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Rita Farinha (Agosto 2010)
A ARCHITECTURA RELIGIOSA
NA
EDADE-MÉDIA
ENSAIOS DE HISTORIA DA ARTE
A ARCHITECTURA RELIGIOSA
NA
EDADE-MÉDIA
POR
AUGUSTO FUSCHINI
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1904
_A Minha Filha Octavia Fuschini de Lima Mayer_
INTRODUCÇÃO
As noções fundamentaes do nosso espirito são absolutamente indefiniveis.
Sentem-se; nada mais. Se lhe procurarmos a definição, cahiremos em
simples labyrintos de palavras, consistindo, quasi sempre, em
verdadeiros circulos viciosos. Tomemos, para exemplo, o espaço e o
tempo, noções bem fundamentaes.
O que é o espaço? É o _meio_, sem limites, onde existem em continuo
movimento todos os corpos; o que equivale a dizer que o _espaço_ é o
_espaço_.
O que é o tempo? É a serie indefinida de momentos, durante os quaes se
realisa a successão dos factos physicos e moraes; o que equivale a dizer
que o _tempo_ é o _tempo_.
Assim, parece que as idéas ou noções fundamentaes teem o singular
caracter de ser facilmente comprehensiveis pela intelligencia humana,
sem que ella tenha palavras rigorosas ou phrases perfeitas, para as
definir com sufficiente clareza.
Dados o espaço e o tempo, a materia e o espirito em perpetuo movimento
produzem a totalidade dos factos e phenomenos physicos e moraes,
constituindo o Universo, que sem as primeiras noções seria absolutamente
impossivel e incomprehensivel.
Pouco nos importa saber, n'este momento, se a materia e o espirito
coexistem, ou se o espirito é apenas um attributo da materia, organisada
segundo leis desconhecidas. Os phenomenos passam-se como se fossem
distinctos; deixemos, pois, a investigação d'este problema, que aliás
parece insoluvel, aos metaphysicos e aos theologos.
O que podemos considerar quasi certo é que a materia em movimento nos dá
as noções exactas do espaço e do tempo; e o espirito em actividade nos
dá, tambem, as noções claras do bem, do bello e do justo, que são como
as primeiras completamente indefiniveis na sua natureza absoluta.
Quem aprecia o tempo e o espaço? Os sentidos physicos.
Quem aprecia o bem, o bello e o justo? Esse _sentido_ especial e
perfeitissimo, denominado consciencia, a faculdade de _julgar_ que
possue a intelligencia humana.
As similhanças mostram-se ainda mais intimas. As noções do espaço e do
tempo são inseparaveis. A nossa intelligencia não pode conceber uma sem
a outra. O bello, o bem e o justo manifestam a mesma qualidade. São
noções correlativas.
É certo que a complexidade dos phenomenos animicos torna esta correlação
menos evidente do que a primeira, mais simples e clara pela sua origem
physica; mas, discutindo bem e com profundidade qualquer facto de ordem
animica, chega-se a descobrir que uma d'estas noções do nosso espirito
envolve, sempre, as outras duas em maior ou menor grau.
Assim, pois, poderemos, sem grande receio de errar, estabelecer tres
definições:
A Arte é a expressão do bello;
A Moral é a expressão do bem;
O Direito é a expressão da justiça.
Ora, como as noções do nosso espirito se manifestam subordinadas a leis
geraes, temos tres sciencias, que estudam as manifestações externas e
visiveis da propria essencia do espirito humano.
Eis-nos entrados no campo positivo e experimental. Um longo periodo
historico prova já que o nosso espirito é successivamente perfectivel e
evolutivo; não o sendo, de certo, nos principios fundamentaes, mas sim
na applicação d'esses principios e na variedade infinita de combinações,
que se podem fazer com as idéas, como se obtem com as notações musicaes.
Se nos fosse permittido, empregariamos a seguinte expressão: a
perfectibilidade é a lei fundamental do espirito humano, a evolução o
seu methodo.
Convém, todavia, observar, como um facto historico e psychologico, que a
alma humana--digamos a palavra--não é perfeitamente livre no pensamento
e na acção. Deixemos a theoria do _Livre Arbitio_ para ser definida em
Concilio.
Os astros, esses até, que estão sujeitos a leis immutaveis e
mathematicas, soffrem perturbações nas respectivas orbitas, por
influencias ainda mysteriosas algumas, outras descobertas em certos
casos. Ora, sobre as leis moraes as influencias são variadissimas; por
isso, o _astro espiritual_, a Idéa, caminha sempre em determinado
sentido, ás vezes, com enormes desvios.
O raciocinio prevê as causas d'essas grandes irregularidades e a
experiencia demonstra a verdade d'essas previsões.
Em relação á Arte, estas causas podem grupar-se em tres grandes
categorias:
1.^a A influencia do _meio_ natural, da atmosphera physica e cosmica;
2.^a A influencia do _meio_ historico, isto é, do conjuncto de
circumstancias que em dado momento constituem a atmosphera social;
3.^a A influencia do _meio_ particular de cada individuo, formado pelo
proprio caracter e talento, pelas suas condições dentro da sociedade e
da familia, ou pelo menos, dentro do pequeno grupo social, em que se
executa o seu trabalho e se exerce a sua actividade.
Teremos occasião de explicar mais tarde algumas applicações d'estes
principios; mas seja-nos permittido concretisal-os um pouco mais,
principalmente o primeiro.
Nas leis historicas--e a Arte tem historia e leis--entre as influencias,
actuando obscura e vigorosamente sobre o caracter dos povos e sobre os
destinos das nações, a sciencia não conseguiu ainda definir bem a acção
profunda dos elementos climatericos e geographicos sobre o espirito
humano; todavia, essa influencia presente-se, ou melhor prova-se e
deduz-se da diversidade das raças e dos caracteres moraes dos habitantes
da terra.
A forma humana, como é incontestavel, soffre a influencia d'este _meio_
externo e ás modificações d'essa forma correspondem modos de ser e
intensidades differentes de intelligencia. Ora, se nas linhas geraes do
nosso espirito se observa a acção dos agentes climatericos e
geographicos, como a vida dos povos depende das proprias funcções
intellectuaes e, pelo menos, em forte proporção o bem e o mal proveem do
exercicio da intelligencia humana, não é vago presentimento mas verdade
scientifica a existencia de leis, embora ainda não formuladas, que
expliquem a correlação das idéas e das instituições dos povos com a
climatologia e a geographia da zona habitada.
Na constituição de certas noções, esta influencia deve ser profunda. A
noção de Deus, o melhor manancial da Arte, e o grupo de idéas e de
sentimentos, que em volta d'ella, como centro, constituem por assim
dizer uma categoria do espirito humano, estão, sem duvida, n'estas
condições. O exemplo é excellente.
Seja qual fôr a origem da crença no sobrenatural, derive esta crença da
intima essencia da alma, provenha da revelação divina, nasça da
generalisação espiritual ou material das forças naturaes, funde-se na
grandeza dos factos cosmicos, ou no receio dos phenomenos physicos, é
indiscutivel que a essencia e a evolução da idéa de Deus e das formulas
do culto externo offerecem caracteres mais ou menos harmonicos com as
condições geographicas e climatericas, que lhes serviram de ambiente.
O polytheismo guerreiro, honesto e nebuloso, dos povos septentrionaes da
Europa e o polytheismo grego, livre e artistico, foram concebidos em
_meios_ differentes. As regiões asperas e rudes do norte, onde os gelos
e as tempestades, durante longo periodo do anno, difficultam a lucta
pela existencia, não podiam ser habitadas pelas divindades do Olympo.
O ceu puro da Grecia, a limpidez da atmosphera jámais escurecida por
tempestades terriveis, a amenidade do clima, os contornos suaves dos
montes, o murmurio poetico dos pequenos rios, as frescas florestas de
platanos em valles abertos, o perfume de flores variadas, o sabor
delicado dos fructos, em summa, as excellentes condições climatericas e
geographicas da Grecia permittiram ao genio popular a creação de uma
familia de divindades, em quem o amor sensual, o gôso physico e a
belleza das formas traduziram admiravelmente a doçura das forças
naturaes.
As vagas enormes, revoltas e furiosas dos mares arcticos não podiam
gerar a belleza do Eterno Feminino. Das ondas serenas do mar Egeu,
coroadas de espuma branca e transparente como finissima renda, que
vinham quebrar-se com suavidade sobre a areia dourada das costas do
Peloponeso, nasceu o formoso corpo de Venus, a expressão ideal da
belleza da forma.
E, todavia, germanos e gregos eram da mesma raça, d'esses aryas brancos
e louros que dos confins da Bactriana, talvez por caminhos differentes,
haviam emigrado, seguindo a trajectoria do Sol, que lhes indicava
propheticamente a sua grande obra, a futura civilisação da Europa.
Se fizermos tambem estudos sobre raças differentes, chegaremos aos
mesmos resultados.
A _anthropomorphose_ da idéa de Deus é lei fundamental do espirito
humano e até hoje o manancial mais rico de productos artisticos de todas
as ordens. A representação physica e a definição moral da divindade
derivam, sem a menor duvida, da idealisação e da generalisação das
qualidades physicas e psychicas do homem. Pode haver duvida se, conforme
o _Genesis_, o homem foi creado á imagem e similhança de Deus; é, porém,
indiscutivel que na constituição d'este symbolo lhe demos muito da nossa
forma e ainda mais do nosso espirito.
Eram polytheistas as raças aryanas, segundo parece. A duvida pode nascer
de que na Grecia o polytheismo pertencia ás classes populares, emquanto
os sabios criam na Unidade do Espirito. Assim, Anaxagoras, Socrates e a
sua escola, em que floresceram os maiores sabios, philosophos,
estadistas e artistas do grande seculo de Pericles, acreditavam na
unidade de Deus; eram monotheistas.
Seja como fôr, é facil de comparar a forma e o espirito de Jupiter, do
Monte Olympo, com os de Jehovah, do Monte Sinai, isto é, a concepção da
divindade entre aryas polytheistas, os gregos, e semitas monotheistas,
os hebreus.
A figura sombria e magestosa de Jehovah não só era feita á imagem e
similhança do caracter hebreu; mas reflectia, tambem, a grandeza
melancholica da cordilheira do Libano e das montanhas da Palestina.
Esse Espirito, vivendo fóra do cahos e creando a ordem entre os
elementos, eternos como elle, pelo esforço da propria vontade
omnisciente, ora energico e duro, ora manso e amoroso, pedindo a Abrahão
o cruel sacrificio do filho e contentando-se com a offerta no templo de
algumas pombas brancas, era o reflexo d'esse clima da Palestina, onde,
umas vezes, furiosas tempestades electricas rasgam as calliginosas
nuvens e os raios fazem explodir os rochedos, ou o _simoun_, soprando
dos areiaes ardentes da Arabia, secca as plantas e prostra os homens;
onde, outras vezes, os ventos frescos do Mediterraneo, fazendo voar no
ceu azul bandos de nuvens brancas, levam a frescura e a vida á flora
tropical riquissima das campinas da antiga Judéa.
Se apreciarmos bem a natureza essencial dos factos mythologicos, que
formam a biographia lendaria de Jupiter, encontraremos não o espirito
ardente, sombrio e puro da divindidade hebraica, mas esse caracter
leviano e sensual, que define a raça hellenica, pelo menos no ramo
jonico. Foi ainda a acção do clima, que facetou os caracteres da raça;
foram ainda estes caracteres, que se crystallisaram n'uma forma especial
da idéa de Deus.
Emquanto á influencia do _meio_ social, que poderiamos escrever que não
fossem paraphrases das idéas e copias das leis positivas, que Taine
expoz, com a maior lucidez de espirito e brilhantismo de estylo, na
_Philosophia da arte_, depois applicada á Grecia, á Italia e aos Paizes
Baixos?
De facto, se o _meio_ climaterico e geographico envolve e faceta o
espirito humano, o _meio_ social ou historico tem ainda mais profunda e
directa influencia sobre o individuo. Assim, pode dizer-se, em rigor,
que o homem existe mergulhado n'uma atmosphera moral e intellectual, da
qual recebe, se nos é consentida a phrase, a alimentação animica.
Ora, a acção d'esta atmosphera exerce-se tanto mais energica e
activamente, quanto as manifestações intellectuaes mais dependem do
mundo exterior. A sciencia pode até certo ponto dispensar o applauso das
multidões; a arte, pelo contrario, exige-a, porque o seu principal fim
consiste em corresponder a essa necessidade do bello, que parece ser
qualidade fundamental da alma humana.
Diz-se que Wronski descobriu leis mathematicas, que só poderão ser bem
comprehendidas em seculos futuros. Admittamos a hypothese. Affirmaremos
pela nossa parte que artista algum terá a pretensão de crear primores
para as gerações futuras, sob pena de não ter admiradores actuaes, o que
lhe pede o proprio espirito, e compradores, o que em regra lhe exigirão
as conveniencias particulares.
A regra de boa philosophia que nos aconselha a sermos _homens do nosso
tempo_, é uma lei suprema para os artistas, imposta pela propria
essencia da arte e pelas necessidades animicas e sociaes dos seus
cultores.
Assim, a influencia do _meio_ social, que se exerce sobre todas as
manifestações do espirito humano, actua com maior intensidade nos de
ordem esthetica.
Convem, egualmente, attender á influencia do caracter individual do
artista, ao seu pequeno _meio_ familiar, ao ambiente das amizades e dos
odios que se forma em volta de nós sempre e mais actua sobre os grandes
artistas, em regra, neurasthenicos e possessos da nevrose do genio e do
talento. Taine tambem se refere a este ponto, um pouco ao de leve
talvez. Sem a ousadia de o completar, citemos um exemplo curioso e
caracteristico, um só para não avolumar esta modesta exposição.
É sabido que no seculo XVII Sevilha foi um riquissimo centro de Arte. Na
_casa de ouro_ reuniam-se, dia a dia, poetas, prosadores, pintores e
esculptores, entre elles Cervantes, Quevedo, Murillo, Valdez Leal,
Montañez, Herrera e muitos outros. N'esse seculo a escola hespanhola de
pintura attingira o maior esplendor. Os chefes da escola sevilhana eram
Murillo e Valdez Leal, que aliás é pouco conhecido fóra da peninsula a
não ser pelos eruditos.
Murillo era um santo homem, modesto e simples no viver, um mystico
absorto no amor de Deus e da familia, artista colossal, creado e feito
pelo unico esforço do seu genio e pelo amigavel auxilio de Velasquez.
Valdez Leal, pelo contrario, era um genio atrabiliario, cheio de
emulação ardente a roçar quasi pela inveja, ambicioso e energico, bom
catholico de certo porque era perigoso não o ser no seculo XVII,
principalmente em Hespanha. Genio tinha-o, não tanto como Murillo; mas o
genio transparece nos seus quadros, a nosso ver principalmente no
formoso quadro do _Bispo morto roido pelos vermes da morte_, uma
maravilha de perspectiva, de desenho, de côr e de effeitos de luz.
O caracter d'estes grandes pintores traduz-se nas suas obras. O estylo
vaporoso de Murillo, o seu estylo definitivo, offerece as qualidades do
seu espirito. Colorido suavissimo, contornos um pouco vagos, expressões
bondosas em assumptos mysticos, dão uma impressão ideal aos seus
quadros, dos quaes, se o nome se perdesse, se poderiam deduzir as
qualidades do espirito do auctor.
Valdez Leal tem qualidades extraordinarias, não é duro como João de
Castilho, mestre commum d'elle e de Murillo, nem violento como Herrera;
mas sente-se na sua pintura a influencia da vontade e o azedume do
caracter.
Este exemplo parece-nos ser frisante e podia ser completado com outros,
até entre nós e nos tempos modernos...
Expostas estas doutrinas sobre a influencia do ambiente, que envolve a
evolução da Arte e actua sobre os artistas, convem observar que a acção
do mundo exterior tende a diminuir com o desenrolar do progresso. É,
talvez, esta uma das causas da especie de _anarchia_, que hoje se
observa na producção da Arte e nos estylos dos artistas. O excesso de
individualismo dá, sem duvida, liberdade e expansão aos genios; mas o
genio é a excepção e a regra o talento.
Podemos, pois, acceitar como demonstrado, que a Arte é evolutiva e as
suas phases especiaes, os estylos, correspondem a estados do espirito
humano, sob a influencia das condições particulares da natureza, da
sociedade e até do proprio individuo.
Appliquemos esta doutrina á Architectura, porque os seus productos, pela
propria grandeza e quantidade, se conservam melhor e se perdem menos,
manifestando, assim, menores soluções de continuidade. Limitaremos, por
obvias razões, esta applicação á Architectura religiosa nos tempos
christãos, o assumpto exclusivo d'este livro, fazendo, apenas, um breve
schema.
O Estylo Classico grego, modificando algumas qualidades e ganhando
outras, produziu o Classico Romano.
O espirito do Christianismo, no Imperio do Occidente, obtendo a
liberdade e a acção social, apoderou-se do classico romano, modificou-o,
segundo as necessidades religiosas e do culto, gerando o Estylo Latino.
Ao mesmo tempo quasi parallelamente, o Christianismo no Imperio do
Oriente, fundando-se em outros elementos, creava o Estylo Byzantino. Sob
a acção do elemento barbaro, os dois estylos, caminhando para o centro
da Europa, se nos é permittida a expressão, encontraram-se,
harmonisaram-se, produzindo o Estylo Romanico.
As modificações profundas, occorridas nas sociedades dos seculos XI, XII
e XIII, transformaram o Estylo Romanico, nascendo o Estylo Ogival, que
atravessou tres seculos, para a seu turno se transformar, sob a acção
poderosa da Renascença.
Os estylos são, pois, élos d'essa cadeia de phases architectonicas, que
se estende atravez dos seculos, ligando a inspiração e o trabalho da
Humanidade.
Assim, a Arte é a expressão do bello, e o Estylo a forma particular
d'essa expressão, em determinado periodo historico.
PARTE PRIMEIRA
ORIGENS DA ARCHITECTURA CHRISTÃ
CAPITULO PRIMEIRO
A LUCTA ENTRE O PAGANISMO E O CHRISTIANISMO
O antigo espirito classico, que produzira as magnificas civilisações da
Grecia e de Roma, esmorecia, como esmagado sob o peso da sua propria e
grandiosa obra, quando dois elementos novos, talvez regulados pela lei
suprema da conservação e do perpetuo rejuvenescimento da Humanidade, se
manifestaram com profundo vigor e intensidade no seio das velhas
sociedades decadentes: o Christianismo e a invasão dos barbaros.
Assim, os factos historicos, as idéas e os sentimentos humanos, as
instituições sociaes, a moral, a politica e a arte, se explicam pela
acção reciproca e poderosa dos tres principios, o classico, o christão e
o barbaro, que são as causas efficientes da edade-media e da civilisação
moderna.
Já no tempo de Cesar e de Augusto, os primeiros Imperadores, cuja
grandeza de genio é incontestavel, a sociedade romana entrára em plena
decadencia. Os vicios da antiga Republica, que os bons cidadãos e os
philosophos contemporaneos não haviam podido expungir, cavaram-lhe a
ruina.
O Imperio correspondia, sem duvida, ás necessidades de corrigir ardentes
ambições em continuas luctas, que produzem sempre a anarchia politica, e
de imprimir acção energica e centralisadora á enorme expansão das
conquistas; mas o Imperio trazia na propria essencia dois vicios
terriveis e inevitaveis: o despotismo, a extincção completa das ultimas
liberdades publicas, e a constituição militar, como poder especial
independente dos cidadãos, o _militarismo_ segundo a expressão moderna.
Na agonia da Republica, Catão de Utica previra o desastre. Luctara para
o evitar, chegando até a apontar o homem, Julio Cesar, que devia
destruir o quasi phantasma da antiga liberdade romana. O futuro
Dictador, ainda muito novo, espreitava e preparava, entre os prazeres
dos ricos e dos poderosos da Roma republicana, pelo amor das mulheres,
pela elegancia, pelos costumes faceis e até pela lisonja, a origem da
grandeza, que mais tarde encontrou no proconsulado das Gallias.
Assim tambem, Napoleão, frequentando os salões politicos e litterarios
do Directorio republicano, conseguiu ser nomeado general em chefe dos
exercitos da Italia. Singular coincidencia entre dois homens de caracter
tão parecido, dois genios innegavelmente; um procura nas Gallias, a
França, outro na Italia, a Republica Romana, as origens de futuros
imperios!
Durante o Imperio, pelo menos nos primeiros tempos, as ambições foram
enfreadas pela existencia do poder perpetuo da dictadura; mas, se
algumas das antigas instituições conservaram os nomes, foram-lhes
tiradas a pouco e pouco as ultimas funcções. Os fracos lampejos da
liberdade republicana em breve se extinguiram na escuridão profunda do
mais feroz despotismo, até hoje conhecido. O Cesar era dictador e
pontifice-maximo, o soberano absoluto dos povos e o chefe espiritual das
consciencias.
Tambem é certo que a energia da centralisação politica e administrativa
do Imperio facilitou o espirito conquistador e a conservação das
conquistas, mais do que o podia fazer a esphacelada Republica; mas, como
consequencia logica, estas mesmas condições favoraveis prepararam o
militarismo. Os exercitos nacionaes da Republica tornaram-se as legiões
cesarianas do Imperio, que lhes pagava e as dirigia, transformando-se a
pouco e pouco em guardas do Imperador. Era natural e logica esta
confusão entre o homem e o principio. A nação, o povo, a liberdade, os
direitos dos cidadãos, tudo desapparecera encarnado na pessoa de um
Cesar deificado.
Os resultados eram fataes. Tiberio creou as _guardas pretorianas_ para
defeza da pessoa do Imperador. Sentindo a sua força, os _pretores_
imperiaes completaram depois logicamente a doutrina e as guardas
pretorianas começaram a escolher os Cesares.
O despotismo e a centralisação do Imperio accentuaram, assim, as causas
da decadencia da sociedade romana, dando-lhe, apenas, por algum tempo um
falso aspecto de força e de grandeza.
Nos ultimos annos da Republica era já, na realidade, profunda a
desmoralisação das classes superiores. O ouro das depredações, feitas
nas provincias conquistadas, os costumes luxuosos e dissolutos,
importados com o ouro dos povos orientaes, os grandes latifundios, em
que se dividia a Italia, possuidos por familias poderosas, haviam
amollecido a antiga rigidez do caracter romano. São ainda hoje citadas e
celebres as prodigalidades da magnificencia e do luxo de Lucullo,
_questor_ da Asia.
As despezas excessivas de um estado de guerra constante em regiões
differentes e afastadas, a defeza de vastissimas fronteiras, já então
ameaçadas em mais de um ponto, as estradas e as respectivas obras,
pontes, castellos, campos entrincheirados, que constituiam a admiravel
rede de communicações militares romanas dentro e fóra da Italia, as
espoliações dos grandes e pequenos funccionarios, exigiam o ardor do
fisco, motivavam-lhe as violencias, exercendo-se, como sempre, sobre as
classes populares.
Estas pessimas sementes, lançadas no campo da democracia, ainda haviam
sido contrariadas durante a Republica por instituições e franquias
populares. O Imperio, nivelando a sociedade abaixo de um Cesar deificado
de quem tudo e todos dependiam, extinguindo as ultimas liberdades,
creando uma especie de côrte de grandioso fausto, que no tempo de
Elagabalo attingiu as loucuras orientaes nos costumes e no luxo,
desenvolvendo por necessidade o espirito e as forças militares,
accentuou estas causas de decadencia. Nos começos do Imperio, um
philosopho epicurista, Petronio, deixou-nos uma face viva d'esse estado
moral e social, n'uma satyra celebre e cheia de vigorosa ironia, o
_Satyricon_.
A religião polytheista perdera o prestigio e a força. As classes
superiores professavam um epicurismo devasso, elegante e atheu. O povo,
sem crenças, debatia-se na miseria politica e economica. Os mythos do
polytheismo podiam interessar imaginações ardentes e poeticas; mas não
consolavam desgraçados, que sobre a terra sentiam apenas, sem uma
esperança, a rudeza do trabalho, as crueldades da dôr e o receio da
morte.
Os deuses tinham perdido o seu prestigio, porque não faziam milagres;
esses deuses alegres e devassos, que acceitavam os Cesares por collegas
e o deixavam, a elle, pobre povo, soffrer e morrer de fome, mais
miseravel e esquecido do que as bestas das cavallariças imperiaes...
A religião precisa de milagres, como a politica de grandes e
espectaculosos factos, para se engrandecerem aos olhos dos simples. Esta
necessidade do espirito humano mais vulgar comprehendeu-a Jesus Christo,
o honesto e bom, o illuminado pela Justiça Divina, elle, que tanto lhe
repugnava fazel-os.
A philosophia oppunha ainda impotentes esforços ao desabar da sociedade
romana; mas bem na essencia era tambem epicurista. Além d'isso, prégar a
moral pelo valor da propria moral, dizer aos simples de espirito que a
virtude tem em si o proprio premio, exaltar a humildade e a pobreza aos
pequenos, quando os soberbos e os ricos avassalam os bens e os prazeres
do mundo, é doutrina assás abstracta que só comprehendem os philosophos,
embora ás vezes não a pratiquem. Seneca, no principio do Imperio,
ensinava esta doutrina ao povo romano, escrevia livros elogiando a
pobreza; mas o philosopho esquecia-se, apenas, de que era feliz e
riquissimo. A philosophia só é uma grande força, quando o exemplo
acompanha a palavra.
Por esse tempo, principio do Imperio, na provincia romana da Judea,
manifestou-se o Christianismo. As causas efficientes d'este esplendido e
profundo movimento do espirito humano não podem ser desenvolvidas e
estudadas em trabalho d'esta natureza.
A egualdade entre os homens de todas as raças e condições, o amor e a
fraternidade humanas enunciadas como leis supremas, a fé profunda na
existencia de um Deus justo, feito á imagem e similhança da bondade e da
doçura de Christo, a esperança n'uma vida eterna de felicidade e de
goso, merecido premio das virtudes e boas obras sobre a terra, doce
compensação dos soffrimentos d'este mundo, emfim, a essencia delicada do
Christianismo desceu sobre os desgraçados, os pobres, os enfermos, os
escravos, essa enorme legião de miseraveis, affagou-os, levantou-lhes as
almas, como a chuva fresca e crystallina levanta as cearas resequidas
por longo sol ardente.
Falar aos escravos em liberdade, egualal-os aos senhores,
reconhecer-lhes alma e direitos sobre a terra, embalal-os com a visão
mystica de uma vida eterna, nunca o polytheismo tivera esta linguagem
eloquente, nem os philosophos e os moralistas classicos haviam
professado taes doutrinas.
Devemos observar que a escravidão no mundo classico era um facto
legitimo, consequencia logica das organisações sociaes. O cidadão livre
dirigia o Estado, o escravo trabalhava e produzia. As democracias gregas
e a romana, como no Oriente, professavam a divisão das castas, embora
mais adoçadas. A cabeça, os braços e os pés tinham funcções hierarchicas
differentes. A grandiosa estatua social repousava sobre o plintho da
escravidão: se o destruissem, o colosso ruiria em pedaços.
Alem d'isso, o numero de escravos em Italia, principalmente na grande e
populosa Roma dos Cesares, era enorme; prisioneiros de guerra uns,
outros reduzidos á escravidão hereditaria ou por varias causas, mas em
grande parte da mesma raça dos senhores, ou de raças equivalentes. A
escravidão moderna defendeu-se, por longo tempo, recrutando as victimas
entre as raças negras ou indias da America, consideradas inferiores. O
escravo do mundo antigo, recordando-se da passada liberdade, ou
sentindo-se do mesmo sangue dos senhores, devia experimentar bem no
fundo da alma o sentimento de revolta, que nenhuma miseria humana
consegue suffocar. As grandes sublevações servis, principalmente a
ultima de Spartaco, um seculo antes de Christo, confirmam estas
observações.
A doutrina de Christo, cheia de amor, de esperança e de bondade, era
tambem de molde para suggestionar a alma da mulher, incutindo-lhe a fé e
o ardor do proselytismo. O espirito feminino é um instrumento perfeito e
delicado. A natureza creou as mulheres para nossas amantes e mães, as
duas expressões mais finas e elevadas dos sentimentos humanos; por isso,
se não lhes concedeu outros em larga escala, as notas da alma feminina
são n'estes de deliciosa finura, ás vezes incomprehensivel para os
homens vulgares.
A mulher classica estava bem longe de ter subido ao logar elevado, que
depois lhe deu o Christianismo no seio da familia. A grega vivia isolada
no _gyneceo_, leve sombra do serralho dos povos orientaes. A romana
subira um pouco; sendo, porem, ainda considerada sujeita ao marido, como
os filhos ao patrio poder.
O divorcio entre os antigos era um facto corrente e facil; ora, a mulher
sente que o seu logar é na familia. O adulterio, crime horrendo para as
mulheres, soffria em geral penas infamantes ou a morte. A mulher
classica era, em summa, uma serva, uma filha, uma forma de propriedade
do marido.
O Christianismo tornava-a companheira e egual ao homem. Christo dissera
que o casamento na terra se mantinha no Ceu. Jesus defendera a adultera
e, um dia, glorificou a loura mulher de Magdala, envolvendo a prostituta
no doce manto do seu amor, glorificando-a perante os homens e salvando-a
perante Deus.
O Christianismo tinha a linguagem, eloquente e expressiva, que entendem
logo os simples e as mulheres.
Assim, nos primeiros tempos, o florilegio christão é riquissimo em
martyres femininos. A mulher morre pela religião de Christo com a fé e a
resignação, diremos mais, com a vontade e a energia do homem. É um facto
singular d'este bello e grandioso movimento do espirito humano.
O polytheismo era a religião da forma e da belleza, cheia de mythos
absurdos e incomprehensiveis, religião de culto externo, secca
philosophia encarnada em symbolos obscuros. O Christianismo era a
religião do espirito, replecto de doces verdades e de sentimentos
adoraveis, religião de culto interno, moral clara e divina que Jesus
Christo expozera com phrases singelas no bello sermão da montanha.
Os prophetas hebraicos haviam dito que seria espiritual a religião do
futuro e constituiria o patrimonio da humanidade; que a piedade valia
mais do que o sacrificio e o conhecimento de Deus mais do que os
holocaustos. Nós vemos hoje realisada a grande obra de Christo. Os
prophetas viram o futuro a quarenta seculos de distancia!
Assim, se explica como o Christianismo teve uma expansão enorme, apenas
começou a ser evangelisado entre os povos classicos, sujeitos ao jugo do
Imperio. O _meio_ estava preparado, a doutrina era excellente.
Os que soffriam os males de espirito, os que padeciam as doenças da
carne, os pobres, os enfermos, as victimas da sociedade classica,
affluiam ás catecheses, bebendo com soffrega delicia o filtro espiritual
do Verbo Eterno.
A diffusão da religião christã em Roma, logo nos primeiros annos,
constitue um facto assombroso na historia do proselytismo. Já no anno 64
de Christo, o grande incendio, que devorou parte importante de Roma,
pôde ser attribuido á malevolencia dos adeptos das novas idéas,
considerados conspiradores contra o Imperio e gente de costumes
suspeitos e mysteriosos. Nero iniciou as perseguições, o que demonstra o
espirito que reinava em Roma e o numero avultado de christãos, que
impelliam os poderes constituidos a extinguil-os pela força e pela
violencia.
Os melhores imperadores romanos, assim considerados ainda hoje pelo
genio politico e pelo caracter pessoal, foram os maiores perseguidores
dos christãos. Trajano, Marco Aurelio, Deocleciano alargaram as
perseguições pelas vastas provincias do Imperio. O sangue correu em
jorros, sem distincção de edade e sexo. A lucta foi terrivel e desegual
entre as idéas classicas, que então representavam a ordem, e as idéas
christãs, innovações perigosas e immoraes, segundo a critica do tempo.
Os primeiros tres seculos do Christianismo constituem o periodo
brilhante dos martyres, cujo sangue cimentou a _pedra_, sobre a qual
Jesus Christo fundára a sua Egreja.
As perseguições não foram simples actos de crueldade, como o suppozeram
os christãos, que depois imfamaram os imperadores, fazendo a historia a
seu modo. Eram actos politicos; ora, a politica de força e de violencia
confunde-se com facilidade com a violencia de odios e de crimes. Eis o
que explica a furia singular e ardente dos bons imperadores romanos
contra o Christianismo.
O poder em exercicio é sempre conservador por natureza e essencia; deve
sel-o até, entre certos limites, por deveres de responsabilidade. O
Christianismo apresentava-se como uma revolução nos espiritos, a
transformação radical da religião pagã em que se fundavam as sociedades
classicas. A consciencia da egualdade e da liberdade humanas atacava a
intima essencia do paganismo, substituia-lhe a moral, modificava-lhe a
politica e feria de morte os principios da sua organisação economica.
O despotismo repousa sobre a passividade dos cidadãos, precisa d'elles
inertes de vontade, movendo-se como automatos sob rigida disciplina, ás
ordens respeitadas e não discutidas do poder supremo. É a lei da
constituição do despotismo, que seguiu mais tarde Santo Ignacio de
Loyolla, quando pretendeu oppor a terrivel machina de guerra, a
Companhia de Jesus, aos progressos da Reforma.
O Christianismo creava homens livres e conscientes; embora o seu
espirito mystico tendesse infelizmente a destruir as qualidades civicas,
o _civismo_ a virtude das sociedades classicas. Além d'isso, o
Cesar-Imperador era o _pontifice-maximo_, poderiamos dizer o papa da
religião pagã. O Christianismo atacava-o nas duas principaes origens do
poder despotico, fazendo sair do marasmo e da podridão o espirito humano
e matando-lhe a influencia religiosa sobre milhões de individuos. É
verdade que Jesus Christo dissera: _dae a Cesar o que é de Cesar e a
Deus o que é de Deus_; mas... dissera-o sorrindo...
Estavam, pois, gravemente ameaçadas as grandes forças do Imperio; a
segunda, a organisação religiosa, condemnada sem remedio e talvez fosse
a principal. Constantino protegeu o Christianismo desde os primeiros
tempos do seu reinado; mas só se baptisou alguns dias antes de morrer. O
grande estrategico-politico, usando da força do Christianismo,
apoiando-se n'elle, não abdicou o cargo e a importancia de
_pontifice-maximo_, isto é, a influencia sobre o paganismo, senão nos
ultimos momentos da sua vida.
Eis como se explica a lucta tremenda entre as duas doutrinas, uma
representando o mundo antigo, outra que trazia em si o germen das
futuras sociedades. Admiravel manifestação da força irresistivel da
verdade e da justiça!
O Imperio Romano, o maior poder que até hoje viu a terra, e o paganismo,
que formára tantas civilisações e creara a philosophia, a sciencia e a
grande arte classicas, esses dois colossos, dispondo de tudo que tem
força e valor n'este mundo, levantaram-se com impeto terrivel para
esmagar o verbo simples e verdadeiro de um judeu desconhecido da
Gallilea. E a força e o poder cairam vencidos pela Idéa!
Jesus Christo, envolvido em pobre tunica, acompanhado de poucos
discipulos, pronunciára a sentença da destruição do paganismo, quando do
alto da montanha, com voz doce e suave, annunciou á Humanidade o bello
preceito: _Amae a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a vós
mesmo_.
A revolução estava feita. Christo foi a encarnação da Idéa, que então
correspondia ás necessidades intellectuaes e moraes da Humanidade e
preparava os seus futuros destinos.
Admiravel manifestação da força irresistivel da verdade e da justiça!
CAPITULO SEGUNDO
OS TRES PRIMEIROS SECULOS DO CHRISTIANISMO
Pelas razões expostas no precedente capitulo, era muito difficil e
perigosa a situação do Christianismo, nos primeiros seculos. As grandes
perseguições repetiam-se, sempre com maior intensidade e crueza, sob os
successivos imperadores, que, muito naturalmente, procuravam conquistar
a força e a sympathia da opinião publica pagã, exigindo d'elles as
violencias e as atrocidades caracteristicas das luctas religiosas. No
intervallo d'estas exacerbações de odios, a desconfiança e a vigilancia
insupportaveis e constantes opprimiam o gremio dos christãos, que,
aliás, nos primeiros tempos devia ser constituido em geral por elementos
pobres e obscuros, sem força alguma na politica e na administração do
Imperio.
Este estado de cousas prolongou-se desde as primeiras manifestações
visiveis do Christianismo em Roma, em data impossivel de fixar, até ao
reinado de Constantino, isto é, durante um periodo de mais de tres
seculos. A ultima e mais formidavel perseguição foi ordenada por
Diocleciano no anno 303 da éra christã. A tetrarchia, que então
governava o Imperio, facilitou esta colossal e longa perseguição,
estendendo-a por todas as provincias romanas, com a crueldade e o vigor
que manifestam sempre as medidas extremas de salvação publica.
Durante estes tres seculos terriveis, a grande maioria dos pobres e dos
ignorantes, que constituia a associação christã, não tinha qualidades,
nem gosto, nem tempo, para cultivar as artes, aliás já bem decadentes
n'essa epoca. Perseguidos pelas auctoridades romanas, dominados por
ardente proselytismo, em continuas catecheses, vivendo receiosos entre
perigos e miserias, não lhes sobravam, decerto, vontade e tempo para
cultivar as artes, ainda que para isso possuissem qualidades estheticas.
O Christianismo era doutrina tão espiritual, fazia depender tanto a
felicidade da prece e da virtude, elevando a alma a Deus e conduzindo-a
ao Ceu, que as formas visiveis do bello, a plastica das artes, deviam
ser consideradas inuteis, se não peccadoras, aos olhos dos crentes. O
mysticismo da edade-media e a seita dos Iconoclastas estavam latentes no
Christianismo nascente.
Alem d'isso, os christãos perseguidos, considerados inimigos da
sociedade pagã, não podiam construir templos, nem ter formas publicas de
culto, imagens de Deus e dos martyres, sempre o melhor manancial da
Arte, que nos seculos futuros produzirão phases artisticas de grande
valor. Nem eram ricos, ao menos, para cultivar as artes, suppondo que o
ardor da propaganda e o espirito da religião lhes consentissem o culto
pagão da forma.
A religião precisa de reunir os seus adeptos, para mutuamente avigorarem
a fé e incitarem a esperança. Sem a communidade dos fieis, a religião
toma o aspecto de simples philosophia, mais ou menos completa, fria, sem
vigor de propaganda, porque as multidões, ligadas pela mesma idéa, teem
em si o condão singular de excitar o enthusiasmo, essa embriaguez d'alma
que a leva até ao sacrificio.
Os christãos reuniram-se, sem duvida, desde os primeiros tempos; mas
essas reuniões eram clandestinas, como as dos conspiradores dos tempos
modernos. Os logares mais occultos e afastados deviam ser os preferidos.
Era logico. Quando o gremio religioso cresceu, e cresceu rapidamente,
não devia ser facil problema encontrar logares amplos e seguros para a
communicação dos fieis e as necessidades do culto, embora nascente e
simples.
A estas necessidades correspondiam as _catacumbas_, vastos subterraneos
que existiam em volta do centro populoso da Roma dos Cesares. A religião
christã em Roma desenvolveu-se debaixo da terra, como para symbolisar a
acção da Idéa Nova, que ia minando e corroendo as bases das antigas
sociedades pagãs.
O auctor d'este livro visitou em Roma uma das mais famosas _catacumbas_,
a de S. Calixto. Percorrendo os subterraneos, lobregos e humidos
labyrintos de encruzilhadas, guiado pela luz mortiça de uma lampada,
sentiu na alma a poesia do passado, revelaram-se-lhe a fé e a esperança,
doces e profundas, que os seus _irmãos_ em Christo, de ha dois mil annos
quasi, sentiam, quando receiosos mas resolutos vinham por entradas e
caminhos differentes reunir-se no sanctuario, para a admissão de
neophytos e para as praticas religiosas.
N'aquella atmosphera pesada e humida pareceu-lhe ouvir ainda os
primitivos canticos, a historia poetica dos martyres mortos que a
linguagem eloquente do espirito religioso dava aos vivos, como exemplo.
Enthusiasmou-se com a fé simples e primitiva, nutriu a esperança firme e
serena na desejada victoria; emfim, durante algumas horas, sentiu-se
possesso, deliciosamente possesso, da energia de vontade, da pureza de
sentimentos e da firmeza de crenças de um iniciado d'esses primeiros
seculos do Christianismo.
Galerias sinuosas e extensas de secção regular, um metro por dois
metros, cruzam-se com angulos muito abertos, formando um complicado
tecido de subterraneos, excavados em tufo escuro, porôso e infiltrado de
agua. Nas duas paredes lateraes d'estas galerias, longas filas
horisontaes de sarchophagos, sobrepostos por vezes em tres ordens, foram
excavadas na rocha branda. Eram as sepulturas dos primeiros christãos.
Nos tempos primitivos, provavelmente, esses sarcophagos foram fechados
por lapides; mas hoje, abertos e negros á luz vacillante da lampada,
essas filas extensas de buracos teem um aspecto monstruoso, infundem um
sentimento de pavor e de espanto, terriveis quando no fundo de alguns se
vêem ainda branquejar os ossos e as caveiras de seres, que soffreram e
morreram ha quasi dois mil annos.
De grandes em grandes espaços, estas galerias alargam-se, ou convergem
umas poucas, formando subterraneos amplos de maior altura de abobada
natural. São os sanctuarios, ou as cryptas. Nas catacumbas de S.
Calixto, existe n'estas condições uma grande sala de forma rectangular,
que, sem duvida, constituia o templo, para onde se descia de fóra por
longa escadadaria, construida depois de Constantino, isto é, da
liberdade do Christianismo. Do lado esquerdo do templo, passa se para a
grande crypta de Santa Cecilia. Parece attestar que ahi foi depositado o
corpo da nobre e rica dama de Roma, uma esculptura na parede
representando uma mulher luxuosamente adornada. Esta crypta communica
com a dos Papas, assim chamada por conter um grande numero de Pontifices
do terceiro seculo da era christã. Sarcophagos de pedra de esculptura
archaica conservam ainda os restos dos martyres, uns esquecidos, outros
beatificados ou santificados pela Egreja.
Dedalos de corredores, constituindo enormes necropoles, sobrepõem-se ás
vezes em dois e tres andares e, se é verdadeira a affirmação,
estendem-se nas catacumbas de S. Calixto por mais de quinze kilometros.
O reconhecimento da liberdade religiosa do Christianismo tirou ás
catacumbas a importancia primitiva. Transformadas em logares de
veneranda tradição, conservadas, talvez, para cemiterio de alguns
christãos mais afamados, as catacumbas soffreram modificações na
anterior disposição. Assim, nos sitios mais importantes foram rasgados
_luminarios_, que deixam passar luz de fóra, tenue e duvidosa, e
_arcocelios_ que enfeitavam e cobriam sarcophagos de pedra. Estas obras
parecem de caracter posterior á emancipação do Christianismo e a logica
leva a crel-o.
Eis, em rapidos traços, os caracteres geraes d'estes sombrios
subterraneos, onde nasceu a luz brilhante do Christianismo e os grupos
cada vez mais numerosos _de homens de boa vontade_ construiam os
alicerces das modernas sociedades.
É evidente que até ao seculo IV os christãos, sob a acção da vigilancia
pagã, não podiam construir templos. A architectura christã, pelo menos,
nasceu depois d'este seculo. O mesmo se póde dizer sobre a esculptura
dos arcocelios e dos sarcophagos, grandes peças difficeis de trabalhar
dentro das catacumbas e impossiveis de transportar de fóra, por longos
corredores estreitos, sob as vistas dos agentes das perseguições, que o
eram todos os adeptos e defensores do antigo polytheismo.
A arte d'este tempo é ingenua. Consiste, como é de crer, em esculpturas
grosseiras. A maior parte das pinturas, se muitas existiram, deve tel-as
desfeito o tempo. Além d'isso, não nos parece facil distinguir hoje o
que foi feito no tempo das perseguições, ou depois da liberdade do
Christianismo, em que as catacumbas deviam ser consideradas logares
santos e concorridos pela veneração dos fieis.
Estas razões, que nos parecem fundadas, circumscreveram ainda mais a
acção dos artistas christãos dos seculos primitivos. A arte n'esse tempo
limitou-se a pinturas e esculpturas simples, baixos relevos ligeiros,
verdadeiros traços profundos desenhando figuras informes, ou ingenuos
symbolos, uns adequados do paganismo ao espirito da nova religião,
outros creados, como linguagem mysteriosa, que só os iniciados podiam
ler e comprehender. Assim, o peixe, symbolo de Jesus Christo, é um
emblema muito espalhado nas catacumbas. Era necessario, com effeito, ser
iniciado para comprehender que Ichtus, em grego o peixe, representava
aos olhos dos fieis as primeiras lettras das palavras mysticas: _Jesus
Christo, Filho de Deus, Salvador_.
Inutil seria e prolixo, n'este ponto, descrever os symbolismos
religiosos, que envolvem um ligeiro caracter de arte: a pomba e ás vezes
Psyche alada, que representavam a alma; a ancora a esperança; o ramo de
oliveira a paz; e tantos outros symbolos e allegorias, que ainda hoje se
encontram nos costumes da Egreja e na tradição dos povos christãos.
Na realidade, tudo isto não constituia verdadeira arte; muito embora nas
primeiras egrejas do Estylo Latino possamos encontrar elementos trazidos
das catacumbas. As cryptas dos templos lembram as das catacumbas. Os
tumulos de pedra dos martyres e santos, que nas catacumbas serviam de
altares, apparecem mais tarde no Estylo Latino. São usos respeitados; a
tradição santifica-os, conserva-os e transforma-os. Eis ainda um exemplo
da evolução da Arte.
Taes eram as condições sociaes e moraes do Christianismo, antes do IV
seculo. No anno 306, Constantino, filho de Constancio Chloro tetrarcha
das Gallias e da Bretanha, foi proclamado imperador pelas legiões
gaulezas.
O grande periodo da Edade-Media vae começar em breve. O poderoso
Imperador Constantino, o genial espirito do primeiro christão coroado,
parece presidir a este periodo historico, em que se accentua a evolução
e o poder do Christianismo, creando novas sociedades e novos estylos de
Arte.
Constantino era um grande homem e um profundo politico. Sem falarmos na
unidade e na organisação do Imperio, que elle creou com admiravel
energia e sagacidade nem sempre clementes e doces, dois actos seus
demonstram-lhe o valor: a protecção concedida ao Christianismo e a
escolha da situação de Byzancio, para capital do Imperio. Estes dois
factos, além de influencia enorme sobre a conservação do Imperio,
tiveram acção profunda e decisiva na evolução social da religião e das
artes christãs.
É evidente que esta evolução tinha de existir, porque, já antes do
reinado de Constantino, o Christianismo, moralmente vencedor, não podia
ser suffocado; mas o movimento seria diverso, talvez mais lento e de
caracteres secundarios differentes. Os grandes homens não conseguem
crear as opportunidades, nem modificar as causas profundas que
transformam o modo de ser animico e social da humanidade; comtudo, o
genio aproveita-as, imprime-lhes caracter especial, dirige-as em
determinado caminho, de entre os variados de que dispõe a natureza e o
espirito para se approximar indefinidamente do fim supremo, os ideaes do
bem, do bello e da justiça.