basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de
Castro, assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena,
tanto nos tempos antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos
nossos poetas portuguezes, não só pelo interesse da acção, mas por ser a
acção passada entre nós, e que para excitar a compaixão tem de mais a
historia que a proclama verdadeira. Tres ou quatro tragedias temos na
nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e uma só d'ellas o
immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada correspondem a
um assumpto igualmente sublime que pathetico. Não fallo da primeira e
mais antiga de Antonio Ferreira, que passa aliás por poeta classico
entre nós, e na qual se não acha a força de sentimentos, a violencia das
paixões, postas em jogo para trazerem imminentemente a catastrophe que
finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a intriga mal combinada e
tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador conhece, desde o
primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes dialogos, em
que as personagens que os declamam não tem bastante força para mostrarem
todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos da
côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o
amor fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos
dôces e sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira
introduziu por intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos
gregos, é o que ha n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella
poesia, e tão pathetica, que movem o coração á maior sensibilidade.
Outra tragedia, que temos sobre o mesmo assumpto, composta por o arcade
Alcino não tem merecimento algum: as regras do theatro não são
observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os sentimentos
friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um caracter
forçado e não tirado da natureza da acção, d'aquella acção que deriva de
paixões complicadas e violentas, que deviam ser mais energicamente
desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem entrecho de uma
tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que não é poeta
tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais pela
musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no
segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios,
quasi sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me
ha annos vêr representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D.
Ignez de Castro tirada de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la
Barca, intitulada _Reynar despues de morir_. Esta peça foi geralmente
applaudida e gostada pela energia e força de alma, com que uma actriz,
chamada Cecilia, representou o papel de D. Ignez de Castro; mas esta
peça deveu ao genio e aos talentos d'esta actriz o bom successo que
teve, pois que examinando a contextura da peça, ella tinha os defeitos
da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons versos; mas
pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta
infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado
debaixo do solio, era coroado e solemnemente proclamado pelo seu amante,
já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto muito
tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos
de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena,
que pela sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não
parece ser uma segunda acção, que se representa? onde está pois a
unidade da acção tragica, que é o primeiro preceito da tragedia? A
coroação da rainha na mesma peça é tão irregular, quanto é novo de
sentar em um solio o cadaver de uma princeza, assassinada no seu proprio
palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio de um sepulcro.
Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á lembrança para
mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida pelas musas
aos portuguezes.
N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma
tragedia com o titulo de _Nova tragedia de Ignez de Castro_. Esta peça
observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas
scenas elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta
igualdade. O fim ou o desatado da intriga é a catastrophe, que vem um
pouco precipitada e não trazida por um jogo de paixões, susceptiveis de
modificações differentes, que levam o coração humano ao excesso da
paixão que agita e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos
e as scenas ainda mais. A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de
Castro, que é uma das mais interessantes da peça, não póde satisfazer os
espectadores, que vêem que um rei se occupa da sorte da infeliz Castro,
de quem se separa, dizendo-lhe que vai para o conselho de estado, onde
ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a sua causa. Que enormes
incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe; não é uma acção
generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se no seu
sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem
póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei
convoca para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio
simplesmente politico. E então que triste personagem faz elle em advogar
pela infeliz Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em
que elle mesmo póde dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que
verdadeiramente são algozes! Esta scena podia ser conduzida mais
nobremente, conciliando a bondade do rei, que se mostra interessado a
favor de Castro, com a dignidade da sua corôa, que póde ser enganada
pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é indigno da sua parte
dar-lhes consentimento para serem os executores de um assassinio. Estas
delicadezas não escapariam a Racine nem a Voltaire, se tratassem esta
materia, porque, exactos observadores de tudo o que é decente e
decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito da magestade,
fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um
monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela
soberania é sempre executor da lei.
Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu
estro n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma
tragedia, que foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais
por favor que por justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido
pelos seus talentos litterarios que cultivou no lugar humilde de uma
tenda, compoz outra, cuja sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz
do que a da condessa; e tantos esforços juntos não tem produzido um bom
poeta tragico em Portugal que possa pôr-se ao pé do grande Corneille ou
do sentimental Racine, mas ainda junto dos mais mediocres poetas
tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do principio que
acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no inimitavel
quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua imaginação
sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da natureza,
para as saber pintar com propriedade, e conforme as suas primitivas
creações; para um poeta tragico reproduzir o caracter de Catão, de
Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da infeliz Dido, é necessario que
entre com a sua imaginação no immenso theatro do mundo e contemple a
variedade de successos que os interesses dos homens, as suas paixões, os
motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as suas
almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções
infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana,
quando de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á
corrupção dos costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um
campo largo para o contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta
aos nossos poetas, que levados do gosto dominante da nação, que tem por
objecto o amor, não são pintores para retratarem grandes caracteres, nem
teem imaginação bastante para darem aos grandes successos uma fórma que
mostre todos os horrores dos vicios e todas as bellezas das virtudes,
que é o principal objecto das tragedias.
Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez,
menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não
digo boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta
parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que, sendo os primeiros
que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a fortuna
transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno
acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem
adquirido. As comedias que os nossos poetas do nosso seculo de
Augusto--que é o d'el-rei D. João III--nos deixaram, não merecem sequer
o nome de comedias; o que me não faz espanto, pois que Portugal então
não tinha um só theatro, mais que o dos campos de Marte, e onde não ha
theatros não ha quem componha comedias. A nossa feliz época da boa
litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo primeiro poeta das
Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis comedias, e
a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu pincel
na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal,
se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de
Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os
portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que
aborreciam. Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente
desprezada em Portugal, e o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido
n'este paiz pelos successos politicos, por que passou, fez totalmente
esquecer aos poetas do tempo este genero de composição. Elle se limitava
só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente em
festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam
assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a
piedade christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para
amarem a religião, do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo
Horacio, _castigat ridendo mores_. Não tenho idéa, nem pela historia nem
por tradição alguma, que em Portugal houvesse um theatro em que se
representassem comedias portuguezas, de que não appareciam authores, ou
pelos embaraços da longa guerra, que houve n'este reino para sustentar a
corôa na casa de Bragança, que não deram lugar para a applicação das
artes, ou porque os portuguezes não quizeram imitar os seus inimigos,
exercitando as suas musas na poesia dramatica em que os hespanhoes
excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não tinham theatros
fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na historia de
_Gil Blaz_ a descripção tão circumstanciada como critica. Corriam de
villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis, tres
«Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos
portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de _Santa
Genoveva_, _de Santo Aleixo_ e outros semelhantes, que se davam ao
publico em espectaculo nos dias das maiores festividades da igreja.
Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia, e n'esta
ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o
judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela
poesia, pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são _Labyrintho de
Creta_, _Encantos de Medêa_ e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou
porque trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos
italianos, ou porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia,
e que Molière só fixou em França na época feliz da sua mais brilhante
litteratura. Aquelle engenho, porém, infeliz pela fórma das suas
composições dramaticas e mais ainda pela miseravel sorte que teve de ser
condemnado a morrer queimado pelo santo officio, foi comtudo, o primeiro
que viu as suas operas representadas no theatro do Bairro Alto, o
primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes eram bonecos que
se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos interlocutores, que
se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que se achava a
arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França como o
restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas suas admiraveis
comedias e como um modelo perfeito da mais decente, entendida, natural e
agradavel representação que até então não tinha apparecido em algum
theatro do mundo antigo e moderno.
Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como
Aristophanes tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular
que a natureza lhe tinha dado para imitar na scena as differentes
personagens, que como author era obrigado a representar, causaram o mais
pequeno estimulo aos engenhos portuguezes para o seguirem na carreira
dramatica. As suas musas ficaram mudas n'este ponto, até que el-rei D.
José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao throno, mandou construir
um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais celebres musicos
para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo o gosto
da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de
reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não
gostava, e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois--nem
comedias para se representarem, no caso de o haver; porque, como já
disse, a poesia n'este genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era
tão magestoso que não admittia mais que pessoas de qualidades
superiores; e as que ficavam mais abaixo não indo a elle ignoravam o que
era uma comedia, uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se
punham no theatro real. Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se
com a maior parte da cidade este sumptuoso espectaculo, e, até que a
confusão d'aquella calamidade se ordenou, nem el-rei teve theatro nem o
povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da rua dos Condes, que ainda hoje
existe nas ruinas do palacio do marquez do Louriçal, com algum augmento
que teve, depois da sua primitiva creação. As peças que ao principio
n'elle se representavam eram as operas de Metastasio traduzidas em
portuguez, _Artaxerxes_, _Alexandre na India_, _Demofonte em Thracia_,
_Ezio em Roma_, etc. com relações á maneira hespanhola, e mil
bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as peças mais ridiculas
que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de todo
desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel
de Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores
introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma
composição dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os
directores d'este miseravel theatro pozeram em contribuição poetas
hespanhoes e italianos para sustentarem o theatro.
Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro
Alto, não onde havia o dos bonecos em tempo mais antigo, mas nas ruinas
do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com uma companhia de
musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não durou muito
tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo successo
que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de
arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do
Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os
engenhos portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da
representação, tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro
nacional.
N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr
o pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de
admirar, porque onde os talentos superiores não são apreciados com
justiça e recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem
podem produzir fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias
do homem de gosto fino e delicado das cidades mais opulentas da Europa,
nem terem a esperança de vêr seus nomes inscriptos nos monumentos que os
homens gratos lhes consagram. As artes não florecem senão quando são
immediatamente protegidas e estimadas pelos soberanos; e quer seja
poeta, quer seja actor, se tem talentos distinctos, não merece a
attenção e a estimação do seu principe, quem contribue para fazer a sua
gloria mais brilhante? Os seculos de Augusto, de Leão X e dos Medicis de
Florença, o de Luiz XIV em França não provam esta verdade? Não me
detenho em amplificar estas minhas idéas com outras razões, porque não
padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem pronunciado
protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe tem
erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou
confundida nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos
portuguezes tem esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram
morrer Camões, que dá tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde
esta desgraçada época tem sido os poetas n'este paiz tão pouco
venturosos pela sua arte, que o nome de poeta só entre nós é synonymo de
pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias boas podia pois haver
em um tal paiz?
Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes
n'este genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros
podem rivalisar com os das outras nações que tem formado já um gosto
apurado e exquisito n'aquella parte que se chama representação. Ella não
é mais do que uma simples imitação da natureza, que é o primeiro
principio que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle por
acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as
expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem
para declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos
sem faltar á dignidade e á decencia que exige a personagem que
representa, pronunciar com clareza e energia o que lhe compete dizer, e
mostrar pela physionomia que o que diz vem do fundo da sua alma, sem
estudo nem affectação, são as circumstancias principaes que formam um
bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem pôr em uso. Os
grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a natureza e
seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache, Albano
devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de
imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam
imitar e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os
seus papeis como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que
hão de acabar seja como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa
dos nossos theatros é o mais tolerante povo do universo, pois que soffre
com a maior paciencia todos os actores bons, maus, medianos e incapazes
de apparecerem. Por isso nunca aspiram áquella superioridade, em que o
bom gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã
e judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o
primeiro restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o
primeiro actor da França. Conta-se d'elle que os papeis que representava
recitava-os antes a uma criada que tinha, que decidia, como
intelligente, da sua boa ou má representação, e como bom juiz corrigia e
emendava os seus defeitos. Um dia Molière, para melhor se convencer da
intelligencia d'esta sua criada, recitava-lhe um papel de um author
estranho, que fazia uma grande differença d'aquelles que eram composição
d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o engano, e voltando-se
para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas comedias como um
exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos fará
applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar
secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a
Molière? Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem,
por um modo tão novo e tão extraordinario?
É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa
aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada,
sempre fóra do natural e sempre exprimida em vozes altisonantes, e cujos
dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e musical, estylo
que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á comedia, a
qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica por
uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se
a este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou
criadas que vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que
divertem o publico e que pela maior parte são insipidos, e sem outro
interesse mais que o da risota, acharemos que está entre nós tão
atrazado o jogo da representação theatral, que os nossos actores em
seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer, são proprios
para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma.
Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á
representação da tragedia intitulada _A Vestal_, que traduzira em
portuguez com elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel
da mais brilhante representação pelo seu assumpto e pelos grandes
interesses que n'ella se tratam, foi desgraçadamente tão mal
representada, que pela parte que me toca não me fez a menor sensação.
Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah! famoso Talma[1] que estiveste em
Londres muitos annos com o fim de reunires os talentos da arte theatral
dos dous paizes, que os sabem tão bem apreciar! se tu aqui estivesses,
como verias esta excellente peça despedaçada por semelhantes actores?»
Em uma das scenas apparece o grande pontifice que deve fazer executar a
lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece que sua filha
é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos
sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um
pai, que sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da
lei, primeira obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi
invenciveis da natureza, sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da
lei? Que genio, que talentos, que energia de caracter não são precisos
para desenvolver toda esta opposição de sentimentos que combatem o
coração humano de uma e de outra parte? O pobre miseravel actor era um
automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta afflicção de vêr
a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a indifferença
com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem convém mais
propriamente uma enxada, do que a profissão de uma arte para a qual
lhes faltam todos os requisitos. Esta peça me desenganou inteiramente
da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do estado miseravel em
que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça de verem
estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do
espirito humano.
Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre
n'esta parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos
actores contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos
amam com tanto excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel
distracção aos seus negocios civis, quando ella é cultivada
principalmente por aquelles talentos sublimes que ennobrecem tanto as
nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que souberam
aperfeiçoar.
Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este
assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os
muitos ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e
dos grandes talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com
tocar este ponto pela superficie conforme convinha a uma simples carta,
em que a casualidade quiz que o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer
o nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas
observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado
os theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles
concorrem tão poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando
cada vez mais, o que, a meu vêr, é o principal objecto da instituição
dos theatros.
O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes,
por que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem
n'elles; mas é porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia
tirar de uma escóla de costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor
que as muitas chalaças que ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação
que poderiam ter para aprenderem a ser polidos, decentes, modestos e
virtuosos cidadãos--o que as peças theatraes que estão vendo
representar, todos os dias, lhes não ensinam.