assistido, provavelmente, aos actos de perseguição alli praticados por
ordem de Deocleciano. Sentira a fé dos crentes, apreciára a energia de
alma dos martyres, a valentia das mulheres que se deixavam suppliciar,
sem protestos, sem choros, olhando o Ceu com esperança e cobrindo apenas
os corpos, animadas d'esse pudôr do espirito que desconhecia quasi o
paganismo. Para elles, martyres, a morte não era horrivel; por um lado,
davam o exemplo, por outro, obtinham a liberdade da alma, que em breve
ia ser feliz, vivendo para sempre no seio do doce Christo. Constantino
era um genio e os genios vêem sempre no futuro.
Depois, annos de morticinio não extinguiam os christãos. Parecia que a
flora do Christianismo rebentava sempre mais forte e variada. A
suggestão do martyrio, fundando-se na esperança, trazia novos adeptos,
que appareciam por toda a parte, como nos campos cobertos de relva
pullulam as boninas brancas na primavera.
Constantino era politico e os politicos usam das forças vivas para os
seus altos designios. A idéa e a força sempre crescente do
Christianismo, que haviam levado, talvez, Diocleciano a abdicar a coroa
imperial não podendo transigir com elle, eram elementos necessarios,
unicos, para o sonho de Constantino, a unificação e a reorganisação do
antigo Imperio Romano.
Alem d'isso, Constantino era um philosopho. A idéa polytheista estava
condemnada. Os verdadeiros sabios nunca haviam acreditado n'esses mythos
monstruosos uns, ingenuos outros; n'essa religião, emfim, sob cuja
influencia cabiam aos pedaços a politica das sociedades pagãs e a moral
dos cidadãos. A doutrina christã, simples e virtuosa, o seu principio
deista, a unidade do Espirito Supremo ideal dos philosophos, deviam ter
um encanto poetico aos olhos do imperador, constituir uma aspiração da
sua alma.
Não é, pois, necessaria a revelação divina para explicar a conversão de
Constantino. Em nome das perseguições feitas aos christãos, o novo
imperador marcha contra seu cunhado Mazencio, o tetrarcha da Italia,
derrota-o nos campos do Pó, aperta-o na retirada e, ajudado pelos
christãos, levando na frente o _labarum_, com a cruz de Christo e o
prophetico lemma _in hoc signo vinces_, vence-o e fal-o morrer junto dos
muros de Roma. No anno seguinte, em 313, o imperador publica em Milão o
Edito de Tolerancia, a aurora da liberdade para a Egreja triumphante.
Dois annos depois, ataca o tetrarcha do Oriente, Licinio, sempre a
titulo das perseguições exercidas contra os christãos; derrota-o em
Siballis, aprisiona-o, promette-lhe a vida e manda-o matar passado
tempo!
A unidade politica do Imperio estava feita; faltava, apenas, a
organisação administrativa. Os christãos haviam sido auxiliares do
imperador; tornaram-se, pois, seus protegidos. Constantino não combatia
ainda abertamente o paganismo; enfraquecia-o a pouco e pouco, enchendo
os christãos de favores, mostrando por elles viva predilecção. Ora, os
favores e a predilecção dos poderosos são uma ordem e um incentivo para
os pequenos.
O trabalho de propaganda de Constantino foi lento e efficaz. Não bastava
que o Christianismo vivesse de tolerancia. Antes de ser religião do
Estado, precisava tornar-se pessoa moral, possuir propriedade, o que
entre os romanos era a melhor manifestação de força e de soberania. Em
321, outro Edito imperial auctorisa a Egreja a receber donativos e a
possuir bens temporaes. O imperador concede, depois, privilegios aos
templos da nova religião, entre elles o direito de asylo dos templos
classicos; eguala os dois sacerdocios em direitos e regalias; começa até
a perseguir os pagãos. Eram costumes do tempo.
Para dar unidade á nova Egreja e expungir a heresia de Ario, que no
terceiro seculo do Christianismo ameaçava já a tradição orthodoxa,
Constantino convocou em 325 o primeiro Concilio Ecumenico, a reunião dos
bispos de todas as dioceses do Imperio, em Nicea. Este concilio teve
subida importancia sobre a unidade e a disciplina do Christianismo, como
mais tarde a manifestou, tambem, o Concilio de Trento, iniciando a
theocracia dos pontifices romanos. Deu o exemplo da definição do dogma
nas reuniões da Egreja Universal; fixou a doutrina da consubstanciação
do Pae e do Filho; divinisou Jesus Christo, enunciando o _Symbolo dos
Apostolos_, ainda hoje o _Credo_ resado pelos christãos; finalmente,
fulminou o anathema e a excommunhão sobre Ario e a sua doutrina, que
negavam esta consubstanciação.
O arianismo, porém, não se deu por vencido e, durante seculos,
manifestou profunda influencia sobre o Christianismo, principalmente na
catechese dos povos barbaros.
Assim, pode dizer-se que o arianismo, preparando o espirito dos povos
germanicos, é o verdadeiro germen do movimento da reforma religiosa, que
nos seculos futuros dividiu o Christianismo em dois poderosos ramos, o
catholico e o protestante.
Constantino fizera-se christão de facto, faltava-lhe apenas o baptismo;
comtudo, como esse sacramento lhe sacrificaria as funcções e a
influencia de _pontifice-maximo_ do paganismo perseguido, quasi extincto
mas tendo ainda proselytos, o imperador, encarnando-se no politico,
deixa a prova indubitavel e solemne da conversão, para os ultimos dias
da vida. O politico ainda transparece na escolha de Byzancio,
reedificada e engrandecida, para capital do Imperio. Com effeito, em
torno das suas vastas fronteiras, já no tempo de Constantino, uma cinta
de ferro de povos barbaros cingia-se cada vez mais. Eram as ondas das
invasões, que se começavam a formar e entrarão com movimento
irresistivel no seculo seguinte.
O genio de Constantino presentiu a proxima e inevitavel lucta, o
terrivel choque dos povos do norte nas fronteiras do Imperio. A cidade
de Byzancio, defendida pelo Caucaso, pelo Mar Negro e pelo profundo
fosso do Bosphoro, offerecia-lhe uma posição relativamente mais segura
do que Roma para capital, o cerebro e a alma dos seus vastos estados. O
imperador transferiu a séde do governo para Constantinopla, no anno 330
da nossa era.
Assim, o Christianismo foi reconhecido religião do Estado, official e
professada pelo imperador, segundo o antigo aphorismo: _cujus regio,
ejus religio_.
Um novo periodo historico vae, pois, começar para a Humanidade. A
politica e a moral, expressões geraes da actividade humana, manifestarão
caracteres differentes do passado. O espirito do Christianismo presidirá
a esta phase longa e brilhante da evolução historica, que ha de
inflorar-se com a civilisação e o progresso modernos.
Entre o mundo classico e o christão parece existir hoje um abysmo;
todavia, na evolução do espirito não occorreu a menor solução de
continuidade. As sociedades modernas ligam-se ás antigas, como a arvore
se prende ao solo pelas raizes, como a planta se enxerta n'outra, de que
recebe a seiva e o alimento.
A arte classica e a christã parecem, tambem, distinctas, quando na
realidade nasceram ambas do movimento evolutivo e ascencional do
espirito humano. As differenças provéem da intima natureza das
religiões, que imprimiu caracteres especiaes á expressão do bello, a
Arte, nas duas sociedades.
Todas as religiões se dirigem, mais ou menos directamente conforme a
perfeição da doutrina e do culto, para o ideal do bem, do bello e do
justo; mas procuram-n'o por differentes caminhos. O polytheismo grego e
romano, pelas condições especiaes da sua formação, via esse ideal
atravez da belleza da forma. O Christianismo, pelo contrario,
contempla-o atravez da belleza do espirito. Os fins são identicos;
apenas os meios de os attingir se manifestam differentes.
A religião classica exaltava a alma, penetrando-a de doce sensualismo. O
amor e o goso eram bens da vida, de que os proprios Deuses davam bons
exemplos. Diogenes no seu tonel professava esta doutrina. Desprezando as
vaidades do mundo, aquecia-se aos raios do sol e contemplava o bello
visivel da natureza.
A religião christã exalta a alma, penetrando-a de elevado
espiritualismo. A vida é a estrada rude e aspera, que a alma vae subindo
dolorosamente até entrar, emfim, pela porta da morte na felicidade
eterna. S. Jeronymo, na sua cella humida e fria, rasgava as carnes com
cilicios e açoutes para calar os sentidos. Desprezando, tambem, os bens
mundanos, absorvia-se na contemplação da belleza ideal do Eterno
Espirito.
A applicação d'esta doutrina é facil e concludente. Na architectura,
comparemos duas producções singulares em merito e belleza: o Parthenon e
a Cathedral de Strasburgo.
O Parthenon foi o templo mais perfeito da arte classica; a Cathedral de
Strasburgo gosa da fama de ser exemplar completo do mais rico estylo da
arte christã. No primeiro, todas as proporções e elementos foram
estudados e combinados para attingir a harmonia e a belleza da forma;
mas a expressão é fria. O monumento não diz nada ao nosso espirito. Na
segunda, pelo contrario, a belleza da expressão completa a da forma. A
Cathedral de Strasburgo é um poema de pedra, um cantico da religião
christã.
Na esculptura observa-se o mesmo. O auctor d'este livro percorreu os
museus de Italia, viu nas vastas galerias do Vaticano accumuladas
centenas, milhares de estatuas classicas. Nunca, nunca, até hoje, a
esculptura moderna attingiu tal belleza de formas!
Mas, n'essa multidão immensa de primores, não encontrou a expressão. As
physionomias são de uma serenidade olympica, as attitudes magestosas, em
geral, não teem movimento. A expressão não existe, até quando as
condições do acto mais a exigem. A morte não tem contracções no rosto. A
lucta não manifesta a furia do odio. O amor é frio e solemne. Todas as
bellas estatuas teem a impassibilidade de Jupiter ou de Minerva,
conforme os sexos.
As excepções são rarissimas; contam-se sem difficuldade. O grupo de
Laocoon e dos filhos, envolvidos pelas serpentes, as lagrimas de Niobe,
chorando os filhos, são exemplares curiosos da expressão dos antigos
estatuarios. Saindo dos museus classicos, encontramos em Italia por toda
a parte a vida, a expressão, o movimento dos esculptores da Renascença,
de que Bernini nos dá singular exemplo no extasis de Santa Thereza de
Jesus, uma das mais extraordinarias estatuas produzidas pelos artistas
modernos.
A arte classica e a christã traduzem, pois, a essencia intima das
respectivas religiões. Na primeira, predomina a forma; na segunda
sobresae o espirito. Estas observações parecem-nos fundamentaes na
Historia da Arte.
CAPITULO TERCEIRO
AS INVASÕES DOS BARBAROS
O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou a philosophia em Athenas
cinco seculos antes de Christo, ensinava aos seus discipulos este
principio: _o Espirito começou pacientemente a revolução, que deve
realisar-se; os seus progressos são rapidos, sel-o-ão cada vez mais_.
Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade humana, bem
evidente nos seus resultados, embora enygmatica nas proprias origens.
O periodo historico da Edade-Media resulta da acção reciproca das tres
manifestações do espirito, representadas pelo paganismo, pelo
christianismo e pelos barbaros. É a longa phase das suas luctas, das
suas concessões mutuas, das suas combinações, verdadeira _endosmose_ e
_exosmose_ de idéas, que termina pela constituição homogenea das
sociedades modernas.
A Edade-Media começou no seculo V, definida pela primeira invasão dos
barbaros, germanos, hunos e alanos, e dura até á tomada de
Constantinopla, em 1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos,
sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia do tempo,
um sentimento vago de pavor e de melancholia, taes são os flagellos, as
guerras, as miserias, como eguaes não houve n'outra quadra historica,
que n'este espaço immenso, principalmente até ao seculo X, assolaram a
humanidade.
A acção reciproca do paganismo e do Christianismo já procurámos
esboçal-a nos anteriores capitulos. Vamos referir-nos, agora, aos
_barbaros_, elemento novo e activo, causa de poderosa transformação
social e moral sem duvida, que vem entrar directa e profundamente na
scena da historia. De entre os tres, como é de justiça, reconheçamos a
hegemonia ao Christianismo.
Já no tempo de Constantino hordas numerosas de _barbaros_, mais ou menos
organisadas em nações, se distribuiam pelas vastas fronteiras do
Imperio, desde a cordilheira do Caucaso até á embocadura do Rheno. Os
hunos e os germanos constituiam a primeira zona d'estes povos, apertados
entre os limites do Imperio e outras zonas de barbaros, escalonadas para
o norte da Europa. Os hunos de raça mongolica occupavam as vertentes
septentrionaes do Caucaso e estendiam-se para o nordeste. Os godos
guarneciam a costa norte do Mar Negro e mais além, para o occidente, a
margem esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os francos e
frisões, depois, até á embocadura do Rheno, fechavam o circuito, cheio
de perigos previstos e tremendos.
De quando em quando, esta massa de innumeraveis guerreiros trasbordava
em alguns pontos e passava as fronteiras romanas; comtudo, até ao seculo
V o Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes até
vastas provincias, confiando-lhes a guarda d'essas fronteiras, ameaçadas
por outras hordas. A acção da diplomacia imperial completava a dos
exercitos, semeando intrigas e dissensões entre as nações barbaras e os
mais poderosos chefes, assoldadando generaes e guerreiros; empregando,
emfim, todos os meios de intriga e de veniaga que dividem as forças do
inimigo.
Assim, correram os factos até ao fim do seculo IV, quando um movimento
geral dos hunos, promovido por causas particulares internas, arremessou
estas grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos e os
visigodos. Os primeiros submetteram-se ao jugo dos hunos. Os visigodos
vencidos entraram no Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de
Ulphilas, bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram o Imperador
Valente e mataram-n'o em Andrinopla. A habilidade do Imperador Theodosio
dominou-os e deteve-lhes a expansão conquistadora; mas esta primeira
investida deve ser considerada o facto primordial da invasão dos
barbaros.
Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis annos do seu
reinado, gosou tranquillidade relativa; todavia, o movimento dos hunos e
dos alanos para o occidente communicou-se a todas as nações barbaras,
repercutindo-se até ao Rheno.
Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico assolaram a Italia
e pozeram cêrco a Roma. Quasi a seguir, os suevos de Radagués
precipitaram-se como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos por
Stilicon, da raça vandala, ao serviço do Imperador Honorio. Os
visigodos, seis annos depois, apparecem novamente e assediam Roma. O
grande chefe Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.
Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava sobre a França.
Romanos, francos e godos vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a
Italia, devasta as regiões do Pó, desce sobre a cidade de Roma, que foi
salva pelo Papa Leão o Grande. A morte de Attila dissolveu a invasão dos
hunos, cuja crueldade e selvageria ficaram historicas.
Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os vandalos de Genserico
tomam e saqueiam a cidade de Roma. A esta onda segue-se outra, os
herulos de Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastações precedem a
coroação do chefe herulo, como Rei da Italia. A queda do Imperio do
Oriente, pela desmembração das respectivas provincias, tornou-se emfim
um facto consummado.
Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico fecharam o
primeiro periodo das invasões barbaras. Odoacro é vencido e morto. A
restauração do Imperio do Occidente já não era possivel; mas Theodorico
consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes, um vasto dominio,
comprehendendo a Italia, limitado ao oriente pelo Drina, para além o
Imperio Byzantino, ao norte pelo Danubio, para além os lombardos e os
gepides, e a oeste definido pelas nações dos francos, dos borguinhões e
dos visigodos.
Tal é em succinto o quadro, a pintura do estado de guerras e de
miserias, que atravessaram os paizes e os povos do antigo Imperio
Romano, reduzido no fim do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo
oriente da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos
apenas, porque os outros, na Bretanha, na Gallia e na Hespanha, tiveram
n'esse periodo pequena importancia sobre a arte christã, que na
realidade nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.
Todos estes barbaros, que em ondas successivas se precipitaram sobre o
Imperio do Occidente, exceptuando os hunos e os alanos, constituiam
ramos da mesma raça aryana, de que os gregos e os romanos provinham
tambem, descendentes mais ou menos puros e directos de emigrações
remotissimas. Se as linguas d'estas nações barbaras eram, pois, entre si
incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres individuaes e
ethnicos apresentavam intimas analogias.
Mais ou menos nomadas, as nações barbaras possuiam energico espirito
bellicoso. Rudes e destemidas, embora não selvagens ou crueis, essas
vastas confederações nacionaes procuravam em luctas aventurosas
satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente
manifestaram duas instituições suas: o feudalismo e a cavallaria.
O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter, antes de se
converterem á heresia do arianismo. A religião manifestava entre os
barbaros um espirito poetico e nebuloso, que lhe davam os _bardos_, como
entre os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados os deuses e os
grandes actos dos heroes nacionaes. Foram estes bardos, que na
Edade-Media deram origem aos famosos menestreis.
Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes como companheiros,
fieis aos seus chefes, estes _barbaros_, como lhes chamavam os romanos,
nutriam enraizados no espirito o amor da liberdade e o respeito da
propria dignidade, professando, como se diria hoje, um energico
individualismo. A este amor da liberdade individual se devem attribuir
em grande parte alguns factos importantes da historia, como, por
exemplo, a constituição das communas e principalmente o movimento da
_reforma_ religiosa, a bella e grande lucta da theocracia e da
democracia christãs, em que esta ficou vencedora, a final, no seculo
XVI.
Assim, o caracter disciplinado, a dedicação pelos chefes, em geral
escolhidos pelo valor e por altos feitos, não excluiam uma organisação
social democratica, que se manifestava em reuniões periodicas de
guerreiros, onde se discutiam e resolviam as questões de interesse
commum da tribu. Estas qualidades singulares dos barbaros, bem oppostas
ás dos romanos da decadencia, caracterisam ainda hoje as nações do norte
da Europa, suas legitimas descendentes.
O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades barbaras, constituidas
pela federação de pequenos estados ou tribus, onde era possivel a vida
local. Communicava-lhes um certo espirito nomada, inimigo dos grandes
centros; exigia-lhes uma vida separada e independente de pequenos
senhores, avessos ao trabalho, ignorantes por indolencia não por
desprezo das artes e das sciencias, só ardentes e activos na guerra, na
caça e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes traços os futuros
barões feudaes. Entregando o trabalho penoso aos escravos e ás mulheres,
pelas quaes aliás professavam certo respeito, considerando-as investidas
de dons propheticos, estes _barbaros_ traziam em si o germen, que, ao
calor do Christianismo, devia produzir a consideração, singular e
antinomica com outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela
mulher no tempo da cavallaria.
Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os _barbaros_ eram
irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos; ainda n'isto se manifestavam
os futuros barões feudaes. Tal era o caracter dos povos, que assolaram o
Imperio do Occidente no seculo V, não falando nos hunos e nos alanos,
povos de outra raça que foram um episodio na historia da Europa. Ora,
estas qualidades, no exercicio da intelligencia e nas diversas
manifestações sociaes, tiveram grande influencia no organismo da
Edade-Media, e logicamente sobre a arte; influencia mais accentuada nos
periodos romanico e ogival.
Quando os barbaros tocavam a antiga civilisação romana, eram fascinados
por ella. É um facto incontestavel na historia. A primeira demonstração
deu-se na constituição do reino godo de Italia por Theodorico, um
precursor de Carlos Magno e como elle um _barbaro_ de genio. Educado na
côrte imperial de Constantinopla, apreciára o immenso valor da
organisação social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados
pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito de Theodorico avalia-se
bem por um só facto, extraordinario e caracteristico. Legislando a
justiça no seu vasto imperio, decretou que as questões suscitadas entre
dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre um romano e um godo por
um romano, entre romanos por outro romano; assim, conclue o _barbaro:
cada um terá o seu direito garantido e, apesar da differença dos juizes,
uma só justiça reinará para todo o mundo_. E, todavia, os godos eram os
conquistadores e os romanos os vencidos!
Este espirito de justiça nascia do amor pela liberdade e do respeito
pela dignidade humana, que é a sua consequencia logica. Era a
manifestação esplendida do caracter fundamental da sua raça, que os
_barbaros_ traziam para a caduca civilisação romana, recebendo em troca
tradições de gloria, sabias instituições e um direito escripto, que
ainda hoje causa a admiração do mundo moderno. Na religião, Theodorico,
um sectario das doutrinas de Ario, idéa perseguida nos seus adeptos e
fulminada nos concilios, mostra se tolerante. A Italia era orthodoxa e
continua a professar as suas doutrinas. Os christãos elevam templos por
toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto. O _barbaro_ só
vacilla um momento no fim da sua vida, como represalia ao Imperador do
Oriente, que perseguia o arianismo com violencia e crueldade.
O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem, desenvolve a
riqueza, fomenta o commercio interno e externo. As antigas instituições
romanas são respeitadas, consultadas até. Os cargos civis são para os
romanos, os militares para os godos, que assim se conservam separados
como casta guerreira. O direito romano serve de base ao novo direito
gothico. Emfim, a combinação das tres manifestações do Espirito, segundo
a expressão de Anaxagoras, começa a dar homogeneidade a uma nova
civilisação.
O reinado de Theodorico é, pois, uma tentativa da fusão de principios,
um relampago de luz serena e clara que irrompe do seio tenebroso dos
primeiros tempos da Edade-Media. Dentro de dois seculos constituir-se-ha
o Santo Imperio de Carlos Magno.
PARTE SEGUNDA
OS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS
V SECULO AO X SECULO
CAPITULO PRIMEIRO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO LATINO
O Christianismo saíra das catacumbas nos meiados do seculo IV. Quasi
todo o seculo seguinte passara-se em invasões successivas. Hordas de
barbaros precipitaram-se sobre a Italia, talando, destruindo e roubando
o que umas ás outras deixavam. As perseguições religiosas haviam
cessado; mas a heresia de Ario perturbava os espiritos, e as invasões
accumulavam morticinios e flagellos. O trabalho não tinha socego, a
agricultura abandonada decaíra, a propriedade estava ameaçada e a
industria e o commercio esmoreciam, asphixiados por pesada atmosphera de
fogo, de sangue e de incerteza. Não é n'estas condições da sociedade e
do espirito humano que as artes se desenvolvem e florescem. O Estylo
Latino, que principiára a formar-se nos meiados do seculo IV,
constitui-se lentamente no seculo seguinte.
A derrota do paganismo inutilisára os templos e mutilára as estatuas dos
antigos deuses. Ora, parece-nos haver comprehendido na historia das
religiões, que a vencedora esmaga a doutrina vencida, persegue-lhe
ferozmente os adeptos e, como os antigos exercitos definiam a victoria
dormindo sobre o campo da batalha, as religiões triumphantes occupam e
apropriam ao seu culto os antigos templos profanados e desertos.