Vento amigo ao patrio solo

Pelo mar guia o proscripto,

E um sorriso de sonsolo

Não lhe luz no rosto afflicto?

Corta a proa o mar fremente;

O cantor lá se assentou

E sua torva e altiva frente

Sobre a dextra reclinou.

Vem-lhe idéa após idéa,

Já tristonha, já serena;

Que no gesto lhe vaguêa

Ora o goso, logo a pena.

Coração affeito á mágoa

Da esperança desconfia:

Desalenta, e em viva frágoa,

É-lhe negra a noite, e o dia.

Mas se, emfim, lhe tece a sorte

Á existencia um aureo fio,

E vencendo o mar e a morte

O conduz ao patrio rio,

A que mais agora aspira

O mancebo trovador?

É por gloria que suspira?

Não lhe ri propicio o amor?

Não vê perto a terra cara,

Que chorou de dor absorto,

E nos braços dos que amára

Não terá paz e conforto?

Mas silencio!--A fronte erguendo,

Elle os olhos poz nos ceuz,

E a canção da alma rompendo

Sussurrou nos labios seus.

II.

«Rasga as ondas do pégo indomado

Leve barca: já freme o galerno:

Susta as iras o rabido hynverno:

Torna á patria infeliz trovador.

Como bate no seio ancioso

Coração que opprimiu a amargura,

Quando meiga sorrí a ventura,

Quando volve esperança de amor!

Esperança, e sómente esperança

Cabe áquelle que os mares correu,

Quem lhe diz que 'inda não o esqueceu

A donzella por quem suspirou?

Quem lhe diz não irá n'outros laços

Venturosa encontra-la e infiel,

E que a voz do remorso cruel

Para a ingrata tremenda soou?

Quem lhe diz não irá murchas rosas

Tão-sómente encontrar sobre a lousa,

Onde a amada tranquilla repousa,

onde vá juncto della expirar?

Esperança, e sómente esperança

Cabe áquelle que os mares correu:

Ella só resta áquelle que o ceu

Longos dias de dor fez passar

Eu traguei estes dias de lucto;

Encarei muitas vezes a morte;

Pude o louro colhêr dado ao forte:

Tambem myrto de amor colherei?

Ou o arbusto que outr'ora plantára,

Que por mim cultivado crescêra,

Que entre angustias jámais me esquecêra

Esquecido por ella acharei?

Como além desse cabo, que esconde

Verdes aguas do meu patrio Tejo,

A alma levam saudade e desejo!

Como atraz a compelle o terror!

Ledo o nauta saúda a guarída

Aonde incolume o vento o ha guiado,

E alegrou esse olhar carregado

Com que insulta do mar o furor.

Feliz nauta, em teu seio tranquillo

Pulsa em paz coração baixo e rude;

Fado amigo negou-te o alaúde:

Deu-m'o a mim:--para prantos m'o deu.

Nunca, pois, surgirá uma aurora

Em que nelle resoe a alegria,

E em que o triste, que a dor opprimia,

Erga um hymno de jubilo ao céu?

Nunca rir-me propicia a ventura

Sobre a terra verão estes olhos?

Será sempre cuberto de abrolhos

Agro trilho que á morte conduz?

Ou nas trévas da minha existencia

Surgirá inda um dia radioso,

Como, ás vezes, em céu tenebroso

Rompe o sol com torrentes de luz?»

III.

Já no porto a leve barca

Longa esteira desdobrou,

E ao clarão final do dia

Ferreo dente ao mar lançou.

Eis as plagas da saudade;

Eis a terra de seus sonhos;

Eis os gestos tão lembrados;

Eis os campos tão risonhos!

Eis da infancia o tecto amigo;

Eis a fonte que murmura;

Eis o céu puro da patria;

Eis o dia da ventura!...

IV.

Foi o cantor feliz?--Em breves dias

Viu-se cruzar errante incertos mares.

Sob o tecto paterno anciada noite

Elle passou; e o somno socegado

Não lhe cerrou os olhos lachrymosos.

Conta-se que o seu amor fôra trahido,

E que mirrado achou de amor o myrto,

Que deixára viçoso, e que saudára

Desde além do oceano em seu deli­rio.

Sobre a proa outra vez indo assentar-se,

Não entoou um hymno de alegria.

Com ar sinistro e torvo e os labios mudos

Correu co' a vista as ondas inquietas,

E, porventura, a idéa que as passára

Nas asas da esperança, e que a esperança

Tinha expirado ao limiar do goso,

Mais lhe turbou a fronte carregada.

O misero sorriu-se. Em tal sorriso

O passado e o futuro estava impresso,

E da sua alma a dolorosa noite.

V.

Não mais o trovador no lar da infancia

Repousará talvez: talvez sua harpa

Durma pendente em solitario tronco

Do pinheiro bravio, onde a desfaça

O sôpro do aquilão. Ao desditoso

Sonho de gloria e amor tinha emballado;

Mas foi sonho, e passou, e uma existencia

Nua d'encantos despregou-se ante elle.

Quem o consolará?--De fogo essa alma

Consolo não terá, nem quer consolo.

A maldicção de Deus vestiu-lhe a vida

De padecer e lagrymas. Ignoto

Será ao mundo que surgiu na terra

O genio de um cantor, bem como planta

Morta apenas saída á flor do solo,

Ou como a aragem da manhan, que passa

Antes de o sol nascer, em dia estivo.

E que importa essa gloria ao dono della?

Esse fructo do Asphaltite que encerra

Senão cinza em involucro formoso?

Que é o eccho de um nome, que não soa

Senão sobre o sepulchro do que impresso

Na fronte o trouxe, em meio de amarguras,

Por vezes de ignominias?

«Vive, oh triste,

Esquecido do mundo, e esquece o mundo!

Nas solidões profundas da tua alma,

Vazia das paixões que a assassinaram,

Some os cantos que della transudavam

Para correr n'um seculo sem vida,

Sem virtude e sem fé, e em que desabam

As crenças todas do passado, e é sonho

A constancia e o amor.»

Palavras estas

Extremas foram do proscripto. Longe,

Em praia estranha abandonando a barca,

Qual o seu fado foi ninguem mais soube.

N'UM ALBUM.

Quando o Senhor envia

O trovador ao mundo,

Faz devorar a essa alma

Fel amargoso e immundo;

Porque lhe diz:--Poeta,

Vai conhecer a terra;

Prova dos seus deleites;

Prova do mal que encerra.

Desses e deste esgota

As taças muitas vezes,

Embora de uma e d'outra

Aches no fundo fézes:

E quando bem souberes

Que tudo é sonho vão;

Que é nada a dor e o goso,

Sólta o teu hymno então.»

E o pobre desterrado

Vem seu mister cumprir.

Nasce: homens e universo,

Tudo lhe vê sorrir;

E o seu balbuciar

Um canto é d'innocencia:

Mas outro foi seu fado;

Guia-o a providencia.

É cherubim precíto

Qu' inda entrevê o céu,

Mas através da vida,

Mas através de um véu.

Em turbilhão d'affectos,

Seu íntimo viver

Rapido lhe devora

Sperança, amor e crer.

Do goso nos deli­rios

Debalde busca o amor;

Saudade melancholica

Pede debalde á dor.

Depois, desanimado,

Pára a pensar em si,

Acha no seio um ermo,

E tristemente ri.

É desde aquelle instante

De um acordar atroz,

Que ao condemnado lembra

Do que o mandou a voz.

Então entende e cumpre

Seu barbaro destino;

Então é que elle aprende

A modular um hymno.

Virgem, ao que assim passa

Por meio do existir,

Calcando os frios restos

Do crer e do sentir,

Não peças te revele

Sua alma na poesia,

E dê aos pensamentos

O encanto da harmonia;

Porque lá, nesse abysmo,

Não resta uma illusão:

Só ha perpetua noite,

E injuria e maldicção.

Não entenderas, virgem

Ainda innocente e pura,

O canto que surgira

Dessa alma gasta e escura.

Deixa-o seguir seu norte,

Cumprir missão cruel;

Deixa-o verter o escarneo;

Deixa-o verter o fel;

Deixa-o cuspir em faces

Onde não ha pudor,

E ao mundo, ebrio de si,

Rindo ensinar a dor.

As sanctas harmonias

De cantico innocente

Sabe-as o alvor do dia

Quando rompe do oriente;

Murmura-as o regato;

Vibra-as o rouxinol;

Vem no zumbir do insecto,

No prado, ao pôr do sol;

Vivem no puro affecto

Da filial piedade,

Nos sonhos e esperanças

Da juvenil idade.

Esta poesia é tua:

Eu já a ouvi e amei;

Mas hoje nem a entendo,

Nem repeti-la sei.

Assim, meu nome só

Escreverei aqui;

Som vão, intelligivel

Apenas para ti;

Extincto candelabro

Do templo do Senhor,

Que por algumas horas

Deu luz, teve calor;

Lenda de sepultura,

Que fala em gloria e vida,

E esconde ossada infecta

Dos vermes corroída;

Pinheiro solitario,

Que o raio fulminou,

E que gemeu tombando,

E não mais murmurou.

*/

A FELICIDADE.

Era bello esse tempo da vida,

Em que esta harpa falava de amores:

Era bello quando o estro accendiam

Em minha alma da guerra os terrores.

Nesse tempo o balouço das vagas

Me era grato, qual berço da infancia;

E o sibillo da bala harmonia

Semelhante á de flauta em distancia.

Eu corri pelos campos da gloria,

D'entre o sangue colhendo uma palma,

Para um dia a depor aos pés dessa

Que reinou largo tempo nesta alma.

Mas qual ha coração de donzella,

Que responda a um suspiro de amor,

Quando vibra nas cordas sonoras

Do alaúde de pobre cantor?

Triste o dom do poeta!--No seio

Tem volcão que as entranhas lhe accende;

E a mulher que vestiu de seus sonhos

Nem sequer um olhar lhe compr'hende!

E trahido, e passado de angustias,

Ao amor este peito cerrara,

E, quebrada, no tronco do cedro

A minha harpa infeliz pendurara.

Um véu negro cubriu-me a existencia,

Que gelada, que inutil corria;

Meu engenho tornou-se um mysterio

Que ninguem neste mundo entendia.

E embrenhei-me por entre os deleites;

Mas tocando-o, fugia-me o goso;

Se o colhia, durava um momento;

Após vinha o remorso amargoso.

Esqueci-me do Deus que adorara;

O prestigio da gloria passou;

E a minha alma, vazia de affectos,

No limiar do porvir se assentou:

Meus pulmões arquejaram com ancia,

Buscando ar na amplidão do futuro,

E sómente encontraram, por trévas,

De sepulchros um halito impuro.

Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;

Eu te achei, oh milagre de amor!

Outra vez vibrará um suspiro

No alaúde do pobre cantor.

Eras tu, eras tu que eu sonhava;

Eras tu quem eu já adorei,

Quando aos pés de mulher enganosa

Meu alento em canções derramei.

Se na terra este amor de poeta

Coração ha que o possa pagar,

Serás tu, virgem pura dos campos,

Quem virá a minha harpa acordar

Como a luz duvidosa da tarde,

Quando o sol leva ao mar mais um dia,

Reverbera poesia e saudade

Na alma immensa de um rei da harmonia;

Tal poesia e saudade em torrentes

No teu meigo sorrir eu aspiro,

E no olhar que me lanças a furto,

E no encanto de um mudo suspiro,

Para mim és tu hoje o universo:

Soa em vão o bulicio do mundo;

Que este existe sómente onde existes:

Tudo o mais é um ermo profundo.

No silencio do amor, da ventura,

Adorando-te, oh filha dos céus,

Eu direi ao Senhor:--tu m'a déste:

Em ti creio por ella, oh meu Deus!»

OS INFANTES EM CEUTA.

DRAMA LYRICO EM UM ACTO.

(1415)

_O infante D. Duarte._

_O Infante D. Pedro._

_O Infante D. Henrique._

_Gulnar_, filha do wali de Ceuta.

_Lobna_, escrava.

_Haleva_, escrava.

_Um pagem._

_Um sobrerolda._

_Côro de cavalleiros portugueses._

_Côro de cavalleiros mouros._

_Côro de escravas, e de eunuchos negros._

SCENA I.

Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses.

D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D.

Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os

cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado

falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o

principe.

D. DUARTE.

Eia pois, cavalleiros! Breve os mares

Cruzaremos de novo além do Estreito!

Os inimigos timidos refogem

Da conquistada Ceuta.

Pelas campinas pallidas, ao longe,

Das altas torres espraiando os olhos,

Não se vê alvejar lá no horisonte

Um albornoz mourisco.

Folgue o que volta á patria enriquecido

Pela ganhada gloria: folgue aquelle

A quem coube o desterro entre estes muros,

Por conservar erguida

Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias

O estandarte real: morrendo, é martyr:

Seu nome eterno viverá na historia.

Folgae, meus cavalleiros!

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,

Para o velho homem d'armas d'elrei,

Que ha trinta annos nos diz:--combatei!»

Sem jámais a armadura largar!

Sob o forro do elmo pulido

Nossa fronte, senhor, se enrugou,

E estes peitos robustos quebrou

Dos arnezes conti­nuo pesar!

Bem vinda a hora

Em que voltemos,

E emfim saudemos

O nosso lar;

Em que possamos

No patrio rio

O sol do estio

Ver scintillar;

E, dos sinceiros

Entre a espessura,

Da guerra dura

Ir repousar!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Parti vós, cavalleiros:

A Portugal tornae;

E o nosso nome ás bellas

Donzellas

Lembrae!

Dizei-lhes que, se ás lides

Votámos peito e braços,

Por ellas suspiramos,

E amamos

Seus laços;

E que destes labios

Palavra amorosa

Por moura formosa

Jámais sairá.

Opprobrio e vergonha

Ao que as esquecer!

Infamia ao que arder

Por filha d'Allah!

D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio

dos cavalleiros.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Infamia, dizeis vós?

D. DUARTE.

Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente

da scena.

Por Deus, calae-vos!

Ignoram vosso amor esses guerreiros.

Da patria elles falavam:

Não a trahir juravam.

E vós? Vós que sois filhos

D'elrei de Portugal; vós, cavalleiros,

Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,

Vosso nome manchastes

Com um affecto ignobil...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que ousaes dizer, senhor!

D. DUARTE.

Sim, ignobil affecto! Amor gerado

Entre rios de sangue, ao lampejarem

Cruzados ferros, no aduar mourisco

Á viva força entrado.

Conduziu-vos, dissestes-me, o combate

A suberbo palacio. Alto repouso

Era de morte ahi: seus defensores

Tinha-os o ferro português ceifado,

Duas mouras formosas,

Vencidas do terror, na fuga anciosas,

Cahindo a vossos pés pediram vida,

Liberdade, honra, e vós...

D. PEDRO.

Assegurámos-lhes

Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos

D'elrei de Portugal, e cavalleiros!

Era o nosso dever.

D. DUARTE.

E era-o cederdes

A um amor insensato; o prometterdes

Pelas nocturnas trévas conduzi-las

Ás naus que vão partir?

D. HENRIQUE.

Será rouba-las

Á falsa crença do koran...

D. DUARTE.

Com vehemencia.

E a infamia

Lhes gravareis depois nas frontes puras?

Isso é torpe! Isso é vil!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor infante!

D. DUARTE.

Com ardor.

Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alva

A armada partirá.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Com inquietação.

Zombaes?

D. DUARTE.

Ouvi-me!

É o mandado d'elrei...

Dirigindo-se aos cavalleiros.

Meus velhos guerreiros,

As armas tomae,

E á praia fremente

Os passos guiae;

Que as náus já fluctuam:

Não tarda o partir.

Nos mares a aurora

Veremos surgir.

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.

Virgem! Esperança!

Estrella do mar,

Ouvi nosso orar;

Mandae-nos bonança!

Salvae-nos, salvae-nos!

E á patria levae-nos!

Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.

Á patria levae-nos!...

D. DUARTE.

Guerreiros novéis

As armas vestí,

E os muros de Ceuta

De lanças cubrí­.

Bandeira da serpe,

Bandeira d'elrei,

No alcacer, nas torres

Guardae, ou morrei!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.

Contentes saudamos

Os dias de guerra:

Ser dignos da terra

Da infancia juramos.

O braço não treme!...

O peito não teme!...

Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:

O peito não teme!...

D. DUARTE.

Restam bem poucas horas:

Salvos estaes infantes!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Sabe um amor immenso

Horas fazer de instantes.

D. DUARTE.

Que!? Ousarieis 'inda?...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Nós ousaremos tudo!

D. DUARTE.

Não! Filial piedade

Vos servirá d'escudo!

Com gesto supplicante.

Pela memoria sancta

De nossa mãe querida,

Que na feral jazida

Tal crime assombrará,

Afugentae qual sonho

Esse insensato amor,

Que o odio, que o furor

Do céu accenderá!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Mas deste amor profundo

Quem nos libertará?

D. DUARTE.

Vêde quem sois, e o mundo

Como vos julgará!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Duas formosas almas

Por nós a fé ganhou.

D. DUARTE.

Antes por vós o sangue

De Aviz se deshonrou.

UM PAGEM.

Entrando apressado.

Principe, elrei vos chama.

D. DUARTE.

Ide; eu vos sigo.

Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe,

D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.

Oh meu Pedro, oh meu Henrique,

Louco intento abandonaes?!

Não passar de Ceuta as portas

Hoje, aqui, vós me juraes?!

Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor, do sceptro herdeiro,

Vossos irmãos mandaes...

De Ceuta as ferreas portas

Não cruzaremos mais!

D. DUARTE.

Basta-me tal promessa!

Só mentem desleaes.

SCENA II.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

D. HENRIQUE.

Olhando para o principe que sáe, e sorrindo.

A promessa ha-de cumprir-se!

Nobre infante, vae seguro!

D. PEDRO.

Com hesitação.

Mas de Ceuta o erguido muro

Como além, hoje, transpôr?...

D. HENRIQUE.

Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.

Vedes vós, lá em baixo, esse vulto

Amplo e negro da torre de Fez,

Que inda ha pouco o mais forte pavez

Do vencido muslim se ostentou?

D. PEDRO.

Vejo; e lembram-me as portas robustas

Que a acha d'armas a custo desfez;

E que nesse momento se fez

Um silencio que instantes durou...

D. HENRIQUE.

E parámos; e ouvimos ao longe

Tinir d'armas, correr de corceis,

E o confuso bradar d'infiéis,

Restrugindo os seus gritos de dor...

D. PEDRO.

Subterraneo caminho os salvava

Das espadas dos nossos fiéis,

Quando inuteis alfanges, broqueis

Lhes tornára profundo terror...

D. HENRIQUE.

O que ao mouro no trance tremendo

De destino cruento remiu,

Esta noite, a quem nunca mentiu

De mentir uma vez salvará.

D. PEDRO.

Com grande jubilo.

Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!

Outras portas o amor nos abriu;

Nossa estrella dos céus nos sorriu;

O caminho, o caminho é por lá!

D. HENRIQUE E D. PEDRO.

Noite placida e formosa,

Noite grata a um vivo affecto,

Para nós no torvo aspecto

Te deslisa almo prazer!

Bella noite silenciosa,

Sê propicia ao nosso intento;

Com teu véu cobre o momento

Do partir e do volver!

SCENA III.

Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de

Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto.

No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro

de donzellas arabes cantando ao som de harpas.

CÔRO.

Dorme, dorme desgraçada!

Dorme, filha do wali!

Possa o somno sobre ti

O consolo derramar.

Quando dormes é teu gesto

Brando e meigo qual de huri;

Mas vingança nelle ri

Ferozmente ao despertar.

GULNAR.

Erguendo-se lentamente.

Oh, como é doce o som de vossas harpas,

Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes

Um pouco minha dor. Senti correrem

Destes olhos as lagrymas... Ai! breve,

Repentino terror veio enxuga-las.

Meu pae... Que diz Levi?

CÔRO.

Oh Deus!

GULNAR.

Entendo:

Não tenho que esperar?..

CÔRO.

Delira. Golfa o sangue

Da profunda ferida,

Por onde foge a vida

Do inerte corpo exangue.

GULNAR.

Com gesto ameaçador, e erguendo-se.

Oh, basta! Inulto,

Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho

Não dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura!

Lobna e Haleva onde estão?

SCENA IV.

LOBNA E HALEVA.

Entrando apressadamente assustadas.

LOBNA.

Eis-nos, princesa!

Os espias voltaram: tumultuando

Na marinha de Ceuta homens, ginetes,

Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,

Proas á terra: o esquife após o esquife

Entre a praia e as galés cruzando as ondas;

Tudo do amir christão mostra a partida.

GULNAR.

O tigre português volta ao seu antro!

Mas Ceuta...

Com amargura.

Profanada e serva és Ceuta!

O que te amou qual pae jaz moribundo

No seu leito de dor. Foi por salvar-te

Pérola rica do Moghreb. Inutil

O sangue se verteu! Oh, sem vingança

Não ficaremos nós: nós ambas orphans,

Eu desterrada e tu escrava. O nobre

Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora

Não veja mais a luz. Mas trema o fero

Amir de Portugal! Gulnar, a filha

Do vencido wali, ha-de vinga-lo.

Lobna e Haleva esta noite...

HALEVA.

Hesitando.

E quem vos disse

Que elles hão-de voltar?..

GULNAR.

O juramento:

O juramento seu!.. Já não sois servas,

Bellas filhas do Caucaso; sois socias

Da implacavel Gulnar. A vós a gloria

De tornar mais cruel su' hora extrema.

Quanto ardente paixão tem de ternura

Quantas fascinações ha no amor virgem:

Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,

O pranto, o resistir tem de deli­rio;

Tudo, tudo empregae! Raio de morte,

Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.

Erguendo as mãos.

Escuta, emfim, meu pranto,

Dos impios vencedor:

Manda, propheta sancto,

O anjo exterminador.

Chore a roubada prole

O português amir:

Que o sangue me console

Antes de o sol surgir.

Cercae-os vós de goso:

Sintam que é bom viver:

Será mais horroroso

Meu brado:--Ide morrer!»

Vem, oh terrivel hora,

Hora do meu folgar,

Hora em que vingadora

Triumphará Gulnar.

Dirigindo-se ao côro.

Ide; patente

Do alcacer seja o ádito: silencio

Profundo reine em toda a parte: os gritos

Dos moribundos só... hão-de quebra-lo!

Vingança a Bensalá.

CÔRO.

Vingança á patria!

GULNAR.

A Haleva e Lobna com gesto terrivel.

Em breve me vereis!...

SCENA V.

LOBNA E HALEVA.

Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois

correm a lançar-se nos braços uma da outra.

HALEVA.

Ai, como foi mesquinha

A nossa escura sorte!

Porque a terrivel morte

Os tristes conduzir?

LOBNA.

Oh, se Gulnar os víra,

De sangue inda banhados,

Vencidos, humilhados,

A nossos pés cahir!

HALEVA.

Que lhes valêra? Sangue,

Sangue só quer a hyena:

A cólera a aliena:

Não póde perdoar!

LOBNA.

Haleva, minha Haleva,

De susto eu titubeio:

Tu imagina o meio

De as victimas salvar.

HALEVA.

Miseras! Só nos resta,

Em festa sanguinosa,

Sob a traidora rosa

O aspide esconder.

LOBNA.

Que importa a pobre escrava

De susto e de amor trema?

Embora chore e gema,

Cumpre-lhe obedecer.

HALEVA E LOBNA.

Sólta o suave canto

Captivo rouxinol,

Quando o nascente sol

Derrama seu fulgor;

E as aves vem, correndo,

Pousar no umbroso til,

Onde com arte vil

As prende o caçador.

O canto da avesinha

Foi nosso amor fatal!

E elles... destino igual

Lhes reservou o amor!

SCENA VI.

Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se

alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha

das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da

torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena,

onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano

inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte

inscripção:==_Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy

eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415

annos._==É noite.

D. DUARTE.

Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.

Viste-los vós?...

SOBREROLDA.

Jura-lo

Posso. Dous cavalleiros:

Negras armas: cavallo

Negro ambos. Ligeiros

Voam... Ouví!...

D. Duarte chega ás ameias escutando.

Ao largo

Ainda soa o tropel.

D. DUARTE.

Áparte com afflição e despeito.

Oh pensamento amargo!

Oh receiar cruel!

Ao sobrerolda.

E os homens d'armas?

SOBREROLDA.

Velam:

Não falta um só.

Escutando para a campanha.

Dir-se-hia,

Ao seu correr, que anhelam

Voltar antes do dia.

D. DUARTE.

Não mais...

Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.

Para a barreira

Cem lanças o adail

Conduza: da dianteira

Todos; que valem mil!

E eu lá serei em breve:

E elles hão-de seguir-me.

Sabe-lo elrei não deve.

Ai do que ousar trahir-me!

O sobrerolda sai.

Sob o seu gesto candido

O engano se escondia!

Era uma idéa perfida

Que na alma lhes surgia,

Quando de Ceuta as portas

Juravam não transpôr!

Creram que a noite lobrega

Seu crime esconderia!

Perante o céu, oh miseros,

Que importa a noite, o dia,

Se de ira se ha turbado

A face do Senhor?

Pausa: com terror.

Mas se a suprema cólera

Terrivel já descesse!...

Se, em vez do goso vívido,

A morte os acolhesse!...

Erguendo as mãos.

Meu Deus perdoa aos tristes;

Cede á fraterna dor!

Oh minha mãe, da placida

Morada da ventura,

Guia-me os passos tremulos

Por esta noite escura,

Para salvar teus filhos,

Filhos de tanto amor!

SCENA VII.

A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas

arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna

e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam

os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da

esquerda.

LOBNA.

No seu rapido gyro foge a noite

Ligeira e socegada:

Fulgor da madrugada

Em poucas horas subirá d'oriente.

Não poderam voltar!... Respiro...

HALEVA.

Aproximando-se da gelosia.

Escuta!

Ouviste um silvo agudo?

É o signal!...

LOBNA.

Eu tremo...

Porém não... Quedo é tudo;

Salvo um ruído sussurrando ao perto,

De almogavar talvez...

HALEVA.

De dous ginetes

O tropeiar parece... Elles!... São elles!

Sobre trajos de ferro espadas tinem!

Não ha que duvidar...

LOBNA.

Oh! desfalleço!

Ouve-se um sibillo já perto.

HALEVA.

Ei-lo o triste signal, signal de morte!

Á sua esquiva sorte

Não poderão fugir! Meu Deus!

LOBNA.

Patente

Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos

Suspeitassem de nós!

HALEVA.

Ei-los! Silencio!

SCENA VIII.

D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que

recuam aterradas.

D. PEDRO.

Lobna!

D. HENRIQUE.

Haleva!

D. PEDRO.

O juramento

O momento é de cumprir!

De partir não tarda a hora:

Ha-de a aurora

Refulgir-nos juncto ao mar.

D. HENRIQUE.

Sobre os rapidos corceis

Nós fieis vos guiaremos

Aonde achemos mil delicias

Nas caricias

De que amor nos vai cercar!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Vinde! a noite nos protege:

Dorme tudo pela aldeia;

E este braço não receia,

Quando cumpre, o pelejar.

Poesias(#25925) · 第 5 / 7 段