Para provar que o cothurno não é feito para os nossos poetas lusitanos,

basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de

Castro, assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena,

tanto nos tempos antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos

nossos poetas portuguezes, não só pelo interesse da acção, mas por ser a

acção passada entre nós, e que para excitar a compaixão tem de mais a

historia que a proclama verdadeira. Tres ou quatro tragedias temos na

nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e uma só d'ellas o

immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada correspondem a

um assumpto igualmente sublime que pathetico. Não fallo da primeira e

mais antiga de Antonio Ferreira, que passa aliás por poeta classico

entre nós, e na qual se não acha a força de sentimentos, a violencia das

paixões, postas em jogo para trazerem imminentemente a catastrophe que

finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a intriga mal combinada e

tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador conhece, desde o

primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes dialogos, em

que as personagens que os declamam não tem bastante força para mostrarem

todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos da

côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o

amor fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos

dôces e sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira

introduziu por intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos

gregos, é o que ha n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella

poesia, e tão pathetica, que movem o coração á maior sensibilidade.

Outra tragedia, que temos sobre o mesmo assumpto, composta por o arcade

Alcino não tem merecimento algum: as regras do theatro não são

observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os sentimentos

friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um caracter

forçado e não tirado da natureza da acção, d'aquella acção que deriva de

paixões complicadas e violentas, que deviam ser mais energicamente

desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem entrecho de uma

tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que não é poeta

tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais pela

musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no

segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios,

quasi sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me

ha annos vêr representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D.

Ignez de Castro tirada de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la

Barca, intitulada _Reynar despues de morir_. Esta peça foi geralmente

applaudida e gostada pela energia e força de alma, com que uma actriz,

chamada Cecilia, representou o papel de D. Ignez de Castro; mas esta

peça deveu ao genio e aos talentos d'esta actriz o bom successo que

teve, pois que examinando a contextura da peça, ella tinha os defeitos

da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons versos; mas

pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta

infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado

debaixo do solio, era coroado e solemnemente proclamado pelo seu amante,

já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto muito

tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos

de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena,

que pela sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não

parece ser uma segunda acção, que se representa? onde está pois a

unidade da acção tragica, que é o primeiro preceito da tragedia? A

coroação da rainha na mesma peça é tão irregular, quanto é novo de

sentar em um solio o cadaver de uma princeza, assassinada no seu proprio

palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio de um sepulcro.

Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á lembrança para

mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida pelas musas

aos portuguezes.

N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma

tragedia com o titulo de _Nova tragedia de Ignez de Castro_. Esta peça

observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas

scenas elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta

igualdade. O fim ou o desatado da intriga é a catastrophe, que vem um

pouco precipitada e não trazida por um jogo de paixões, susceptiveis de

modificações differentes, que levam o coração humano ao excesso da

paixão que agita e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos

e as scenas ainda mais. A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de

Castro, que é uma das mais interessantes da peça, não póde satisfazer os

espectadores, que vêem que um rei se occupa da sorte da infeliz Castro,

de quem se separa, dizendo-lhe que vai para o conselho de estado, onde

ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a sua causa. Que enormes

incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe; não é uma acção

generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se no seu

sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem

póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei

convoca para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio

simplesmente politico. E então que triste personagem faz elle em advogar

pela infeliz Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em

que elle mesmo póde dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que

verdadeiramente são algozes! Esta scena podia ser conduzida mais

nobremente, conciliando a bondade do rei, que se mostra interessado a

favor de Castro, com a dignidade da sua corôa, que póde ser enganada

pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é indigno da sua parte

dar-lhes consentimento para serem os executores de um assassinio. Estas

delicadezas não escapariam a Racine nem a Voltaire, se tratassem esta

materia, porque, exactos observadores de tudo o que é decente e

decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito da magestade,

fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um

monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela

soberania é sempre executor da lei.

Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu

estro n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma

tragedia, que foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais

por favor que por justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido

pelos seus talentos litterarios que cultivou no lugar humilde de uma

tenda, compoz outra, cuja sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz

do que a da condessa; e tantos esforços juntos não tem produzido um bom

poeta tragico em Portugal que possa pôr-se ao pé do grande Corneille ou

do sentimental Racine, mas ainda junto dos mais mediocres poetas

tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do principio que

acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no inimitavel

quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua imaginação

sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da natureza,

para as saber pintar com propriedade, e conforme as suas primitivas

creações; para um poeta tragico reproduzir o caracter de Catão, de

Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da infeliz Dido, é necessario que

entre com a sua imaginação no immenso theatro do mundo e contemple a

variedade de successos que os interesses dos homens, as suas paixões, os

motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as suas

almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções

infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana,

quando de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á

corrupção dos costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um

campo largo para o contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta

aos nossos poetas, que levados do gosto dominante da nação, que tem por

objecto o amor, não são pintores para retratarem grandes caracteres, nem

teem imaginação bastante para darem aos grandes successos uma fórma que

mostre todos os horrores dos vicios e todas as bellezas das virtudes,

que é o principal objecto das tragedias.

Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez,

menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não

digo boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta

parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que, sendo os primeiros

que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a fortuna

transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno

acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem

adquirido. As comedias que os nossos poetas do nosso seculo de

Augusto--que é o d'el-rei D. João III--nos deixaram, não merecem sequer

o nome de comedias; o que me não faz espanto, pois que Portugal então

não tinha um só theatro, mais que o dos campos de Marte, e onde não ha

theatros não ha quem componha comedias. A nossa feliz época da boa

litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo primeiro poeta das

Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis comedias, e

a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu pincel

na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal,

se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de

Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os

portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que

aborreciam. Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente

desprezada em Portugal, e o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido

n'este paiz pelos successos politicos, por que passou, fez totalmente

esquecer aos poetas do tempo este genero de composição. Elle se limitava

só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente em

festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam

assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a

piedade christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para

amarem a religião, do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo

Horacio, _castigat ridendo mores_. Não tenho idéa, nem pela historia nem

por tradição alguma, que em Portugal houvesse um theatro em que se

representassem comedias portuguezas, de que não appareciam authores, ou

pelos embaraços da longa guerra, que houve n'este reino para sustentar a

corôa na casa de Bragança, que não deram lugar para a applicação das

artes, ou porque os portuguezes não quizeram imitar os seus inimigos,

exercitando as suas musas na poesia dramatica em que os hespanhoes

excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não tinham theatros

fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na historia de

_Gil Blaz_ a descripção tão circumstanciada como critica. Corriam de

villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis, tres

«Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos

portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de _Santa

Genoveva_, _de Santo Aleixo_ e outros semelhantes, que se davam ao

publico em espectaculo nos dias das maiores festividades da igreja.

Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia, e n'esta

ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o

judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela

poesia, pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são _Labyrintho de

Creta_, _Encantos de Medêa_ e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou

porque trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos

italianos, ou porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia,

e que Molière só fixou em França na época feliz da sua mais brilhante

litteratura. Aquelle engenho, porém, infeliz pela fórma das suas

composições dramaticas e mais ainda pela miseravel sorte que teve de ser

condemnado a morrer queimado pelo santo officio, foi comtudo, o primeiro

que viu as suas operas representadas no theatro do Bairro Alto, o

primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes eram bonecos que

se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos interlocutores, que

se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que se achava a

arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França como o

restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas suas admiraveis

comedias e como um modelo perfeito da mais decente, entendida, natural e

agradavel representação que até então não tinha apparecido em algum

theatro do mundo antigo e moderno.

Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como

Aristophanes tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular

que a natureza lhe tinha dado para imitar na scena as differentes

personagens, que como author era obrigado a representar, causaram o mais

pequeno estimulo aos engenhos portuguezes para o seguirem na carreira

dramatica. As suas musas ficaram mudas n'este ponto, até que el-rei D.

José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao throno, mandou construir

um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais celebres musicos

para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo o gosto

da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de

reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não

gostava, e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois--nem

comedias para se representarem, no caso de o haver; porque, como já

disse, a poesia n'este genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era

tão magestoso que não admittia mais que pessoas de qualidades

superiores; e as que ficavam mais abaixo não indo a elle ignoravam o que

era uma comedia, uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se

punham no theatro real. Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se

com a maior parte da cidade este sumptuoso espectaculo, e, até que a

confusão d'aquella calamidade se ordenou, nem el-rei teve theatro nem o

povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da rua dos Condes, que ainda hoje

existe nas ruinas do palacio do marquez do Louriçal, com algum augmento

que teve, depois da sua primitiva creação. As peças que ao principio

n'elle se representavam eram as operas de Metastasio traduzidas em

portuguez, _Artaxerxes_, _Alexandre na India_, _Demofonte em Thracia_,

_Ezio em Roma_, etc. com relações á maneira hespanhola, e mil

bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as peças mais ridiculas

que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de todo

desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel

de Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores

introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma

composição dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os

directores d'este miseravel theatro pozeram em contribuição poetas

hespanhoes e italianos para sustentarem o theatro.

Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro

Alto, não onde havia o dos bonecos em tempo mais antigo, mas nas ruinas

do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com uma companhia de

musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não durou muito

tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo successo

que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de

arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do

Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os

engenhos portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da

representação, tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro

nacional.

N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr

o pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de

admirar, porque onde os talentos superiores não são apreciados com

justiça e recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem

podem produzir fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias

do homem de gosto fino e delicado das cidades mais opulentas da Europa,

nem terem a esperança de vêr seus nomes inscriptos nos monumentos que os

homens gratos lhes consagram. As artes não florecem senão quando são

immediatamente protegidas e estimadas pelos soberanos; e quer seja

poeta, quer seja actor, se tem talentos distinctos, não merece a

attenção e a estimação do seu principe, quem contribue para fazer a sua

gloria mais brilhante? Os seculos de Augusto, de Leão X e dos Medicis de

Florença, o de Luiz XIV em França não provam esta verdade? Não me

detenho em amplificar estas minhas idéas com outras razões, porque não

padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem pronunciado

protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe tem

erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou

confundida nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos

portuguezes tem esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram

morrer Camões, que dá tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde

esta desgraçada época tem sido os poetas n'este paiz tão pouco

venturosos pela sua arte, que o nome de poeta só entre nós é synonymo de

pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias boas podia pois haver

em um tal paiz?

Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes

n'este genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros

podem rivalisar com os das outras nações que tem formado já um gosto

apurado e exquisito n'aquella parte que se chama representação. Ella não

é mais do que uma simples imitação da natureza, que é o primeiro

principio que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle por

acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as

expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem

para declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos

sem faltar á dignidade e á decencia que exige a personagem que

representa, pronunciar com clareza e energia o que lhe compete dizer, e

mostrar pela physionomia que o que diz vem do fundo da sua alma, sem

estudo nem affectação, são as circumstancias principaes que formam um

bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem pôr em uso. Os

grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a natureza e

seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache, Albano

devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de

imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam

imitar e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os

seus papeis como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que

hão de acabar seja como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa

dos nossos theatros é o mais tolerante povo do universo, pois que soffre

com a maior paciencia todos os actores bons, maus, medianos e incapazes

de apparecerem. Por isso nunca aspiram áquella superioridade, em que o

bom gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã

e judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o

primeiro restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o

primeiro actor da França. Conta-se d'elle que os papeis que representava

recitava-os antes a uma criada que tinha, que decidia, como

intelligente, da sua boa ou má representação, e como bom juiz corrigia e

emendava os seus defeitos. Um dia Molière, para melhor se convencer da

intelligencia d'esta sua criada, recitava-lhe um papel de um author

estranho, que fazia uma grande differença d'aquelles que eram composição

d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o engano, e voltando-se

para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas comedias como um

exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos fará

applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar

secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a

Molière? Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem,

por um modo tão novo e tão extraordinario?

É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa

aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada,

sempre fóra do natural e sempre exprimida em vozes altisonantes, e cujos

dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e musical, estylo

que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á comedia, a

qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica por

uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se

a este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou

criadas que vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que

divertem o publico e que pela maior parte são insipidos, e sem outro

interesse mais que o da risota, acharemos que está entre nós tão

atrazado o jogo da representação theatral, que os nossos actores em

seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer, são proprios

para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma.

Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á

representação da tragedia intitulada _A Vestal_, que traduzira em

portuguez com elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel

da mais brilhante representação pelo seu assumpto e pelos grandes

interesses que n'ella se tratam, foi desgraçadamente tão mal

representada, que pela parte que me toca não me fez a menor sensação.

Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah! famoso Talma[1] que estiveste em

Londres muitos annos com o fim de reunires os talentos da arte theatral

dos dous paizes, que os sabem tão bem apreciar! se tu aqui estivesses,

como verias esta excellente peça despedaçada por semelhantes actores?»

Em uma das scenas apparece o grande pontifice que deve fazer executar a

lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece que sua filha

é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos

sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um

pai, que sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da

lei, primeira obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi

invenciveis da natureza, sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da

lei? Que genio, que talentos, que energia de caracter não são precisos

para desenvolver toda esta opposição de sentimentos que combatem o

coração humano de uma e de outra parte? O pobre miseravel actor era um

automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta afflicção de vêr

a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a indifferença

com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem convém mais

propriamente uma enxada, do que a profissão de uma arte para a qual

lhes faltam todos os requisitos. Esta peça me desenganou inteiramente

da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do estado miseravel em

que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça de verem

estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do

espirito humano.

Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre

n'esta parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos

actores contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos

amam com tanto excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel

distracção aos seus negocios civis, quando ella é cultivada

principalmente por aquelles talentos sublimes que ennobrecem tanto as

nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que souberam

aperfeiçoar.

Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este

assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os

muitos ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e

dos grandes talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com

tocar este ponto pela superficie conforme convinha a uma simples carta,

em que a casualidade quiz que o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer

o nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas

observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado

os theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles

concorrem tão poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando

cada vez mais, o que, a meu vêr, é o principal objecto da instituição

dos theatros.

O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes,

por que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem

n'elles; mas é porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia

tirar de uma escóla de costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor

que as muitas chalaças que ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação

que poderiam ter para aprenderem a ser polidos, decentes, modestos e

virtuosos cidadãos--o que as peças theatraes que estão vendo

representar, todos os dias, lhes não ensinam.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 09 (de 12) · 第 2 / 4 段