Este principio deriva de rasões logicas e de qualidades ou defeitos da

propria alma humana. O vencedor expolia o vencido; vê-se isto ainda nos

tempos modernos. O espirito da nova religião sente a necessidade

orgulhosa de fazer adorar o seu Deus nos mesmos recintos e altares, onde

os _idolatras_ adoravam os deuses vencidos. Além d'isso, os templos

inuteis offerecem, em regra, condições de construcção adequadas ás

praticas religiosas; ora, em todas as religiões mais perfeitas existem

usos e praticas similhantes. O vencedor não tem tempo para construir

logo a principio, encontra sanctuarios em sitios escolhidos e

convenientes, aproveita-os. É uma rasão. Assim, nós vemos os arabes de

Hespanha aproveitarem as egrejas godas, transformando-as em mesquitas,

onde o Alcorão occupa o logar da Biblia; mesquitas que, depois, se

tornam templos christãos. Assim, os turcos de Mahomet II, tomando

Constantinopla, fizeram de Santa Sophia e dos templos byzantinos do

Oriente conquistado as suas primeiras mesquitas.

O Christianismo não procedeu por esta fórma, salvo raras excepções. Em

primeiro logar, porque o espirito e os ritos da nova religião eram assás

differentes dos do paganismo. A expressão da arte classica não dizia bem

com a essencia do culto christão. Além d'isso, os templos classicos eram

pouco espaçosos. O _naos_, a cella ou sanctuario dos deuses, era

pequeno; o que dava amplidão ao tempo classico, o _pro-naos_, o portico

que mais ou menos envolvia o _naos_, correspondia ao culto e aos ritos

pagãos; não se amoldava, porém, aos do Christianismo, cujas multidões,

sempre crescentes, precisavam reunir-se amiudadas vezes para os

exercicios divinos.

As circumstancias desgraçadas da sociedade romana, esboçadas

anteriormente, proporcionaram aos christãos os grandes edificios das

_basilicas_, logares de reuniões publicas, tribunaes, mercados e bolsas

de commercio e bancarias, se em referencia a esses tempos se podem

empregar as ultimas expressões tão modernas.

O amortecimento da actividade social e a extincção da vida politica dos

cidadãos, que os chamavam aos _foros_ junto dos quaes existiam as

_basilicas_, o abatimento do commercio e das industrias, emfim, as

condições adversas dos seculos IV e V tornaram quasi inuteis estes

enormes edificios, outr'ora correspondendo a necessidades publicas e

regorgitando de cidadãos, na plena actividade de trabalho em variadas

operações commerciaes. Os christãos preponderantes em Roma, logo no

principio do imperio de Constantino, começaram a apropriar-se d'estes

edificios do Estado, adequando-os ao culto e aos ritos da nova religião.

As basilicas romanas produziram, pois, a fórma e o estylo das primeiras

egrejas christãs. Sobre as respectivas disposições existiam duvidas, que

a critica e a inducção procuraram resolver; assim, a reconstituição

d'estes edificios parece ser hoje questão resolvida. A importancia que

tiveram sobre a arte christã, a grandeza e a magnificencia dos que

existem hoje, principalmente em Roma, obrigam-nos a mais desenvolvida

descripção.

Vitruvio deu-nos as regras principaes da construcção d'estes monumentos

e esclareceu-nos sobre os seus empregos. O architecto aconselha que as

basilicas sejam levantadas em sitios quentes e amenos, para facilitar a

reunião dos commerciantes. Os seus fins estão, pois, definidos, pelo

menos no ultimo seculo antes de Christo em que viveu o celebre

architecto romano. As regras são incompletas, sem deixarem de ser tambem

interessantes, porque traduzem o espirito methodico e as proporções

prefixadas e tradicionaes da arte classica.

A largura das basilicas, diz Vitruvio, deve ser pelo menos, o terço do

seu comprimento. Adequadas ao terreno, que, se for longo, obrigará a

construir _chalcidicos_ nos extremos da basilica. As columnas do

pavimento terreo terão altura egual á largura dos porticos, como o

architecto chama ás naves lateraes, que a seu turno devem offerecer

approximadamente um terço da largura do corpo ou nave central. As

columnas superiores, as das galerias sobrepostas aos porticos, serão um

quarto mais baixas do que as do pavimento terreo. O parapeito, lançado

entre as columnas d'estas galerias, offerecerá altura sufficiente para

que as pessoas de cima não sejam vistas pelas de baixo. Por muito

incompletos que pareçam, estes pormenores seriam sufficientes para dar

approximada idéa dos fins e das disposições d'estes edificios classicos.

[Figura: Schema de uma basilica romana]

O nome de basilicas parece indicar-lhes origem na Grecia, onde

provavelmente existiram construcções com fins equivalentes; comtudo,

pode tambem definir-lhes a grandeza e a magnificencia, visto que a

palavra grega expressa o poder real.

A basilica apparece nos ultimos tempos da republica. Construida nas

proximidades dos _foros_, grandes praças onde existia a tribuna dos

oradores e se discutiam e resolviam os negocios publicos, a basilica

parece ter sido um annexo indispensavel d'estes _foros_, recinto

abrigado e coberto para occasiões de intemperie. A mais antiga em Roma,

a Basilica Porcia, suppõe-se ter sido construida cêrca de duzentos annos

antes de Christo. Depois, como mais importantes, contavam-se a Basilica

Emilia, construida por Fulvio, a Basilica Simpronia, elevada por Tito

Sempronio, _censor_ no ultimo seculo antes de Christo. Estas

construcções faziam parte das dadivas, com que os politicos e os

ambiciosos do tempo procuravam conquistar as boas graças do povo.

Os imperadores, depois, elevaram muitas. Cesar, Trajano, e por ultimo

Constantino construiram-nas em Roma. Cidades de importancia secundaria

possuiam basilicas. Assim, pudémos ver ainda os restos da que existiu em

Pompeia, junto do pequeno _forum_. Ora, esta cidade era, como outras,

semeadas nas margens do golpho de Napoles, uma verdadeira estação de

verão, provavelmente do caracter que hoje têem Nice e as povoações da

Côte-d'Azur, sobre o Mediterraneo.

A basilica de Pompeia constitue um excellente exemplar, porque demonstra

que nas primitivas não existia ábside. No fim da nave principal, uma

tribuna quadrada, avançando sobre o transepto e de altura superior á de

um homem de regular estatura, constituia, decerto, o espaço reservado

para o tribunal. Nas ultimas basilicas posteriormente construidas, por

exemplo a de Constantino, já apparece a ábside saliente, abobadada em

meia cupula, para installação dos juizes.

A descripção d'esta ultima basilica dar-nos-á idéa clara da disposição

interior e grandeza d'esta natureza de construcções. Media cêrca de 90

metros de comprido, por 75 metros de largo. Em geral, as basilicas

offereciam consideravel superficie. Segundo o maior comprimento, eram

divididas em tres naves, cortadas perpendicularmente por tres

transeptos. Na extremidade dos eixos da nave e do transepto centraes

existia uma ábside; no outro extremo, em face das ábsides, abriam-se as

entradas, das quaes a principal dava sobre a Via-Sacra.

Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactidão as

disposições internas das basilicas. Em geral, eram vastos edificios,

constituidos por uma nave central terminada em ábside e ladeada de

porticos sobrepostos em dois pavimentos, que attingiam a altura do corpo

central. Este conjunto, exceptuando a ábside abobadada em meia cupula,

tinha cobertura de madeira com as traves a descoberto.

Nos tempos primitivos, pelo menos, o edificio cercado de porticos era

accessivel por todos os pontos. Depois, as columnas periphericas foram

substituidas por paredes, onde havia portas symetricas nos extremos das

naves em face das ábsides.

No pavimento terreo reunia-se o tribunal, occupando a ábside e o

transepto annexo; os negocios commerciaes e bancarios d'aquelle tempo

tratavam-se na grande nave central; nos porticos inferiores lateraes

estavam os logares dos vendedores, á similhança dos _bazares_ orientaes.

Os porticos superiores constituiam logar de reunião para ociosos e para

os que procuravam as diversões da sociedade e da conversação.

Para bem fixar os caracteres das basilicas, apresentamos um claro

schema, onde todos os respectivos elementos estão expressamente

desenhados. N'este schema faremos notar as disposições relativas do

tribunal, constituido pela ábside, onde estacionava o juiz e o pessoal

annexo, pelas cadeiras ou tribunas dos advogados, ladeando esta ábside,

e finalmente pelo recinto fechado, que sem duvida devia existir para

separar os negocios do tribunal dos restantes, que se tratavam tambem

nas basilicas. Estes elementos são a origem de disposições especiaes nas

egrejas do Estylo Latino, como adeante diremos.

Emfim, diz-se que as basilicas eram de architectura simples e de modesta

ornamentação. É um erro; taes edificios, dados os seus fins e a mira dos

doadores e constructores, principalmente quando foram os Cesares, não

podiam deixar de manifestar grandeza architectonica, embora a severa e

solemne grandeza classica. A ornamentação era rica e profusa em estatuas

e objectos de arte, como o foi sempre a grega e a romana. Este ultimo

facto, pelo menos, é attestado pelas descripções dos historiadores. É

claro que n'este ponto nos referimos ás antigas basilicas romanas e não

ás que, seguindo o estylo, edificaram depois os christãos.

As basilicas romanas deram, pois, origem ás primeiras egrejas do

Christianismo no occidente. Parece-nos, todavia, conveniente, n'esta

formação do estylo latino, distinguir dois periodos, sem lhes poder

fixar datas, como aliás é sempre difficilimo nas transições artisticas:

o primitivo, desde Constantino até Theodorico, em que o estylo devia

ser, em regra, relativamente simples e pobre, e o segundo, sob a

influencia da riquissima arte byzantina, que ia successivamente

attingindo a perfeição manifestada no seculo VI, pela construcção de

Santa Sophia de Constantinopla. As relações entre o occidente e oriente

eram muito frequentes e activas n'aquella epoca, para que se não desse

esta influencia de uma arte grandiosa e de ornamentação riquissima,

sobre o Estylo Latino nascente.

Nos primeiros tempos houve, sem duvida, vacillações. A consolidação da

egreja deve ter influido muito na constituição do estylo. As basilicas

christãs dos melhores tempos tinham fórmas definidas; obedeciam, por

assim dizer, ás regras de alguns typos apurados e preferidos; por isso,

é até certo ponto possivel descrever-lhes os caracteres geraes.

A disposição interior das egrejas do Estylo Latino apresentava figuras

differentes; a circular e a rectangular foram as mais empregadas,

principalmente a ultima. Exemplos ha, tambem, do emprego combinado do

circulo e do rectangulo, como se vê na egreja basilica de S. Martinho de

Tours. A architectura era simples e sobria, seguindo o espirito e a

fórma do estylo classico romano. A diversidade manifesta-se mais

accentuada nas disposições internas, accommodadas ás necessidades do

novo culto, e na ornamentação mais ou menos rica, onde exerceu decidida

influencia o Estylo Byzantino, em plena florescencia no seculo VI.

Figuremos, agora, uma visita a estas basilicas do Estylo Latino, fazendo

um ligeiro schema dos seus caracteres principaes; observaremos, comtudo,

que esta descripção _theorica_ soffre as modificações impostas pelas

circumstancias, pelas disposições dos edificios apropriados e, emfim,

pela imaginação e concepção artisticas, que, embora dentro das regras

dos estylos, teem sempre maior ou menor liberdade de acção.

Um espaçoso _atrio_, fechado por muros, ás vezes revestidos de porticos

internos, dava ingresso á egreja. No fundo d'este _atrio_ quadrado, que

foi origem dos adros das nossas egrejas, em frente da respectiva

entrada, elevava-se o edificio do templo. A fachada era formada por tres

portas e tres janellas, correspondendo aos eixos das tres naves

internas. A porta central servia para os grandes ceremoniaes.

Sobrepujando as portas e as janelas, um frontão pouco alto encobria o

madeiramento dos telhados. N'esta disposição vê-se a ordenança classica.

Em frente da egreja e encostado á fachada, um portico de columnas

formava alpendre sobre as portas, logar protegido onde se abrigavam os

fieis. Algumas vezes, não havia saliencia para fóra da superficie

vertical da fachada, que então repousava sobre o intercolumnio externo

do portico. As portas da egreja ficavam, n'este caso, precedidas de uma

especie de vestibulo. Nos lados d'este portico duas fontes serviam para

as abluções.

N'estas fontes teem origem os baptisterios, edificios sumptuosos que

mais tarde foram elevados junto das egrejas, nos atrios ou fóra d'elles,

onde se praticava em grandes bacias de marmore o baptismo por immersão,

usado n'aquelles tempos. Depois, a transformação dos ritos, dando

caracter symbolico ao baptismo, introduziu os baptisterios no corpo das

egrejas proximo da entrada.

As fachadas lateraes da egreja, em regra, não tinham janelas. A parede

lisa era coroada por uma cornija, repousando sobre modilhões. As janelas

da fachada eram fechadas por grandes laminas de marmore, rendilhadas de

pequenas aberturas circulares ou em lozangos, dando a impressão das

rotulas orientaes.

No interior, a egreja offerecia as caracteristicas disposições da

basilica romana: tres naves, a do centro mais larga e alta, as lateraes

com dois pavimentos sobrepostos, abrindo na principal, compunham a

superficie coberta do edificio. Segundo o preceito primitivo da divisão

dos sexos nas ceremonias religiosas, os homens occupavam a nave lateral

da esquerda, as mulheres casadas a da direita e as virgens e as viuvas

os pavimentos superiores d'estas naves.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. PAULO--Fachada principal]

Nos extremos das naves, em frente das portas, rasgavam-se tres ábsides;

a da nave central, a mais importante, constituía o _presbyterio_ ou a

_tribuna_. Nas lateraes guardavam-se os livros santos e os objectos do

culto. Estas ultimas foram a origem dos _thesouros_ e das _sacristias_

das nossas egrejas.

Na ábside central, a _tribuna_, em degraus de marmore dispostos em

amphitheatro, sentavam-se os presbyteros; ao fundo, n'uma cadeira tambem

de marmore o bispo, ou o officiante, presidia ás cerimonias religiosas.

Nas basilicas romanas, como vimos, era este o logar dos juizes.

Em face da tribuna, isolado, levantava-se o altar, coberto pelo

_ciborio_, o _baldachino_ das basilicas modernas de Roma, vasto e alto

docel sustentado por columnas, formando uma especie de pallio de

marmore. O altar, em geral, era o sarcophago de um santo, o da invocação

da egreja. Sobre a mesa do altar viam-se baixos relevos, o _alpha_ e o

_ómega_, o _labaro_, a _palma_ do martyrio e outros symbolismos

religiosos.

No solo, por baixo do altar, existia um pequeno subterraneo, o

_martyrio_ ou a _confissão_, contendo reliquias de santos; quando este

subterraneo era vasto tomava o nome de _crypta_. Todos estes elementos

nasceram das tradições do Christianismo das catacumbas.

Este conjunto do altar, o _santuario_, ficava entre a tribuna e o côro,

constituido por um vasto espaço quadrado, limitado por muros baixos, no

extremo da nave central. Nos tres lados do côro, excepto o mais proximo

do altar, bancadas de marmore em amphitheatro davam logar aos chantres e

cantores. Dois _ambons_ symetricos, nos extremos do côro, ladeavam quasi

o altar. Correspondiam proximamente ás tribunas dos advogados romanos e

são a origem dos pulpitos. Estas disposições caracteristicas pódem

observar-se ainda hoje nas antigas cathedraes hespanholas, cujos coros

cortam as naves principaes.

A conveniencia de extremar o publico da tribuna e do altar, fez mais

tarde construir um muro, ou balaustrada perpendicular aos eixos das

naves, entre o côro e o altar. Assim, ficou definido o transepto e

desenhada a cruz latina das egrejas dos futuros estylos occidentaes.

Os tectos eram de madeira, em geral de vigas descobertas, ás vezes de

grandes caixões. A abobada não foi, nem podia ser empregada em edificios

d'esta construcção.

A riqueza e o luxo das egrejas do Estylo Latino manifestavam-se

principalmente no interior. Os tectos eram de essencias raras,

esculpidos e recamados de metaes, entre os quaes figurava o ouro. As

columnas das naves, ligadas por architraves, ou por arcos de volta

inteira, as paredes das naves, divididas em compartimentos por

pilastras, eram construidas e revestidas de finos marmores e de

porphyros. O altar e o côro principalmente offereciam ornamentação

riquissima, revestidos de esculpturas onde e quando era possivel; assim

como a tribuna, cuja semi-cupula representava grandes quadros biblicos

em mosaico de fundo de ouro, que ás vezes se estendia a outros pontos da

egreja. É evidente que esta pujante ornamentação se desenvolveu nos

melhores tempos do estylo, sob a influencia do Estylo Byzantino.

Sabe-se, com effeito, que os romanos empregavam com raridade o mosaico

nas paredes.

[Figura: ROMA, BASILICA DE S. PAULO--Fachada lateral (norte)]

O pavimento das egrejas nos tempos primitivos fôra de grandes lages;

depois, vieram os mosaicos de desenho fino e variado, formados de

pequenos cubos de marmore branco, de esmalte e de porphyro verde e

amarello, chamado _opus alexandrinus_, nome que lhe caracterisa a origem

oriental.

Se accrescentarmos, por simples curiosidade, por exceder a esphera da

Historia da Arte, que os primitivos templos eram construidos pelo

systema romano na qualidade e disposição dos materiaes, teremos dado uma

succinta idéa da formação e dos caracteres do Estylo Latino, isto é, do

primitivo estylo christão no occidente.

Não temos, infelizmente, em Portugal um só exemplo do Estylo Latino. O

nome de _basilica_, applicado a algumas das nossas egrejas, taes como a

da Estrella e a de Mafra, corresponde simplesmente á expressão de

grandeza e sumptuosidade, mais ou menos merecida, sem se referir a

qualidades architectonicas, porque estas egrejas são de caracteristico

Estylo da Renascença. Os maiores e mais bellos exemplares existentes do

Estylo Latino é necessario procural-os entre as trezentas e oitenta e

nove egrejas e capellas, que ornam a artistica e historica cidade de

Roma!

Entre as basilicas do Estylo Latino avultam as de S. João de Latrão,

Santa Maria Maior, S. Paulo e S. Lourenço, as duas ultimas construidas

fóra dos muros da antiga cidade. Ora, são exactamente estas ultimas que

nos parecem mais caracteristicas, quer nos elementos externos, quer nas

disposições internas.

A Egreja de S. Paulo, fóra dos muros, constitue de facto um formoso e

rico exemplar do Estylo Latino. As suas disposições geraes traduzem, com

a possivel exactidão, os caracteres das basilicas romanas, anteriormente

descriptas. Esta grandiosa construcção conserva ainda uma pequena parte

antiga, se não primitiva, mas o restante é de epoca moderna.

Diz a tradição que no local de um cemiterio, onde repousavam os restos

de S. Paulo, o grande Apostolo das Gentes, o imperador Constantino

mandou edificar uma primeira basilica, que depois foi restaurada e

engrandecida por successivos imperadores, sendo terminada por Honorio no

anno 423 da nossa era. Um grande incendio destruiu em 1827 grande parte

d'esta primitiva basilica.

Então, o Papa Leão XII, pedindo donativos á fé dos christãos de todo o

mundo, começou a reedificação da antiga basilica; fazendo, porém,

engrandecer e enriquecer os novos planos. Em 1854, o Papa Pio IX sagrou

o novo e magnifico templo, do qual apresentamos os principaes elementos,

como excellente definição das feições especiaes do Estylo Latino.

[Figura: ROMA--Interior de S Paulo]

A fachada principal é formada por um vasto portico da Ordem Corynthia,

para o qual se abrem as sete portas da egreja; por detrás d'este portico

eleva-se o corpo da nave central do templo. Devemos observar que nas

egrejas do Estylo Latino, em regra, desappareceram as galerias

superiores das basilicas romanas. Abolido o uso da separação dos sexos

nas ceremonias religiosas, a conveniencia de bem illuminar as egrejas

aconselhou a suppressão d'estas galerias. Assim, o corpo da nave central

eleva-se sobre os corpos lateraes, recebendo luz directa e profusa de

grandes janelas. A fachada principal de S. Paulo é ricamente decorada

por mosaicos modernos. As portas, que abrem no bello portico, são

antigas, de bronze e de excellente Estylo Byzantino.

O interior da egreja offerece cinco grandes naves, formadas por quatro

ordens parallelas de columnas, vinte em cada ordem. São, pois, oitenta

columnas, tendo as bases e os pedestaes de marmore branco e os fustes de

granito rosa polido. Sobre a cornija da nave central corre uma serie de

medalhões circulares em mosaico, que representam retratos de antigos

Papas. Esta grande nave é directamente illuminada por dez janelas

lateraes, sendo os respectivos intervallos preenchidos por frescos, que

representam scenas da vida de S. Paulo. O tecto riquissimo é feito de

caixões de madeira esculpidos e dourados. O arco da capella-mór

constitue, talvez, um dos elementos da primitiva basilica de

Constantino. Este arco, ladeado por duas estatuas colossaes de S. Pedro

e de S. Paulo, é guarnecido na parte superior por antigo mosaico, que se

suppõe ser do anno 440 da nossa era.

A ábside, para onde se sobe por tres degraus, tem na semi-cupula um

mosaico, que se presume ser do seculo XIII. O altar, do mesmo seculo, é

coberto por um ciborio, formado por quatro columnas de porphiro, que

sustentam um docel de Estylo Ogival.

No lado norte do transepto abrem-se, tambem, tres portas precedidas de

um portico corynthio de menor importancia. A torre dos sinos, coroada de

um mirante, está collocada por detrás da ábside.

A Egreja de S. Lourenço, segundo a tradição tambem construida por

Constantino no anno 330 da nossa era, foi modernamente restaurada por

Pio IX, cujos restos mortaes n'ella repousam, e constitue egualmente um

exemplar muito bom do Estylo Latino, mais modesto e severo.

Na fachada, o portico é da Ordem Jonica, coberto por telhados muito

inclinados e evidentes. O corpo da nave central, ornada de pinturas a

fresco, não tem frontão.

No interior, de cada lado, onze fortes columnas jonicas de granito rosa

e de cipolino dividem o templo em tres naves, dando-lhe um aspecto de

severidade e grandeza que mais realça ainda a cobertura da nave central,

feita de grandes vigas descobertas, douradas e esculpidas. Esta egreja

não tem na realidade um verdadeiro transepto, o que mais a approxima das

fórmas tradicionaes das basilicas romanas, das quaes se afasta, por

outro lado, porque a ábside termina em parede plana, guarnecida de

janelas.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO]

Não sendo possivel nem opportuno desenvolver descripções mais completas

d'estas grandiosas e riquissimas basilicas, julgamos haver escripto e

apresentado graphicamente os sufficientes elementos para bem fixar os

caracteres do Estylo Latino, mais puro e rico.

[Figura: ROMA--Interior da Basilica de S. Lourenço]

CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO BYZANTINO

Roma deixára de ser a capital do Imperio. Conservára de direito as suas

antigas tradições, o seu cognome de _cidade-eterna_; de facto, a capital

do Imperio já no seculo III, sob Maximiano, havia sido deslocada, para o

norte. Era em Milão. Assim, foi n'esta cidade que Constantino promulgou

o edito de tolerancia, de que data a liberdade do Christianismo. As

extensas fronteiras e as enormes agglomerações de estados e de povos,

que formavam o Imperio, exigiram, talvez, uma capital mais no centro,

com sacrificio de Roma, muito afastada, quasi no meio da peninsula

italica.

Além d'isso, os imperadores, em geral, preferiam habitar as cidades do

oriente, onde por exemplo Diocleciano residiu quasi sempre. As

tendencias luxuosas e os costumes mais do que faceis dos imperadores

deviam tender a approximal-os do fóco de luxo e de vida devassa, de que

os satrapas médo-persas deram exemplo imitado e haviam deixado profundas

tradições respeitadas. São ainda hoje proverbiaes o luxo e os costumes

do oriente.

A architectura religiosa na Edade Média · 第 3 / 17 段