior.