capital do Imperio. A permanencia da côrte do autocrata romano no
oriente foi, sem duvida, um golpe profundo na vida social e na riqueza
da Italia, reduzida a um exarchado. Com o chefe supremo e a alta
administração do Imperio, a pouco e pouco devem ter emigrado para
Constantinopla as melhores forças vivas e os mais valiosos elementos
sociaes, que tendem sempre a agrupar-se em torno do poder central.
O Christianismo existia já n'aquellas provincias do Imperio; mas a acção
da nova capital e do proprio imperador imprimiu-lhe necessariamente
grande expansão. As mesmas causas e influencias, que no occidente haviam
produzido o Estylo Latino, foram encontrar-se com outras especiaes,
nascidas e desenvolvidas no oriente. Um outro estylo christão,
differente do occidental, foi tambem o producto da acção reciproca
d'estes elementos. A sua formação é coeva e parallela. Póde dizer-se que
o espirito classico e o do Christianismo produziram simultaneamente dois
estylos architectonicos: no occidente, o Latino; no oriente o Byzantino,
de que nos vamos occupar.
O genio romano era o reflexo, um pouco pallido na verdade, do genio
hellenico. Imitou-o na religião, na sciencia e na arte, seguiu-lhe os
passos nem sempre com grande felicidade. Nas manifestações da actividade
social os romanos foram superiores aos gregos; mas em creações do
espirito, na sciencia, na philosophia e na arte, a Grecia teve apenas em
Roma um soffrivel discipulo. Os romanos, é certo, eram amadores, grandes
amadores da arte, como os inglezes modernos exactamente, que a adoram,
cultivando-a pouco, ou pelo menos não produzindo creações novas,
comparaveis com os d'outros povos.
Apenas a Grecia se tornou provincia romana, o enorme thesouro da arte
hellenica foi posto a saque; Roma enriqueceu-se com tudo quanto podia
ser transportado: estatuas, quadros, vasos, vieram adornar os templos,
os _foros_ e os edificios publicos, povoar os palacios e as galerias dos
vencedores, que assim se enriqueceram com productos artisticos, durante
seculos creados e accumulados pelo trabalho e pelo genio gregos.
Roma adorava a Grecia. Nero, deante do povo hellenico, quiz ser athleta
e artista. O prestigio imperial provocou as acclamações; a força
garantiu-lhe e facilitou-lhe a grande espoliação dos objectos
artisticos. É provavel que, sujeita a _este espirito_ dos amadores
romanos, a Grecia ficasse quasi desprovida de estatuas, algumas das
quaes poderemos ver ainda hoje nos grandes museus da Italia.
Apesar de tudo, o genio artistico grego era tão vivo e energico que se
manteve sempre, durante os flagellos da conquista e das depredações
romanas. Foi este genio de grandes qualidades estheticas, formado n'uma
escola de excepcional grandeza, que a modesta arte latina do occidente,
formada pelo classico romano e pelo Christianismo, encontrou ainda
pujante e activa no imperio byzantino. Ora, esta substituição da
esthetica romana pela grega constituia já uma grande vantagem para a
nova evolução da Arte.
Além d'isso, Constantinopla estava perto da Asia Menor e d'essas grandes
provincias romanas, que comprehendiam a Mesopotamia e parte do grande
imperio dos Sassanides. Esta vasta região, onde floresceram tantas
civilisações antigas, confinava com a mysteriosa _Fars_, a Persia, que
em guerras successivas fôra vencida pelos heroes da Grecia. Todas estas
nações, a Phrygia, a Lycia, a Caria, a Lydia e sobretudo a Assyria e a
Persia haviam tido uma arte mais ou menos adiantada. Esta parte da
historia da arte antiga é assás obscura nas origens e nas relações
reciprocas; mas estudos modernos vão demonstrando a importancia das
manifestações estheticas entre estes povos orientaes.
A influencia de ornamentações riquissimas e de estylos cheios de
originalidade, adequados aos costumes, ás necessidades e ao clima do
oriente, estendia-se principalmente para os lados do Bosphoro, o caminho
que tinham seguido as invasões médo-persas. Foi a acção reciproca
d'estes elementos, o classico hellenico e os estylos orientaes, que,
substituindo o romano e sob o influxo do Christianismo, produziu o
Estylo Byzantino.
A basilica, levada do occidente por Constantino e pelos christãos do seu
tempo, chegára a elevar-se na capital e nas provincias orientaes do
Imperio; mas as suas fórmas especiaes, pobres e severas, não poderam por
longo tempo resistir á atmosphera ardente da arte oriental. O seculo V
foi, pois, o periodo da evolução rapida d'esse novo estylo christão, que
o imperador Justiniano teve a gloria e o orgulho de caracterisar n'um só
edificio, dos mais bellos do mundo.
Os planos e a construcção de Santa Sophia de Constantinopla foram
dirigidos por Anithemius, nascido em Tralles, e por Isidoro, de Mileto.
Estes architectos, cuja fama ficou immorredoura como a de Ictino e
Callisthenes, os constructores do Parthenon o mais bello templo do
classico hellenico, eram ambos naturaes da Asia Menor, onde haviam
florescido adeantadas colonias jonicas. Mileto, uma das mais famosas,
pertencia á Caria, Tralles á Lycia, provincias limitrophes, das quaes a
ultima tocava a Assyria e a Mesopotamia, approximando-se do Imperio dos
Sassanides, a Persia. Estes dois homens de incontestavel genio foram,
pois, oriundos de raças e nações, onde o espirito hellenico e o oriental
tinham descoberto combinações singulares e bellas na arte da
construcção, nos estylos e na ornamentação dos edificios.
A construcção do templo de Justiniano, iniciada em 532, correu com tal
rapidez, que em 27 de novembro de 537, dia da sua sagração, o Imperador
pôde soltar esta soberba e historica expressão: _Gloria a Deus que me
julgou digno de construir uma tal obra. Venci-te Salomão!_
De facto, nunca a riqueza da ornamentação e do culto excedeu a
magnificencia de Santa Sophia, nos tempos do Imperio Byzantino. Ainda
hoje, decahido e estragado pelos turcos, que lhe cobriram os marmores e
os mosaicos com estuques rendilhados, onde se lêem versiculos do
Alcorão, o edificio de Santa Sophia constitue o primeiro e mais
admiravel monumento do Estylo Byzantino, o seu melhor exemplar, o mais
perfeito e mais rico.
O Estylo Byzantino, que se estendeu com enorme rapidez pelo norte da
Italia e pelo sul da França, chegando até á Allemanha, não penetrou em
Hespanha e muito menos em Portugal, pelo menos em edificios importantes
que tenham deixado tradições ou vestigios materiaes.
Para definirmos, pois, os caracteres d'este estylo, esbocemos curta
descripção de Santa Sophia de Constantinopla, o seu principal monumento,
que nos esclarecerá e servirá de guia, como fizemos no Estylo Latino.
O exterior de Santa Sophia é simples e severo. Uma multidão de cupulas
de differentes dimensões, dominadas pela grande cupula do corpo central
da antiga egreja, dão-lhe um aspecto caracteristico, perfeitamente
oriental, como o das cidades em climas onde a neve é desconhecida, a
chuva rara e reina quasi sempre calor ardente. A impressão de solidez do
edificio deprehende-se d'essas cupulas achatadas, repousando sobre
paredes espessas, separadas por botareos entre os quaes se abrem
pequenas janelas de volta inteira. Estamos já longe das coberturas de
madeira sobre paredes delgadas do Estylo Latino e bem perto das pesadas
abobadas sobre muros espessos, reforçados por botareos, do Estylo
Romanico. Na gravura, que apresentamos, Santa Sophia é representada no
estado actual, isto é, ladeada de quatro _minaretes_ e cercada de
construcções, que as necessidades do culto do Islamismo e a selvageria
artistica dos turcos teem feito encostar ao antigo monumento.
[Figura: CONSTANTINOPLA--Exterior de S^{ta} Sophia]
A construcção, exceptuando a pequena saliencia da ábside principal, está
circumscripta n'um vasto quadrado de 77 metros de lado, como se vê da
seguinte planta, limpa das excrescencias de origem turca.
[Figura]
A disposição interna offerece tres naves, a do centro muito larga e alta
em relação ás lateraes. A cobertura d'esta nave central constitue um dos
caracteres principaes da architectura byzantina. No meio d'ella
desenha-se um grande quadrado de 31 metros de lado, exactamente a
largura da nave, definido pelos angulos internos de quatro enormes
pilares muito elevados, sobre os quaes veem apoiar-se quatro grandes
arcos de volta inteira. Repousando sobre os fechos d'estes arcos,
ergue-se uma cupula colossal, cujo diametro é, portanto, egual ao lado
do quadrado. O espaço vasio, que ficaria comprehendido entre os quartos
de circumferencia da cupula e os dos arcos sobre que ella assenta, foi
cheio, formando uma superficie concava e triangular, gerada pela
curvatura da cupula descendo ao longo dos arcos. Esta construcção,
facilitando a passagem da figura circular da cupula para a quadrada dos
pilares, constitue quatro enormes _pendentes_, que ligam a mesma cupula
aos arcos, sobre que ella repousa.
[Figura]
Esta disposição, muito caracteristica, comprehende-se com facilidade,
estudando o anterior córte, feito pelo centro da cupula e perpendicular
ao eixo maior da nave central.
Para o oriente e para o occidente--porque o eixo principal da egreja tem
esta direcção--duas semi-cupulas firmam-se nas paredes externas e
encostam-se aos arcos internos, tocando-lhes quasi o intradorso; assim
fica fechada a cobertura da nave central. O templo era, pois, orientado;
a luz da madrugada espalhava-se na grande nave, durante as ceremonias
religiosas, em geral matutinas. Esta orientação apparece mais tarde no
Estylo Romanico. Vamos, assim, fazendo desde já simples approximações.
Os grandes arcos lateraes da nave principal foram cheios por paredes,
onde se abrem arcadas de volta inteira sobre as columnas do primeiro e
segundo pavimento das naves secundarias; por cima d'estas galerias a
egreja recebe luz directa de janelas, abertas para o exterior e deitando
sobre os terraços das mesmas naves, cobertas por abobadas de volta
inteira.
Assim, o corpo central do edificio apparece definido, mais elevado do
que os collateraes, recebendo luz de fóra. Se o Estylo Latino deixou
aqui reminiscencias das galerias sobrepostas para separação dos sexos, a
disposição tambem faz lembrar as naves centraes mais elevadas dos
templos romanicos e ogivaes. Na parede oriental, sob a semi-cupula
respectiva, rasgam-se tres ábsides, das quaes a do centro, um pouco
saliente do edificio, era o _sanctuario_. Na parede occidental em frente
das ábsides, existem as tres portas de entrada, precedidas de um duplo
_narthex_, reminiscencia do porticos dos templos classicos, adoptados
tambem pelo Estylo Latino.
Se a isto accrescentarmos que o edificio é profusamente illuminado por
numerosas janelas de volta inteira, relativamente pequenas, existindo na
base da grande cupula central uma verdadeira corôa de quarenta d'estas
janelas, que lhe dão um aspecto singular de elegancia e de levesa,
teremos esboçado singela descripção architectonica, que, sem confusões e
incertezas segundo pensamos, dará idéa do edificio e das feições
caracteristicas do Estylo Byzantino, que Santa Sophia traduz
magistralmente.
Sem falarmos por emquanto na ornamentação, devemos concluir que o
primeiro caracter evidente d'este estylo é a cupula. Como quasi todos os
elementos fundamentaes architectonicos, foi ella conhecida no mundo
antigo. Constitue uma especie de cobertura, que os grandes constructores
e architectos da antiguidade deviam ter descoberto quasi ao mesmo tempo,
principalmente nos climas muito quentes, de longas estiagens e por isso
de poucas florestas, que economicamente fornecessem madeira para
construcções. Póde servir isto de exemplo para as influencias do clima
sobre a construcção e d'esta sobre a arte. Assim, tambem a ogiva, por
outras rasões especiaes, deve ter sido conhecida pelos bons architectos
e constructores, porque os houve excellentes na mais remota antiguidade.
A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural e logico. Mas não
póde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi
conhecida. Ainda hoje na cidade eterna a podemos ver no Pantheon de
Agrippa, transformado em egreja christã, onde por signal jazem os restos
mortaes de Victor Manuel I, o unificador da Italia. O auctor d'este
livro admirou esta soberba cupula, que produz espanto pela perfeição da
construcção arrojada, tão excellente que resistiu á acção de dezenove
seculos, porque foi edificada no imperio de Augusto. Se a cupula de
Santa Sophia admira tendo o diametro de 31 metros, a do Pantheon causa
assombro porque a excede em grandeza. É toda de pedra talhada e tem 43
metros de diametro; no alto, tambem a 43 metros, offerece uma grande
abertura por onde o templo recebe a luz.
[Figura: CONSTANTINOPLA--Interior de S.^ta Sophia]
Bastaria este exemplo existente para demonstrar, aos que não ignoram o
principio da evolução da arte e da sciencia de construir, que uma
maravilha d'estas não póde constituir um producto esporadico n'uma
civilisação. Roma conhecia este systema de construcção, porque o
empregou, logo conhecia-o tambem a Grecia. É regra logica e segura.
Verdade seja que o Pantheon é um templo circular, precedido de um
simples portico de frontão classico; n'este caso, a cupula repousa toda
sobre paredes, emquanto que em Santa Sophia firma-se sobre quatro
pilares, com auxilio dos _pendentes_. Eis a caracteristica differença.
D'esta fórma especial de construcção, que provavelmente foi empregada
nos tempos mais remotos em Babylonia, na Assyria e na Persia, n'um ou
n'outro ponto preferida por condições locaes, é que não se encontraram,
até hoje, vestigios no classico romano e no hellenico. A _cupula de
pendentes_ é, pois, um dos caracteres fundamentaes do Estylo Byzantino,
herdado de estylos antiquissimos.
Entre nós existe um exemplo d'esta cobertura, na Egreja do Sagrado
Coração de Jesus, vulgarmente denominada da Estrella. A cobertura
interior do cruzeiro, quadrado de cêrca de 12 metros de lado, é uma
cupula d'este genero, sustentada por quatro arcos. A unica differença,
aliás secundaria, consiste em que a cupula repousa sobre um corpo
cylindrico, entreposto entre ella e os arcos, em cuja superficie se
abrem as janellas. Em geral, as cupulas byzantinas repousavam
directamente sobre os arcos sem interposição do tambor cylindrico;
dizemos em geral, porque nos pareceu que esta interposição, embora pouco
accentuada, se dá na egreja de S. Marcos de Veneza, sem, todavia, o
podermos affirmar com plena convicção.
A ornamentação de Santa Sophia era tambem caracteristica. A vontade
omnipotente do Imperador, secundada pelo espirito respeitoso--iamos a
escrever servil--dos funccionarios das suas vastas provincias, fez
saquear os templos pagãos do oriente, como tambem se praticára no
occidente, para enriquecer o novo templo, o emulo do antigo templo de
Salomão. A historia relata a este respeito espantosos factos de
espoliação e destruição dos antigos templos classicos de Palmyra,
Pergamo, Heliopolis, Epheso e outras cidades. Ora, as depredações n'este
caso exerceram-se nos thesouros immensos da arte hellenica e oriental;
emquanto, no occidente, o Christianismo encontrou a mais modesta arte do
classico romano. Comprehende-se, pois, a enorme differença da
ornamentação das egrejas nos primeiros estylos christãos.
Os mais ricos materiaes foram empregados com profusão. Marmores
rarissimos e finos, o porphyro, o granito e a malachite constituiam as
columnas e forravam as paredes. Por toda a parte reinava esse _luxo_
asiatico, em que a prata, o ouro e até as pedras preciosas se revesavam
com os grandes mosaicos orientaes de fundo dourado ou de azul escuro,
revestindo as cupulas e os pendentes de immensos quadros, contendo
passagens do Novo e do Antigo Testamento, scenas reaes e symbolismos
diversos, onde as figuras appareciam com desenho incorrecto, sem vida e
movimento, em grupos symetricos, expressões hieraticas de uma arte
crystallisada, que perdera as tradições do grande estylo e não estudava
a natureza.
A magnificencia dos objectos do culto attingiu proporções phantasticas
em Santa Sophia.
Como se o ouro não fosse bastante precioso, o altar era feito de uma
singular liga de ouro, prata e perolas e pedras preciosas reduzidas a
pó. As suas quatro faces, cobertas de baixos relevos byzantinos,
brilhavam rica e profusamente incrustadas de perolas e gemmas de todas
as especies.
Este altar era coberto pelo _ciborio_ em fórma de torre, cujo docel de
ouro massiço repousava sobre quatro columnas tambem de ouro e prata,
entre as quaes se viam suspensas grandes espheras de ouro com a cruz
grega. No interior do ciborio, pendente do docel e como pairando sobre o
altar, uma pomba de ouro representava o Espirito Santo. Era a custodia,
onde se guardavam as sagradas particulas. Todo este conjunto refulgia de
perolas e gemmas preciosas.
O _sanctuario_ fôra separado do corpo da egreja por uma alta divisoria
de prata, sustentada por doze columnas de ouro. Nas grandes superficies
de prata d'esta divisoria viam-se esculpidas em alto relevo figuras de
santos e lavores de caracter byzantino.
Quasi no centro da nave central, em frente do altar, um enorme _ambon_
de fórma circular, em recinto vedado, servia de côro para as dignidades
ecclesiasticas e de tribuna para a côrte imperial. Era coberto por um
docel de metaes preciosos, encimado de uma grande cruz de ouro, recamada
de granadas e perolas; este docel firmava-se sobre oito columnas de
marmore. De marmore e recamadas de ouro eram tambem as escadas de
accesso do ambon.
Nas hombreiras e nas portas do edificio havia-se prodigalisado a prata,
o marmore, o marfim e o cedro. Emfim, todos os restantes objectos do
culto, por mais secundarios que fossem, manifestavam riqueza
deslumbrante, accusando a tendencia oriental de carregar as linhas e as
fórmas estheticas com pesados ornamentos, encrustados de gemmas e metaes
preciosos.
Imagine-se, pois, o effeito deslumbrante de tudo isto: columnas e
paredes de finissimos marmores polidos, mosaicos de fundo de ouro
revestindo as abobadas das cupulas e das absides, espalhando-se pelos
pendentes e pelo corpo da egreja em grandes quadros, os altares, o ambon
e os objectos do culto divino recamados de pedrarias, as grades e
divisorias de prata, imagine-se toda esta riqueza salomonica e oriental,
rutilando á luz de 6:000 grandes lampadas de metaes preciosos ricamente
cinzelados!
Esta impressão extraordinaria, embora não comparavel, sentiu-a um dia o
auctor d'este livro ao entrar n'uma festa religiosa, em S. Marcos de
Veneza; occorrendo-lhe, n'esse momento, a bella e rigorosa phrase de
Theophilo Gautier, porque a egreja, bem mais modesta em tudo do que o
foi a de Santa Sophia, tinha reflexos fulvos e brilhantes, como se fosse
uma _grande caverna de ouro!_
Em rapidos traços, tal foi nos primitivos tempos a Egreja de Santa
Sophia de Constantinopla, ainda hoje rica e soberba apesar de saqueada
pelos turcos de Mahomet II, se não pelo proprio Mahomet; egreja,
transformada em mesquita, que os dignos descendentes dos conquistadores
cobriram de estuques com arabescos orientaes e versiculos do Alcorão!
D'esta simples e modesta noticia deprehendem-se os caracteres, ou melhor
as feições do Estylo Byzantino; devemos, porém, entrar ainda n'este
ponto em alguns pormenores.
A fórma das egrejas byzantinas offerecia differentes disposições. Démos
a de Santa Sophia, falaremos ainda de outras. Em S. Vital de Ravenna,
edificio coevo de Santa Sophia, a planta offerece a figura de um
octogono regular; a grande cupula central repousa sobre oito pilares
internos, dispostos nos angulos do polygono, deixando entre si e as
paredes da egreja uma nave octogonal. A cruz grega desenha-se nos eixos
principaes dos dois corpos da egreja, o que termina na abside e o que ao
meio lhe fica perpendicular. É claro que n'este caso os pendentes são
pequenos e sel-o-iam successivamente, quanto mais numerosos fossem os
lados do polygono.
Na antiga egreja dos Santos Apostolos em Constantinopla, a nave
principal, tendo em comprimento o triplo da largura, é cortada ao meio
por um transepto perpendicular das mesmas dimensões. Nove cupulas de
pendentes eguaes cobrem esta superficie, representando uma verdadeira
cruz grega. S. Marcos de Veneza é uma imitação d'esta egreja. Sem
multiplicarmos os exemplos, poderemos estabelecer como tendencia geral a
maior ou menor approximação da cruz de braços eguaes, a do estylo grego.
No conjunto os edificios, em geral, manifestam-se pesados, austeros e
simples, pelo menos nos tempos primitivos. A cupula principal eleva-se e
predomina sobre as menores e mais baixas, se estas existem, sobresaíndo
na tendencia horisontal das outras coberturas. A construcção respira
estabilidade e solidez. As janelas são pequenas, segundo o uso oriental,
muito numerosas, de volta inteira como as portas, offerecendo ás vezes a
fórma de ferradura tão usada no Estylo Arabe, que afinal teve tambem
muitas das origens do byzantino no mundo oriental.
O interior respira a riqueza, que manifestou em grande escala a egreja
de Santa Sophia. A ornamentação é caracteristica; mas, na realidade, são
as _cupulas de pendentes_, os _mosaicos_ orientaes, as _arcadas sobre
columnas_, os _capiteis_, e os _arcos geminados_, que melhor definem o
Estylo Byzantino, alem de outros que já descrevemos e vamos enumerar.
Observaremos que um grande numero d'estes elementos, não todos, serão
empregados depois nos Estylos Romanico e Ogival.
Os mosaicos, de fundo de ouro ou de azul muito vivo, representam em
grandes quadros, principalmente nas cupulas, nos pendentes e nas
abobadas das absides, motivos sagrados ou profanos em que entram
poderosos senhores, como nos de Ravenna. A arte é, porém, hierarchica,
secca e fria. Em geral, o desenho manifesta singulares intenções de
symetria. As personagens não têem vida e movimento; parecem, se nos
consentem a expressão, multidões de manequins, dispostos em maus quadros
scenicos. Este espirito byzantino da arte influiu, de certo, nos
pintores e nos esculptores occidentaes, nos periodos romanico e ogival.
A ornamentação profusa inspira-se nas artes do Oriente, offerecendo
fórmas curiosas e originaes. Os capiteis, por exemplo, são de extrema
diversidade. Massiços e pesados, quasi todos, variam de contornos:
cubicos, arredondados na base, em pyramides truncadas de arestas
salientes, ás vezes dois sobrepostos, como succede na egreja de Ravenna.
A sua ornamentação manifesta, tambem, caracteres diversos, em que
predominam perolas, galões entretecidos, rendilhados de folhas
phantasticas, graciosos lavores abertos que parecem ornados de
pedrarias. Ás vezes, aves e animaes de singulares aspectos, vasos e
cestos, completam esta profusa ornamentação, em que foram abandonados e
esquecidos o gosto e as proporções classicas.
No Estylo Byzantino, a esculptura, bem como a pintura, apresentam-se
decadentes, padecem quasi de eguaes defeitos. A pedra é trabalhada sem
os córtes largos e profundos, que procuram o relevo pelas sombras e
saliencias dos planos e dos ornamentos. Os artistas byzantinos lavravam
frouxamente a pedra. Parecia empregarem mais o buril do que o escopro;
foram mais gravadores de metaes do que esculptores de pedra.
É evidente que todos estes caracteres byzantinos tiveram profunda
influencia sobre os dos Estylo Romanico e Ogival, onde muitos apparecem,
mas já tratados com outro vigor e largueza.
Assim, pensamos ter dado successiva idéa do Estylo Byzantino, que o
calor do Christianismo fez brotar vigoroso e esplendido do fertil solo
da arte hellenica e oriental.
CAPITULO TERCEIRO
ACÇÃO RECIPROCA DOS DOIS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS
Assim, o espirito do Christianismo, reanimando as energias quasi
moribundas da arte grega e oriental, e da romana, creára dois formosos
estylos; correspondendo, na realidade, a expressões definidas do bello
nas duas maiores civilisações, em que então se dividia a Humanidade.