Eis em rapidos traços os caracteres mais salientes e geraes do Estylo

Romanico secundario. Em verdade, não são muito accentuados, exceptuando

a abobada, por isso, o estylo talvez seja definido, ou pelo menos

completada a definição, pelos caracteres ornamentaes, aliás, tambem

sujeitos ás condições particulares e aos materiaes empregados nos

differentes paizes. Assim, no sul da França, como na Italia, onde reinou

mais accentuadamente o Estylo Byzantino, os edificios romanicos teem

qualidades um pouco differentes, embora sempre subordinadas ás regras

geraes e ás feições do estylo. Os do sul são mais leves e cuidados do

que os do norte; na Allemanha e na Inglaterra manifestam-se mais pesados

e de ornamentação mais barbara e primitiva. Em qualquer caso, a grande

influencia do Estylo Byzantino, na constituição da architectura dos

seculos XI e XII, manifesta-se incontestavel.

O Estylo Romanico terciario--o de transição--apresenta os mesmos

caracteres do secundario; comtudo um elemento não empregado no periodo

anterior, o _arco em ogiva_, produz logicamente importantes modificações

na disposição geral dos edificios. Este arco deve ter sido conhecido em

todas as nações da antiguidade, que tiveram grandes constructores e

edificios importantes. Se o não empregaram em grande escala, foi decerto

porque a natureza dos respectivos estylos, com tendencias horisontaes

nas linhas mais apparentes, não se adequava estheticamente ás

disposições inversas do arco ogival. As investigações scientificas vão

demonstrando este facto e o futuro nos dirá o que se póde ainda

descobrir.

O arco em ogiva tem propriedades mechanicas tão evidentes em si, tão

faceis de provar pelo simples raciocinio e pela mais modesta

experiencia, que seria quasi uma offensa á capacidade, aliás

extraordinaria, de alguns architectos classicos suppôr que não lhes

foram conhecidas e portanto que não applicaram o arco ogival, quando as

condições o exigiram. Todos sabem, com effeito, os extremos cuidados de

construcção, na perspectiva e na disposição dos materiaes, que os

architectos classicos empregaram no Parthenon: sciencia tão profunda,

demonstrada pelo moderno estudo do monumento, como depois não houve

exemplo, e em que foram até attendidos os erros visuaes nas grandes

linhas horisontaes e perpendiculares. Negar a estes e a outros famosos

architectos perfeito conhecimento das vantagens da applicação da ogiva

seria um indiscutivel absurdo.

No arco em ogiva as componentes horisontaes das pressões, exercidas

sobre os pilares, são menores do que no arco de volta inteira e

decrescem successivamente com a maior altura da ogiva. Este theorema é

tão facil que a mechanica de todos os tempos o devia ter demonstrado. As

rasões pelas quaes começou a ser usado no segundo periodo romanico e

depois teve geral emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que

nos cumpre investigar como inducção interessante.

É muito provavel que a solidez e a economia das construcções fossem a

rasão suprema da sua adopção, sem, todavia, deixarmos de considerar as

condições estheticas de edificios, como os romanicos, que iam tomando

fórmas elevadas e ponteagudas, repellindo por sua natureza as grandes

linhas horisontaes e as curvas continuas. As qualidades estaticas do

arco em ogiva prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto é,

davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os mais economicos,

elegantes e ideaes, se nos permittem a palavra; correspondendo, assim,

ao espirito essencialmente mystico e religioso que o Christianismo havia

desenvolvido na Edade-Media. A ogiva apparece, pois, como elemento

logico de um estylo e expressão esthetica do estado especial do espirito

humano no periodo historico, que procurámos definir n'outros capitulos

d'este livro.

Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, só por si, não caracterisa o

terceiro periodo romanico. Os edificios tomam, sem duvida, um aspecto

mais leve; mas a ornamentação tambem offerece transformações

importantes. O trabalho é mais perfeito. Novo systema de molduras

substitue em parte as primitivas, os ornamentos mais pesados apparecem

rejuvescidos, outros novos são creados; emfim, a guarnição vegetal,

precursora do ogival, desenvolve-se n'este periodo.

Na esculptura e na pintura persiste a fórma ascetica, delgada e alta, de

roupagens de pregas parallelas e apertadas, da arte byzantina. As

physionomias são graves e serenas, traduzindo o extasi mystico, de quem

abandona o corpo esqueletico e macerado n'este mundo e deixa voar a alma

livre para a celeste beatitude do espirito; verdadeiras fórmas

hieraticas e tradicionaes, e porque o são, seccas e sem movimento.

Uma decoração magnifica começa a manifestar grande desenvolvimento no

ultimo periodo do Estylo Romanico: os _vitraes_, as vidraças coloridas

das janelas. O uso dos vidros nas egrejas parece haver começado no

seculo X. É muito provavel que os vitraes ordinarios substituissem longo

tempo antes as laminas de pedra rendilhada, que encontrámos no Estylo

Latino. Que esses vitraes fossem depois superficialmente pintados,

tambem é de crer; mas o verdadeiro vidro polychromico, com a côr fundida

e incrustada na massa, não apparece senão no seculo XII, por modo

incontestavel e com desenvolvida applicação, de que existem ainda alguns

exemplares.

Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é

relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e

encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que

n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo

divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de

construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico

azul. Na parte superior do vitral desenha-se, conforme o periodo, a

ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do

Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem

como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte

byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr

dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres

escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da

realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta admiravel

ornamentação, cujo effeito é surprehendente, attinge a maior perfeição

no Estylo Ogival; para elle, pois, reservamos mais algumas

considerações.

Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar o Estylo Romanico

nos dois periodos, o secundario e terciario. Accrescentaremos, apenas,

que a classificação dos edificios, principalmente nas epocas de

transição de estylos limitrophes, é assumpto delicado, que exige

sobretudo muita experiencia e observação de exemplares bem definidos. As

idéas geraes não bastam, nem é sufficiente o estudo dos livros. É

preciso pela experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir um

senso esthetico educado; uma cousa correspondente a essa qualidade

singular que teem os grandes medicos de diagnosticar a doença, quasi

adivinhando-a pela simples observação do enfermo.

Além disso, é indispensavel conhecer a historia do monumento, se elle a

tem escripta, aliás refazel-a com successivas investigações, estudando

pedra a pedra, elemento a elemento, porque nos periodos de transição,

principalmente, tudo se sobrepõe e combina por tal fórma que o enygma

parece sorrir dos nossos esforços em cada canto dos monumentos.

Entre nós, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos sobre se a egreja

de Alcobaça deve ser considerada romanica do terceiro periodo, ou já

ogival. Nas arcadas do côro, mascarada por bellos intercolunmios jonicos

manifesta-se o romanico, talvez do segundo periodo, depois, no corpo da

egreja, as ogivas dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda de

caracter romanico.

Restaurações successivas, feitas em largos periodos, desnorteiam o

observador. Exceptuando, pois, a fachada, do feio e pesado Estylo da

Renascença dos principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser esta

egreja um soffrivel exemplar do romanico de transição. Discutiremos este

assumpto, interessante sob o aspecto da classificação architectonica dos

nossos monumentos, em um dos seguintes capitulos d'este livro.

CAPITULO TERCEIRO

A SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA RESTAURAÇÃO

Não pretendemos fazer uma monographia da Sé de Lisboa; nem o edificio

tem valor architectonico que mereça investigações demoradas, nem ácerca

d'elle existem documentos ou dados provaveis, que possam facilitar

similhante trabalho. A carencia de elementos historicos, regra pelo

menos nos monumentos nacionaes primitivos, não soffre excepção na antiga

cathedral metropolitana, cujos archivos foram em grande parte destruidos

pelo incendio, que seguiu o terremoto de 1755.

Assim, citamos esta egreja como simples exemplo nacional do Estylo

Romanico; porque foi, sem duvida, o melhor dos edificios d'este estylo

existentes em Portugal. Effectivamente, entre nós devem apenas

considerar-se de relativa importancia, como monumentos romanicos, a Sé

de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra e a da Guarda, porque, se algumas

outras egrejas começaram por ser d'este estylo, successivas

reconstrucções e restaurações no periodo ogival e no da renascença

mascararam-lhe quasi por completo as feições. Alem d'isso, são estes

templos os de maiores dimensões, e excepcionalmente podemos encontrar

pelo paiz alem d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do Estylo

Romanico, mais ou menos puro.

Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos, que possuimos,

dois, a Sé de Lisboa e a da Guarda, acham-se mais ou menos profundamente

alterados por obras realisadas em differentes seculos, algumas assás

barbaras. Apenas, o terceiro, a Sé Velha de Coimbra, teve nos ultimos

annos conscienciosa restauração, que a repoz quanto foi possivel no

estado primitivo. Pensou-se, tambem, ultimamente na Sé de Lisboa e

n'este sentido alguma cousa se tem feito; mas tão profunda é a ruina

d'este templo e do respectivo claustro, que a estas obras talvez melhor

se deverá chamar dispendiosa reconstrucção, do que simples e economica

restauração.

Apesar do exposto, faremos rapido bosquejo historico ácerca da Sé

Patriarchal de Lisboa; templo que, embora nunca fosse grandioso de

dimensões ou rico e cuidado de estylo, deve merecer attentos trabalhos

de reconstrucção e de restauração, visto que representa a primeira

egreja do paiz na ordem da hierarchia ecclesiastica e é a cathedral de

uma importante cidade da Europa.

Sobre o solo de Lisboa, atravez dos longos seculos da sua existencia

historica, têem-se succedido muitas invasões de povos de differentes

raças e religiões. Sem falarmos, pois, em celtas, phenicios e

carthaginezes, que mais ou menos se perdem na noute mythica dos tempos,

occuparam-n'a os romanos em primeiro logar, vencidos depois pelos

barbaros, alanos, suevos e visigodos, que a seu turno foram dominados

pelos arabes, sendo, emfim, estes ultimos expulsos de Lisboa por D.

Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. É evidente que n'esta longa

serie de seculos, Lisboa atravessou vicissitudes e condições diversas.

Foi pagã e polytheista com os romanos, christã ariana com os visigodos,

professou o Islamismo com os arabes e o Christianismo orthodoxo, quando

assumiu a posição de metropole do pequeno reino de Portugal.

Apesar d'estes estados diversos e duradouros, Lisboa nunca foi uma

cidade importante. Os romanos não eram navegadores e o seu commercio,

quasi exclusivamente terrestre e oriental, não podia valorisar o

excellente estuario do Tejo. Os barbaros constituiam nações rudes ainda,

essencialmente guerreiras, embora já penetradas pela civilisação romana

e pelos ideaes christãos. Os arabes, finalmente, mais puros e

civilisados, haviam-se concentrado no sul da Hespanha, na Andaluzia e em

volta de Cordova, a capital do grande Khalifado do Occidente,

abandonando as regiões mais occidentaes da peninsula iberica a raças e

tribus mais guerreiras e illetradas.

Assim se explica a pobreza quasi absoluta de monumentos arabes na zona

de Portugal, que foi habitada por esta raça, emquanto a Andaluzia está

cheia de ricas construcções do Estylo do Khalifado, algumas ainda assás

completas, como a mesquita de Cordova, o Alcaçar de Sevilha e o Alhambra

de Granada, sem falarmos de edificios de menor importancia e de trechos

e vestigios, que attestam o grau da elevada civilisação dos arabes, que

povoaram aquella parte da Hespanha.

A importancia da cidade de Lisboa nos periodos romano, visigodo e arabe

foi sempre secundaria. A sua transformação profunda em verdadeiro

emporio commercial proveiu de dois factos posteriores na Historia da

Humanidade: a irradiação, para outros pontos do globo, da civilisação

dos povos e das nações, dispostas ao longo das costas do Mediterraneo,

onde ella se conservou durante os tempos classicos; e a descoberta do

caminho maritimo da India e dos vastos continentes da America, que

annullou os emporios de Marselha, Genova e Veneza, deslocando os antigos

caminhos commerciaes. A grandeza um pouco ephemera de Lisboa

manifesta-se nos ultimos quarteis do seculo XV e nos dois primeiros do

seculo XVI.

Não admira, pois, que a capital portuguesa fosse sempre tão pobre de

monumentos primitivos; quando, alem d'isso, a sua precaria situação na

zona dos terremotos não tendesse a destruir os poucos, que o trabalho de

longos seculos penosamente accumulou na sua antiga área.

Por muito secundaria que fosse, todavia, a importancia de Lisboa,

romanos, godos e arabes n'ella edificaram templos, de que hoje não

restam os menores vestigios, a não ser em vagas tradições, colhidas em

antigos escriptos. Assim, a antiga Sé de Lisboa teria sido edificada nas

proximidades, se não no proprio local, de um templo classico,

substituido depois por um templo godo, a seu turno transformado em

mesquita no tempo do dominio arabe. Esta tradição é mais do que

plausivel, se attendermos á tendencia das religiões victoriosas em se

apossarem dos templos das religiões vencidas, facto de que existem

numerosos e incontestaveis exemplos em differentes epocas e em diversas

nações. A este ponto interessante da Historia da Arte e das Religiões

nos referimos n'outro capitulo d'este livro.

A tradição, que affiança haver sido a actual Sé uma antiga mesquita

arabe, é evidentemente absurda. Não só o estylo do templo é

accentuadamente romanico; mas, se elle houvesse sido construido nos

curtos periodos, durante os quaes os christãos occuparam Lisboa depois

da conquista dos arabes, estes, voltando a dominar na cidade, teriam

apropriado a egreja ao seu culto, caracterisando-a com construcções e

ornamentos especiaes, de que não se encontram os menores vestigios.

Seria, porém, o actual edificio da Sé de Lisboa levantado no local de

uma mesquita arabe?

Esta tradição parece-nos muito fundada; não suppomos, todavia, que a

construcção arabe podesse ser de grande importancia. As mesquitas de

Lisboa não deviam soffrer comparação com as de Toledo, Cordova, Granada

e Sevilha, centros da civilisação arabe. A Cathedral de Sevilha, por

exemplo, repousa sobre o local de uma grandiosa mesquita, da qual se

conservam ainda hoje, junto á mesma cathedral, o espaçoso pateo, que

precedia as mais consideraveis mesquitas, e a magnifica torre, um primor

do Estylo do Khalifado, bem conhecida pelo nome de Giralda.

Seja qual fôr o valor d'estas presumpções, a melhor opinião, fundada em

argumentos de ordem historica e architectonica, consiste, segundo

pensamos, em que o edificio actual se deve attribuir a D. Affonso

Henriques e foi levado a effeito logo depois da conquista de Lisboa aos

arabes, em outubro de 1147.

Devia ser rapida a construcção. A simplicidade architectonica e a

pobreza de ornamentação, que manifesta a parte primitiva do edificio,

não exigiram, de certo, planos muito estudados e completos, nem a

propria construcção foi muito cuidada quer na escolha, quer na

disposição dos materiaes. Forçoso é confessal-o, embora destôe um pouco

dos louvores hyperbolicos de alguns escriptores nacionaes: o edificio da

Sé de Lisboa é de acanhadas proporções, de muito pobre estylo e de

construcção bastante ordinaria.

Sendo muito provavel que as obras começassem logo após a conquista, não

é facil determinar a respectiva duração. O conego Vieira da Silva, em

memoria annotada por D. Francisco de S. Luiz, Cardeal Patriarcha em

meiados do seculo XIX, deduz, de varios documentos e de investigações

proprias, que a primeira constituição do Cabido da Sé de Lisboa data do

anno de 1150.

Estaria o primitivo templo acabado n'esse anno, ou pelo menos

achar-se-ia já muito adeantado e proximo do seu fim?

Não custa a acredital-o. Em tres annos não seria grande difficuldade

elevar edificio d'esta natureza; principalmente se tivermos em attenção

que a silharia n'elle empregada foi, sem duvida, explorada em pedreiras

muito proximas das respectivas obras.

Uma observação interessante devemos fazer n'esta altura: o primeiro

bispo de Lisboa, capital de Portugal, foi o inglez Gilberto. Ora, em

Inglaterra floresceu o Estylo Romanico, a que pertence a parte primitiva

da Sé Patriarchal.

Depois da sua fundação, o primitivo edificio soffreu muitas

reconstrucções, restaurações e alargamentos, dos quaes alguns motivados

pelas necessidades do culto e outros provenientes da falta de

alojamentos internos para o numeroso pessoal, que exigem a guarda e os

serviços religiosos de uma cathedral. As barbaridades artisticas e de

construcção, que por estas razões se praticaram, seriam inacreditaveis,

se grande parte d'ellas não fossem directamente observadas pelo auctor

d'este livro e algumas não existissem ainda, attestando o mau gosto, a

ignorancia e o desprezo pelos monumentos e pelas tradições, que ás vezes

caracterisa o espirito nacional desde os tempos mais remotos até aos

nossos dias.

Seguindo a planta da Sé no seu estado actual, isto é, na data em que

escrevemos este livro, é fácil formar clara idéa do plano primitivo da

velha egreja de D. Affonso Henriques e das principaes transformações,

que ella soffreu durante sete seculos e meio; por isso, chamamos a

attenção do leitor para a respectiva planta, observando-lhe que os seus

differentes tons correspondem a periodos distinctos da construcção.

A primitiva egreja foi de Estylo Romanico do melhor periodo--o

secundario--que em geral floresceu no occidente e no centro da Europa no

seculo XI. Quando se levantava a Sé de Lisboa, em meiados do seculo XII,

já o Estylo Romanico em geral attingira o periodo terciario, preparando

a transição para o Estylo Ogival. Este relativo atrazo não deve,

comtudo, causar surpreza; póde considerar-se quasi regra geral na

evolução da arte portuguesa em relação á das restantes nações centraes

da Europa.

Apesar de coberta de horriveis estuques, que a mascaram ridiculamente de

Estylo Classico, e das reconstrucções ogivaes posteriores, não

encontrámos durante o estudo minucioso, que temos feito d'esta

construcção, um só elemento, que possa contrariar a sua classificação no

Estylo Romanico secundario.

A planta primitiva era elegante. A nave central, o transepto e

capella-mór formavam uma cruz latina. As naves lateraes avançavam,

envolvendo a capella mór, isto é, formavam _deambulatorio_, ou

_charola_. Não é muito frequente esta disposição no Estylo Romanico

secundario; mas, evidentemente, a disposição da planta exige-a como

condição indispensavel e de elegancia. Alem d'isso, se não é possivel

demonstrar directamente a existencia da charola romanica na Sé de

Lisboa, na egreja de Alcobaça, sua coéva, a existencia prova-se pelas

fortes columnas e arcadas da capella-mór, que abriam, sem a menor

duvida, para uma primitiva charola romanica. Não nos parece nada

provavel que a charola romanica da Sé tivesse capellas; como não as

tinha talvez tambem a primitiva de Alcobaça. N'uma e n'outra egreja,

estas capellas provéem de restaurações ou reconstrucções ogivaes.

[Figura: Planta da SÉ DE LISBOA--Estado actual]

Occupando os espaços onde hoje estão as capellas do Santissimo e a de S.

Vicente, que abrem para os dois extremos do transepto, existiam

provavelmente a sacristia e o thesouro. A estes elementos se reduzia a

planta da Sé primitiva, porque o claustro e todos os edificios annexos

são de construcção posterior. Escusado será observar que a supposição da

existencia de cinco naves na antiga cathedral resulta do erro grosseiro

de tomar certos edificios annexos, de que falaremos mais tarde, por

naves extremas, hypothese que a simples inspecção da planta não

admittiria com a menor probabilidade, quando a existencia das primitivas

janelas e da porta, hoje restaurada, da fachada lateral-norte não fosse

indiscutivel prova de que a egreja nunca teve mais de tres naves.

A fachada primitiva era formada, como a actual, por duas torres

quadradas, massiças e revestidas de fortes botareos. Entre estas torres

corria a parte da fachada, correspondente ao côro. A disposição das

linhas geraes não foi, pois, alterada pelas restaurações, que aliás

estragaram o estylo; com effeito, as torres foram, sem duvida, coroadas

de agulhas e as horriveis janelas quadradas n'ellas abertas

substituiram, não se póde bem avaliar por que razões, as bellas janelas

geminadas romanicas, que ultimamente foram restauradas na torre-norte.

As agulhas ou corucheus primitivos, em nossa opinião, não tiveram a

detestavel fórma, com que apparecem em gravuras e azulejos posteriores

ao seculo XV; naturalmente destruidas por algum terramoto--talvez o de

1384--foram restauradas sob a fórma de elevadas torres quadradas, de

muito menor superficie do que a das torres inferiores e cobertas por

telhados vulgares de quatro aguas!

A parte central da fachada, comprehendida entre as duas torres, tambem

não podia ser em nada parecida com a existente. A rosacea devia existir,

bem como o grande arco, dando accesso ao portal da egreja; mas toda esta

parte actual é de construcção posterior e do frio e decadente Estylo da

Renascença, no seu peor periodo.

Tem-se attribuido as janelas quadradas da fachada, a mesquinha rosacea e

o bruto e feio arco do vestibulo á grande restauração, depois do

terramoto de 1755; é um erro. Uma gravura franceza do tempo, mostrando o

estado das ruinas da egreja depois do terramoto, prova que tudo isto

existia antes d'esta catastrophe. Assim, nós suppomos, com o maior

fundamento, que todos estes absurdos elementos, bem como o ridiculo

coroamento das torres são obras coévas da sacristia, encostada á fachada

lateral-sul da primitiva egreja, datando tudo dos começos do seculo

XVIII, talvez do reinado de D. João V.

[Figura: Ruinas da SÉ de LISBOA--Terramoto de 1755]

Alem d'isso, as torres soffreram restaurações em differentes epocas; a

do norte no periodo ogival e depois na renascença manuelina; a do sul

foi quasi toda reconstruida depois do terremoto de 1755. N'uma e

n'outra, as grandes janelas primitivas foram transformadas em sineiras,

fim que primitivamente não tiveram, porque os sinos occupavam uma

elevada torre, construida sobre o cruzeiro, que desabou tambem pelo

terremoto de 1755.

Fundados n'estes raciocinios, elaborámos o projeto de restauração da

fachada, que melhor nos parece traduzir a physionomia especial do Estylo

Romanico da velha egreja. Embora essa fachada não seja grandiosa em

dimensões e rica em ornamentação, julgamos traduzir a severa solemnidade

do estylo e o aspecto de força, que nunca perderam as grandes e massiças

torres da Sé, apesar de torturadas por absurdas restaurações e coroadas

por platibandas ridiculas, repousando sobre cornijas classicas.

O interior da primitiva egreja deduz-se da respectiva planta,

esclarecendo-a com algumas observações, colhidas em investigações

directas e sondagens feitas no actual edificio.

A architectura religiosa na Edade Média · 第 8 / 17 段