--Não, não casei com essa...--e acrescentou, pondo-me no hombro a mão

tremula--casei com outra... que já morreu...

--Morreu?

--Sim, morreram ambas; matei-as eu...

E, erguendo-se, travou-me do braço, levou-me comsigo para a janella, que

abria sobre um jardim, alongou a vista na direcção da cupula do convento

de Jesus, fez um gesto com a mão direita apontando para o céo, e quiz

dizer umas palavras que, abafadas pelos gemidos, pareciam rever-lhe nos

olhos em lagrimas copiosas.

E eu, que poderia imaginar agora phrases muito apropositadas á situação

do meu amigo, não as invento, porque não lh'as disse então.

E quem seria mais verboso que eu, em lance tão desusado? Se elle, com

effeito, havia matado as duas mulheres, eu, na verdade, não devia

ensaiar maneiras de o consolar, dizendo-lhe que, se as matou, fizera

muito bem. Figurou-se-me que Duarte fallára figuradamente. Porque ha

muitos sujeitos, ainda mal, que vivem penalisados com remorsos de ter

matado certas senhoras, sem ao menos admittirem que os medicos

collaborassem com elles. Ora eu que reputára, n'outro tempo, aquelle

Duarte Valdez tanto ou quê desarranjado pelas novellas, attribui ao seu

romanticismo a parte odiosa no assassinio das duas senhoras.

Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgarissima pergunta:

--Como as mataste tu?

--Despedaçando-as uma contra a outra.

Póde ser que o leitor esteja sorrindo; saiba, porém, que o tremor

d'aquellas palavras vibrava tanto do seio do afflicto moço que uns

calefrios me correram a espinha, e o turvamento das lagrimas me embaciou

a vista. Situações analogas terá experimentado o leitor no theatro. Duas

palavras, em uma ficção dramatica, exprimidas pelo actor que pintou os

vincos da desgraça no rosto com fino pó de carvão, obrigam ás lagrimas

pessoas que não chorariam, se a desgraça fosse com ellas.

--Chora, chora!--me disse elle, com vehemente exaltação.--Preciso que me

chorem, porque... eu morrerei, adorando as duas mulheres que matei... e

ninguem me ha de chorar.

--Pódes tu contar-me a tua historia?--perguntei eu.

--Posso... quero contar-t'a; mas receio que m'a não creias... A minha

familia, e os medicos da provincia dizem que eu me deixo matar pela

superstição, indigna da minha intelligencia... É um phantasma que me

mata, dizem elles... Ah! se o vissem! se eu te podesse contar...

--Mas olha, Duarte, conta o que poderes... Eu hei de comprehender das

tuas dôres alguma cousa mais que o vulgar dos homens. Até as

superstições, se as tens, eu t'as entenderei; porque ha infortunios que

não podem entender-se, sem a intervenção de alguma cousa sobrehumana.

--Pois então, vou contar-te a minha desastrada vida... Aquella infeliz

menina que esteve na Foz, ha dez annos--começou Duarte com pausadas

intercadencias--seria a minha bemaventurança, se eu não viesse a este

mundo com a predestinação dos reprobos. Meu pai, desde que eu a tirei da

casa paterna, ganhou-me entranhado odio; não por causa da culpa; mas com

receio que eu remediasse a culpa com o casamento. O seu primeiro acto de

vingança foi dar a casa a meu irmão, e reduzir-me a um patrimonio tão

escasso que não chegaria ás minhas despezas de dous annos. Maria do

Resgate era mais pobre que eu. Não desisti ainda assim de casar com

ella. Pedi um emprego com a eloquencia da virtude desgraçada, já quando

a minha subsistencia corria por conta dos paes de Maria. Estava eu em

vespera de ser despachado amanuense do governo civil de Bragança, quando

meu pai conseguiu inutilisar os esforços humilhantes que eu fizera para

adquirir tão mesquinho emprego. Fui ajoelhar aos pés de meu pai: estava

ao pé de mim, para me defender dos primeiros impetos da ira d'elle,

minha mãi. Eu pedi-lhe simplesmente que não se oppozesse á minha

collocação. Respondeu que se dava por aviltado, se seu filho fosse

exercer tão ignobil occupação; e, sem me dar a confiança de questionar

com o seu orgulho, disse que me dava recursos para estar dous annos em

Lisbôa, ou o tempo necessario para me esquecer da filha do procurador de

causas.

Minha mãi chamou-me de parte, e aconselhou-me que annuisse; na certeza

de que, no espaço de dous annos, se eu não esquecesse Maria do Resgate,

ella conseguiria o consentimento de meu pai.

Cedi forçado pela extrema necessidade. Maria, tão confiada em mim quanto

eu confiava no meu proprio coração, accedeu na ausencia dos dous annos.

Assim que eu sahi para Lisboa, sahiu ella para um convento de Bragança.

Cheguei aqui, e encontrei dinheiro em abundancia, amigos, relações,

mulheres, liberdade, distracções, theatros, cêas, um desafogo de vida

tão agradavel quanto amargurado me tinha corrido o ultimo anno.

Ás vezes, em meio dos meus divertimentos, assaltavam-me remorsos. Era

então que eu respondia ás cartas apaixonadas de Maria, e perguntava a

minha mãi se já tinha conseguido amollecer o duro coração de meu pai.

Respondia-me que esperasse, e Maria respondia-me que esperava uma de

duas cousas, que ambas lhe serviam: sahir da sua cella para mim ou para

a sepultura. Os meus amigos viam estas cartas, e riam-se da minha

credulidade.

Ao cabo de um anno, os remorsos que me incutiam as cartas, já nem a

virtude tinham de as inspirar verdadeiras. Maria graduou por ellas o

sentimento frio que as disfarçava, e disse-me que eu era tão ingrato que

nem ao menos a deixava morrer enganada.

Aborreciam-me já as lastimas e a obrigação de as consolar. Sentava-me

constrangido para lhe escrever. Já me queixava da sua pertinacia em me

accusar de ingrato, quando ella mesma se acommodára á cruel necessidade

da separação. Culpando-a de indiscreta, perguntava-lhe se quereria para

mando um homem que teria de mendigar ou roubar para sustental-a. Aqui

havia uma occulta infamia na mentira. Se eu pretendesse em Lisboa um

emprego, tel-o-hia, sufficiente á sustentação de uma familia modesta;

mas eu, desde que pisei os tapetes dos salões, pensava em ter salões com

tapetes, e desde que as carruagens dos meus amigos me levaram aos

theatros, desejei possuil-as para me desquitar de obrigações aos meus

amigos. Eu estava perdido como meu pai me desejára; estava deshonrado

bastantemente para desviar a imaginação da filha do procurador de

causas, quando as titulares de Lisboa me perguntavam quem era a rainha

dos bailes.

Ao fim de dous annos, minha mãi, quando eu já não perguntava o resultado

das suas diligencias, avisou-me que meu pai vinha a Lisboa, na companhia

de um nosso primo e de nossa prima, chegados do Brazil, com o proposito

de nos visitarem.

Estes nossos primos eram naturaes do Rio de Janeiro. Alli ficára meu

tio, pai d'elles, quando meu avô, que para lá fôra com o principe

regente na qualidade de desembargador do paço, voltou para Portugal. Eu

sabia d'estes parentes, e muitas vezes meu pai dissera que seria

convenientissimo casar um de seus filhos com a prima brazileira, cuja

fortuna rendia mais n'um mez que toda a nossa casa em um anno.

Confesso-te miseravelmente que me sobresaltou o aviso da vinda de minha

prima. Vi salões com tapetes, e vi as suspiradas carruagens. Quem eu não

vi foi a imagem de Maria do Resgate.

Minha prima Olinda era adoravel, ainda sem riqueza.

Este conceito que formei ao vêl-a e ouvil-a, dispensou-me de o formar,

de mim, de grande villão. Amnistiava-me com a idéa de que, sendo ella

pobre, eu a quereria para esposa. Amei-a, é certo que a idolatrei. Não

tenho outra virtude que contrabalance com os meus delictos na presença

de Deus, e d'ella e da outra desgraçada.

Havia dous mezes que Maria do Resgate me não escrevia, quando aqui

chegou Olinda, e, passados dous mezes, sahia eu de Lisboa, casado com

minha prima, a ir visitar minha mãi, para depois ir ao Rio receber os

trezentos contos de minha mulher, e d'alli passarmos a residir em

Lisboa, n'um palacio, com tapetes e carruagens.

Meu pai foi adiante preparar as festas da recepção, e ornamentar as

salas para o baile, e a hospedagem para os convidados da nossa grande

parentella.

Entrei profundamente triste na minha villa. As janellas da casa de Maria

do Resgate estavam fechadas como se houvesse alli morrido alguem. Nas

casas visinhas, havia senhoras e crianças que choviam abadas de flôres

sobre o nosso carro.

Pouco depois que sahimos da mesa do jantar, atravessei com minha mulher

a sala de espera, para descermos ao jardim. N'este transito, vimos sahir

de um canto da sala uma mulher trajada de luto, que marchou de encontro

a Olinda, sem levantar o véo espesso do rosto.

Não a conheci; mas mal podia suster-me de convulso.

--Que tens?!--disse minha mulher.--Esta senhora parece que tem alguma

cousa que me dizer...

--Tenho, sim, minha senhora--acudiu a mulher de luto--v. exc.ª não me

conhece nas salas de seu marido, porque eu sou a viuva de um pobre

procurador de causas que morreu ha quinze dias, quando perdeu a

esperança de vêr remediada a deshonra de nossa filha. Em quanto ella

teve pai, embora perdida no conceito do mundo, tinha o pão, que seu pai

lhe ganhava; mas agora, reduzida á orphandade, á pobreza, e á deshonra,

venho implorar a v. exc.ª que a receba como sua criada, visto que foi

seu marido que a perdeu. V. exc.ª fará o que a sua virtude e caridade

lhe aconselhar.

E sahiu sem esperar resposta.

Estas palavras ouço-as ainda como se a alma da mulher que as disse m'as

estivesse escrevendo na consciencia com um estylete de fogo.

--Que é isto?--perguntou-me minha mulher.

--É uma desgraça que eu te contarei--respondi torvamente.

--Conta-m'a já, e remediêmol-a sem demora--tornou ella.

Escondi-me com Olinda no mais sombrio do jardim, e tudo lhe referi com a

sinceridade de um penitente. Ella ouviu-me com semblante carregado,

avincando a testa, e ás vezes com signaes de compaixão, que de certo não

era por mim.

Depois, ergueu-se, repelliu com brandura a minha mão que lhe acariciava

o rosto e murmurou:

--Eu ignorava tudo isto. Desgraça irremediavel, já agora! Eu quero

fallar com a mãi d'essa infeliz menina.

E assim que foi noite fechada, sahiu com um escudeiro, que a conduziu a

casa da viuva do procurador.

Suspeito que a conferencia versou sobre a rica dotação de Maria do

Resgate. A viuva repelliu a proposta, porque minha mulher voltando ao

seu quarto, disse, como se ninguem a escutasse:

--As deshonradas... de certo não são ellas.

Até aqui--proseguiu Duarte Valdez--não ha nada maravilhoso na minha

historia...

--De certo não; tudo vulgar--obtemperei eu que sabia centurias d'estas

historias, cuja trivialidade nenhum romancista de tino hoje em dia

aproveita da fardagem dos vicios communs.

--O horrivel maravilhoso começa agora--continuou Duarte.--Passados

vintes dias, divulgou-se a noticia de estar moribunda no convento de

Bragança Maria do Resgate. E em uma das seguintes noites, estando eu a

dormir profundamente em um leito proximo do de minha mulher, acordei,

sentindo no pescoço os apertões convulsos de duas mãos que me

estrangulavam; e, abrindo os olhos, vi distinctamente nas trevas o rosto

macerado de Maria muito perto do meu rosto; e, ao mesmo tempo que as

suas mãos me asphyxiavam, sentia que o joelho d'ella me esmagava o

coração. N'este lance dei um grito, e ouvi o estrebuchar de minha

mulher, que soltava uns gemidos afflictissimos, como se lá sentisse

angustias de suffocação iguaes ás minhas. Saltei do leito, e fui á

recamara buscar a lamparina. Quando voltei, minha mulher estava de

joelhos á beira da sua cama, com as mãos postas, com as faces cobertas

de lagrimas, e os olhos esgazeados de terror.

--Que é isto, Olinda?--exclamei.

E ella, escondendo o rosto entre as mãos, murmurou:

--Vi agora a desgraçada menina que tu abandonaste. Já estava

amortalhada. Era formosa como as martyres, e bem mais linda do que eu...

Disse-me adeus... Sabia que eu tinha chorado por ella... Veio dizer-me

que estava remida das suas dôres.

Eu não disse a Olinda que tambem vira Maria do Resgate.

O meu terror abafava-me a voz na garganta. Recorri á oração...--eu que

desde a infancia não tinha orado. Fui ao quarto de minha mãi; acordei-a;

pedi-lhe que viesse commigo para o oratorio. Contei-lhe as torturas da

minha visão, e a visão de Olinda. Ella pegou de tremer e chorar. Se eu

lhe dizia, sobre-posse, que a coincidencia dos sonhos podia acontecer,

sem intervenção do phantasma de Maria, minha mãi não achava isto

possivel, e mais me trespassava de horror.

No dia seguinte, chegou a noticia de ter expirado á uma hora da noite

antecedente a reclusa do convento de Bragança. A pessoa que trouxe a

nova, era encarregada de me entregar o maço de minhas cartas. Em volta

das ultimas, que eu lhe escrevêra de Lisboa, havia uma cinta de papel e

um escripto interposto com estas palavras:

_Quando receber isto, que lhe deixo, para se convencer de que não ha

testemunho escripto da sua crueldade, a mais feliz serei eu, porque

estarei morta. O senhor de certo nunca será feliz, porque infamia e boa

consciencia não se encontram juntas. Perdôo-lhe o que me fez: mas não

posso perdoar-lhe a morte de meu pai nem o desamparo em que fica minha

mãi._

Resta-me dizer-te--ajuntou Duarte, arquejando de cansaço e commoção--que

minha mulher desde aquella hora nunca mais teve um instante de alegria

nem saude. Viemos, passados dias, para Lisboa. D'aqui partimos para o

Rio de Janeiro. Ao cabo de oito mezes, eu estava viuvo, e rico,

muitissimo rico, e cada dia, cada hora mais desgraçado, mais combalido

de uma enfermidade indescriptivel. Voltei ao seio de minha familia. Já

não encontrei minha mãi; e a presença de meu pai coava-me nas veias um

estremecimento de pavor. Ha cinco annos que arrasto esta vida sem a

coragem de a despedaçar. Sinto ainda na garganta a pressão dos dedos

fincados do phantasma. Ajoelho-lhe, alta noite, e imploro-lhe que me

deixe morrer socegado. Peço á alma de minha mulher que suavise com

palavras compassivas a vingança da desgraçada que deve estar na presença

de Deus... Em fim...

E não proseguiu, porque n'este momento entrava o doutor Arantes, o

previsto medico da casa da saude, que, sem ouvir esta narrativa, sabia

que aquelle enfermo devia morrer, pela mesma razão mysteriosa que muitos

atacados de semelhante morbus engordam e porejam saude por todos os

orificios da sua enxundiosa epiderme.

* * * * *

Duarte Valdez, que ainda vi na vespera da sua ida para a Madeira, foi e

não voltou. As supplicas de Olinda lograriam que a misericordia divina o

resgatasse da presa do seu remorso.

_Que segredos são estes da natura?_

Perguntaria Luiz de Camões.

FIM DO 9.° NUMERO

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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 09 (de 12) · 第 4 / 4 段