A nave central, a capella mór e o transepto, offerecendo quasi a mesma

largura, eram cobertas por abobada de volta inteira, nascendo a egual

altura; nos quatro arcos do cruzeiro repousava uma grande torre quadrada

no exterior, que se elevava muito para cima d'estas abobadas. No

interior da egreja esta torre tomava a fórma de um octogono regular,

firmando-se em pendentes as paredes, correspondendo aos angulos

biselados do quadrado exterior. Em cada uma das faces d'este octogono,

rasgava-se uma janela muito alta e estreita, que illuminava a cupula

coberta por abobada, gerada pela intersecção de quatro semi-cylindros,

lançados entre as faces oppostas do prisma octogonal, isto é, por uma

abobada de oito arestas.

Esta abobada da cupula formava o primeiro pavimento da torre, que para

cima offerecia no exterior duas ordens sobrepostas de sineiras, tres em

cada ordem e em cada face. Segundo a nossa opinião, esta torre não tinha

senão um andar, a que fazia pavimento a abobada da cupula. Não nos

parece que a espessura dos muros, ainda existentes na base, permittisse

a sobreposição de tres abobadas, sendo possivel até que a cobertura da

torre fosse de madeira revestida de telhado.

Voltando ao interior da egreja, observaremos que esta disposição

particular da cupula octogonal devia ser de excellente effeito

architectonico. As naves lateraes tinham as abobadas muito menos

elevadas do que a da nave central; mas esta disposição não permittiu o

rasgamento de janelas, que directamente illuminassem esta nave, porque

por cima das segundas naves foram construidas galerias de egual largura,

cujas abobadas em pouco ficavam inferiores á da nave central, não

deixando espaço para rasgamento de janelas do _clerestory_.

Nas paredes da nave central, por cima dos arcos que dividiam as naves, e

nas do transepto, corria ao longo da egreja, com excepção da capella

mór, um estreito triforio, em communicação directa com as galerias, que

acabamos de apontar.

[Figura: SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA--Restauração da fachada principal]

Todas estas disposições foram depois mais ou menos alteradas; assim, por

exemplo, no triforio a restauração não só modificou as dimensões como

empregou columnas com galba e capiteis classicos! As paredes cobertas

por estuques horriveis, fingindo marmore de varias côres, subsistem na

actual egreja.

Feixes de grossas columnas romanicas sustentavam os arcos de volta

inteira, que dividem as tres naves; mas toda esta parte do edificio está

_excellentemente_ mascarada com columnas corynthias, tendo capiteis de

madeira, fustes de gêsso e bases de marmore verdadeiro combinado com

madeira, tudo, excepto os marmores, imitando tambem marmore! Assim, é

impossivel fazer hoje clara idéa d'estes elementos, que o maior

idiotismo imaginavel de restauradores em cidade civilisada conseguiu

estragar, com grande perda de tempo e dispendio de dinheiro!

A primitiva capella-mór era mais pequena do que a actual de construcção

mais moderna, como o indica o tom mais leve da planta; devia ser formada

de grandes arcos de volta inteira, repousando sobre fortes columnas

romanicas e abrindo na charola.

Apesar da tradição corrente e escripta, que affirma haver na Sé de

Lisboa grandes subterraneos, não deparámos ainda com elles nas sondagens

e investigações realisadas. Até podemos quasi concluir que, pelo menos,

nem existe uma crypta importante; reduzindo-se tudo a pequenas capellas

sepulcraes subterraneas, ou carneiros escavados muito depois da data da

construcção do edificio[2].

A illuminação do primitivo templo foi assás perfeita. A nave central

recebia luz da rosacea da fachada principal; as segundas naves de

janelas e portas abertas nas fachadas lateraes, que vamos descrever; o

transepto das rosaceas, rasgadas nos seus dois extremos, não existindo,

é claro, as feias janelas rectangulares, que actualmente por baixo

d'estas rosaceas abrem para o triforio; finalmente, a capella-mór era

illuminada pelas grandes janelas da charola e directamente por outras

superiores ao terraço da mesma charola. Alem d'isso, a cupula central

com as suas oito janelas devia, tambem, contribuir para derramar

bastante claridade no interior do templo.

Foram todas estas aberturas fechadas por vitraes coloridos?

Não nos parece. Na epoca da construcção, os verdadeiros vitraes

coloridos eram muito raros, nem ella foi rica e cuidada. Vê-se que D.

Affonso Henriques tinha mais fé religiosa do que dinheiro. No periodo do

maior emprego dos vitraes, nos seculos XIII, XIV e XV, não é muito

provavel que o gosto artistico nacional exigisse este complemento

esthetico. Haja vista os martyrios, que inflingiram ao pobre edificio

romanico!

As fachadas lateraes eram muito simples. A partir das torres, acima

descriptas, a muralha, tendo a altura das naves lateraes e das galerias

sobrepostas a estas naves, apresentava-se dividida por botareos pouco

salientes, em cujos intervallos se abriam seis janelas todas de volta

inteira; as mais baixas e proximas do solo eram grandes, alargando para

dentro; por cima d'estas existiam outras muito menores, rasgadas quasi

em estreita fresta.

Umas e outras illuminavam as segundas naves. Em terceira linha superior

seis janelas abriam para as galerias, sobrepostas ás naves lateraes. No

terceiro vão entre os botareos, a contar da torre, pelo menos na

fachada-norte, a janela inferior era substituida por uma porta, que foi

nos primitivos tempos resguardada por um vasto alpendre, coberto por

telhado. Esta porta foi ultimamente restaurada. É muito provavel que na

fachada lateral-sul se désse egual disposição; mas essa porta, se

existiu, foi inutilisada pela construcção da nova sacristia. Nos lados

do transepto viam-se apenas as janelas superiores.

Em face da fachada principal, e terminando em frente das portas

lateraes, devia existir um adro, cujos tijolos podémos ainda ver em

escavações praticadas junto do monumento.

Eis a descripção summaria da antiga Sé de D. Affonso Henriques. Não era

de certo nem grande nem rica; mas, indiscutivelmente, o seu todo devia

manifestar os caracteres do Estylo Romanico, a força e a severidade, sem

excluir certa elegancia, que ainda hoje se póde notar nos elementos

primitivos, embora suffocados e esmagados por estuques, construcções

absurdas, umas já desapparecidas, outras que será impossivel eliminar.

Oxalá os restauradores de todos os tempos tivessem procurado conservar

ao edificio as feições primitivas, porque n'esse caso Lisboa teria um

monumento de Estylo Romanico secundario de certo valor. Assim, nós, as

gerações actuaes, temos obrigação de fazer desapparecer pelo menos as

vergonhosas excrescencias, restaurando a parte restauravel do edificio,

como adeante explicaremos.

Bem cedo começaram as construcções annexas a prejudicar a esthetica do

primitivo templo. Vamos seguir as principaes por ordem de relativa

antiguidade.

Logo pouco depois da egreja ter sido terminada, foi _no rigor da

palavra_ encostada no angulo formado pela fachada lateral-norte e pelo

transepto a primeira d'estas construcções, consistindo n'um recinto

coberto por abobada de volta inteira, que inutilisou duas janelas

inferiores da nave. Este recinto, cujo terraço ficava inferior ás mais

elevadas janelas da fachada, abria para o exterior em toda a dimensão da

sua secção; não tendo mais janela ou abertura alguma. Todas estas

observações podem ser ainda verificadas em elementos existentes.

Qual seria o fim d'este annexo?

Difficil será descobril-o. É possivel que fosse um _narthex_, ou galilé

lateral, aberto mais tarde, talvez um logar de refugio para peregrinos

ou viandantes. Sobre este ponto poderá, apenas, fazer-se alguma luz,

quando a eliminação dos estuques, que revestem interiormente este

recinto e a parte correspondente da egreja, deixar ver se existem alguns

vestigios de antigas portas para o transepto ou para a nave

lateral-norte.

Depois d'esta epoca, sobre o recinto anteriormente descripto,

levantou-se uma grande sala abobadada, em que a ogiva se accentua ja bem

claramente. Esta sala, não tendo egualmente janelas na sua frente-norte,

era illuminada por uma grande janela ogival, em parte cega, rasgada na

parede, que repousa sobre o grande arco do supposto _narthex_. As duas

janelas mais elevadas do edificio principal, que ficaram inutilisadas

por esta construcção, acham-se tapadas por tal fórma que, segundo

pensamos, não póde existir a menor duvida em não haverem jámais dado

communicação da primitiva Sé para a referida sala; apenas se póde

admittir, embora a achassemos tambem murada, que esta communicação se

fazia por uma janela do transepto, transformada em porta para o

triforio. Estas disposições, tanto a do recinto inferior como a da sala

sobreposta, comprehender-se-ão claramente, notando na planta a segunda

intensidade do tom escuro.

Assim, temos uma sala de importantes dimensões apenas ligada com o

interior da egreja pela acanhada galeria do triforio, que a seu turno é

servido por uma pessima e estreitissima escada de caracol, encastrada no

botareo do transepto! Qual foi o fim d'esta sala?

O problema, porém, complica-se ainda mais. Uma terceira construcção,

tendo dois andares correspondentes aos dois pavimentos existentes, veiu

encostar-se ás duas precedentes. Devemos observar que propositadamente

temos escripto a palavra _encostar_, porque na realidade os successivos

constructores nem se deram ao trabalho de travar reciprocamente os

edificios; encostando-os, apenas, uns aos outros, o que permitte que em

determinados casos seja possivel ver claridade atravez das separações.

O pavimento inferior d'este novo annexo tinha de certo ligação com a

egreja, havendo sido transformada a janela da nave em porta, que ainda

actualmente existe; mas no pavimento superior as cousas passam-se por

fórma differente. A janela ogival da sala anteriormente descripta foi

transformada em porta, que serve os dois compartimentos; porém, a janela

da Sé, inutilisada pela nova construcção, essa, encontramo-la nós murada

como as duas outras precedentes; e quando a abrimos, por necessidades de

serviço e aproveitamento de local, ficámos convencidos, pela perfeição

do espesso massiço de silharia e de alvenaria, de que o tapamento era,

sem duvida, antiquissimo, se não contemporaneo d'esta inexplicavel

construcção.

Assim, como ainda se póde ver, existem duas salas, illuminadas por duas

altas frestas, que apenas communicavam com o interior da egreja por duas

estreitas escadas de caracol: a primeira, já indicada, a do triforio, a

segunda encastrada n'uma especie de botareo, que faz parte da ultima

construcção.

Que fins podia ter esta disposição mysteriosa dos dois importantes

recintos?

Debalde temos pensado no problema e investigado as pedras, a fim de ver

se nos revelam o segredo; em vão temos consultado os eruditos. Apenas,

alguem suggeriu a idéa de que, tendo as antigas cathedraes o _direito de

asylo_, isto é, de tornar inviolaveis os perseguidos pelas justiças

ordinarias, talvez as salas, tão bem defendidas e mysteriosas, se

podessem relacionar com esse direito de protecção. Ahi deixamos posto o

problema, que talvez investigações e sondagens mais completas possam

mais tarde resolver.

Das tres construcções, que acabamos de descrever e apreciar, a primeira

deve datar dos fins do seculo XII e a ultima dos fins do seculo XIII.

Eis tudo quanto nos parece ser licito affirmar ácerca da edade d'estes

edificios, annexados á primitiva Sé.

Como se deprehende da planta, estas construcções approximaram-se

successivamente da porta lateral-norte, que ainda nos fins do seculo

XIII abria directamente para a rua, ou terrado d'este lado da Sé. Que

esta porta, como dissemos, tinha alpendre coberto de telhado, provam-n'o

os vestigios, ainda existentes na fachada do ultimo dos mencionados

annexos.

No anno de 1324 falleceu em Lisboa Bartholomeu Joannes, rico mercador de

fidalga linhagem franceza, como parece demonstrarem-n'o os brazões e as

flores de liz do seu tumulo, deixando em testamento legado especial para

ser erecta na Sé de Lisboa uma capella, onde jazessem os seus restos

mortaes e os das pessoas, que por elle fossem indicadas. Esta disposição

testamentaria originou uma quarta construcção, a de uma elegante capella

do Estylo Ogival francez, que foi encostada á fachada lateral-norte,

occupando o espaço de duas janelas a partir da torre.

N'estas condições, a porta lateral ficaria encravada, entre as

construcções primitivas e a da nova capella; por isso, substituindo o

antigo alpendre, o espaço da porta foi coberto por uma abobada. Esta

especie de vestibulo abre sobre a rua por um grande arco ogival.

Taes são os edificios, que em successivos seculos foram encostados á

fachada lateral-norte da primitiva Sé, mascarando-a por completo.

É claro que em qualquer projecto de restauração ninguem poderá pensar

sequer em repôr o edificio nas condições primitivas; muito embora todos

estejamos de accordo em que teria sido muito preferivel ter evitado

estes acrescentamentos, que lhe prejudicaram a unidade do estylo. Além

d'isso, a capella de S. Bartholomeu, apesar da sua pequenez, é um

excellente exemplar do ogival secundario. Assim, no projecto de

restauração d'esta fachada, attendemos a todos os edificios,

aproveitando-os o melhor possivel.

Ainda no seculo XIV, em 1344, um forte terremoto destruiu ou pelo menos

arruinou a primitiva capella-mór romanica. A reconstrucção realisou-se,

alterando as dimensões d'esta parte da egreja e empregando o Estylo

Ogival. As capellas, que guarnecem a nova charola, e o claustro, que não

existiam anteriormente, datam da mesma reconstrucção.

Depois, entre esta grande restauração e a que resultou do terremoto de

1755, devem ter-se realisado muitas outras de secundaria importancia e

principalmente as obras, que estragaram o edificio. Assim, por exemplo,

as janelas quadradas das torres, substituindo as lindas janelas

geminadas primitivas, a rosacea, as sacadas e o arco do frontispicio,

bem como o edificio da sacristia e da sala capitular, que mascarou

grande parte da fachada lateral-sul, parece-nos datarem dos começos do

seculo XVIII, pelas qualidades do estylo; sendo, portanto, anteriores ao

terremoto de 1755, como o prova a gravura das ruinas, a que já nos

referimos.

Devem pertencer tambem a este periodo as construcções dos vergonhosos

pardieiros de todas as ordens, especies e fins, que mascaravam

completamente a fachada lateral-norte, subindo até elevada altura entre

os botareos da respectiva torre, e a inutilisação da bella porta lateral

e do respectivo vestibulo, substituidos por uma horrivel porta, rasgada

na capella de Bartholomeu Joannes.

O terremoto de 1 de novembro de 1755, finalmente, produziu profundas

ruinas na egreja e no claustro da Sé. Metade da torre do sul desabou,

bem como a torre sineira que veiu esmagar a abobada da nave central e a

da capella-mór. A memoria da parte principal d'estas ruinas foi

conservada n'uma gravura franceza do tempo, que nos pareceu interessante

reproduzir. Durante muitos annos estas ruinas permaneceram no meio da

cidade, até que em 1767 começaram as grandes obras de reconstrucção.

Teria sido esta a occasião azada para a restauração completa da Sé, não

na sua fórma primitiva, que já não seria possivel renovar; ao menos,

porém, nos Estylos Romanico e Ogival que se ligaram intimamente em

varios pontos do edificio. As tendencias da epoca, que já começavam a

condemnar estes bellos estylos como _barbaros_ e _gothicos_, a

insciencia dos restauradores, a pressa e talvez a carencia de dinheiro

deram os resultados, que ainda podemos ver.

A abobada da nave central foi simulada em madeira e estuque, abrindo

se-lhe medonhos oculos para melhor illuminar a egreja. Na capella-mór

procedeu-se por fórma parecida. A egreja foi por toda a parte coberta de

espessas camadas de estuque pintado, mascarando os velhos elementos

romanicos e ogivaes com elementos classicos absurdos e desordenados.

Assim, se o edificio da Sé, olhado exteriormente, causava a impressão,

principalmente na fachada lateral-norte, de uma sobreposição de

casebres, visto no interior, produz a desagradavel surpreza de uma

miseria, que pretende ostentar riqueza, e de um cahos de fórmas

disparatadas e deselegantes, que resultam da desharmonica combinação das

linhas principaes dos estylos christãos mais perfeitos com elementos

classicos, exigindo linhas geraes differentes[3].

Depois de termos dado succinta idéa, porque outra não comportam os

quadros d'este livro, do primitivo estylo da Sé Patriarchal de Lisboa e

das modificações mais importantes, que este edificio soffreu atravez dos

sete seculos da sua existencia, em curtos periodos diremos as nossas

opiniões ácerca da respectiva restauração, de que ultimamente fomos

incumbidos e tentamos executar com os melhores criterios estheticos.

Embora a Sé de Lisboa, nem pelas suas dimensões nem pela grandeza do

estylo, possa ser considerada importante monumento romanico, no estado

primitivo, como acabamos de observar, não deixava de manifestar algum

valor architectonico.

Restaurações successivas e barbaridades de construcção em seculos

differentes reduziram-n'o ao estado lastimoso, em que se conservou por

longos annos e em parte se encontra ainda n'este momento. A

reconstrucção e restauração mais ou menos radical do antigo monumento é,

portanto, quasi um dever de patriotismo.

Pensar em lhe dar a feição primitiva, apurando o Estylo Romanico

secundario em que foi construido, seria uma verdadeira loucura; no

conjunto do edificio os elementos ogivaes são mais importantes do que os

romanicos e, em regra, acham-se em melhor estado de conservação.

A restauração, a nosso ver, deve começar pelas fachadas. A principal

póde, sem duvida, assumir novamente a sua expressão romanica,

manifestando certa grandeza, se as suas torres forem convenientemente

coroadas de agulhas e substituida a parte central, entre as duas torres.

Esta obra é indispensavel e uma das primeiras que deve ser realisada.

[Figura: SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA--Restauração da fachada lateral-norte]

A fachada lateral-norte ficará sempre uma juxtaposição de edificios; mas

a indiscutivel belleza da Capella de Bartholomeu Joannes desculpará até

certo ponto esta agglomeração de estylos. Pelo que respeita á

fachada-sul, não haverá remedio senão conservar o annexo onde estão a

sacristia e a sala capitular, melhorando o seu frio e pobre Estylo da

Renascença.

O claustro e as respectivas capellas são obras de restauração facil,

embora dispendiosa, attendendo ao estado de profunda ruina em que se

encontram. O claustro não tem, na realidade, grande valor

architectonico; mas para elle abre uma vasta sala de elevada abobada

artezonada, que primitivamente devia ser muito bella. Diz-se que n'esta

sala foi instituida a primeira Misericordia nacional. Mais tarde, talvez

em principios do seculo XVIII, foi transformada em capella no Estylo da

Renascença, onde abundavam os mosaicos florentinos no arco, nas paredes

da abside e no altar. Suppomos que esta capella foi primitivamente a

_sala capitular_.

Realisadas todas estas restaurações, a parte interior da egreja tem de

ser completamente reedificada, aproveitando-se apenas as fundações dos

pilares das arcarias das naves e as paredes exteriores. Não só as

abobadas da nave central e da capella-mór não existem, sendo simuladas

em madeira e estuques, mas, os proprios pilares, ou feixes de columnas,

e as arcadas sobrepostas estão fendidos por tal fórma que não

supportariam o peso de verdadeiras abobadas. Além d'isso, as abobadas

das naves lateraes são de tijolo e provavelmente substituiram as

primitivas de silharia.

É natural que a restauração exterior do templo leve, mais cedo ou mais

tarde, a esta importante obra de reedificação interna da egreja, porque

outra não se deve tentar, por improficua e dispendiosissima.

Em todo o caso já seria um adeantado passo acabar a restauração externa

da velha egreja de D. Affonso Henriques, que deve considerar-se um

verdadeiro monumento da epoca, recordando a constituição e a

independencia da Nação Portuguesa.

CAPITULO QUARTO

SYNTHESE SOCIAL DO SECULO XIII

Traçar um quadro do seculo XIII, dando-lhe a verdadeira expressão

social, scientifica e esthetica, é materia difficil, principalmente nos

limites estreitos d'este livro; todavia, por nos parecer indispensavel,

conforme o methodo adoptado, tentaremos este trabalho em modestas

proporções.

O seculo XIII foi incontestavelmente o mais brilhante da Edade-Media;

concentra e dá unidade, por assim dizer, aos trabalhos do pensamento

humano, realisados nos anteriores seculos, prepara os thesouros de

sciencia e de philosophia, que produziram a renascença artistica e

litteraria do seculo XVI, a philosophica do seculo XVII e, emfim, os

grandes movimentos sociaes e politicos dos seculos seguintes.

A organisação das monarchias feudaes, como a tentámos descrever n'outros

capitulos, estava completa no começo do seculo XIII; em verdade, até

começava a resvalar para a dissolução, que se operou no fim do seculo XV

e de que foram principaes agentes em França Luiz XI, em Inglaterra

Henrique VII, o fundador da dynastia dos Tudors.

As grandes guerras religiosas para libertação do solo sagrado de

Jerusalem, que aliás nunca foi perfeitamente livre e christão, foram a

grande obra das monarchias feudaes, desde os fins do seculo XI aos do

seculo XIII. Este grande esforço do feudalismo accumulou as causas da

propria decadencia; como as organisações vigorosas se enfraquecem pelo

excesso de trabalho.

Prégadas pelos proprios Papas ou animadas por elles, as Cruzadas tinham

levado ao oriente, durante dois seculos, milhões de homens das nações

occidentaes. A melhor cavallaria feudal, durante este longo periodo,

havia deixado no caminho de Jerusalem parte das riquezas, e as vidas nos

campos das batalhas ou dizimadas pela peste. Este enorme fluxo e refluxo

de homens ligara intimamente as relações entre os dois extremos da

Europa, trazendo para o occidente novos elementos de uma civilisação

mais adeantada, novas idéas e processos; activando, emfim, as reciprocas

transacções commerciaes, de que foram poderosos centros Genova, Marselha

e Veneza.

Os grandes senhores arruinavam-se, sustentando longinquo e dispendioso

estado de guerra, emquanto a burguezia se enriquecia no commercio

pacifico e as classes populares repousavam e trabalhavam, livres de

grande numero dos pequenos tyrannos. A exaltação do espirito religioso,

excitado pelas santas Cruzadas, approximara as nações e dentro d'ellas

as respectivas classes. N'esta atmosphera favoravel, a liberdade ganhava

vigor na vida local das communas, cujas revoltas eram mais faceis e mais

baratas as compras de direitos civicos a senhores, que careciam de

dinheiro para as enormes despezas da guerra e satisfação de um luxo

exagerado, que traziam sempre inveterado nos costumes, quantos tocavam

sequer de leve as civilisações orientaes. Assim, no seculo XIII baixava

o sol do feudalismo e começava a raiar a aurora d'essa energica vida

communal, que nas mãos de suzeranos habeis devia servir mais tarde de

poderoso instrumento para reduzir os barões feudaes, livres e

turbulentos, a vassallos, subordinados e pacificos, e a pouco e pouco a

simples cortezãos, servis e lisonjeiros, que apenas ostentavam nas

antecamaras reaes honorificos titulos de antigos apanagios e nomes de

gloriosos antecessores.

No seculo XIII a egreja adquirira indiscutivel preponderancia sobre o

orbe christão, a Europa. Pela religião e pelo respeito tradicional, o

Papado impozera-se aos grandes e aos pequenos; era o arbitro supremo

entre os principes, perseguia-os como revoltosos e criminosos sobre os

proprios thronos e, sendo preciso, separava-os do povo pela interdicção

dos Estados, ou pela excommunhão dos rebeldes.

A architectura religiosa na Edade Média · 第 9 / 17 段