saída do Christianismo das Catacumbas. Abandonando a Italia, Constantino
levou-o comsigo e implantou-o na sua nova capital, Constantinopla, que
teve, pois, como o occidente, as suas basilicas, entre as mais
importantes a dos Santos Apostolos, a de Santa Irene e a primitiva de
Santa Sophia, que Justiniano dois seculos depois transformou no grande
templo byzantino, descripto no capitulo anterior.
No periodo de formação do Imperio do Oriente, isto é, desde Constantino
até Theodosio, o Estylo Latino desenvolveu-se com maior ou menor
intensidade, salvo n'essa breve tentativa reaccionaria do polytheismo
vencido, que se encarnou no imperador Juliano.
O Estylo Latino não tinha, porém, as qualidades exigidas pelo _meio_
grego e oriental, nem as basilicas classicas, de que elle derivava, eram
muito vulgares no oriente, se algumas importantes existiam. O proprio
clima não aconselhava coberturas de madeira, que o doce e temperado
clima da Italia e a tradição conservaram no primitivo estylo. Como as
plantas exoticas teem, em regra, vida artificial e difficil, o Estylo
Latino, nascido no occidente, não encontrando no oriente condições
favoraveis, estiolou-se a pouco e pouco e por fim desappareceu sob a
influencia de elementos architectonicos mais poderosos, porque eram
harmonicos com o _meio_ natural e social, para onde o Estylo Latino fôra
transplantado.
Todavia, o novo Estylo Byzantino, que ia formar-se em harmonia com esse
_meio_ natural e social, não podia repudiar os elementos architectonicos
fundamentaes do Estylo-Latino vencido, que não eram antinomicos com os
seus e correspondiam, alem d'isso, a qualidades e exigencias do espirito
christão, que, sendo origem commum de ambos, imprimira á Arte novas
feições em situações differentes.
De facto, não é difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua
originalidade, se apropriou de alguns caracteres fundamentaes do Latino;
muito embora, como em breve diremos, a fusão d'estes estylos se devesse
realisar mais tarde sob a acção do elemento barbaro, que não podia
deixar de manifestar profunda influencia sobre a architectura christã,
visto que a teve decisiva e innegavel na constituição das sociedades
medievaes.
Uma observação interessante na formação do Estylo Byzantino consiste em
que a sua maior obra, nunca depois excedida nem até egualada, Santa
Sophia de Constantinopla, parece ter apparecido como um facto esporadico
e uma creação inspirada dos architectos gregos; a verdade é, porém, que
o Estylo Byzantino não fugiu á lei de todas as producções humanas, tendo
uma formação lenta e evolutiva. Existem e existiram edificios, que
constituem verdadeiros marcos milliarios d'esta evolução. O genio dos
constructores de Santa Sophia, apenas a precipitou, dando-lhe a
apparencia de uma verdadeira revolução nos estylos architectonicos.
É logico suppôr que o periodo de verdadeira constituição do Estylo
Byzantino deve ter começado quando Constantinopla foi declarada capital
do Imperio. O desenvolvimento de uma nova phase da arte exige sempre
elementos de actividade social e de riqueza, que só poderam reunir-se
quando a administração geral do Imperio concentrou no oriente todas as
forças creadoras, com grave sacrificio do mundo occidental.
Nos principios do seculo VI, o estylo achava-se constituido, offerecendo
a sua mais perfeita expressão no templo de Justiniano.
O apparecimento, relativamente rapido, d'esta obra de arte tão perfeita
e rica do Estylo Byzantino tinha de exercer forçosamente profunda
influencia sobre a arte occidental. Não só as egrejas e as construcções
byzantinas começaram logo a elevar-se nos antigos dominios do Estylo
Latino e a invadir a Italia, na parte que então constituia um Exarchado
do Imperio do Oriente, mas foi rapida a dispersão d'este novo estylo,
principalmente no sul da Europa.
Muitas causas especiaes do tempo facilitaram esta dispersão, que reinou
na Italia, no sul da França e chegou até á Allemanha, as duas nações que
mais tarde deviam cobrir-se de monumentos romanicos e ogivaes. As
relações de todas as ordens, entre o occidente e o oriente, eram activas
n'esses seculos. Commerciaes havia-as constantes, porque as grandes
caravanas, que iam ao Extremo Oriente permutar mercadorias, atravessavam
a extensa zona, onde florescia o Estylo Byzantino, tendo um dos seus
grandes _caravansarás_ em Constantinopla.
Além d'isso, o espirito religioso activava o movimento dos peregrinos
occidentaes para os logares santos na Palestina, onde florescia o Estylo
Byzantino, até no proprio templo do Santo Sepulchro de Jerusalem, que
serviu depois de exemplar a tantos outros. As descripções, sempre um
pouco imaginosas dos viajantes, adornavam o novo estylo de
magnificencias e maravilhas, que segundo vimos eram bem merecidas.
Estas causas, só por si explicam a influencia da ornamentação oriental
sobre a arte do occidente; a acção, porém, tinha de ser mais completa.
Assim, ainda durante a existencia do Imperio ostrogodo de Theodorico, no
curto reinado de sua filha Amalasonte, o Estylo Byzantino começou a
invadir a Italia. A Egreja de S. Vital de Ravenna, capital do reino
godo, foi erecta em 534, epocha em que duravam os trabalhos de Santa
Sophia. A Cathedral de Parenzo, cidade maritima da costa oriental do
Adriatico, seguiu-se-lhe em 540. Como era natural, a invasão fez-se
primeiro pelas grandes cidades litoraes d'este mar, em constantes
relações com o mundo oriental.
O facto historico culminante, que facilitou a dispersão do Estylo
Byzantino, foi todavia a constituição do Exarchado em Italia. Por morte
de Theodorico, sua filha Amalasonte assumiu a regencia em nome do filho
Athalarico. Esta princeza herdára algumas das grandes qualidades de seu
pae e entre ellas accentuadas tendencias para a civilisação classica,
então representada pelo Imperio Byzantino. A morte do herdeiro da corôa
entregou-lhe a herança paterna, que a nova imperatriz partilhou com
Theodato, seu primo, transigindo assim com a surda irritação dos
guerreiros ostrogodos. O assassinio da princeza foi o resultado da
transigencia. Então, a desordem e a dissolução apoderaram-se dos estados
de Theodorico.
Justiniano aproveitou o ensejo, pensando em restaurar o antigo Imperio
de Constantino. Belisario conquistou o sul da Italia e avançou até
Ravenna, que por momentos pertenceu á corôa do oriente. As constantes
intrigas da côrte byzantina sacrificaram em parte a obra do heroico
general de Justiniano, que então incumbiu o persa Narsés de recomeçar a
conquista. O famoso eunucho, valido do imperador, em victoriosas
companhas contra os godos conseguiu vencel-os, constituindo o ducado de
Italia, reduzida a provincia do Imperio Byzantino.
A morte de Justiniano levou ao throno Justino II, espirito fraco,
dominado pela imperatriz Sophia, que odiava o heroico eunucho Narsés. Na
côrte de Constantinopla ferveram, pois, as intrigas ambiciosas contra o
duque de Italia, a quem a propria imperatriz não poupava desgostos e
motejos, não se atrevendo a atacar de face o poderoso exarcha e habil
administrador. Uma phrase sangrenta fez trasbordar a vingança de Narsés.
Dissera a imperatriz, referindo-se ironicamente ás desgraçadas
qualidades physicas do duque de Italia, que _elle era um homem digno de
fazer parte de um grupo de fiandeiras_. A resposta do eunucho não se fez
esperar. Sentindo a morte proxima, Narsés, incitou entre os lombardos,
poderosa e guerreira nação germanica que habitava a Pannonia, a idéa da
conquista da Italia. Assim, elles, em 568 atravessando os Alpes,
precipitaram-se sobre a peninsula, conquistando em poucos annos parte
importante da região septentrional, que ainda hoje conserva o nome de
Lombardia.
O Imperio Byzantino, privado de grandes generaes e profundamente
corroido por vicios e intrigas, conseguiu apenas detel-os na marcha para
o sul; ficando a Italia dividida entre duas poderosas influencias: ao
norte, o reino lombardo; ao sul, as provincias do Exarchado de Ravenna,
que durou até meiados do seculo VIII, em que foi, emfim, destruido e
englobado no novo reino germanico. Assim, durante dois seculos, a
civilisação e a arte byzantinas estiveram em contacto directo e intimo
com uma das mais intelligentes nações barbaras, das que invadiram o solo
da peninsula italica.
As relações entre os Chefes dos Estados tambem eram frequentes. O
Imperio do Oriente tinha para os reis semi-barbaros singular prestigio,
pelas tradições como legitimo representante do grande poderio romano,
que aliás os seus antecessores haviam destruido, pela civilisação
relativa e, emfim, pelas immensas riquezas e pelo luxo asiatico da côrte
byzantina. As tradições gloriosas e as riquezas foram e hão de ser em
todos os tempos motivos de admiração, de respeito e até de culto para os
espiritos inferiores. Assim, muitos chefes barbaros solicitavam a
nomeação de _patricios romanos_, ou acceitavam-n'a como grande honra;
com effeito, foram _patricios_ Theodorico, rei da Italia, e Clovis, rei
de França. Estas relações diplomaticas do tempo não deviam contribuir
pouco para a propagação da influencia da arte byzantina, nas nações
occidentaes da Europa.
O movimento logico do ardente mysticismo christão facilitou, ainda, esta
propagação em grande escala. Desde os primeiros tempos do Christianismo
os seus mais ferventes e menos ignorantes proselytos deviam considerar a
representação material das idéas sagradas, de Deus principalmente, quasi
uma verdadeira profanação. Era a consequencia logica de doutrinas muito
espiritualistas na essencia.
Assim acontecera, tambem, que os chefes do povo hebreu, Moysés entre
outros, haviam mais de uma vez destruido os idolos, deante dos quaes se
prostrava o povo. O Mosaismo e o Islamismo, duas religiões de forte
essencia espiritual, não admittiram nunca a representação material da
divindade. No rigor da logica o Christianismo devia chegar, e chegou de
facto, a identicas conclusões.
D'aqui proveiu a famosa seita dos _Iconoclastas_, no fim do seculo V já
tão poderosa que teve por chefe ou adepto, pelo menos, o Imperador
Zenon. Estes _destruidores de imagens_, que as perseguiam com o terrivel
furor religioso, atravessaram quasi quatro seculos no Oriente, chegando
a invadir a propria Italia. No seculo VIII estes verdadeiros barbaros
eram poderosos. Condemnados por Concilios regulares, embora protegidos
por alguns imperadores, vieram só a extinguir-se no seculo IX. N'este
periodo extenso as artes byzantinas, pelo menos a esculptura e a
pintura, soffreram rudes perseguições nas suas obras, o que promoveu um
exodo dos respectivos artistas para o occidente, onde a seita foi sempre
menos poderosa e nociva.
Emfim, as Cruzadas no fim do seculo XI levaram para o Oriente centenas
de milhares de homens de relativa instrucção, que conhecendo apenas a
modesta arte occidental, se extasiavam deante dos primores e da
magnificencia, que iam encontrando no seu caminho, desde Constantinopla
até á Palestina.
Foram todas estas causas, que em varias epochas facilitaram a dispersão
da arte byzantina no occidente. Assim, o Estylo Byzantino logo no seculo
VI começou a espalhar-se na parte septentrional da Italia, alargando-se
depois successivamente pela Lombardia.
A influencia da ornamentação byzantina em mosaicos, pinturas e
esculpturas, que já anteriormente se manifestára sobre o Estylo Latino e
que os artistas, emigrados do oriente pelas perseguições dos
iconoclastas, haviam accentuado, achou-se agora fortalecida pelos
proprios edificios, cujos fundamentaes elementos architectonicos eram
bem superiores em majestade, grandeza e duração aos correspondentes no
primitivo estylo christão, nascido no occidente.
Apesar das qualidades do seu emulo, o Estylo Latino occidental offereceu
resistencia, e não foi tão facilmente vencido como no oriente. Na Italia
fôra creado e se espalhára com profusão, correspondia ao _meio_ natural
e social; era, emfim, o producto do genio classico romano e o
representante de antigas tradições.
Foi sempre singular a resistencia tenaz d'esse antigo espirito classico
romano, que por longos seculos viveu sobre o solo da Italia, sem duvida
conservado pela hereditariedade do sangue e pelas tradições vivas dos
antigos monumentos. Assim, o Estylo Romanico não penetrou facilmente no
sul de Italia e o Ogival, cuja expansão foi enorme por toda a parte, se
a invadiu, teve de transigir e amoldar-se ás circumstancias. Entrou na
Lombardia, elevando um dos melhores edificios em Milão; mas, a partir de
Florença, onde na opinião dos proprios italianos começa a verdadeira
Italia, o ogival tomou caracteres muito especiaes e transigiu com o
espirito classico.
O auctor d'este livro teve ensejo de apreciar bem este facto, quando
percorreu aquelle paiz. Alem d'isso, o movimento artistico da Renascença
terminado no seculo XVI, que representa um verdadeiro retrocesso ás
origens, isto é, ás idéas e aos estylos classicos, foi preparado e
realisado em Italia, exclusivamente por elementos italianos, quer fossem
escriptores, quer amadores ou artistas.
Assim, a grande vitalidade do espirito classico no solo da Italia foi
origem de muitos factos importantes na Historia da Arte, sendo, segundo
julgamos, tambem a causa da tenaz resistencia do Estylo Latino em face
do poderoso invasor oriental.
Emquanto o Estylo Byzantino realisava a invasão da Italia, durante o
seculo VI, elevando as suas construcções ao lado das latinas, as leis
historicas preparavam as bases das futuras constituições sociaes. O
seculo V fôra o periodo das invasões na Italia, nas Gallias e na Iberia.
Na Italia, que mais nos interessa porque foi no occidente o fóco da
arte, viu-se passarem os visigodos de Alarico, os suévos de Rodagués, os
hunos de Atila e os herulos de Odoacro, como rudes e barbaros
conquistadores; mas as conquistas succediam-se, deixando ruinas e
miserias, sem crearem organisações sociaes estaveis. Como verdadeiras
ondas rebentavam no solo da peninsula, espraiando-se em grandes côrsos,
que tão rapidamente quasi se retiravam, como se haviam formado. Apenas,
os herulos de Odoacro, revoltados contra Augustulo, o ultimo imperador
do occidente, por curtos annos formaram uma vacillante monarchia,
destruida no fim do seculo V pelos ostrogodos de Theodorico.
O proprio Imperio ostrogodo tivera ephemera duração. O genio
indiscutivel do grande chefe imprimira-lhe, segundo vimos, certa unidade
e brilhante grandeza; mas a fusão das raças não se déra. O conquistador
era intelligente e humano, um espirito liberal e justo, civilisado na
côrte de Byzancio; mas bem na essencia Theodorico ficára sempre um
conquistador, confiando mais na força das armas do que na acção lenta e
segura da catechese politica. Por isso, conservára os seus guerreiros
isolados quanto possivel da civilisação classica, constituindo uma
verdadeira casta. A morte de Theodorico foi o signal da dissolução dos
seus Estados, sendo pouco depois d'ella conquistada a Italia por
Belisario e Narsés, os habeis generaes de Justiniano.
No seculo VI começou na realidade a constituição de nacionalidades mais
fortes e duradouras. Assim, ao expirar do seculo V, organisou-se no
occidente da Europa, sob o energico governo de Clovis, convertido ao
Christianismo, a monarchia dos frankos, origem do Imperio de Carlos
Magno e da actual França; e nos meiados do seculo VI, como já vimos, a
Italia achava-se dividida em duas grandes nacionalidades, ao norte a
monarchia lombarda, ao sul as provincias byzantinas do Exarchado.
Os lombardos de Alboino eram, todavia, mais rudes do que os godos de
Theodorico; ou, pelo menos, o chefe lombardo não possuia a
malleabilidade do genio, a illustração e a grandeza de caracter do
conquistador godo. Os povos vencidos foram no principio tratados com
maior egoismo e crueldade. As exacções assumiram proporções violentas,
porque o espirito selvagem e guerreiro das hordas lombardas não era
temperado pelo caracter superior e prestigioso de Alboino.
A estabilidade relativa da conquista lombarda, que durou desde 568 até
774, anno em que foi destruida por Carlos Magno, e sem duvida as
qualidades intellectuaes dos novos invasores permittiram a lenta fusão
da raça vencida e da vencedora. Os riquissimos terrenos da Lombardia
foram de novo arroteados pelos fortes e energicos homens do norte. A
abjuração do arianismo pelos vencedores, que abraçaram o Christianismo
orthodoxo dos vencidos, facilitou as relações sociaes. A combinação dos
sangues creou a pouco e pouco novas gerações, em que se casaram as
qualidades animicas e ethnicas dos vencedores e dos vencidos, recebendo
de uns o espirito da liberdade e o valor guerreiro, que haviam perdido
os romanos da decadencia, de outros a cultura intellectual e moral, que
não podiam possuir os barbaros do norte, por melhores que fossem as suas
tendencias e disposições. A fusão das raças produziu, assim, uma
sociedade mais ou menos homogenea, fundada na unidade da religião e na
constituição de uma lingua commum, primeiro esboço das futuras
sociedades, que deviam resultar da alliança dos tres espiritos
creadores, o christão, o classico e o barbaro. A ordem e a sciencia, o
commercio e a industria começaram, pois, a reflorir na Lombardia, apesar
das continuas guerras que os seus habitantes sustentavam, principalmente
com o Exarchado, por elles emfim destruido em meiados do seculo VIII.
N'este cadinho, se nos consentem a expressão, a arte oriental e a
occidental em contacto não podiam deixar de produzir uma liga especial,
sob o calor de novas idéas e sentimentos, nascidos do rejuvenescimento
de uma importante fracção da Humanidade.
A origem do Estylo Romanico deve ser attribuida a estes factos
historicos, embora n'outros pontos e n'outros seculos se dessem
circumstancias similhantes, que facilitaram tambem a evolução e a
dispersão d'este estylo. Assim, é certo que a constituição da monarchia
franka se deve considerar no occidente o resultado equivalente da acção
das leis historicas, e sabe-se que durante a dynastia merovingiana,
depois da conversão de Clovis, se elevaram muitas construcções; mas os
lombardos encontraram-se na posição singular e favoravel de contacto com
a arte byzantina, cujos edificios e producções se elevavam nos seus
proprios Estados. Esta situação especial envolve logicamente mais
directa e proficua influencia na formação de novas physionomias da arte.
Alem d'isso, os lombardos manifestaram-se sempre bons architectos e
excellentes constructores, quer o fossem por disposições proprias de
raça ou herança do sangue romano, quer o exemplo das construcções
existentes lhes desenvolvessem e aperfeiçoassem estas qualidades. Assim,
quando a monarchia lombarda foi destruida por Carlos Magno e reduzida a
provincia do Imperio, os artistas lombardos espalharam-se pelos
restantes Estados imperiaes, sendo considerados bons architectos e
habeis constructores. Ainda hoje a expressão Estylo Lombardo, applicada
a uma feição do romanico, attesta a grande influencia d'estes artistas
n'este periodo da evolução da arte.
Difficil será, sem duvida, tentar a fixação de datas, embora seculares,
para os factos da genese do Estylo Romanico primario. N'estes remotos
seculos por completo fallecem os documentos e os melhores, os proprios
monumentos coévos, em grande parte desappareceram pela acção de longa
antiguidade e de muitas e profundas catastrophes, offerecendo os que
existem duvidosa classificação. É indiscutivel, todavia, que esse
periodo de transição existiu, porque entre o Estylo Latino primitivo e o
Romanico secundario, constituido no seculo XI, as differenças
manifestam-se tão radicaes que só as pôde explicar uma longa evolução.
O Estylo Byzantino, em verdade, approxima-se mais do Romanico secundario
em certos caracteres fundamentaes; mas ainda entre elles as respectivas
physionomias manifestam-se tão distinctas, que envolvem um longo periodo
intermedio de elaboração. Como as transformações biologicas e ethnicas
das raças animaes exigem gerações successivas e numerosas de verdadeiros
typos intermediarios, assim, entre os estylos christãos primitivos e o
Estylo Romanico secundario é logica e necessaria a existencia de um
periodo de transição.
Alem d'isso, a comparação dos caracteres architectonicos demonstra que o
Estylo Romanico secundario comprehende os de ambos os seus antecessores,
constituindo não uma simples mistura de elementos diversos, mas em
verdade uma sabia e harmonica combinação, que fixou uma feição especial
da arte.[1]
Assim, o Estylo Romanico recebeu do Latino as disposições geraes das
fachadas e os narthexs, a fórma interior das egrejas nas naves, nos
transeptos e nas absides, os triforios, as cryptas, os altares, os
ciborios, as tribunas e outras disposições particulares archictetonicas
e ornamentaes; e do Byzantino as abobadas e as cupulas, os pilares
massiços e as grossas columnas, os pesados e variados capiteis, as
arcadas de volta inteira, os arcos geminados e sobretudo a variedade e
riqueza da ornamentação.
Quando começou a manifestar-se essa transformação, que constitue o
periodo do Estylo Latino de transição, ou o Estylo Romanico primario?
Em geral, as maiores creações do espirito humano, coincidem com os
grandes movimentos historicos. O marasmo politico suffoca a actividade
intellectual e entibia a energia da alma; escravisa e annulla o
pensamento, estancando-lhe as forças creadoras; substitue os grandes
ideaes pelos pequenos interesses, as nobres ambições pelo sordido
egoismo; emfim, reduz o animal humano a um automato, que apenas _sente_
a necessidade e o prazer de uma vida de sensações faceis e vulgares.
Assim, vivem os chinezes ha milhares de annos, adormecidos dentro de uma
formula social crystallisada na sciencia, na moral e na arte.
A constituição do extenso e poderoso Imperio franko de Carlos Magno, em
meiados do seculo VIII, principalmente depois da conquista do Reino
Lombardo, póde considerar-se o inicio provavel do Estylo Romanico
primario. Este grande facto politico, um dos maiores da Historia, deu,
como é sabido, profundo impulso á civilisação, e sob o aspecto da arte
disseminou-a pelas vastas provincias de um vasto Imperio, habil e
energicamente governado por um dos maiores espiritos, com que até hoje
se inflorou a Humanidade.
Foi então que os architectos e constructores lombardos, espalhando-se no
occidente e no centro da Europa, encontraram, sem duvida, excellente
atmosphera para desenvolver as singulares aptidões do seu talento e a
profunda sciencia de longa pratica, creando novos elementos e novas
combinações architectonicas, que prepararam o Estylo Romanico
secundario, a phase pura e perfeita d'este estylo.
Esta revolução na esthetica nasceu indiscutivelmente da acção de um novo
espirito creador, sem a influencia do qual a arte no occidente teria
crystallisado, permanecendo quasi invariavel por longos seculos, como
succedeu no oriente ao Estylo Byzantino, que apenas gerou o Estylo
Russo, cuja physionomia actual conserva ainda accentuados e
caracteristicos os traços, embora orientalisados, do seu antecessor.
Esse espirito innovador, que modificou a politica e a moral das antigas
sociedades, esse forte e benefico movimento, que agitou e saneou o
pantano do mundo classico, esse espirito revolucionario, que das
montanhas da philosophia, da sciencia e da arte classicas fez brotar
poderosos mananciaes de novas idéas e de novas fórmas, foi o elemento
barbaro.
A sua grande qualidade, o amor pela liberdade do pensamento, foi o
sangue forte e generoso, que veiu dar calor e vida á cançada e anemica
compleição classica. Na arte o seu trabalho de regeneração, atravessando
as phases do periodo romanico, devia produzir a definitiva e magnifica
concepção do mais perfeito estylo religioso conhecido, o Estylo Ogival.
PARTE TERCEIRA
OS ESTYLOS CHRISTÃOS DEFINITIVOS
XI SECULO AO XV SECULO
CAPITULO PRIMEIRO