descrevemol-os, com rapidos traços, em anteriores capitulos. Seguindo o
methodo adoptado, apreciámos as circumstancias historicas em que se
operou a fusão d'esses estylos e fizemos depois o quadro do estado
social dos seculos XI e XII, periodos medios durante os quaes se
definiram as duas feições do Estylo Romanico, o da constituição perfeita
e o da transição para o Estylo Ogival.
D'estes quadros, se embora curtos ficaram perfeitos, devemos tirar
conclusões geraes. A fusão dos tres espiritos, o classico, o germanico e
o christão, está quasi realisada. A homogeneidade do pensamento prepara
a das sociedades. É a aurora do mundo moderno, que desponta ha oito
seculos. São enormes os dias da historia da Humanidade; duram por longo
tempo, como por myriades de seculos se contam os da historia da
Natureza.
O espirito da liberdade começa o seu caminho, nem sempre directo e facil
mas constante e orientado, para as instituições modernas. Essa força
poderosa, a liberdade do pensamento, vae engrandecer as antigas
sciencias, crear outras novas e, como a arte é uma sciencia,
engrandecel-a tambem em todos os ramos, refundindo a antiga esthetica,
como transformou a philosophia classica.
A tendencia para a ordem social produz a riqueza, a relativa instrucção
desenvolve o gosto, elementos que constituem a melhor atmosphera do
trabalho intellectual e da sua applicação pratica. As sciencias e as
artes saem dos conventos, onde a barbarismo dos primeiros seculos as
obrigára a procurar refugio. Os senhores fazem os seus votos e
cumprem-n'os, elevando templos, e constróem castellos e palacios nos
seus Estados. As communas nascentes edificam os seus campanarios e
tambem os seus muros e fortalezas. A emulação estabelece-se. Os pequenos
tyrannos até procuram salvar as almas, mercadejando com Deus e cobrindo
o sangue dos assassinios e as torpezas dos actos com templos admiraveis.
Sirva de exemplo a grande Cathedral de Milão, construida em 1386 por
João Galeas Visconti, duque de Milão, um dos maiores malvados do seu
tempo, aliás bem fertil em individualidades d'esta especie, dispersas
por toda a Europa feudal.
O Christianismo domina sem rival; para elle começára tambem a unidade
que teve depois n'outros seculos. Chame-se Catholicismo, religião
reformada ou orthodoxa grega, é sempre o mesmo espirito tendo acção
identica sobre os destinos do orbe christão, que nós e os hespanhoes
havemos de alargar mais tarde, descobrindo os mais longinquos confins do
mundo.
Este bello movimento do espirito humano, iniciado nos seculos XI e XII,
avigora-se no seculo XIII, cuja atmosphera facilitou a formação do
Estylo Ogival, aquelle que até hoje produziu, em menos tempo, a maior
quantidade de monumentos de todas as ordens, admiraveis manifestações de
grandeza e de qualidades de arte. Agora, porém, circumscrevamos os
nossos raciocinios ao Estylo Romanico secundario e ao terciario, chamado
de transição, porque n'elle, durante o seculo XII, se opera a passagem
para o Estylo Ogival.
As grandes provincias occidentaes do Imperio Romano, a Gallia, a Iberia,
a Bretanha, haviam sido devastadas pelas invasões germanicas; a propria
Italia, como vimos, soffrera os maiores flagellos, perdera primeiro a
hegemonia e depois fôra arrancada á corôa imperial do oriente. A miseria
era extrema em toda a parte. Na Italia, por exemplo, no principio do
seculo VI, S. Benedicto retirava-se para Subiaco, a cem kilometros de
Roma, para n'este _vasto deserto_ levar vida contemplativa e ascetica,
creando depois com os adherentes, que dia a dia se agrupavam em volta
d'elle, a celebre ordem dos Benedictinos. Este estado social, perigoso e
incerto, e o proprio mysticismo da religião christã crearam as primeiras
associações religiosas, que satisfaziam ás necessidades do espirito e á
segurança e ao socego dos homens, que não andavam envolvidos nas
tremendas luctas do tempo. Taes são na essencia as origens das ordens
religiosas, que, a pouco e pouco, principalmente depois das Cruzadas, se
organisaram regularmente.
N'estas associações se refugiaram a sciencia, a philosophia e a arte,
que precisam para boa cultura o socego do corpo e a tranquillidade do
espirito. Algumas ordens religiosas, como as dos Benedictinos, tinham
nos seus estatutos escriptos, além de regras e praticas religiosas,
obrigações de caracter scientifico; ora, esta ordem teve, como é sabido,
uma expansão enorme e rapida, depois da fundação, no seculo VI, do
primeiro mosteiro em Monte Cassino. De facto, esta poderosa e sabia
associação espalhou-se pelo occidente, dando origem a abbadias que ainda
hoje teem nome na historia: em França as de Cluny e Citeaux, construidas
nos seculos X e XI, na Allemanha as de Ratisbonne e Salsburg, em
Inglaterra as de York e de Westminster, para não citar ainda mais
outras. Tambem, nos ultimos seculos do primeiro periodo da Edade-Media
até ao principio do seculo XI, se formou em Italia a associação civil
dos _irmãos pontifices_, que depois se constituiu em ordem religiosa; os
seus fins consistiam em construir e reparar pontes, facilitando assim o
caminho das peregrinações, que se dirigiam aos logares santos e a outros
pontos de veneração christã.
A existencia d'estas associações religiosas exigia a construcção de
grandes edificios, para a vida em communidade, e a da egreja para os
exercicios divinos. Os primeiros associados em Christo foram assim,
logicamente, os architectos e constructores dos proprios templos; quasi
os unicos quando as miserias da sociedade se accentuaram ainda mais nos
seguintes seculos. Em volta dos conventos e das egrejas em construcção,
agrupavam-se os operarios, os restos das antigas associações romanas,
talvez, ou pelo menos gremios nascentes que mais tarde deviam dar origem
á _franco-maçonaria_. Assim, ao lado da sociedade religiosa
constituia-se outra associação civil, que os proprios superiores ou
abbades cultivavam pela sciencia e pela religião, organisando-as e não
desdenhando a honra de fazer parte d'estas corporações de artes e
officios.
O movimento iconoclasta favorecia estas organisações, trazendo artistas
experimentados do oriente, que no occidente procuravam o trabalho e a
protecção dos conventos. Entre os grandes serviços que o Christianismo
prestou á Humanidade, durante a Edade-Media, não foi este o menos
importante: conservar a sciencia e a philosophia classica e desenvolver
novas feições estheticas.
Assim correram as cousas até ao seculo IX, quando sobreveiu a grande
invasão dos normandos, que, descendo do norte, infestaram o occidente da
Europa, a França e principalmente a Bretanha. Estes grandes _piratas_ do
mar, que _as tempestades levavam aonde elles queriam ir_, assolavam,
saqueavam e queimavam tudo na sua passagem, mais sequiosos de presa e
mais brutos de sentimentos do que os proprios hunos de Atilla. A pouco e
pouco, é certo, uma civilisação superior infiltrou-se-lhes no sangue e
adoçou-lhes os costumes selvagens; mas os grandes males estavam feitos e
era indispensavel reconstruir os edificios, as egrejas e os conventos,
cujas ruinas, ainda negras do fumo dos incendios, attestavam a
brutalidade dos novos invasores.
Os primeiros constructores christãos tinham encontrado edificios feitos,
as basilicas; apropriaram-se d'ellas, imitaram-n'as por toda a parte,
saqueando as riquezas dos antigos templos classicos para as adornar.
Agora, os architectos occidentaes, os frades principalmente,
encontravam-se em circumstancias differentes. As necessidades do culto
tinham modificado as egrejas, embora conservando-lhes a antiga feição; a
estabilidade das associações religiosas manifestava outras exigencias na
duração dos edificios. O tempo e os flagellos da guerra haviam esgotado
os thesouros, d'onde os antigos architectos tinham tirado a ornamentação
dos templos primitivos; emfim, ao novo Estylo Byzantino, espalhado e
conhecido no occidente, offerecia-se campo largo e aberto, onde a sua
influencia se podia exercer com grande actividade. Todas estas condições
especiaes tendiam a imprimir novos caracteres ás construcções
architectonicas.
A solidez do edificio e a sua maior duração envolviam o problema da
natureza da cobertura. Os novos constructores resolveram-n'o empregando
a _abobada_, que fôra excluida das construcções primitivas do Estylo
Latino e tinha sido raras vezes usada no Estylo Romanico primario. A
abobada de volta inteira ou abatida era muito usada em Roma; mas os
edificios escolhidos para egrejas ou para modelos dos templos do Estylo
Latino, as basilicas, não a tinham, nem a comportavam, dadas as
condições de estabilidade e de espessura dos muros, ou das columnas,
sobre as quaes repousava a cobertura. A tradição, principalmente em
materia religiosa, tem sempre grande força; por isso, as tradições da
basilica foram, n'este ponto, quasi absolutamente conservadas.
Além d'isso, o Estylo Byzantino empregára a cupula de construcção
difficil e a abobada em arco de circumferencia, facil de construir;
estamos, pois, plenamente convencidos de que o caracter fundamental do
Estylo Romanico secundario, a _abobada_, foi o resultado da influencia
do novo estylo oriental. Mas o systema de cobertura abobadada exige, sem
discussão, maior espessura de paredes, que lhe possam sustentar o peso e
resistir ás pressões lateraes; por isso, os edificios romanicos
apresentam estes caracteres, pela diminuição dos vãos abertos e pelo
emprego de contrafortes e botareos. Aqui, são as proprias necessidades
da construcção, que levam os architectos a adoptar os processos e as
fórmas do Estylo Byzantino. Emfim, logicamente, se o arco de
circumferencia predomina na parte principal do edificio, a harmonia do
estylo indica-o para os outros elementos, portas, janelas e arcos, assim
tambem traçados no Estylo Byzantino.
Os architectos latinos, acceitando a ordenação classica, preoccuparam-se
pouco com os ornamentos externos; pelo contrario, a interior das
basilicas deparára-se-lhes rica e era-lhes facilitada pelos excellentes
materiaes e productos artisticos, com que topavam por toda a parte,
restos conservados dos precedentes estylos. Os architectos romanicos
trabalhavam em mais perfeita liberdade de acção; mas tinham poucos
thesouros artisticos para ornamentação das egrejas. Além d'isso, a
solidez dos edificios e a sua longa duração provavel convidavam-n'os a
estudar e a realisar combinações estheticas, que os embellezassem no
exterior.
A extensão do uso dos sinos e a invenção dos relogios exigiram a
construcção de elevadas torres, que muitas vezes tambem, como já vimos,
satisfaziam a necessidade de defeza, ultimo baluarte da communa, ou
castello do convento. Era, pois, natural que essas torres symetricas,
por exigencias estheticas e do clima ornadas de agulhas ou de elevados
corucheus, se tornassem elementos principaes das fachadas mais ricas e
grandiosas.
Por esta fórma, muito logicamente, se deduzem os caracteres fundamentaes
do Estylo Romanico, devidos uns a influencias dos anteriores estylos,
outros a necessidades de construcção, a novos usos e ritos e até á acção
do clima, que em certas circumstancias influe sobre a escolha e emprego
dos materiaes e por elles na formação dos estylos.
Expostas estas idéas geraes, que a nosso ver ligam as condições do
_meio_ social dos seculos XI e XII, durante os quaes o espirito humano
manifestou determinada phase, com os caracteres do estylo que é a sua
feição especial nesse periodo da evolução da arte, desçamos a
explanações indispensaveis para melhor distinguir e apreciar o Estylo
Romanico secundario, que reinou no seculo XII.
É bom notar que a classificação dos estylos por seculos é um pouco
arbitraria; querendo, apenas, significar que dentro d'este espaço foi
construida a maioria dos principaes monumentos de determinado estylo; o
que não quer dizer que alguns o não fossem antes ou depois d'esse
limite. Além d'isso, entre as differentes nações, que usaram do mesmo
estylo, não se manifesta elle rigorosamente nos mesmos periodos, nem até
offerece perfeita unidade e similhança de caracteres, que, pelo menos
nos secundarios, apresentam differenças sensiveis provenientes de varias
causas, entre as quaes o clima, os materiaes de construcção e as
tradições locaes se devem considerar importantes.
As disposições anteriores das egrejas romanicas offerecem muitas
variantes. Algumas, talvez as mais numerosas, seguem o typo tradicional
das basilicas; tres naves, cortadas pelo transepto, a do centro mais
ampla e prolongada pelo côro, que n'este estylo se alongou mais,
constituido por um corpo recto terminado pela abside. Como vimos, no
primitivo Estylo Latino a abside formava o _presbyterio_, depois
seguiam-se o altar e o côro, dispostos já na nave central; nas egrejas
romanicas estes tres elementos foram introduzidos na abside alongada por
paredes rectilineas, espaço a que o uso deu o nome geral de côro.
Proveiu este engrandecimento de necessidades do culto, da melhor
separação do sanctuario em relação ao templo e do uso generalisado dos
orgãos.
N'esta fórma, algumas vezes as naves lateraes avançam, ladeando o côro
até á curva da abside, outras vezes circumdam-n'a por completo,
constituindo a _charola, ou deambulatorio_, para o qual nos ultimos
tempos se abriram capellas. Infelizmente, Portugal não possue exemplar
algum completo e rico d'este estylo. Os que existem são pequenos, pobres
e estragados por successivas restaurações antigas que lhes deturpam as
fórmas e a ornamentação: mas a Sé de Lisboa, a que nos referiremos em
capitulo especial, fornece exemplo das disposições particulares do
Estylo Romanico.
N'este plano, o mais habitual, desenha-se com nitidez a cruz latina,
formada pela nave central e pelo côro, cortados pelo transepto. Em
algumas egrejas nota-se o facto singular do eixo do côro, em vez de
prolongar o da nave central, inclinar-se para a direita do observador.
Esta anomalia foi attribuida a defeitos de construcção descuidada,
vulgar nos edificios romanicos menos importantes, ou ao symbolismo da
inclinação da cabeça de Jesus Christo, quando expirou sobre a cruz. A
segunda hypothese parece-nos mais provavel.
Outras egrejas offerecem a disposição octogonal, imitando n'este caso as
byzantinas de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem, que
serviu de modelo, como era natural, a muitos templos, até com identica
invocação. Existe n'este genero uma egreja, que nos parece constituir
excepção muito singular, e onde em cada lado do octogono interior ha uma
abside: a de S. Miguel de Entraigues, em França. Emfim, a planta
circular, se não abunda, tem exemplos n'este estylo.
Em geral, a porta ou as tres portas de entrada defrontam com o côro; mas
egrejas existem de duas absides ou córos fronteiros, isto é, tendo dois
transeptos nos extremos da nave central; n'este caso as entradas são
lateraes.
A cobertura empregada foi a abobada, principalmente a partir dos fins do
seculo XI. Em data anterior nas egrejas subsistiram em geral as
coberturas de madeira; este facto é muito provavel ter-se dado nas mais
pobres e em regiões ricas de florestas. Assim, pareceu-nos que parte das
egrejas das nossas povoações do norte foram do Estylo Romanico
secundario ou do periodo de transição, restauradas no tempo ogival e no
da renascença manuelina, de que teem em geral muitissimos elementos;
ora, estas egrejas tiveram sempre, dada a espessura das paredes e das
arcadas das naves, cobertura de madeira. Talvez possam dar d'isto
exemplo duas pequenas egrejas excellentes, a de Caminha e a de Villa do
Conde. Fazemos esta affirmação com reservas, porque entre nós as
restaurações, em regra, foram tão más e radicaes, que mascararam a
feição anterior dos edificios; mas que tenham sido do Estylo Romanico
secundario ou do terciario, a sua cobertura foi sempre de madeira.
A fórma das abobadas póde reduzir-se a dois typos: o de volta inteira,
ou o que resulta da penetração reciproca de cylindros ou cones de base
circular, constituindo as abobadas de arestas, ou as de arco de
claustro. Estas fórmas são fundamentaes nas construcções do segundo
periodo romanico, porque a ogiva, quando apparece nos começos do seculo
XII, caracterisa o terceiro periodo, o de transição, como veremos em
breve.
Tambem o Estylo Romanico tem as cryptas do latino, maiores ou menores e
em geral debaixo do côro, nas egrejas mais importantes.
Ainda as torres caracterisam este estylo. São relativamente pouco
elevadas, massiças, ornadas de _arcaturas_, ou de arcos de volta
inteira, e cobertas por agulhas de pequena altura. Umas vezes ficam
separadas do corpo do edificio, como é de uso nos de Italia, outras
vezes, fazendo parte d'este corpo, ou ornamentando-lhe a fachada.
Algumas egrejas teem mais de uma torre, dispostas duas symetricas na
fachada e uma outra sobre o cruzeiro, interiormente aberta, formando uma
especie de zimborio, ou fechada pela propria abobada d'este cruzeiro. A
Sé de Lisboa offereceu a primeira disposição. A terceira torre, caída
pelo terramoto de 1755 e de que existem evidentes vestigios,
denominava-se _torre sineira_, o que explica os seus fins especiaes, a
que foram depois applicadas as grandes torres da fachada.
Um elemento, que nos parece constituir um dos caracteres importantes do
estylo romanico, é a existencia de galerias, mais ou menos largas, sobre
as arcadas que dividem a nave central das lateraes. Estas galerias,
denominadas _triforios_, de pequenos arcos simples ou trilobados, são
verdadeiras reminiscencias dos porticos superiores das basilicas, onde
as viuvas e as virgens assistiam isoladas ás ceremonias religiosas. O
exemplo encontra-se na Sé de Lisboa, guarnecida por um triforio nas
paredes da nave central e nas do transepto. A construcção moderna tem
columnellos com galba e capiteis de dimensões classicas; mas nas
sondagens feitas foram encontradas as verdadeiras dimensões do triforio
primitivo e o seu typo accentuadamente romanico. Tambem a Sé de Coimbra
tem triforio; n'esta egreja, porém, a galeria é muito larga e de fórma
especial.
As portas e as janelas são de volta inteira, onde, ás vezes, os _arcos
geminados_ byzantinos demonstram o parentesco proximo dos dois estylos.
Os supportes, os pilares, as columnas e os capiteis, fugindo a todas as
proporções classicas, manifestam-se rudes e fortes. Os grandes pilares
das naves, até quando já tendem a tornar-se polystylos, são grossos e
curtos. A expressão de força sobrepuja n'elles a de elegancia,
dando-lhes, aliás, um aspecto grandioso; umas vezes, apresentam-se
quadrados e lisos, ou com columnelos nichados nos angulos; outras vezes,
cylindricos ou polygonaes, revestidos de meias columnas. Esta disposição
prepara os pilares polystilos, isto é, ornados de finos e elevados
columnelos, do Estylo Ogival.
Os capiteis apresentam variadissima ornamentação, em geral differente em
todos elles, ainda que pertençam ao mesmo vão. Este facto caracteristico
será explicado, quando tratarmos do Estylo Ogival. Offerecem a fórma de
pyramides quadradas ou conicas, truncadas e invertidas, coroados por um
simples abaco. As columnas desobedecem a todos os modulos classicos, não
teem galba, apresentam-se cylindricas, em geral, ou ligeiramente
conicas.
As arcadas de volta inteira são formadas de varias molduras, as mais
ricas ornadas de desenhos, dos quaes já encontrámos alguns no Estylo
Byzantino. No interior e no exterior dos edificios romanicos, as
_arcaturas_, simples ou entrelaçadas, constituem ornamentos muito
vulgares e elegantes das paredes, sobre as quaes teem maior ou menor
saliencia.
O conjunto exterior dos edificios romanicos produz no espirito uma
impressão caracteristica de força e severidade, embora tambem, ás vezes,
de elegancia e riqueza. Os coroamentos elevados, em alguns edificios
revestidos de ameias, sobre cornijas repousando em _macheculis_, as
torres massiças e quadradas, os muros muito espessos revestidos de
botareos pouco salientes, por entre os quaes se abrem as janelas, dão a
estes grandes edificios um aspecto de fortificação, de que, em verdade,
serviram muitas vezes nos tempos medievaes.
Ao vel-os, melancholicos e sombrios, parece que a sua grande alma de
pedra sente ainda as impressões dolorosas das desgraças profundas e dos
horriveis flagellos, atravessados pela Humanidade durante essa triste
quadra da historia. O seu caracter religioso é para muitos mais completo
e elevado do que o dos edificios ogivaes; por isso, hoje o Estylo
Romanico começa a ser considerado mais verdadeira expressão da arte
christã do que o ogival. Citamos a opinião por curiosidade, embora com
ella não estejamos muito de accordo.
As fachadas romanicas variam muito, conforme a inspiração dos
architectos, para que possam ser descriptas em schema desenvolvido; mas
n'estas fachadas os portaes de entrada, em geral um ou tres, offerecem
grande importancia. São formados de archivoltas de muitas molduras mais
ou menos ornamentadas, repousando sobre capiteis e columnas da natureza
anteriormente descripta. No fundo d'estes portaes de arcadas embocetadas
e decrescentes, abre-se o vão da porta, offerecendo em geral um tympano
de pedra, ora com baixos relevos symbolicos, ora liso ou formado de
pequenos parallelipipedos. D'esta ultima disposição existe entre nós
exemplo na antiga porta lateral da Sé de Lisboa, hoje restaurada.
Algumas vezes o tympano era de pintura polychromica sobre fundo de ouro,
systema que constitue, sem duvida, uma imitação pobre dos ricos tympanos
byzantinos de mosaico, como se vêem em S. Marcos de Veneza. Por cima dos
portaes, janelas da mesma disposição architectonica dão luz ás naves; a
central é a origem da futura rosacea do Estylo Ogival.
O _narthex_, ou galilé, dos primitivos estylos conserva-se nas condições
expostas n'outro ponto d'esta memoria.
A ornamentação geral é variada e caracteristica n'este estylo. Folhagens
caprichosas entre phantasticos corvos e cabeças de expressões grotescas,
combinações geometricas de galões recamados de perolas, zig-zags e
arabescos impossiveis de definir constituem reminiscencias do Estylo
Byzantino e são precursores do Estylo Ogival. Na porta lateral da Sé de
Lisboa foram descobertos e restaurados dois capiteis do lado esquerdo,
que nos parece envolverem uma excepção rarissima no Estylo Romanico. Na
base dos capiteis, em cada um, duas pombas bem trabalhadas parece dão
bicadas em cachos pendentes da folhagem. São dos mais bellos capiteis
que temos visto. A pintura polychromica apresenta-se, ás vezes, nos
capiteis dourados, de que existem traços evidentes na Sé de Lisboa, ou
pintados, assim como os fustes das columnas, as molduras das archivoltas
e certos pontos das paredes.
É evidente que a abundancia e perfeição dos ornamentos dependem da edade
do estylo, mais rudes e simples no primitivo, mais perfeitos e variados
quando se approxima o Estylo Ogival. Assim, quasi todos os elementos
principaes d'este futuro estylo se encontram, mais ou menos esboçados no
romanico.
Seria quasi impossivel comprehender bem os dois estylos sem os comparar,
estudando-os separadamente. No Estylo Romanico, o caracter de todos os
elementos é a força e a severidade: no Ogival a elegancia e a suavidade,
que mascaram a força sem a diminuir, a não ser na decadencia d'este
ultimo.