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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 9--SETEMBRO
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
_Os salões, pelo exc.mo visconde de Ouguella--Condemnação de corpo e
alma--O doutor Botija--O palco portuguez em 1815--Bibliographia (Senna
Freitas, Cunha Vianna, Monsenhor Joaquim Pinto de Campos)--Que
segredos são estes_
OS SALÕES
Os capitulos, assim intitulados e publicados nestes livrinhos, vão ser
reproduzidos em volume com outros, complementares da obra. Teremos,
pois, um livro de mão primorosa, de extenso folego, portuguez na fórma,
bem que estranho á indole nacional. Entre portuguezes, os estudos
sociaes, profundos e largos, não se ajustam á irrequieta vertigem dos
que navegam de costeagem com o baixel da politica.
Aqui proeja-se ao descançado porto das situações gananciosas, e deixa-se
ao acaso resolver os problemas.
O snr. visconde de Ouguella revelou-se n'este severo estudo um espirito
de grande alcance, e discipulo dos que melhormente professam a sciencia
historica. Se algumas vezes a sua penna roça asperrima na crusta das
ulceras que lhe fazem nauseas, resgata-se briosamente avoando ás regiões
altas, no rasto luminoso das augustas verdades.
O livro, que ha de ser a affirmação da honrada consciencia que nunca,
desde a primeira mocidade, apostatou da religião do berço, é dedicado a
uma formosa criança, Ramiro Soares de Oliveira da Silva Coutinho, filho
do snr. visconde de Ouguella.
São maviosas de affecto paternal e de nobre civismo estas expressões que
o pai dirige á alma que se está formando entre as caricias de uma
familia virtuosa: _É incentivo, estimulo e lição, para seguir, como
luzeiro e farol do seu futuro, as nobilissimas tradições liberaes,
legadas por seu avô, e meu presadissimo pai, Ricardo Sylles Coutinho.
Seja este tambem o testemunho do meu acrisolado amor filial._
O prefacio que precede os _Salões_ é igual a elles na elevação e rigidez
da idéa, no donaire e esplendor da linguagem; mas avantaja-se ao
restante como prognostico dos brilhantes capitulos que hão de proceder
de tão desprendido e intransigente programma.
São raros em Portugal os escriptores que, á imitação do visconde de
Ouguella, podem enlaçar a independencia com o talento, e esculpir no
frontal do templo, onde os vendilhões armam tenda de bufarinheiros a
legenda, que lhe compete.
Eis o prefacio:
AO LEITOR
La pensée est pouvoir.
Tout pouvoir est devoir.
VICTOR HUGO.
Este livro tem uma missão, e tem um fim.
Escripto para o povo, a sua missão é levar a luz ás ultimas camadas
sociaes. Diffundil-a no tugurio do operario, e na choupana humilde do
aldeão.
Inspirado nas mais sinceras crenças da democracia, aceita, como fim,
arrancar ás garras d'esse immenso desalento e d'essa torpe
corrupção--que por ahi vai gangrenando as sociedades--os generosos
espiritos populares, para que as almas se não gelem, e os corações--que
vivem de nobres aspirações--se não atrophiem, n'este completo
desmoronamento de todas as instituições existentes.
O author d'este livro não tem pretenções, nem vaidades, nem receios. Não
se julga apostolo, nem propheta, nem vidente. O mais obscuro dos
obreiros d'este seculo--como é, e quer ser--escuta, attento, o ruido que
vai lá fóra, nos paizes onde a idéa tem um culto, onde as crenças
consubstanciam religiões, onde as sociedades se debatem na agonia de
organisações politicas, sociaes e religiosas, que tendem a desapparecer;
e pelo facto de existir, e de se considerar obrigado ás luctas da
existencia, giza o terreno em que combate, sem orgulho, sem odios, e sem
rancores pessoaes.
Volta-se para os seus irmãos no trabalho, operarios tambem--qualquer que
seja a fórma por que exercem a sua actividade, e diz-lhes:
«Eu penso assim. Aqui tendes o producto das minhas meditações, e dos
meus estudos. Dou-vos os lavores do meu espirito. Combatei-me, ou
enfileirai-vos commigo.»
Eis a razão do livro.
Vêde, agora, a sua desenvolução.
O author crê nas inspirações grandiosas do povo, crê na mocidade
estudiosa das escolas, e crê nas leis immutaveis, fataes, e inexoraveis
do progresso, que acompanham a vida das gerações, e que nos conduzem a
uma determinada somma de civilisação, a um especimen de perfectibilidade
relativa, quaesquer que sejam os cyclos de descrença, de abjecto
abatimento, de egoismo individual, e de corrupção momentanea em que se
debatem as sociedades.
O author d'este livro é espiritualista.
Devotado ás leis sagradas e eternas por que se rege a humanidade,
curvando-se, submisso e reverente, á vontade absoluta, que governa, e
dirige o universo, pronuncia a medo, e na humildade da sua existencia, o
nome do Ente Supremo, e crê firmemente, que todos os homens são iguaes.
Ajoelha, e adora a omnipotencia, a infinita bondade, e sublime
misericordia de Brahma, Zeus, Jezeu, Elohim, Jehovah, Allah, Osiris,
Jupiter, Deus, Christna, Christo, finalmente do Eterno--qualquer que
seja o nome sagrado, e mysterioso, por que as gerações modernas o
pretendam appellidar.
O seculo dezoito teve por missão destruir.
O seculo dezenove é a transição, que liga, e une civilisações
heterogeneas, é o parenthesis aberto n'estas luctas do espirito, n'esta
convulsão moral, em que as sociedades actuaes trabalham para se
regenerarem radicalmente, sob um differente aspecto, e aceitando novos
dogmas, e diversas doutrinas.
O author d'este livro não despreza o passado. Não o injuria, não o
diffama, nem o calumnia. Explica-o até, e, por vezes, justifica-o.
Mas aceita jubilosamente a corrente das idéas do seu seculo, e louva o
Eterno na effusão das suas crenças.
Todavia não volta o rosto, como a mulher de Loth, para contemplar
Sodoma.
Só a magestosa omnisciencia do Ser Supremo póde avaliar os entes que
creou.
Ao sentar-se nos bancos das escolas superiores, no prefacio de um
livro--dado a lume por um irmão d'armas, ferido, e cahido moribundo, já,
na arena da discussão, pelas luctas da palavra--escreveu as seguintes
linhas:
«Pergunta-se--se os gozos, se os prazezes pertencem unicamente a um
pequeno numero de homens?--se a maioria, se as classes proletarias, se
os Spartacus da civilisação moderna teem de escolher entre o passamento
ignominioso nas gemonias do seculo dezenove, ou nas barricadas, nascidas
do desespero, que a miseria e o ardor do martyrio obrigam a levantar?
Pergunta-se--se o monopolio, se a concorrencia, são os dogmas injustos e
tyrannicos, que hão de destruir as massas, como o carro do idolo
Jagrenat, entre os indios, esmaga o craneo dos brahmanes, ou se a
associação, esse credo dos assalariados das industrias, que os
economistas victoriam--póde acabar com o pauperismo, e obstar á
ignorancia dos povos, palladio deshumano a que os ambiciosos se
seguram?»
Ainda hoje o author d'estas linhas formúla as mesmas perguntas, com a
mesma severidade, e aceita a responsabilidade d'ellas na tranquillidade
constante, e inalteravel do seu espirito.
A quem o accusar de leviano, de voluvel, e de imaginoso, no seio d'este
hediondo tropel de ambições, que renegam, e apostasiam a cada
hora--redemoinhando, revoltas, em torno do poder, seja qual fôr a sua
origem ou procedencia--responde o author d'este livro com o sorriso do
desprezo, e com a consciencia segura de que não sabe, não póde, nem quer
deslizar nunca da lei augusta e sacrosanta do dever.
Os espiritos, para quem a libré é mais do que um distinctivo, e uma
triste e crapulosa missão, porque chega a ser um sacramento imprimindo
caracter,--esses, que se curvem, que se dobrem, e que degradem a face
humana, varrendo, com a fronte, o pó das alcatifas e alfombras das
regias aulas e alcaceres dos principes, magnates e satrapas do poder.
Pouco importa.
O vocabulo _lacaio_ tem, na sua etymologia, a justa e bem merecida
ignominia.
É a pena que a dignidade humana confere á abjecção.
Um dos primeiros--senão o primeiro escriptor d'este seculo--narra o
seguinte:
«Octavio Augusto, na madrugada da batalha de Accio, encontrou um jumento
a quem o burriqueiro alcunhára ou appellidára _Triumphus_. Este
Triumpho, dotado com a faculdade de zurrar, pareceu-lhe de bom agouro.
Octavio Augusto ganhou a batalha, lembrou-se do Triumpho, mandou-o
fundir, e esculpir em bronze, e collocou-o no capitolio. Burro
capitolino foi elle--mas ficou sempre burro.»
Eis a historia das vaidades humanas.
«O habito não faz o monge», diz a sabedoria dos povos.
As grandezas da terra são, as mais das vezes, o pelourinho de todas as
ignominias--assim como do sambenito, e da cana verde da irrisão
pharisaica surgem, em ondas de luz, a magestosa auréola do martyrio, e a
apotheose deslumbrante, que a posteridade engrandece e divinisa.
O author d'este livro não crê nos partidos militantes, nos diversos
grupos parlamentares, nas ambições e cubiças, que fervilham em torno das
insignias consulares--quer se chamem opposições ou governo.
Escalar o poder pelo poder, aceital-o em todas as condições, á sombra de
todas as bandeiras, na defeza de todos os codigos, e na metamorphose de
todos os principios, parece ser a maxima inspiração de todas estas
phalanges, ávidas e sedentas de governo, que reputam, como suprema
beatitude, o ineffavel gozo de dirigirem uma situação politica qualquer.
D'aqui vem o scepticismo partidario, a indifferença profunda, e a
descrença completa do povo.
N'isto, como em tudo, o author d'este livro está ao lado do povo.
Basta.
Fecha-se este prologo com uma simples remissão ao prefacio ou
introducção do livro, que fica referido.
Assim termina esta advertencia ao leitor:
«A educação, nas classes pobres da nossa terra, tem sido desprezada: o
povo ignora tudo, porque tudo lhe é vedado. Convinha, pois, que á frente
de um livro, que narra com singeleza as tristes vicissitudes por que a
governação entre nós tem passado; que aponta, sem exagerações, como a
liberdade vai sendo sophismada, fossem estampadas algumas linhas, que
levassem a esperança a corações para quem a educação é um miseravel
scepticismo, e a vida um sudario de pungentes dôres.»
Estas linhas, escriptas ha vinte annos, firma-as o author d'este livro,
com a convicção plena de que ainda não deslizou d'estas crenças, nem
renegou, n'um só momento, a religião da sua mocidade.
Em mil oitocentos cincoenta e seis, quando a pena de morte era lei entre
nós, quando o homicidio legal erguia a sua sinistra, e hedionda
influencia n'esta terra--terminava o author d'este livro, em presença de
um tribunal e em defeza de um réo, pelo seguinte modo, a sua oração:
«Quanto a mim, resta-me a honra de ter pelejado com a forca, esta peleja
solemne e derradeira. Se eu ficar vencido, se triumphar o carrasco,
tanto peor para o seculo em que combati, e para a philosophia que
invoquei.»
Foi já rasgada a lei do homicidio. Falleceu o ultimo carrasco.
Bemdito seja Deus!
Venceu aqui a civilisação.
É para crêr, que venceu, tambem, a justiça absoluta, a consciencia, e a
sociedade.
A inviolabilidade da vida humana é mais do que um principio, mais do que
uma doutrina, mais do que uma lei: é um culto prestado ao Ente Supremo.
Deixai, agora, que o author d'este livro peleje pela democracia.
É esta, e só esta a verdadeira religião do futuro: é a obra sublime do
Creador.
Lisboa, 24 de julho de 1874.
VISCONDE DE OUGUELLA.
CONDEMNAÇÃO DE CORPO E ALMA
A lei dos justiçados, antes de 5 de fevereiro de 1587, condemnava o
corpo e a alma, não admittindo á communhão os condemnados á morte. Os
juizes faziam-se intrepretes da justiça divina. Trancavam as portas do
purgatorio á contrição, privando a alma do sacramento, que a theologia
declarára indispensavel ao viador da eternidade, por fóra das regiões
das trevas infinitas.
Não sei onde os legisladores acharam o esteio de tão cruel severidade
com as almas dos justiçados. Não podemos, porém, duvidar d'este desprezo
da lei de Jesus, em época tão assignalada de bons theologos,
comprehendida nos reinados de D. Manoel e D. João III. Que os
condemnados á morte não eram admittidos á communhão deprehende-se do
tratado _De sacramentis proestandis ultimo supplicio damnatis_, do
famoso jurisconsulto Antonio da Gama, já no cap. I, já na dedicatoria ao
cardeal D. Henrique, impressa pela primeira vez em 1559, e não em 1554,
como diz o abbade de Sever, na _Bibl. Lusit._ O mesmo se infere do
_Compromisso da Misericordia de Lisboa_, cap. 36, confirmado por alvará
de 19 de maio de 1618. Ahi se estabelece o modo de acompanhar os
padecentes e de lhes assistir. Estes usos subsistiram, através de dous
seculos, exceptuados os enforcados politicos a quem por misericordia
matavam com pouco apparato processional.
Ainda depois da lei que permittia o Viatico aos condemnados, nem todos
gozaram esse dôce prazer, essa extrema consolação que lhes abria no
reino de Deus a porta da esperança. Themudo, nas _Decisões_, tom. II,
decis. 155, pag. 126, n.º 3, conta que o marquez de Villa Real, cumplice
na conjuração de 1641 contra D. João IV, pediu licença ao arcebispo de
Lisboa para commungar, na vespera do dia em que fôra degolado. O
arcebispo concedeu a licença. Á meia noite ouviu missa no oratorio, e ás
tres da tarde do dia seguinte (28 de agosto de 1641) foi executado. Ao
mesmo proposito, leiam os curiosos o _Commentario aos Lusiadas_, por
Manoel de Faria e Sousa, cant. III, est. 38.
Os co-réos do marquez de Villa Real ou não pediram licença, ou lhes foi
negada. Agostinho Manoel de Vasconcellos, poeta, escriptor galante, e
mais verde de juizo do que de annos--pois já orçava pelos cincoenta e
tantos--parece que não tinha absoluta confiança no sacramento, pois que
morreu sem elle. Póde ser que este peccador incontrito, vendo que os
theologos do seculo XVI dispensavam os condemnados da communhão, e os
julgavam irreparavelmente precítos na outra vida, fosse da opinião
d'elles, e se deixasse ir até vêr o que succedia aos seus companheiros
do cadafalso, passado o estreito medonho d'aquella horrenda morte.
Tenho lido romances historicos portuguezes, e de bom pulso, em que os
condemnados coevos de D. João I e II, se confessam e commungam. Esta
inventiva piedade dos romancistas encontra as cruezas repellentes da
historia. É erro muito desculpavel. Qual é o romancista que lê os
reinícolas Antonio da Gama, e Themudo, e o _Codigo Filippino_, e a
_Synopsis Chronologica_?! Estes livros são escumadeiras das faculdades
imaginosas. Quem se affizer a herborisar em taes charnecas, póde ser que
vingue saber muita cousa obsoleta; mas toda a sua erudição, fundida na
moeda miuda dos livros de passatempo, não logra captivar o leitor que
lhe attribua a vigilia de uma noite. Não se é escriptor ameno e
agradavel sem muita ignorancia. Eu devo a isto os meus creditos e a
minha fecundidade.
O DOUTOR BOTIJA
Francisco Dias Gomes,--considerado pelo snr. A. Herculano o homem talvez
de mais apurado engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de
escriptores--foi malquisto de uns poetas contemporaneos que lhe chamavam
o _doutor Botija_, allusão tirada das vasilhas de seu commercio de
mercearia.
Um dos seus medianos admiradores era o abalisado mathematico e estimavel
poeta José Anastacio da Cunha. Dos seus raros amigos--pois que os não
grangeava em razão de sua indole desconversavel e um tanto
hypochondriaca--o mais esclarecido e provado foi Garção Stochler, então
lente de mathematica, e depois barão e general.
Francisco Dias Gomes, posto que modesto e conformado com a sorte de
especieiro, não se deixava insensivelmente morder pelos epigrammas de
quem quer que fosse. A honesta musa que lhe inspirou os graves e
soporiferos poemas constantes do seu livro impresso por ordem da
academia real, algumas vezes se lhe apresentou despeitorada e de saia
curta, n'aquelle desatavio que desnorteia a circumspecção de um
philologo da polpa de Francisco Dias.
O leitor, provavelmente, ainda não viu como este sisudo academico jogava
o venabulo da satyra. A academia, se alguma topou entre os manuscriptos
do seu confrade, com certeza a pospoz como damnosa aos serios escriptos
com que a esposa e filhos do finado critico haviam de quebrar alguns
espinhos da herdada pobreza.
Não me recordo se Stochler, na noticia critico-biographica anteposta aos
versos posthumos do seu amigo, faz referencia ao espirito satyrico de
Francisco Dias; o que certissimamente sei é que nunca vi impressa a
satyra seguinte contra José Anastacio da Cunha, nem tão pouco a replica
d'este poeta, que no proximo numero sahirá como prova do retrincado odio
com que, em todos os tempos, os escriptores se expozeram á irrisão dos
ignorantes, mutuando-se affrontosas injustiças.
Francisco Dias é iniquissimo no conceito que finge formar de José
Anastacio, e tanto mais censuravel quanto aquelle douto e infeliz
philosopho nunca desfizera na valia do mercieiro poeta, segundo se
deprehende da resposta.
N'esta satyra o que muito vale é a pureza da linguagem condimentada com
especies do seculo XVII, bastante avelhentadas e rancidas; mas, assim
mesmo, saborosas a paladares não de todos depravados pela malagueta da
poesia vermelha que ultimamente vige e viça.
Quanto a graça, é tão difficil achal-a em Francisco Dias como nas
comedias de Jorge Ferreira. Os nossos bons classicos, quer fossem moços
e mundanos, quer ascetas e encanecidos, não sei como pensavam; mas no
escrever, eram todos como uns frades velhos que digeriam as suas idéas,
tal qual um estomago dyspeptico de hoje em dia esmoe um paio do
Alemtejo.
Ahi vai, tal e quejanda, a satyra do _doutor Botija_:
SATYRA
Vem cá, louco varrido, que diabo
Te metteu na cabeça ser poeta?
Quem te chegou a tão extremo cabo?
Não vês que toda a gente anda inquieta,
Cançada de soffrer teus argumentos,
Que te julga demente, que és pateta?
Eu nunca imaginei que teus intentos
Fossem fazer-te vão: agora julgo
Que em nada se tornaram teus talentos.
Se eu crêra em quantas pêtas conta o vulgo,
Das feiticeiras sordidas e aváras,
E outras, que aqui não digo, nem divulgo;
Dissera que perjuro te mostráras,
Que infido amante da cruel Canidia,
Seus magicos encantos divulgarás.
Que ella, por castigar tua perfidia,
Sobre as azas d'um Lémure correra
O Tauro, o Atlante, o Nilo, e a sêcca Lidia,
Onde hervas potentissimas colhêra,
Com que mixtos veneficos, horrenda,
De funestos effeitos compozera.
E porque ao fim viesse da contenda,
Pela alta noite, barbara, ullulára,
Com voz funesta, horrisona e tremenda,
Que as infernaes Deidades convocára
Do tremebundo Tartaro, formando
Mil circulos no chão com fatal vara.
Pallida, e consumida, suspirando,
As horridas madeixas eriçadas,
Com ellas murmurára um canto infando.
Alli foram de todo desatadas
As prisões, que a teu corpo o siso unia;
Alli tuas idéas perturbadas;
Sómente em ti ficou triste mania
De maus versos fazer, de argumentar
Com quantos ha, nas praças, noite, e dia.
Não deixa a gente já de murmurar
D'essa tremenda furia que te agita,
D'esse teu furioso e vão fallar.
Cuidas que, ainda que nescio, assim se excita
A celebrar-te o povo por sciente,
Elle que em tudo mofa, e fel vomita?!
E julgas que de rustico não sente
A differença que ha do branco ao preto?
Por certo que te enganas claramente.
Tu crês que só quem faz um bom soneto,
Ou decifra um enigma mathematico,
Esse só tem juizo, e é só discreto?
Se para ser qualquer da vida pratico,
Bem aviado está, se lhe é preciso,
Ser um grande geometra, ou grammatico.
Tal ha por esse mundo, e tal diviso,
Que sem saber a regra do _abc_,
É sagaz como trinta, e tem juizo.
Como queres tu pois que não te dê
Surriadas o povo maldizente,
Posto que nunca estuda, e nunca lê?
Se elle anda já cançado longamente
De ouvir as tuas vãs declamações
Com que pretendes emendar a gente!
Se defender intentas conclusões,
Mestre em artes, de borla, ou capacete,
Porque te ouçam as tuas decisões;
Rapa a cabeça tu, frade temete:
Combaterás então mais forte e ufano,
Que um guerreiro montado em bom ginete.
Não andes pelas ruas como insano
Syllogismos em barbara formando;
Se assim queres ter fama, é grande engano.
Que quer dizer, continuo, andar fallando
Em curvas, corollarios e problemas,
Demonstrações fazendo, e explicando?
Quando te ouvem fallar em theoremas,
Escalenos triangulos, e rectas,
Espheroides, polygonos, e lemmas,
Julgam ser isso termos de patetas
Ou d'esses que tem pacto c'o diabo,
E lhe fallam em partes mui secretas.
Pois eu d'aconselhar-te não acabo,
Se por tal te tiverem, fugirás
Como cão com funil atado ao rabo.
Em vão com grande esforço ladrarás,
Distinguindo a menor, que concedendo
Quanto o povo quizer á força irás.
Que achaste, inda que tu lhe vás dizendo,
Do circulo a sonhada quadratura,
Nada te valerá, segundo entendo.
C'os rapazes e moços, gente escura,
Gente indomita em fim, tua pessoa
Não poderá jámais andar segura.
Tanto já de ti fallam por Lisboa,
Que quando vaes por uma praça, ou rua,
Grande susurro em toda a parte sôa.
Ora pois tem razão, que a audacia tua,
E teus discursos vãos, e palavrosos
Dão causa a que qualquer teu sestro argua.
Eis aqui porque chamam ociosos
Aos que ás letras se applicam, temerarios,
Phantasticos, herejes, mentirosos.
Os fidalgos os tem por ordinarios,
Baixos de nascimento, sem avós,
De humildes pensamentos, vãos e varios.
Se alguem com acto humilde e baixa voz
Lhe offerece o elogio em prosa ou rima,
Louco, dizem, te vai longe de nós.
De nós a poesia não se estima;
Vê se tens outra cousa por que valhas,
Falla-nos de cavallos ou de esgrima.
De cavallos, de esgrima, de batalhas,
Não d'essas verdadeiras batalhadas
Com lança e espada, aereas antigualhas.
Entra por esta brecha ás cutiladas,
Amigo, tu que n'isto és o primeiro,
Segundo já te ouvi grandes roncadas.
Não te ficou venida no tinteiro,
Nem tantas soube o Molho destemido,
De malsins espantalho verdadeiro.
Se te ouvira o Palermo esmorecido
Da côrte se ausentára, por não vêr
Com teu valor seu credito abatido.
Bem pódes pelo mundo discorrer,
Novo Roldão, armado d'armas brancas,
Mil encantos e aggravos desfazer.
Leva do teu cavallo sobre as ancas
Tua dama sentada; esgrime e clama,
Que assim tudo afugentas, tudo espancas.
Ganharás maior nome, e maior fama,
Do que andar versos maus vociferando,
Dignos dos becos sordidos d'Alfama.
Se a fazer versos lá do lago infando
O diabo sahisse em tons diversos,
Taes como os teus faria, impio, e nefando.
Por isso não os tenhas por perversos,
Aos que pulhas te dizem, porque em fim,
Não ha cousa peor do que maus versos.
Antes mais vale ser villão ruim,
Frade apostata em casa das mancebas,
Do que ser mau poeta, antes malsim.
Agora quero eu que me percebas,
Se alguem te applaude e rijo as palmas bate,
É porque mais em teu vicio te embebas.
Que aqui te manifesto sem debate,
Todos esses amigos que te cercam,
Todos te tem por um famoso orate.
Quaes ha que rindo o folego não percam,
Vendo, quando andas só, teu ar profundo?
Se o gosto não lh'o invejo, caro o mercam.
Como o que anda d'um bosque lá no fundo
As féras conversando e as amadríadas
Desgostoso das gentes, e do mundo,
Quem te vê tão suspenso, outras iliadas
Julga que andas compondo, alto portento!
Outros novos altissimos _Lusiadas_.
Mas cada vez que recordar intento
Teu soberano e largo magisterio,
Fico qual nau sem leme ao som do vento.
Alli tudo decides com imperio:
Não foram tão despoticos em Roma
O tyranno Caligula, ou Tiberio.
Qualquer, de ti pendente, lições toma,
Não ousa, inda que queira, dizer nada,
Que tudo á tua voz se rende, e doma.
Alli qualquer materia é bem tratada,
Com larga voz e cópia de palavras,
Alli com teu discurso illuminada.
Antes fallasses tu em gado ou lavras,
Do que em sciencias, de que nada entendes:
Ou fosses para o monte guardar cabras.
Novos systemas se fundar emprendes,
Porque a fama no numero te conte
Dos grandes homens, que offuscar pretendes,
Pede ao bom Ariosto que te monte
Sobre o seu grifo rapido, e serás
Outro Astolfo, outro audaz Bellerophonte.
Ao concavo da lua subirás
Para vêr se descobres novos mundos,
Mas nunca o teu juizo encontrarás;
Perdeu-se como pedra em poços fundos,
Que nunca acima vem, nem nada, ou boia:
Juizos são de Deus, altos, profundos!
Não te esqueça maranha, nem tramoia,
Porque ao fim desejado te Conduzas,
Mais famoso serás que Helena e Troia.
Avante, ó novo Gama, já confusas
Com as tuas acções vejo as antigas,
E para te cantar promptas as musas.
Tem-nas da tua parte por amigas,
Materia dando a satyras facetas
Como as de Horacio, destro n'estas brigas.
Se minhas forem, não serão discretas,
Porque da rima a musica sonante
Adorna as minhas pobres cançonetas.
Inda esta nos faltava, a cada instante
Andares tu contra ella declamando!
Que mal te fez o pobre consoante?
Quando o chamas não vem logo a teu mando?
É porque com verdade não se preza
Do teu engenho o som suave e brando.
Elles fogem de ti com ligeireza
Os consoantes, porque em ti não sentem
Para bem usar d'elles natureza.
Se as minhas conjecturas me não mentem,
Os que poetas querem ser á força,
Pouco de um secco rábula desmentem.
Em vão um pobre espirito se esforça
Porque os seus versos sóem docemente,
Por mais e mais que o pensamento torça.
Nunca ouviste dizer que Apollo ardente
Agita a phantasia dos poetas,
Para que mais seu cerebro se esquente?
Inda que ouçam razões muito discretas
Das mulheres e filhos que pão pedem,
Deixam ficar-se, assim como patetas.
Nem fomes, nem trabalhos os impedem,
Que exercitem o dom divino e raro:
Tanto em seu desatino se desmedem;
Por isso ás vezes julga o vulgo ignaro,
Que elles são intrataveis, desabridos,
Posto que os bons lhe dêm louvor preclaro.
Mas tu que nunca ergueste os teus sentidos,
Que em idéas vulgares e confusas
Sempre andaste com elles envolvidos;
Se nunca conheceste Apollo, ou musas,
Nem pintado sequer viste o Parnaso,
Para que de seus dons sem saber usas?
Se temes que o teu nome em negro vaso
Para sempre se veja sepultado;
Usa do para que tiveres azo.
Não digas mal do consoante amado
Tanto dos bons engenhos peregrinos
Dos do tempo d'agora e do passado.
Se tu fundas em Miltons e Trissinos
Teus aereos phantasticos systemas,
Assás de bons não foram seus destinos.
Poucos ou raros lêm os seus poemas;
Um triste e melancolico caminha
Farto de extravagancias mil extremas.
A musa d'outro misera e mesquinha,
Languida e fria, sem adorno e graça
Da solta prosa jaz quasi visinha.
Ninguem jámais a noite e o dia passa
Seus aridos escriptos estudando,
Por muito que o seu gosto contrafaça.
Não o nego porém, de quando em quando
D'elles se eleva um resplendor sublime,
Digno do Pindo e Phebo claro e brando.
Mas tu a quem a rima tanto opprime,
Se não sabes, aprende: o canto hebraico
Dizem que ás vezes n'ella bem se exprime.
E que por evitar o tom prosaico,
Algumas vezes d'ella se servira
O poeta syriaco e o chaldaico.
Tambem a musa grega ao som da lyra,
Lá nos tempos antigos, d'ella usou;
E o romano que a face ao mundo vira.
Novamente o seu uso renovou
Dando-lhe fórma e ser o provençal,
De nova graça a poesia ornou.
Mas isto para ti de nada val,
Que porque te foi d'ella Apollo escasso,
D'ella e dos que a usaram dizes mal.
Que mal te fez Camões e o culto Tasso?
Camões a quem as musas educaram
Na sua gruta, e virginal regaço?
Qu'o cantico divino lhe inspiraram
Em que aos astros ergueu os lusos feitos,
Que tanto pelo mundo se afamaram.
Para exprimir altissimos conceitos
Nunca jámais a rima lhe fallece
Estylo e puro culto sem defeitos.
Qualquer rustico espirito conhece,
Que quanto o Camões quiz dizer, o disse
Facil e natural, como apparece.
Quem quer que d'elle mal fallar te ouvisse,
Diria afoutamente e com verdade,
Q'isso em ti era inveja, era doudice.
Ora pois, porque tens difficuldade
Em dizer teu conceito em dôce rima,
Vituperal-a é grande iniquidade.
Julgavas facil e de pouca estima
Dôces versos fazer? amigo, não,
É preciso trabalho, estudo e lima.
E isto sem natural inclinação,
Ou pouco ou nada val: se disso és pobre
Martellarás no pobre siso em vão.
A vêa natural não se descobre,
Mil glosas n'um outeiro recitando,
Mais vis que escoria vil de ferro ou cobre.
Oh quanto te escarnece a gente quando
N'elle estás como insano loucamente
«Tyrse, Tyrse!» com larga voz gritando.
Inda do consoante tão vãmente,
Te atreves, pobre infusa, a blasphemar,
Sendo tu tão vã cousa, e tão demente!
Elle nunca se deixa demonstrar
Na tão formosa lingua portuguesa
A quem com diligencia o procurar:
Qualquer, inda que pouca natureza
Tenha, dirá rimando o que quizer
Em estylo corrente e com clareza.
Tanto que aqui mui bem se póde vêr
Que sendo o meu engenho rude e baxo,
Exprimo quanto tenho que dizer.
Ou bem ou mal os consoantes acho,
Tão facilmente ás vezes me apparecem
Que para os apanhar me não abaxo.
Mas julgo que os ouvintes adormecem
Co'a minha longa pratica: eu me calo,
Pois que os gostos d'ouvir-me lhes fallecem.
Em fim já sem refolho aqui te fallo;
Se os meus versos conseguem felizmente
Fazer dentro em teu peito algum abalo,
Que o teu fado se quebre em continente,
Tornando-te, de louco, homem cordato,
E acabes de ser fabula da gente.
Tuas acções medindo com recato,
Deixando versos maus, vãos argumentos
Que te fazem de todo mentecato,
Darei por bem gastados os momentos
Que empreguei n'esta misera escriptura,
Censurando os teus fatuos pensamentos,
E ter-me-hei por mimoso da ventura.
O PALCO PORTUGUEZ EM 1815
Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam
de magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição
do theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos.
Florecidas mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova
lhe desbotoaria as primeiras flôres da grinalda.
A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco
d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze
annos, com o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia
e aquecidas ao sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que
lá fóra retemperaram o genio na incude da pobreza, e reviveram nos
esplendores da civilisação.
Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815,
escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este
escripto da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de
phrase, com certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á
sua patria, mais atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram
simultaneamente da mão, no cerco do Porto. Não sei o nome do official
que jaz obscurecido na valla dos que morreram em batalha. Apenas em uma
nota que precede a seguinte carta se diz que o author d'ella, morto na
rareada fileira dos mais audazes soldados do imperador, teria sido um
dos melhores cultores das letras que esmeradamente seguira na emigração.
Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio aos indigestos
pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo Fernandes
(Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura:
Carta escripta a um amigo em 3 de fevereiro de 1815 sobre a chegada dos
comicos italianos, com algumas reflexões sobre os theatros portugueses.
Chegou finalmente a esta cidade a companhia dos comicos italianos, ha
tanto tempo esperada, e hontem fizeram o seu primeiro ensaio. Domingo
gordo vão, pela primeira vez, á scena, onde a curiosidade dos
_dilettanti_ é igual á impaciencia com que viam o theatro de S. Carlos
fechado por falta de actores. Será bem difficil que estes, que chegaram,
satisfaçam plenamente a espectação publica, onde se conserva ainda bem
gravada a lembrança dos excellentes cantores, que tanto nos deleitaram
n'estes ultimos tempos, e que brilharam com a mais bem merecida
reputação n'este nosso theatro de S. Carlos, e que illustraram
distinctamente a arte da musica tão agradavel, que a nossa mesma
imaginação figura os anjos, cantando no paraiso a gloria do Deus
Supremo.
Geralmente os portuguezes amam a musica com extremo, e tem um gosto
particular por esta arte, principalmente depois que o senhor rei D. José
fez vir para o seu theatro magnifico, que infelizmente o grande
terremoto do anno de 1755 devorou, os melhores cantores que então havia
em toda a Italia. Depois d'esta época sustentou o mesmo monarcha a mesma
inclinação por esta arte, em que era muito entendido, e á sua imitação a
nação toda se costumou tanto á boa musica, que houve particulares que
chegaram a rivalisar com os mesmos professores. Ainda hoje não teem
perdido de todo este gosto, principalmente os habitantes de Lisboa, que
conservam viva a lembrança do canto melodioso, suave e delicado da
Crescentini, de Cafforina, e da celebre Catalana, que por uma maneira
nova de cantar, levaram esta sublime arte áquelle grau de perfeição, a
que ella póde humanamente chegar.
Não julgo que estes virtuosos, que vieram, sejam iguaes em talentos
áquelles de quem venho de fazer menção. Como não é sómente a arte, mas a
natureza igualmente que os produz, e nem sempre esta é fertil em
semelhantes producções, parece-me que o seu canto não causará nos
espectadores o mesmo interesse, com que todos os lisbonenses corriam
para o theatro a ouvir a melodia de vozes, e a harmonia de accentos, que
realisavam os fabulosos das serêas. Como dizem, porém, que vem duas
raparigas que não são mal parecidas, não deixarão de serem bem
applaudidas pela platêa de Lisboa, na qual a mocidade olha sempre com
mais attenção para os agrados da natureza do que para as perfeições da
arte, ás quaes não paga tão grande tributo como á belleza.
É muito provavel que d'aqui em diante os bons cantores sejam mais raros
na Italia, onde em outro tempo eram mais communs, não sómente porque os
successos politicos tem influido consideravelmente n'esta parte da
Europa sobre os progressos das artes liberaes, onde nasceram e tiveram o
seu berço; mas porque o infame e detestavel costume da castração, com o
fim de fazer as vozes finas, e bons sopranos, está justamente prohibida
por uma lei sabia e judiciosa. Pois que barbaridade maior podia haver do
que condemnarem os paes seus proprios filhos a uma mutilação que degrada
a especie humana, que a inutilisa e que annulla os votos da natureza em
prejuizo das suas mais admiraveis producções?
Não poderemos, pois, ouvir d'aqui em diante um novo Echiziel ou um
Crescentini, que modulavam as suas vozes finas á custa do bem que tinham
perdido, por umas notas successivas e prolongadas, que bem longe de
moverem a alma pela força da expressão, a affligiam pelos patheticos
esforços de uma modulação uniforme; mas ouviremos talvez com um prazer
mais interessante os sons masculinos d'aquellas vozes fortes e animadas,
que conciliem com os seus accentos a viva expressão dos sentimentos
differentes da nossa alma, em que um gosto sublime e delicado faz
consistir a perfeição da musica, para o qual não é o melhor musico
aquelle que se occupa só em vencer difficuldades; mas aquelle que, pelas
doçuras da harmonia, inspira na nossa alma, e lhe communica os mesmos
sentimentos que exprime no seu canto.
Qualquer que seja, porém, o merecimento dos novos comicos, é sempre uma
especie de satisfação para os moradores de Lisboa verem o melhor
theatro, que teem, aberto, e terem quem trabalhe n'elle, o que é sempre
um grande recurso em uma grande cidade, destituida de divertimentos
publicos, e onde se consome o homem, e sobre tudo os estrangeiros, á
força de uma negra melancolia, não havendo outro passatempo, que não
seja o de algumas sociedades particulares, onde só apparecem aquelles
que possuem grandes meios, para alli ostentarem toda a sua vaidade, e
quasi sempre todo o seu orgulho. É bem verdade que toda a comica
representação, que alli fazem, é quasi sempre á custa da sua bolsa, pois
que é descredito entre elles não jogar. Os gatunos que nunca faltam
n'estas assembléas, nunca perdem a occasião de os depennarem; e os
murmuradores e maldizentes de admirarem o como a fortuna faz de um tolo
um homem entendido, e como transforma um sevandija em um fidalgo
cortezão.
É certo que os invernos são bem custosos de passar em Lisboa sem o
recurso dos theatros, não havendo outro algum divertimento publico, mais
do que as assembléas acima referidas, onde nem todos podem ir, e que nem
a todos é permittido frequentar. Não ha aqui, como em Londres, em Paris,
em Vienna, em Petersbourg e em Veneza salas publicas de baile, onde se
passem as noites, e menos cafés bem compostos, em que todo o homem bem
creado acha a melhor companhia, e onde trava amizade com os homens mais
distinctos e que são assás uteis muitas vezes. Os nossos costumes
reservados, e os principios da politica, de os dirigir pela desconfiança
ou pelo temor, em que a policia ganha porque tem menos que observar e
menos motivo para temer que a ordem publica seja alterada, fazem que
estas privações se soffram com toda a paciencia, contentando-se cada um
que não tem os meios competentes para frequentar as companhias do melhor
tom, a ir passar a noite com o seu compadre ou com o seu visinho, a
murmurarem uns dos outros. Sem este recurso ficariam sempre em casa,
semelhantes ás mumias do Egypto, embrulhados nos seus capotes, unico
meio de que se servem para resistirem aos rigores da estação.
Não faltará quem diga que faço um quadro de Lisboa, no tocante aos seus
divertimentos publicos, menos vantajoso; pois que uma cidade populosa
que tem tres theatros nacionaes, além do italiano, e uma quantidade
immensa de grandes sociedades, que tem nas semanas dias fixos em que se
ajuntam, não está de menor condição n'esta parte ás mais opulentas da
Europa. Esta reflexão, se ficasse sem replica, me attribuiria talvez, na
opinião geral, um espirito de maledicencia que eu não tenho; e para me
salvar de qualquer imputação que n'este particular se me haja de fazer,
vejo-me obrigado a fazer aqui algumas observações sobre os nossos
theatros nacionaes, que pela sua construcção material e pelo genio dos
actores, que n'elles representam, não constituem um divertimento que
chame o gosto, o interesse e a distracção da classe mais escolhida da
nação, a quem não fazem grande honra nem excitam aquella curiosidade que
faz frequentar estas escólas dos costumes e do bom gosto.
Quanto á construcção destes nossos theatros duvido que se achem, ainda
nas mesmas provincias dos reinos mais civilisados, outros semelhantes ao
da rua dos Condes ou do Salitre. As incommodidades que cada um é
obrigado alli a supportar, não compensam os agrados mais deleitaveis da
melhor representação, ainda no caso que a houvesse. No meio da platêa
arde em fogo, nas mesmas noites mais frias do inverno, o desgraçado
espectador que acha alli lugar; pelos lados da mesma platêa vem um vento
encanado pelos corredores, que atormenta todo o miseravel que occupa
estes assentos. Nos camarotes, que são tão mesquinhos como tudo o mais,
estes incommodos são ainda mais penosos; por entre as frestas das portas
entra um frio pelo inverno, que gela, e que é principio certo de
catarrhos, pleurizes e constipações, que circulam amplamente n'aquelle
triste recinto; e quando o espectaculo acaba, nem lugar reservado, em
que se esperem as carruagens, nem modo algum de prevenir os grandes
males, a que cada um fica exposto á porta da rua ou no aperto dos
corredores, até que chegue a carruagem que o ha de transportar. O
theatro do Salitre e o da Boa Hora teem estas incommodidades mais
marcadas; de maneira que todo aquelle que se propõe a ir a algum d'elles
passar uma noite, deve ir disposto a vir doente: se é de verão, pelo
nimio calor, se é de inverno, pelo frio. Assim não conheço um meio mais
proprio a quem está em boa saude, de estar doente, do que ir a um
d'estes theatros. Ora, que divertimento póde ter n'estes espectaculos
aquelle, que cuida mais em se livrar dos males a que se vê exposto, do
que gozar das illusões que apresenta á imaginação uma sala de
espectaculo? Se todos estes incommodos, que se compram por dinheiro,
fossem, comtudo, compensados pelo deleite de uma boa representação,
seria ainda assim desculpavel, sacrificar ao prazer certos incommodos,
de que uns não fazem caso por genio, e que outros desprezam, porque lhes
insta a necessidade que sentem de se distrahirem. Mas a representação é
tão insipida e tão enfadonha! Os comicos interessam tão pouco; e os
caracteres que representam são, ou por falta de natureza ou por
ignorancia propria, tão mal sustentados, que não valem a pena de se
ouvirem á custa dos grandes detrimentos que se soffrem, principalmente
quando um homem tem o seu gosto formado pelos bons modelos da arte
dramatica, a quem um actor mediocre e baixo é tão insupportavel, como
uma musica desafinada e sem harmonia na sua composição. Taes são,
portanto todos os nossos actores, os quaes entram n'esta carreira mais
com o fim de acharem n'ella uma subsistencia segura e commoda, que com o
nobre intento de adquirirem uma gloria que immortalisou os famosos nomes
de Molière, de Baron, de Garrik e de le Kain.
Pois que uma casualidade impensada me chegou a ponto de fazer algumas
observações sobre os nossos theatros, não quero perder esta occasião de
expor o meu juizo sobre este assumpto, que aliás é um seguro
thermometro, que indica o grau em que se acha a civilisação e os
costumes das nações. Como escrevo uma carta e não faço uma dissertação,
cuidarei quanto podér de abreviar o meu discurso, que não terá mais que
simplesmente o resultado de fazer vêr quanto Thalia e Melpomene favorece
pouco os engenhos dos portuguezes nas artes a que presidem estas musas,
cujas influencias são tão brilhantes e tão liberaes para outras nações,
que cultivam com o melhor successo esta arte, que nos representa
vivamente os vicios e as virtudes dos homens, assim como tambem os seus
defeitos e os seus ridiculos.
Podemos seguramente dizer com toda a verdade, que nós, os portuguezes,
não podemos ter a gloria de dizer que temos um theatro nacional, pois
que não temos nem actores dramaticos nem actores capazes de
desempenharem estas bellas composições do espirito humano. Não é de
admirar que não haja bons representantes, onde faltam os poetas; porque
aquella mesma natureza, que inspira o enthusiasmo da imaginação, não
deixa de inspirar tambem o gosto particular da imitação, de modo que é
observação demonstrada, que onde os engenhos sabem conceber os mais
brilhantes pensamentos e estudam todos os movimentos da nossa alma,
dirigida pelas suas affeições ou pelos impulsos das paixões humanas, ahi
se encontram tambem aquelles talentos superiores e naturaes, que na
scena representam com toda a energia e delicadeza aquelles mesmos
movimentos; de maneira que parece realidade o que não é mais que
imitação. Garrik, a cada sentimento que exprimia nos theatros de
Londres, mudava de voz e de semblante, como a expressão requeria; e
Molière, em França, ridiculisava com uma graça tal todas as classes de
homens de que se compõe o corpo social, quando a vaidade, presumpção ou
amor proprio as desviava dos principios que a razão prescreve, que todos
sentiam em si o defeito de que elle ria e zombava, para se corrigirem
quando se julgavam objecto dos epigrammas e dos gestos comicos do
comediante. Como este mesmo era o author das suas comedias, não é de
admirar que exprimisse com energia aquillo mesmo que a sua alma sentia
com toda a sua força; e é d'este modo que os theatros, que são as
escólas dos costumes, onde se pintam ao natural pela fealdade do vicio
ou pela ridicula pratica que os degrada, preenchem plenamente o fim para
que foram instituidos; pois é evidente que todo aquelle actor que não
tiver meios proprios para penetrar a alma dos seus espectadores pelas
mais vivas e mais naturaes maneiras, figura e gestos da sua
representação, não póde produzir o effeito que esta admiravel arte de
imitação é capaz de produzir, e sem o qual effeito, uma sala de
espectaculo não é mais do que uma camara optica em que os sentidos podem
gozar de algumas momentaneas illusões, mas onde a alma jámais se deixará
possuir d'aquelles prestigios do sentimento que faz amar a virtude e
detestar o vicio, nas peças tragicas, e nas comicas, temer o amargoso
fel da critica que corrige o homem, fazendo mofa dos seus costumes que
pinta, quando são ridiculos, ao natural.
É para notar que os engenhos portuguezes, dotados, como todos os mais
que gozam das dôces influencias do céo puro e crystallino do meio-dia,
de uma viva e ardente inclinação para as artes de pura imaginação,
principalmente a da poesia, se contentem só de a cultivarem á margem dos
rios e á sombra dos arvoredos, onde suspiram pelas suas amadas, em
versos sim, amorosos e sentimentaes, mas que só fallam de amor, de
saudades, de ciumes e de ingratidão. Um só d'estes genios favorecidos
das musas tem aspirado á gloria de rivalisar com Euripedes ou com
Sophocles, de igualar a Plauto ou a Terencio, e aquelle que tem
intentado dar alguns passos na carreira dramatica, tem sido com tão
infeliz successo, que parou no principio d'ella. Muitas vezes tenho
pensado sobre a causa por que os nossos poetas, sendo inspirados de um
estro proprio a todo o genero de versificação, só para o theatral não
teem os talentos requeridos; e por resultado das minhas observações a
este respeito, tenho colhido a idéa de que para compôr uma ecloga, um
idyllio, uma epistola ou uma elegia, basta ao poeta exprimir os seus
proprios sentimentos em bons versos e harmoniosos para ter um nome
distincto no Parnaso: mas para compôr uma tragedia ou uma boa comedia de
caracter, é preciso exprimir com elegancia, pureza e enthusiasmo os
sentimentos dos outros, que é absolutamente necessario conhecer e
aprofundar para os saber desenvolver pela acção. Ora este conhecimento
não se adquire senão por um grande uso do mundo, e por um tacto
particular do coração do homem e de toda a natureza humana em geral; mas
este grande livro não se acha nas livrarias escripto, acha-se espalhado
no tumulto da sociedade, onde os homens desenvolvem todas as suas idéas,
todos os seus sentimentos, as suas paixões, os seus vicios, os seus
crimes e o seu heroismo. É n'este livro que o poeta dramatico aprende a
pintar na scena as virtudes de Catão e as ridiculas maneiras de um
villão afidalgado; mas se o poeta, concentrado no fogo do seu amor, não
conhece senão Damiana a quem dirige seus ais e seus queixumes, como ha
de pintar as paixões dos homens e os seus ridiculos caprichos? Esta
ignorancia me parece ser a causa por que os poetas portuguezes não
consagram as suas musas mais que simplesmente ao amor a que os chama uma
natural ternura, e o conhecimento de uma paixão, que elles conhecem
melhor que quaesquer outras, e que explicam com mais sensibilidade e
doçura. Nunca sahindo dos seus lares, vivendo em um pequeno circulo, uma
imaginação, por mais poetica que seja, não póde produzir grandes e
brilhantes concepções; e por consequencia, se conceber o plano de uma
tragedia, que, segundo a opinião de mr. de la Harpe, é a obra prima do
espirito humano, onde ha de ir buscar a materia para os debates? Se
quizer compôr uma comedia, apenas saberá ridiculisar os defeitos do seu
visinho tendeiro ou sapateiro.