espirito com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende
tambem a este ramo, que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual
se adquire nos theatros, e d'aquella urbanidade que não é filha da
imitação; mas de uma intelligencia dirigida pela razão--tão util ao
homem na sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle
pertence.
Sou sinceramente
amigo fiel e affectivo
_M._
[1] Talma, primeiro actor tragico do theatro de Paris.
BIBLIOGRAPHIA
(Padre Senna Freitas--Cunha Vianna--Monsenhor Joaquim Pinto de Campos)
_Padre Senna Freitas._ NO PRESBITERIO E NO TEMPLO, vol. I, _Livraria
Internacional de E. Chardron. Porto. 1874._--Este primeiro tomo
comprehende dezesete artigos que se rivalisam na excellencia da doutrina
e da linguagem. Alguns, sem destoar da seriedade do livro, movem o
leitor a um sorriso complacente. N'este genero, estrema-se o intitulado
_Asphyxia... pela imprensa_. Tem resaltos de graça e nervo
epigrammatico. Faz lembrar as paginas felizes de Luis Veuillot nos
_Odeurs de Paris_. «Livros, opusculos, livrorios, livrecos, nacionaes,
nacionalisados, _in folio_, _in quarto_, _in octavo_, em dezeseis;
obesos, normaes, anemicos, succulentos, indigestos, aquosos; edicionados
aos mil, aos dous, aos tres mil, de mais de dez a menos de dous tostões;
impressos a capricho, moldurados, coloridos, iriados, rendilhados,
casquilhos.» (Pag. 215 e 216).
Recenseia d'esta arte o snr. padre Senna Freitas as producções
asphyxiosas; mas não se deprehenda que elle, o illustrado escriptor
respiraria melhor oxygeneo em regiões onde escasseassem prelos e
authores. O que o suffoca é o gaz acido carbonico das inepcias em
dicção, em philosophia, e em moral. Contra as da linguagem protesta o
snr. Senna Freitas, abrasado nas risonhas coleras do padre Francisco
Manoel do Nascimento: «Pois ha nada comparavel em elegancia castiça de
terminologia áquellas paginas e áquellas columnas arrebicadas de
gallicismos, e anglicismos tão expressivos e engraçados que deixam a
nossa lingua corrida? Travemos, por exemplo, d'uma gazeta (salvas, bem
entendido, as que fazem honra ao jornalismo). A pouco fundo, já lá
apparecem a boiar os «meetings», os «comités», as recriminações do
articulista contra as «chicanas» parlamentares, e as «coalições»
ministeriaes, e o estylo por demais «descosido» em que se exprimiu o
deputado fulano de tal, etc... Passemos á revista interna e
noticiosa--prosegue o analysta bem humorado.--Acaba de dar-se um
successo tristemente «remarcavel» que o noticiador conta «em detalhe»
aos leitores, «tirando d'elle partido» para fazer uma discreta
consideração moral. Em seguida, dá um leve «golpe de vista» pelo
«high-life» da terra, e analysa o ultimo livro publicado por... que é na
sua apreciação um verdadeiro «chefe d'obra.» (Pag. 219).
E assim, com razão e discreto sal, o esclarecido moço, que tão digna e
exemplarmente allia o viçor da idade ao respeito do habito clerical, vai
desfiando o ruim tecido dos maus livros, quer na fórma, quer na
substancia.
Culpa os romances nimiamente realistas de perversores dos bons costumes:
«Ha o romance serio, instructivo, philosophico, moral, espiritualista,
da tempera do _Promessi Sposi_ de Manzoni, que nos transporta a uma
atmosphera salubre, onde se respira um ar impregnado de oxygeneo; que
photographa todo o lado bello, puro e grande da humanidade. E ha o
romance enervante, declinação insipida e interminavel d'_elles_ e
d'_ellas_; o romance bohemio ou cigano, composto pelo mancebo
apaixonado, que come no _restaurante_ de terceira classe, e morre etico
aos vinte e cinco annos; e o romance realista ou positivista, ainda peor
que o precedente, sem ideal algum; condensado de todos os miasmas da
lama, de todas as corrupções do esphacelo, e de todos os sarcasmos e
negações do atheismo, sem outra esphera por conseguinte mais que a
materia pura, só por uma ironia de mau gosto chamado _a alma nova_.»
(Pag. 227 e 228).
Acato a opinião do snr. Senna Freitas, quanto ás novellas descriptivas
da vida contemporanea; mas desliso da severidade do seu juizo. Creio que
assim como os bons e moralissimos romances não morigeram, tambem os
immoraes não desmoralisam. Não são os romances que formam os costumes
bons e maus; são os costumes que fazem os romances. E casos ha em que as
novellas saturadas de virtude são inverosimeis e puramente phantasticas.
Eu já escrevi algumas, nomeadamente as _Lagrimas abençoadas_ e as _Tres
irmãs_. Ninguem acreditou aquillo; e toda a gente aceitou como copias do
natural _Os brilhantes do brazileiro_ e _A mulher fatal_--dous livros
miasmaticos, que só podem lêr-se com o interior do nariz plantado de
alfadega e mangericão. Quando o marquez d'Urfé escrevia as suas novellas
pastoraes, embrincadas de polidissima cortezia nos amores, vivia-se em
França, pouco mais ou menos, como nos romances de Soulié, de Kock e de
Feydeau. Ha de tudo. Ha muitissima gente honesta que lê a _Lelia_ de
Sand, e muitissima gente de ruins manhas que lê a _Fabiola_ do cardeal
Wisemann. Sem embargo estes reparos não desluzem a efficacia das
considerações do snr. Senna Freitas.
Da summa do seu livro direi, com sincera admiração e devida justiça, que
se revela ahi um excellente escriptor, um padre illustradissimo, um
homem de bem, um argumentador convicto e em grande parte irrefutavel.
D'este modo ajuiza o author da sua obra: _É um livro christão que não
fará ruim companhia junto ao lar das boas familias: nada mais._
É muito mais; porque afervora as crenças tibias, alvoroça as almas
marasmadas na indifferença religiosa, descondensa a escuridade que fez
noite algida nos corações abatidos pela desgraça. O snr. Senna Freitas
nobilita o clero portuguez e honra as letras patrias. Se não fosse a
palavra _religião_, quem explicaria tão obscura vida em tão alumiado
espirito?
Congratulo-me com o meu benemerito amigo Ernesto Chardron, quando vejo
entre as edições da sua copiosa livaria a estreia gloriosa do snr. Senna
Freitas.
* * * * *
_Cunha Vianna._ RELAMPAGOS com um prologo por _João Penha_. _Livraria
Internacional. Porto, 1874._--O author está na primeira florecencia dos
annos. Reçumbra-lhe do rosto a branda tristeza dos que soffrem com o
encontro da incerteza nos umbraes da vida. Nuta entre os parceis, quando
as vagas descahem, e lhe abrem um vacuo onde as idealisações lhe não dão
pé, nem o positivismo ancora. É um dos muitos, cuja salvação depende de
pouco: a experiencia da vida, o entrar na inanidade das cousas, o
acordar com a cabeça ferida na corrente que fecha a galé dos obreiros do
ideal--especie de somnambulos que fallam comsigo proprios, como João
Penha, o redactor do _Prologo_.
Este, ainda assim, tem momentos de apégar no commum da vida. O seu
fechar dos sonetos conhecidos e decorados é sempre a zombaria das altas
cousas, dos raptos á divindade que se esconde, e aos mysterios do céo
que atira estrellas a milhões sobre os seus interrogadores. O paio de
Lamego e o presunto de Melgaço raro deixam de testemunhar que o espirito
de João Penha é escorreito, e que a poesia, quando lhe apparece, como as
revoadas das andorinhas, passa, não deixando de si no azul um vestigio
de saudade.
O snr. Cunha Vianna está ainda entre os poetas de consciencia e
inspiração. N'estes seus poemas não ha os desmandos e dislates que
individualisam a poesia ultimamente inventada. É muito moço, e a sua
musa parece filha da que floreceu em Portugal ha trinta annos. Não se
dôa por isso o esperançoso escriptor. Do bom senso dos seus versos ha de
derivar-se o bom senso da sua prosa. Quando as flôres fenecerem, e os
fructos se desabotoarem, verá quanto proveitoso é ter sido, a um tempo,
o interprete do vago da alma e o aprendiz do positivo dos bons
diccionarios.
Entre as suas poesias escolho um fragmento da _Armada_ para que o leitor
se convença de que lhe não inculco no snr. Cunha Vianna um arrolador de
podridões, de anemias, de chloroses, e de tanta outra moxinifada com que
intentam fazer-nos da imaginação hospital.
N'este poema, o oceano interroga Portugal algemado na grilheta do
despotismo. Veleja ao longe a esquadra da Terceira que aprôa ao Mindelo.
O grande Atlante pergunta á armada o seu destino:
--Somos a Liberdade!
a esplendida epopéa!
a voz da humanidade!
o sol da Nova-Idéa!
Somos, oh monstro aquatico,
o verbo democratico,
tão forte como Deus!
mais rijo que a tormenta!
Astros, descei dos ceus!
Nuvens, descei do espaço!
vinde beijar o traço
das nossas naus possantes!
Nós somos os gigantes,
os Cyclopes modernos:
vimos livrar os mundos
de horrificos infernos.
Vimos fazer a guerra,
bradar a Torquemada:
--pódes fugir da terra,
que o teu imperio é nada!
Somos a Liberdade!
a esplendida epopéa!
a voz da humanidade!
a luz da Nova-Idéa!
«--Eu vos saúdo, ministros
d'uma idade d'esplendores!
Expulsai corvos sinistros
d'essa terra de condores!
--aves d'arrojo inaudito,
que muitas vezes s'elevam
ás solidões do infinito!
Que lindo paiz! é vêl-o:
por toda a parte boninas,
e, mais além, do Mindelo
as vicejantes campinas!
E mais ao longe a cidade,
que reflora ao Douro a estancia,
a Ostende da liberdade,
nova rival de Numancia!
--o Capitolio altaneiro
d'um povo livre e guerreiro,
que, n'um heroismo ardente,
unico, bello, e assombroso,
roubou mais d'um continente
ao meu reino tormentoso!
Heis de vencer, porque a historia,
a virgem que vos inspira,
já vos prepara na lyra
os hosannas da victoria!
Vencerá ao retrocesso
quem este abysmo venceu:
tendes por guia o progresso--
d'esta idade o Prometheu!»
* * *
Tempos depois a luz da nova aurora
illuminava os montes e a cidade!
A tyrannia, aniquilado o sceptro,
como livido espectro
lá transpunha os umbraes da soledade;
e um povo inteiro, a quem a paz inflora,
salvava estrepitoso
o brilho radioso
da augusta Liberdade!
Eis aqui um poeta.
* * * * *
JERUSALEM, por _Joaquim Pinto de Campos_, etc. _Lisboa, 1874._--Precede
este precioso livro uma carta do snr. visconde de Castilho. Ahi se
annunciam primores, quanto ao modo como a obra é escripta, e se dá de
suspeito o snr. visconde quanto á substancia, ao contexto da idéa.
«Creei-me semi-pagão entre pagãos millenarios do melhor engenho,
sociedade minha ainda hoje», diz o grande poeta, em quem reviveram as
almas de Anacreonte e Ovidio.
Comprehende-se este retrocesso no rasto esplendoroso que nos leva até
casa dos Mecenas; mas, se ahi nos convida Petronio para uma cêa de
Trimalcião, dá-nos vontade de fugir para uma das ágapes lôbregas em que
o bocado de pão se ungia de lagrimas.
Magestade, estrondo, alegrias, febris prazeres e infernaes delicias tudo
teriam de seu as musas pagãs com que deleitar a inspiração e o officio
dos seus dilectos; mas poesia, a sincera, a ideal, a que aformosêa a
vida dentro dos abysmos das suas quedas, essa não nos vem herdada de
Horacio nem de Catullo: deu-nol-a o christianismo.
Aos muito affeiçoados a reliquias do velho Oriente suscita o monsenhor
Pinto de Campos as reminiscencias dos cyclos anteriores á sagração do
local em que passaram os lances da divina missão de Jesus Christo. A
cada passo, resaltam ahi recordações da Roma imperial, com todos os
accessorios que lhe lustraram a prosperidade como contraste da voragem
que de um hausto a sorveu para sempre apagada.
O livro é tão de molde para todos os paladares, cinge-se tão caroavel ao
deleite do curioso, do sabio e do devoto, que a ninguem será estranho o
prazer da leitura. Em duas palavras qualifica um doutissimo critico
fluminense o livro do snr. Pinto Campos: _para mim tenho que a opinião
classificará esta obra entre as de mór vulto que este seculo ha visto em
lingua portugueza._ (Reflexões de um solitario relativas ao livro
_Jerusalem_, pag. 3).
Evidentemente, o snr. Pinto de de Campos conhece e exercita as menos
communs bellezas da nossa lingua. Já o haviamos admirado nas fluencias
descuidadas da conversação, antes de o reconhecermos no purismo d'este
livro perfeitamente executado. O seu estylo tem a sobriedade, a
parcimonia de enfeites que se adquirem quando a sã e alumiada razão os
escolhe. As pompas e os recamos da dicção occorrem-lhe a ponto com
rigorosa propriedade. A unção religiosa dos quadros nunca é prejudicada
pelos estofos da rhetorica. As figuras cedem a sua luz ficticia ao
brilho permanente da verdade. A relanços descriptivos da Terra Santa,
resôa ás vezes o dizer chão e affavel de fr. Pantaleão de Aveiro,
alternando-se com os raptos vehementes da piedade de Chateaubriand e do
apaixonado lyrismo de Lamartine; mas tudo isto tão nosso, tão portuguez,
tão condimentado do idioma de Sousa e de Bernardes, que não póde ser
senão de monsenhor Pinto de Campos.
O leitor, que lê os telegrammas vindos do Brazil, já viu que lá se
ergueu uma voz calumniadora acoimando de plagiario o author da
_Jerusalem_. Sem interposição de tempo, sahiu pela honra e lealdade do
calumniado escriptor um dos maiores sabios que hoje se contam
viventissimos na rareada fileira dos sinceros homens de letras em
Portugal. Parece-nos ter entrevisto no _Solitario_, que tão egregiamente
repelle os detrahidores de Pinto de Campos, o conselheiro José Feliciano
de Castilho, o mais poderoso talento alliançado á mais tenaz memoria de
que temos noticia, e, mais que noticia, lição aturada e incansavel.
Eis aqui a repulsão da aleivosia, que trasladamos textualmente:
Li uns artigos em que, confrontando-se trechos da _Jerusalem_ com outros
semelhantes das obras de Pozada Arango e de Perinaldo, se qualificam
essas transcripções de _plagiatos escandalosos, furto na mão, bocca na
botija, acto proprio para fazer subir o pejo ás faces do culpado, motivo
de indignação_, etc., etc. Assim enfeixadas as injurias, não se dirá que
as attenuo; e quanto ao facto da reproducção d'esses e outros passos no
soberbo livro, começo declarando que elle é real, licito; publicado,
antes de o ser pelos censores, pelo proprio escriptor; e que, nas
circumstancias d'esta polemica, pouca prova de lealdade de quem occulta
essa declaração com que o author de antemão desmorona todo esse castello
de cartas. Ah! isso não convinha aos sinceros Aristarchos: esmerilharam
tudo, mas fecharam olhos nada menos que sobre o peristilo do monumento,
ao qual apenas fazem uma referencia vaga, passando como cão por vinha
vindimada.
«O author podia, como grande numero dos seus predecessores em um
assumpto d'esta ordem, reproduzir aquillo que bem entrasse no plano da
sua obra, em materia de descripções, de averiguações e narrações dos
successos, sem citar as fontes. Pois acaso inventa-se a religião?
Inventa-se a historia? Inventa-se a natureza? Inventam-se factos? Sempre
que em tudo isso se toca, é evidente que se repete o que já se ha dito;
e todas as vezes que essas descripções estão bem feitas, que utilidade
ha em alteral-as? Nada haveria mais facil que dar sempre as mesmas idéas
por diversas palavras, mas n'isso então é que se daria manifesta má fé,
porque transpareceria a intenção culposa, o que nunca póde imputar-se a
quem, uma ou outra vez, traduz litteralmente de livros que andam em
todas as mãos.
«Não desenvolverei este ponto em these, como tão facil seria;
limitar-me-hei a demonstrar a candura com que monsenhor Pinto de Campos,
logo ao romper o seu livro, nos denunciou... isso mesmo que hoje se lhe
assaca? Completa elle o seu prologo (pag. XVI e XVII), revelando a quem
vai lêr, que transcreveu largos trechos de escriptores antigos e
modernos; enumera os principaes d'esses escriptores; affirma, com
inexcedivel modestia, que só a ess'outros (o que é descabido) deve ser
restituida qualquer gloriola, que das suas paginas se possa colher; que
se embrenhou na floresta d'esses authores; que das flôres d'elles sugou
o mel. Transcreverei (com as almejadas aspas):
«Na averiguação e narração dos successos, tomei por norma _seguir os
varões_ doutissimos e diligentissimos, _citando lealmente suas palavras
ás vezes, muitas outras suas sentenças_; assim como é certo que lhes
addicionei outras muitas, que pelo proprio estudo alcancei... _Segui_ de
preferencia a Sagrada Escriptura, Flavio José, S. Jeronymo, e entre os
proporcionalmente modernos, Quaresmio... Em muitos outros, antigos e
modernos, _procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos
os quaes fiquei mais ou menos devedor; se n'este rescende alguma
fragrancia, a elles e não a mim se deve_. Sem ordem nem de merito nem de
idades, aqui apontarei Adricomio, Biagio Terzi, Calmei, Mariano Morone
de Maléo, Chateaubriand, Lamartine, conde Marcellus, Valiani, Geramb,
Poujoulat, MICHAUD, fr. Pantaleão d'Aveiro; MISLIN, fr. Lavinio,
Renazzi, Gaume, POZADA ARANGO, Escrich, Munk, Dupin, De Saulcy, Saint
Aignan; e particularmente os padres Dupuis e PERINALDO me foram de
INEXCEDIVEL AUXILIO... Não se destina esta enumeração a ostentar pompa
de erudição; serve, ao contrario, para _restituir a outros_ qualquer
gloriola que de entre estas paginas podesse ser colhida. Solícita
abelha, embrenhei-me n'essa vasta floresta e sem estragar as flôres,
_suguei-lhes o mel_; e se em alguma havia veneno, lá o deixei.»
«O que ahi fica (idéa que mais de uma vez apparece reiterada no corpo da
obra), constitue um luxo de precauções, a fim de que nenhum mal
intencionado ousasse attribuir-lhe a intenção de locupletar-se com a
jactura alheia. «Eu segui varões doutissimos», «suas palavras ás vezes,
muitas outras suas sentenças.» «Em muitos authores procurei flôres que
em meu ramilhete ennastrasse, e a todos fiquei mais ou menos devedor.»
«Apontarei entre estes Pozada Arango, Michaud, Milsin.» «Particularmente
o padre Perinaldo me foi de inexcedivel auxilio.» «Se n'este ramilhete
rescende alguma fragrancia, a elles, e não a mim se deve.» «Seja a elles
restituida qualquer gloriola que d'entre estas paginas podesse ser
colhida.» «Na vasta floresta dos authores citados, suguei o mel de suas
flôres. »
«Santo Deus! É n'estas circumstancias que se imputa a um escriptor a
perpetração de (nada menos!) _plagios escandalosos_! O que ahi fica, se
pecca é pela repetição, até á saciedade, do proprio facto com que os
inimigos hoje o criminam. Foi innocentemente o monsenhor quem deu essas
armas contra si. Leram no prefacio os seus detractores que elle
declarava haver transcripto numerosos passos de Michaud, Mislin, Pozada
Arango; e que Perinaldo principalmente lhe havia sido de inexcedivel
auxilio. O processo da malevolencia tornava-se, desde então,
singelissimo.
«Ah! elle diz que ha um escriptor chamado Perinaldo, que lhe foi de
inexcedivel auxilio? que ha um Pozada Arango, etc., de quem extrahiu as
proprias palavras, ás vezes, ou sentenças? que para este ramilhete
colheu d'esses livros muitas flôres, e as mais preciosas? Ora, copiosas
flôres, colhidas de livros, não podem ser rosas, nem malmequeres, são
forçosamente paginas. Toca a procurar esses livros, cuja existencia elle
nos patentêa; a pesquizar ahi os trechos do que nos revela ter-se
apoderado; e depois, lançando-lhe em rosto o que elle mesmo nos
denunciou, tripudiaremos, e subindo ao capitolio, iremos render graças
aos deuses!»
«Em tal procedimento, a lealdade pede meças á justiça.»
Delida a macula com que a malevolencia, aborto de odios politicos,
tentou denegrir a mais notavel obra modernamente escripta com os
primores da lingua portugueza por um brazileiro--que entre os seus e os
nossos a escreve como os distinctissimos--não temos senão a louvar o
grande alento que tirou a salvo de tropeços esta obra perduravel com que
monsenhor Pinto de Campos brindou os seus conterraneos e os da patria de
seus avós. Já conheciamos e reverenciavamos o orador religioso e
parlamentar. Agora lhe recebemos de sua mão um livro que vamos reler e
collocar entre os que nos ensinaram a escrever.
QUE SEGREDOS SÃO ESTES?...
Fosse terror ou sentimento fosse
De mais occulta origem...
GARRETT.
A pallida doença lhe tocava
Com fria mão o corpo enfraquecido.
CAMÕES.
I
--Fui hoje vêr á casa da saude o Duarte Valdez.
--O nosso companheiro de casa em Coimbra?
--Justamente.
--Que tem elle?
--Os dias contados.
--Tisico?
--Perguntei ao doutor Arantes que doença era a do Valdez. Fez com os
hombros um tregeito significativo de que a medicina nem sempre tem
alçada para devassar das doenças que matam, e denominal-as com
terminações inflammatoriamente gregas. Quando, porém, é a alma que mata
o corpo, os medicos lavam d'ahi as mãos como o governador da Judêa.
Tive este dialogo, em Lisboa, ha hoje doze annos, e, seguidamente, fui á
casa da saude no largo do Monteiro.
Quando, na ida, atravessava o jardim da Estrella, sentei-me a encadear
as lembranças vagas e desatadas que eu tinha de Duarte Valdez.
Tres épocas me occorreram.
Primeira, a da nossa jovial convivencia em um casebre da Couraça dos
Apostolos, em Coimbra, no anno 1845. Segunda, outra menos modesta e
menos alegre camaradagem de quarto, no hotel Francez, do Porto, em 1851.
Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se
formára. Elle contentára-se com um diploma de insufficiencia em
rhetorica, e eu com a prenda não commum de arpejar tres varios fados na
viola. Não rivalisavamos em sciencia. Formavamos da nossa reciproca
ignorancia um conceito honesto. Não queriamos implicar com sabios, nem
para os invejar nem para os detrahir.
A terceira época ou terceiro encontro foi em 1856. Vi-o em S. João da
Foz, e ouvi-lhe revelar mysteriosamente que estava emboscado em uns
arvoredos, entre Lordello e Pastelleiro, com uma extremosa e estremecida
menina, fugida aos paes. Não me recordo os pormenores d'estes amores que
elle me disse serem os primeiros e ultimos. Tenho, porém, a certeza de
que me ri d'uns _amores ultimos_, aos vinte e cinco annos de idade.
N'aquelle tempo a fuga de uma menina qualquer não era successo por tanta
maneira horrido, que eu devesse desmaiar na presença do meu acelerado
amigo. Eu já contava então uns decrepitos vinte e nove annos, e conhecia
varios acontecimentos impudicos, por exemplo, aquelle da D. Hermenigilda
d'Amarante, que eu exhibi ás lagrimas do publico sensivel nas _Scenas da
Foz_. Aquella especie de pellicula carmezim que assetina a epiderme do
rosto, e se chama _pudicicia_ nos droguistas da moral, tinham-m'a delido
as aguas lustraes da nossa civilisação pagã, para o que tambem muito
contribuiram as reuniões semanaes da Philarmonica, na rua das Hortas,
onde os rabecões entravam cheios de cupidos e sahiam cheios de suspiros.
Muitas senhoras portuenses, que hoje cedem a primazia da ternura ás
filhas, viram n'aquellas salas da Philarmonica os anjos com quem se
maridaram. Os annuncios das festas lyricas, enviados dos corações aos
corações, rezavam assim: _Sabbado, ás 7 da noite, musica de Mozart, e
Laços de Hymemeu_. Tudo antigo e bom.
Isto veio a proposito de eu não ter uma congestão de pudor, quando
Duarte Valdez me segredou que se embrenhára nas selvas rumorosas do
Pastelleiro com uma menina perdida de amor, e tão cega de alma que já
não via na imaginação, sequer, as lagrimas da mãi, e o mortal abatimento
do pai que a amaldiçoava.
II
O enfermeiro-mór da casa da saude conduziu-me ao quarto de Duarte. Com
certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O
espasmo dos olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições,
quasi sumidas na desgrenhada cabelleira e nas barbas. Immobilisava-lhe o
semblante a sinistra quietação da demencia contemplativa.
Tambem elle me não reconheceu a mim, sem que eu lhe dissesse o meu nome.
Fitava-me com repulsão, como se a presença de um desconhecido o
molestasse fortemente; porém, depois que eu me nomeei, sahiu do torpor,
levantou-se de golpe, e abraçou-me com transporte.
--Que tens tu, Duarte?... Estavas aqui, e não me participavas?
--Eu não sabia que estavas em Lisboa, nem tinha a vaidade de suppôr que
ainda me conhecesses. Desde que te fallei na Foz, em 1856, nunca mais
nos encontramos nem escrevemos.
--É verdade; mas nem por isso me eram estranhos os principaes passos da
tua vida. Soube que casaste...
--Sim... casei...
--Com aquella menina que então... estava comtigo?
--Não...--respondeu Duarte com assombrado aspecto, e um sacudir de
cabeça indicativos de azedume por tal pergunta.
Hesitei, á vista de tão subita mudança, se devia proseguir em tal
interrogatorio. Foi elle quem interrompeu o silencio, repetindo: