Vinde ser enlevo d'almas,

Sob um céu meigo e sereno;

Que nunca ha-de o sarraceno

Como nós saber amar!

LOBNA.

Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.

Fugí breve, oh desgraçados,

Que cercados sois da morte!

Queira a sorte que um momento

Seu intento

A cumprir tarde Gulnar!

HALEVA.

De ninguem serdes sentidos,

Já perdidos, ainda creis!

Mal sabeis vos esperava

Quem velava

Para em vós um pae vingar!

LOBNA E HALEVA.

Triste umbral haveis cruzado,

Do wali ultimo abrigo,

Que no extremo do perigo

Jaz a ponto d'expirar.

Por seu sangue a feroz filha,

Que essas portas franqueiou,

Vingativa aos céus jurou

Vosso sangue derramar.

D. PEDRO.

A perfidía em recompensa

Só achou o nosso ardor?!

Desleaes! Porque o furor

De mulher cruel servir?

D. HENRIQUE.

Porque a vida nos pedieis,

No olhar terno amor pedindo,

Quando os golpes retinindo

Era livre inda o fugir?

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Porque em noite deliciosa

De deli­rios seductores,

Generosos vencedores

Só pensaveis em trahir?!

LOBNA.

Uma idéa tenebrosa

De Gulnar surgiu na mente

Nessa noite, em que estridente

Veiu a espada aqui luzir:

HALEVA.

«Ide:--disse-nos--sois bellas:

Fascinae os nazarenos,

Talvez possa assim, ao menos,

Da vingança a senda abrir!»

LOBNA E HALEVA.

A leôa do deserto

Entre as cervas se escondia:

Seu aceno constrangia

Pobre escrava a amor fingir.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Com vivacidade e despeito.

Era pois um falso affecto?!...

LOBNA.

Foi-o só um breve instante...

HALEVA.

Hoje puro, hoje constante

LOBNA E HALEVA.

Far-nos-ha por vós morrer.

D. PEDRO.

Pondo a mão sobre o punho da espada.

Que ella venha, pois, e a cerquem

Seus escravos traiçoeiros!

Portugueses, cavalleiros

Somos nós: ha-de tremer!

D. HENRIQUE.

Sabe o forte nos combates

Se este braço é prompto e duro;

O covarde, que no escuro

Fere só, o ha-de saber!

LOBNA E HALEVA.

{ Oh, fugi; que ainda é tempo,

{ Antes de ella aqui volver!

{

4 { D. PEDRO E D. HENRIQUE

{

{ Partiremos! Dentro em breve

{ Nos vereis aqui volver!

O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela

gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que

vão a sair, param e escutam.

CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, _fóra_.

Gloria ao sancto propheta que aos impios

A cerviz insolente vergou,

E do amir português crueis filhos

Do muslim ao punhal entregou!

LOBNA E HALEVA.

Bateu funerea hora...

Morreu nossa esperança!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Resta-nos a vingança...

Sangue por sangue... Embora!

SCENA IX.

Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão

collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita,

encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.

GULNAR.

A Lobna e Haleva.

Fugir?!... É tarde, infames!

Vós me trahieis, vís!

Tremei! Gulnar velava...

E eu sou vosso juiz!

Aos infantes.

Deponde inuteis ferros,

De Ceuta vencedores!

Lá fóra meus guerreiros...

Apontando para os eunuchos.

Alli meus vingadores.

LOBNA. HALEVA.

-------------^-------------

«Ide trahi-los-- Para trahi-los

I­mpia,disseste... Nos escolheste!..

Mui facil creste Se nos venceste

Fingir amor. Foi por temor.

LOBNA E HALEVA.

Morrer com elles

É grata pena...

Feroz hyena,

Temos-te horror.

D. PEDRO. D. HENRIQUE.

-------------^-------------

Aos teus escravos, Os teus escravos

Mulher infida, Com mortal lida

Mais larga vida A nossa vida

Deixa gosar! Tem de comprar!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que nunca o susto

Nos fez no p'rigo

O ferro amigo

Abandonar.

Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.

GULNAR.

Da louca audacia,

Da van affronta

Vingança prompta

Gulnar vai ter.

O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.

Mas qual ruí­do

Confuso soa?

Porque reboa

Voz do adail?!...

Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.

Hussein!.. O ferro

Retine!.. Gritos!

Gemer d'afflictos!

Sons de anafil!..

Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar

fica suspensa.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que escuto?! Lá bradaram:

--São Jorge! Ávante, ávante!»

Oh jubiloso instante!

Restruge o pelejar.

GULNAR.

Acenando aos eunuchos.

Morram os i­mpios! Morram!

Servos, rasgae seu peito.

Sintam, emfi­m, o effeito

Dos odios de Gulnar.

Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos

apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das

donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de

assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros

fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem

por entre os eunuchos e os dous infantes.

SCENA X E ULTIMA.

Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros:

côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena,

e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar,

recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva

refugiam-se juncto dos infantes.

CÔRO DE DONZELLAS.

Que horri­vel espectaculo!

Por toda a parte a morte...

CÔRO DE GUER. MOUROS. CÔRO DE CAVALLEIROS.

---------------^---------------

Ferros inuteis, ide-vos: Cede o agareno timido:

Cumpra-se a nossa sorte! Honra ao valor do forte!

Depondo os alfanges no chão. Brandindo as armas.

D. DUARTE.

Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e

correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.

Vivos ainda, e incólumes!

Graças te dou, Senhor!

Laços de um impio amor

Vinha-lhes eu partir...

E a morte ia-os ferir!..

Graças, oh meu Senhor!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.

Foste enganado, e salvas-nos!..

Perdoa, nobre infante!

Foi de delirio instante,

Que ao erro nos levou.

LOBNA E HALEVA.

Agita ancioso o seio

Insolito pulsar;

Mas d'horrido receio

Não é este agitar!

D. DUARTE.

Abraçando successivamente os irmãos.

Pedro, Henrique, sois salvos! Invenci­vel

A espada portuguesa,

Mais uma vez, terrivel,

A barbara fereza

Dos infiéis domou.

O perfido punhal,

Da vingança guiado, em vão se alçou...

GULNAR.

Adiantando-se.

Vencestes, nazarenos!

Folgae na vossa gloria...

Seguí facil victoria.

Puní­-me! Eis-me captiva...

Do vosso amir na prole

Vingar meu pae eu quiz...

Pensando-o era feliz:

Agora infeliz sou.

Morrer é a esperança,

Que o fado me deixou.

CÔRO DE CAVALLEIROS.

Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.

Pune, oh principe, infames traidores:

Lava a affronta do sangue real!

Dos covardes, em trance fatal,

Tinja as faces da morte o pallor!

CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.

Com gesto supplicante.

Por piedade, dos teus seguidores

Não escutes o voto lethal!

Generoso, o seu odio infernal,

Por piedade, não ouças, senhor!

D. DUARTE.

Aos cavalleiros.

Silencio!

Aos mouros.

Livres sois.

Aos cavalleiros.

Nunca aos vencidos

Sangue pediu meu pae. Eu serei digno

Filho do vosso rei.

A Gulnar.

Mulher, és livre.

GULNAR.

Tua clemencia hypocrita,

Tyranno, vem mui tarde!

Pensas apagar, barbaro,

Fogo que immortal arde?!

Dá-me Ceuta, a miserrima:

Torna-me um pae que expira:

Foge das praias d'Africa

Serva, que mal respira!

Foras assim magnanimo:

Grata Gulnar te fora:

Sem isso, um favor unico,

Prompto morrer te implora!

CÔRO DE MOUROS E DONZELLAS. CÔRO DE CAVALLEIROS.

---------------^---------------

Turba-te a dor e a cólera, Da perfida a van cólera

Filha de Bensalá: Inutil brame já:

A tua raiva indomita Do seu cruel proposito

É van e inutil já! Ella nos vingará.

Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz

baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte

mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.

D. DUARTE.

Tomando pela mão as duas escravas.

Não!... Innocentes victimas

D'impios não deveis ser!

O vosso amor ingenuo

Cumpre-vos esquecer;

Mas a vingança barbara

Não vos entregarei.

A Portugal seguindo-nos

Olhando para os infantes com aspecto severo.

Eu vos protegerei!

LOBNA E HALEVA.

Só ir nos concede

O fado inhumano

Além do oceano

De amor expirar!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Nest'hora solemne

Do peito no arcano

Nosso amor insano

Juramos calar.

D. DUARTE.

Da nossa clemencia

Aprenda o africano

A ser nobre e humano,

E o que é perdoar.

GULNAR.

Do meu odio immenso

Cruel desengano!..

Feroz lusitano

Se ri de Gulnar!

CÔRO DE CAVALLEIROS.

Risquemos da mente

O perfido engano;

Que o principe humano

É bello imitar.

CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.

A nobre clemencia

Do heroe lusitano

Áquem do oceano

Sempre ha-de lembrar.

LIVRO TERCEIRO

VERSÕES.

O SECCAR DAS FOLHAS.

(_Millevoye_).

Das ruinas destes bosques

O outomno alastrou o chão:

A selva perdeu seus mimos;

Os rouxinoes mudos são.

No bosque, amigo da infancia,

Triste um joven vagueiava;

Na sua aurora a doença

Para o sepulchro o inclinava.

«Adeus floresta querida!

Vestes lucto por meu fim?

Como te cai folha e folha

A morte me segue assim.

Intima voz, que revela

Seu fado extremo aos mortaes,

Me diz:--vês cahir as folhas?

São essas só: não ha mais!

Sobre esta pallida fronte

O torvo cypreste ondeia,

Como o que, pharol de mortos,

Sobre campas se meneia.

Antes da vide na encosta,

Antes da relva no prado,

Os dias da juventude

Terão para mim murchado!

Minha linda primavera

Qual a van sombra passou!

Eu morro: o euro gelado

Da vida a seiva mirrou.

Cáe, oh passageira folha;

Vem esta senda cobrir;

Esconde ao pranto materno

Logar onde vou dormir.

Mas se vier minha amante,

Involta em véu luctuoso,

Ao pôr do sol, na lameda,

Dar-me um suspiro saudoso,

Com o teu leve rugido

Desperta, oh, desperta o morto;

Que assim sua sombra tenha

Ainda allivio e conforto!»

Disse: afastou-se, e não volve:

Ultima folha cahiu:

Era o signal: seu sepulchro

Sob o carvalho se abriu.

Mas sua amante não veio:

E só do valle o pastor

Quebrou com som de passadas

Repouso do trovador.

A NOIVA DO SEPULCHRO.

(_Imitado do inglez_).

I.

Juncto da raia d'Hespanha,

Em monte calvo e deserto,

Vê-se um vulto negro ao longe,

Castello é, vendo-se ao perto:

Mas castello derribado,

De bons tempos, de outras eras,

Hoje abrigo escuro e triste

De reptis e bravas feras.

Foram formosos e fortes

Esses muros derrocados,

Por onde trepam as heras;

Que cingem bastos silvados.

A voz delrei nelle tinha

Nobre alcaide dom Sueiro;

Nobre por sua linhagem,

Nobre por bom cavalleiro.

Noivados, torneios, festas,

Ninguem sem elle fazia:

Ninguem, sem o convidar,

Ajustava montaria;

Que nunca da sua bésta

Viróte partiu em vão;

Como nunca os justadores

O viram perder o arção.

Mulher, que elle muito amara,

Lh'a roubara a sepultura;

Mas por este golpe o alcaide

Não mostrou grande tristura.

Até corria entre o povo

Um mysterio de maldade...

Suppunham uns ser mentira;

Criam outros ser verdade.

Mas o que? Cubria a terra

Esse caso mysterioso;

E só o povo sabía

Ser viuvo o que era esposo.

II.

Cedo se ergue dom Sueiro;

Cavalga no seu cavallo,

E para caçada alegre

Passa áquem do extremo vallo.

Por essas margens do Lima,

Debaixo de puro céu,

O nobre senhor alcaide

Á rédea solta correu.

Veredas segue torcidas,

Até descubrir o outeiro,

Que revestem pela encosta

O zimbro, a urze e o pinheiro.

Soam sonoras buzinas,

Ri do dia o lindo alvor,

E no meio da paizagem

Uma brilha e outra flor.

Dom Sueiro o seu cavallo

Incita com ferrea espora;

Que no logar aprazado

Deve estar dentro de um' hora.

Nada lhe põe embaraço;

Nem resonantes ribeiros,

Nem as chans apaúladas,

Nem escarpados outeiros.

Mas ao sair da floresta,

Ainda perto do rio,

Viu ir formosa donzella

Buscando do ermo o desvio.

Celestes são seus meneios:

Não mortal, anjo parece:

Da sua tez a brancura

Alva açucena escurece.

O seu corcel dom Sueiro

Fez parar. Já se esquecera

Da caçada; e que no monte

Em breve estar promettera.

--Dizei-me vós, oh donzella,

Quem sois, que nunca vos vi;

Que por minha alma vos juro

Sois já senhora de mi.»

Resposta nenhuma teve,

Que ella não lhe respondia,

E, sempre guiando ao valle,

A curva senda seguia.

--Não me fugireis assim:

Bofé que não fugireis!

Um momento, um só momento,

Dom Sueiro escutareis!»

Disse: desmonta, e persegue-a,

Nos braços para a estreitar;

Mas ella furta-lhe o corpo,

E elle abraça o subtil ar.

--Dizei-me vós, oh donzella,

Pela vossa alma dizei,

De que procede tal susto,

Que a meu pesar vos causei?

Que, pelos céus o asseguro,

É verdadeiro este amor.

Não me fujaes, bella dama:

Não ha de que ter pavor.

De esposo, se vós quereis,

Dar-vos-hei, contente, a mão:

Sereis dona de um castello,

Dona do meu coração.»

--Dom Sueiro, oh dom Sueiro--

Tornou a dama formosa--

Eu sei quem és, qual teu nome,

E eu seria tua esposa:

Mas como crer nos teus dictos,

Dictos de homem fraudulento?

Conheço tuas perfidias,

E qual é teu vil intento.

Dês que morreu dona Dulce,

A tua infeliz mulher,

A linda Elvira roubaste

Para teu ludibrio ser.

Com promessas refalsadas

Enganaste uma innocente.

Quem crerá juras de um ímpio,

Que só jura quando mente?

Ella te creu, desditosa!

Porém não te creio eu:

Nem, qual de Elvira o destino,

Será o destino meu.

E como soffrera, esposa

Tua sendo, uma rival?

Folgáras tu nos meus zelos;

Folgáras della no mal?

Ousáras tu, dom Sueiro,

A pobre Elvira expulsar,

E dias de angustia e pejo,

Misera, vê-la tragar?--

«Oh, voto a Christo, que sim!--

O nobre alcaide atalhou:

E desfazer-se de Elvira,

Com mil pragas, protestou.

--Mas dizei vós, dama linda,

Quem sois? quem são vossos paes?

Que eu vos direi de mim tudo,

Se tudo me perguntaes.--

«Nunca!--tornou a donzella:--

Quem eu sou não te direi.

Nada te devo por ora:

Quando dever pagarei.

Mas pódes estar seguro,

Que, bem que nobre senhor.

Não é que o meu o teu sangue

Sangue de maior primor.--

«Pois sim, querida, pois sim!--

Dom Sueiro proseguia;

E algum signal de ternura

Á bella dama pedia.

«Não, oh não, meu cavalleiro!

Quando a mim te vir ligado

Tua serei; que antes disso

Fôra horroroso peccado.--

«Porém dizei-me, oh donzella,

Onde vos hei-de encontrar?

Que, pela cruz, ahi juro

Nossas nupcias celebrar.--

«Oh, que não será de dia;

Que mal de nós julgarão!--

Tornou a dama--e os praguentos

Certo de mim se rirão.

É pela noite que eu voto;

De noite no cemiterio,

Quando soar doze vezes

O sino do presbyterio.

Sob o teixo solitario,

Onde ninguem nos não veja;

E aonde nunca chegar-se

Quem passar ousado seja.--

«Vivam meus lindos amores!--

Interrompeu dom Sueiro:--

Sob o teixo, á meia noite?...

Veremos quem vae primeiro.--

«Sim!--volveu ella--a ess' hora.

Nenhuma fôra melhor;

Porém, da tua palavra

Que me darás em penhor?--

«Minha paixão em seguro

Do que promettí te dou:

Nunca promessas mentidas

Fez quem devéras amou.

Curvando o joelho, eu juro

Teus grilhões sempre rojar:

Meu corpo e alma são teus;

E o tempo o ha-de provar.--

«Basta!--a donzella lhe disse.--

Dom Sueiro, sou contente.

São meus teu corpo e tu' alma:

Meus serão eternamente.--

Dicto isto, ao longo do rio

Ligeira a senda seguiu,

E elle aos outros caçadores

Alegre se reuniu.

III.

Já da larga montaria

O folguedo se acabava,

E dom Sueiro ao castello,

Ao seu castello voltava.

Arde-lhe na alma o desejo

Com as imagens do goso,

E róe-lhe idéa damnada

O coração criminoso.

Infeliz e linda Elvira,

Nos dias da juventude,

Perdera nos braços delle

Flor de innocencia e virtude.

Mas gosos faceis não duram;

Breve após o tedio chega:

Elvira é já enfadonha:

Novo amor o alcaide cega.

Cumpre de si afasta-la:

O caso difficil é:

Ajunctará crime a crime?

Elle outro meio não vê.

Emfim decidiu-se: a morte

Em aurea taça lhe deu.

Nobre senhor, folgar pódes,

Teu crime a terra escondeu!

Era noite: e dom Sueiro

Para o adro ermo partia.

Logar, horas ou remorsos,

Nada terror lhe infundia.

Brilha a lua em seu crescente:

Passa a noite silenciosa;

E só lhe quebra o socego

O mocho e a fonte ruidosa.

Ao cabo o adro elle avista:

No meio o teixo lhe avulta:

Não deu meia noite ainda;

A dama ainda se occulta.

Mas troa o sino! Uma!... Duas!...

Contou; contou: mais dez são:

E uma donzella, de branco,

Surge da lua ao clarão,

E está debaixo do teixo.

Para lá o alcaide corre.

Não enganou seus desejos

Essa por quem elle morre.

Porém que é isto? Recúa?

Para trás a face vira?

Sim; que não era a donzella,

Mas o phantasma de Elvira.

«Maldicto!--clamou o espectro--

Pune a traição o traidor.

Negro o sepulchro te espera.

De teu mal és só o auctor.

Pensa, monstro, emquanto é tempo;

Que não tardará teu fim.

Teu nome apagou-se. Agora,

Recorda-te bem de mim!--

Não disse mais; e esvaeceu-se.

Dom Sueiro, espavorido,

Fugiu: sem volver os olhos,

Sem parar, sempre ha corrido.

Brilha a lua em seu crescente:

Passa a noite silenciosa;

E só lhe quebra o socego

O mocho e a fonte ruidosa.

Á porta do seu castello

Já dom Sueiro chegava.

Alli, vestida de branco,

Do bosque a donzella estava.

«Mal-hajas tu, cavalleiro:--

Apenas o viu lhe disse:--

O ter de mulheres medo

É signalada pequice.

Fui eu que fiz de phantasma:

Teu valor conhecer quiz.

Tremer como tu tremeste

É só proprio de homens vís.--

As faces do nobre alcaide

De vermelho se tingiram;

Mas voltou logo a ternura;

Passados sustos fugiram.

«Vinde a meus braços, querida!

Vinde: não vos detenhaes,

Digna de ser minha esposa

Só vós sois, e ninguem mais.

Neste sitio, hoje vos juro

Amor firme e puro e ardente:

Em corpo e alma sou vosso;

Sê-lo-hei eternamente.»--

«Em corpo e alma!?--ella clama,

Com uma voz sepulchral.--

Certo será graciosa

Nossa união conjugal!»

Então, qual bravo terçol,

Que em sua presa poz mira,

Ao mesquinho dom Sueiro,

Abrindo os braços, se atira.

«Arredo! Filha do inferno!--

Grita o alcaide.--Isto o que é?»

Ai!... olhou... É dona Dulce,

Não a donzella, quem vê.

Com os braços descarnados

Ella o collo lhe estreitou,

E os labios apodrecidos

Aos labios delle chegou.

Mortal halito de serpe

Seu halito assemelhava:

Sua figura era horrivel:

Tocada apenas gelava.

«Deixa-te agora de medos:--

Disse o espectro a dom Sueiro.--

Que é da audacia que mostravas,

Audacia de cavalleiro?

Tremes?... De quê, assassino?

Antes devêras tremer,

Quando envenenaste Elvira,

E a tua pobre mulher.

Meu amor e meus encantos

Pouco tempo te prenderam:

Em mim do sepulchro os vermes

Por tua mão se pasceram.

Depois, a amar-me tornando,

Repetiste um crime horrivel...

Teu amor é frouxo sempre;

Teu odio sempre terrivel!

Mas agora, odiada ou grata,

Não sairei de teu lado:

Nada quebra no outro mundo

Dos mortos negro noivado.

Alma e corpo me cedeste:

O corpo aqui dormirá:

Porém tua alma comigo

Mais longe se acolherá!»

Não lhe respondeu o alcaide,

Que a morte empallidecera,

E, ao som de arranco profundo,

No chão, extincto, batera.

Mas contam 'inda os pastores,

Que á meia-noite vagueia

Nas margens do ameno Lima,

Que murmurando serpeia;

E que, gritando e gemendo,

O seguem duas figuras,

Ambas com brancos vestidos

E tisnadas cataduras.

O CANTO DO COSSACO.

(_Béranger_).

Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo!

Chama-te em altos sons tuba do norte.

Prestes no saque, intrepido nas brigas,

Dá, guiado por mim, asas á morte.

Os teus jaezes não arreia o ouro;

Mas de meus feitos o terás em paga.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Tuas rédeas me entrega a paz que foge.

Ei-los por terra os europeus baluartes!

Meus aureos sonhos realisa agora;

Terás repouso na mansão das artes.

Volve a terceira vez ao Sena inquieto,

Que te lavou sangrento, e a sede apaga.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram,

Entre o choro de mi­seros humanos:

--Cossacos, vinde ser de nós senhores!

Servos seremos, por ficar tyrannos.»

E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes;

Que eu hei tomado minha lança e adaga.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De um enorme gigante vi o espectro

Nosso campo correr co' a vista ardente;

E, gritando:--meu reino outra vez surge!»--

Mostrar com a acha d'armas o occidente.

A sombra era immortal do rei dos Hunos;

D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De que serve seu brilho á velha Europa?

Que lhe presta o saber para salvar-se?

Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la,

Debaixo de teus pés vão levantar-se.

Templos, palacios, leis, memorias, usos,

Na correria extrema, e pisa e estraga.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

O CAÇADOR FEROZ.

(_Burger_).

Poesias(#25925) · 第 6 / 7 段