D'entre as dores do exilio. Pelas ondas
Do irrequieto mar mandei-te o choro
Da saudade longinqua. Sobre as aguas,
Que de Albion nas ribas escabrosas
Vem marulhando branqueiar de escuma
A negra rocha em promontorio erguido,
D'onde o insulano audaz contempla o immenso
Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos
Não sentida uma lagryma fugiu-me,
E devorou-a o mar. A vaga incerta,
Que róla livre, peregrina eterna,
Mais que os homens piedosa, irá depo-la,
Minha terra natal, nas praias tuas.
Essa lagryma acceita: é quanto póde
Do desterro enviar-te um pobre filho.
No silencio da noite, em sólo estranho,
Patria minha gentil, em ti pensando,
Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
Neste céu achatado, tristemente
Com luz mortiça e pallida, não ricos
De inspiração e amor, quaes lá refulgem.
Pela sombra amenissima, que chama
Do affastado oriente o sol no occaso,
No teu profundo céu has-de tu vê-los:
Do desterrado filho os votos levam:
Acceita-os delles, desgraçada patria!
Já se acercava o tenebroso inverno;
Vinha fugindo a rapida andorinha,
Para um abrigo te ir pedir, oh patria,
Em cujos valles nunca alveja a neve:
Juncto de mim passou: em suas azas
Tambem mandei o filial suspiro.
Pelo dorso das vagas rugidoras
Eu corri de além mar para estas plagas.
Pelas antenas, em nublada noite,
Ouvi o vento sul que assobiava,
E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:
Seu rijo sopro refrescou-me as veias.
.....................................
II.
Que ferreo coração esquece a terra,
Que lhe escutou os infantís vagidos,
E lhe bebeu as lagrymas primeiras,
Preludio a tantas que no curto espaço
Da vida ha-de verter? Quem, nunca, esquece
O tecto paternal, embora adeje
Ao redor delle o medo de tyrannos?
Quem não deseja misturar, na morte,
Com a gleba nativa o pó de extincto,
E murmurar seu ultimo suspiro
Alli, onde primeiro a luz diurna
O allumiou na rapida passagem
Entre o nada e o morrer, chamada a vida?
Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo,
Um sonho mau, de que se acorda em trévas,
Na valla dos cadaveres, em meio
Da unica herança que pertence ao homem,
Um sudario e o perpetuo esquecimento.
A infancia é dormir placido: inquieta
A mocidade é, já; mas entre dores
Vem o amar e esperar, e a crença ardente,
E affectos sanctos consolar quem dorme:
Pouco a pouco, porém, sobre a jazida
Do sonhador, do mal se assenta o anjo,
E as imagens ridentes da ventura
Co' as negras asas dispersando ao longe,
Com duro pé o coração lhe opprime.
Oh, no grabato meu bem cedo esse anjo
Veio assentar-se, e o juvenil enleio
De affectos puros em dormir sereno
Affugentou de mim. Vagueei nos mares;
Peregrinei na terra: em toda a parte
O pé maldicto me esmagou o peito,
E da patria a saudade, em sonho triste,
Immovel, do viver me tece a noite.
..................................
III.
Solidão, solidão, quem diz que existes
Onde não soa tumultuar das turbas
Mentiu-te a essencia! Solidão e morte
São uma idéa só; um pensamento
Doloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle,
Onde haja o sol da minha patria, e a brisa
Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,
E a larangeira em flor, e as harmonias
Que a natureza em vozes mil murmura
Na terra em que eu nasci, embora falte
No concerto immortal a voz humana,
Que um ermo assim povoará meus dias.
Mas aqui!... Que me importa o murmurio
Dos que passam? Que vale essa campina
Humida e verde, e no gelado pégo
Raio do sol que se refrange turvo?
É o desterro solidão e morte
Para o poeta: embora estranha lingua
Lhe revele o pensar, o intimo verbo
Que em ar vibrado traduziram labios,
Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selva
Não tem para lhe dar um pensamento
De poesia e de amor?
Não! Tudo é pallido,
Tudo é morto e sósinho e silencioso
Como um sepulchro e um cemiterio!
E ainda
Campas e adros inspiram, quando hi dormem
Nossos irmãos e paes, porque tem lagrymas
Que desopprimem a alma; tem memorias,
Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurram
Preces, que alli vamos guardar, qual guarda
O avaro em ferreo cofre os seus thesouros,
Para os contar hoje, ámanhan e sempre
Emquanto vivo for.
E cá? O engenho
Nem crê, nem sente bafejar-lhe um canto
O crepusculo, a lua, a aragem fresca,
O arrebol da manhan, ou céu sereno
Por noite escura recamado de astros.
Harpa meridional, porque, no extremo
Da terra patria, o trovador errante
Não deixaste partir só com seus males?
Porque vieste, oh filha do occidente,
Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas
De céu septentrional? Tu, pobresinha,
Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,
Sem haver mão que te vibrasse as cordas,
Jazesses esquecida, ainda soáras
Com incerta harmonia. Ás horas meigas
Em que o dia se esvai, placida a brisa,
Que espira do oceano e encrespa as vagas,
Passaria por ti, e te agitára,
E murmuráras som que respondera
Trémulo, fraco, á flauta dos pastores
Sussurrando suave entre as quebradas
Da montanha selvosa. E aqui? És muda;
És muda, que essas cordas carcomiu-t'as
Este ar gelido e turvo, e qual o engenho
De teu dono, no viço da existencia,
Envelheceu, envelheceste, oh harpa!
...................................
IV.
Berço do meu nascer, sólo querido,
Onde crescí e amei e fui ditoso,
Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!
Quando, aterrado ante o minaz aspecto
Do anjo de Deus, tremente vagueiava
Nosso primeiro pae em volta do Éden,
Não lhe tecia tanto de amarguras
A vida o duro affan com que trocava
Pelo pão o suor co' a avara terra;
Não era tanto o traspassar-lhe os membros
O hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'os
O sol estivo, e o magoar, errante,
Os pés feridos nos tojaes bravios
Pelas sendas que abria em ermos valles,
Como as saudades de passados tempos,
Dessa infancia viril, em que surgira,
Para viver e amar, do barro inerte;
Não o pungia tanto o mal presente
Como a recordação dos claros dias
De innocencia e de paz que alli vivêra.
A primavera eterna, as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O frémito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas tão ricas de mysterios,
De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;
Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos
Vingadora a memoria inexoravel.
Por entre a bruma da estação chuvosa
Passavam-lhe de abril perfumes, galas;
Sob estuoso sol vinha a saudade
Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio
E o ramalhar dos platanos copados.
Por tenebrosas noites de procella,
Quando a torrente e o vendaval bramiam,
Cria d'entre o fragor ouvir romperem
Os matutinos canticos das aves,
E ver no pégo reflectir-se a lua.
Longe, assim, do seu berço, o criminoso
Com dura punição remia o crime:
Mas para o consolar na senda agreste,
Em cujo termo o esperava a morte,
O severo juiz deixára ao triste
De uma esposa querida o seio casto,
Onde aspirar o amor, olhos que o pranto
Misturassem co'o seu. Perdendo a patria
Perdia encantos só de natureza
Formosa e juvenil. As harmonias
Dos corações, os misticos affectos
Não lhe truncou a espada flammejante
Do cherubim ao repelli-lo do Éden:
Para elle a patria renasceu no exilio.
Eu, prófugo como elle, o Éden nativo
Perdí; e perdí mais. Despedaçados
Os affectos de irmão, de amante, e filho
Restam-me na alma qual buída frecha,
Que no peito ao cravar-se estala e deixa,
Cahindo, o ferro na ferida occulto.
...................................
V.
Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria
Me reflecte, alta noite, a tua imagem
Por entre um véu de involuntario pranto!
Quão triste cogitar em mim desperta
A imagem cara! Á noite, o bom do velho
As bençams paternaes de Deus co' as bençams
Sobre minha cabeça derramava,
E ao começar o dia; e ellas desciam
A um coração exempto de remorsos
Onde encontravam filial piedade.
E agora? É-lhe mysterio o meu destino.
Qual o seu para mim o exilio occulta.
Saciado, talvez, de dor e affrontas
Dorme já sob a campa o somno eterno?
Suas trémulas mãos não mais lançar-me
Virão a bençam da piedade? O extremo
Arranco seu não roçará meus labios?
Ah, se um dia raiar para o proscripto
O suspirado alvor do sol da patria,
E se entre nós de um ímpio as mãos ergueram
A barreira da morte, ai delle, ai delle!
E tambem, ai de mim!........................
...................... Mas se 'inda um filho
Houver digno de o ser, eu criminoso
Terei quem me deplore; mãos que plantem
No adro deserto onde jazer maldicto
Um cypreste, uma flor, e quem deponha
Aos pés do throno do juiz supremo
Por mim, uma oração fervente e pia.
...................................
VI.
Arvores, flores, que eu amava tanto,
Como viveis sem mim? Nas longas vias,
Que vou seguindo peregrino e pobre,
Sob este rude céu, entre o ruído
Dos odiosos folgares do sicambro,
Do monotono som da lingua sua,
Pelas horas da tarde, em varzea extensa,
E ás bordas do ribeiro que murmura,
Diviso ás vezes, em distancia, um bosque
De arvoredo onde bate o sol cadente,
E vem-me á idéa o laranjal viçoso
E os perfumes de abril que elle derrama,
E as brancas flores e os dourados fructos,
E illudo-me: essa varzea é do meu rio,
Esse bosque o pomar da minha terra.
Aproximo-me; o sonho de um momento
Então se troca em acordar bem triste,
Como surge e se esvai por entre as nevoas
Vulto indeciso nos cantares d'Ossian.
É uniforme e torva esta verdura,
Acre o cheiro que exhala este arvoredo,
Mal-assombrado o rio, humido o valle,
Frio do sol o raio derradeiro
Espirando neste ar denso e pesado,
Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,
E rouba aos olhos horisonte immenso.
Ai, pobres flores que eu amava tanto,
Por certo não viveis! O sol pendeu-vos
Mirradas folhas para o chão fervente:
Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,
E morrestes. Morrestes sobre a terra,
Que por cuidados meus vos educára.
E eu? Talvez nestes campos estrangeiros
Minha existencia o fogo da desdita
Faça pender, murchar, ir-se mirrando
Sem que torne a ver mais esses que amava,
Sem que torne a abraçar a arvore annosa,
Que se pendura sobre a limpha clara
Lá no meu Portugal, onde a frescura
Da ribeira perenne, da floresta
Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida!
..........................................
VII
Eu já vi n'uma ilha arremessada
Ás solidões do mar, entre os dous mundos,
Vestigios de volcões que hão sido extinctos
Em não-sabidos seculos. Scintillam,
Aqui e alli, nos areientos plainos,
Onde espinhosas sarças só vegetam,
Restos informes de metaes fundidos
Pelas chammas do abysmo, entre affumadas
Pedras que em parte amarellece o enxofre,
Que a lava em rios dispersou, deixando
Só delle a côr em lascas arrancadas
Das entranhas dos montes penhascosos.
A natureza é morta em todo o espaço
Que ella correu, no dia em que, rugindo,
Da cratéra fervente, á voz do Eterno,
Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,
A engoliu e passou, qual sumiria
De soçobrada nau celeuma inutil.
Tal é meu coração. Bem como a lava
É o desterro ao trovador. Meus olhos
Hão-de esquecer as lagrymas; que a seiva
Do vivido sentir vai-se queimando
Ao suão mirrador de atroz saudade,
Que excede tudo em dor; excede a de orpham,
De viuva, de mãe que sobre o berço
Vê jazer morto o pallido filhinho.
E porquê? Porque ahi ha inclinar-se
Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se
Com suspiros e prantos desses restos,
Que vão quedos dormir em adro antigo,
Onde os avós já dormem; onde ha patria,
Ha familia, ha irmãos.--Cá, tudo é ermo,
E a dor está no coração do prófugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
A dor aqui é gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem,
E até em sorrir nosso; está sentada
Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no pão que nos esmolam,
Enroscada, qual cobra peçonhenta,
No nodoso bordão do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.
E depois, o morrer em leito alheio;
Despedir-se de um sol que não é esse,
Que, na infancia, nos fez florir os prados,
Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;
Volver em torno os olhos moribundos
E não ver uma lagryma; inclinar-se
E não achar um seio feminino,
Ou de esposa ou de mãe, onde repouse
A fronte accesa por ardente febre;
E pensar entre as ancias derradeiras,
Que será terra estranha a que nos trague;
Que será til do norte o que proteja
Nosso humilde moimento, a verde gleba,
Onde de pinho a cruz por dous invernos
Apenas luctará co'a negra nuvem
Do esquecimento eterno, unica herança
Do que expirou no exilio!
Amarguradas
São taes cogitações para o que sente
No seio em ondas trasbordar-lhe a vida.
Quaes, porém, não virão ao pobre velho,
Que, arrancado das bordas do seu tumulo,
Foi por cima dos mares arrojado
Para juncto do umbral de um cemiterio,
Onde não achará paternos ossos,
Para ao pé delles se deitar morrendo?!
......................................
VIII.
Quando nos luz o sol no céu da patria,
Embora sobre nós verta a desdita
Torrentes de amargura, ha um consolo:
É o altar e a oração. Ao desterrado
Nem sequer isso resta. O templo alheio
É como ermo de Deus; como que param
Nesse craneo de marmore arqueado
Do gigante edificio as tristes preces
Em lingua estranha proferidas. Gelidas
E duras são do pavimento as lageas
Para quem sabe certo não o escutam
Mortos que muito amou; que nesse tecto
Vai bater frouxa uma oração discorde
Entre mil orações.
«É falso! É impio!--
A razão o dirá--De Deus o templo
É o mundo. No cimo das montanhas
O nome do Senhor sussurra em sopro
Do vento que passou rasgando as asas
Pelo cardo bravio; a gloria delle
Di-la o rolo do mar correndo á praia;
É o seu hymno o canto da avesinha
No salgueiro que pende e se balouça
Sobre o arroio do valle, e é do regato
O murmurinho o cantico nocturno
Mandado pela terra silenciosa
Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos
Que pelos céus harmoniosos gyram.
Esses montões de cinzeladas pedras
De columnas e torres, que se elevam
Como as mãos junctas de quem resa, apenas
São um memento da oração, um marco
Posto no ermo da vida, que nos lembre
Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,
Que é senhor e que é rei, que é pae e entende
O vento, o mar, os astros, a avesinha,
O sussurrar do arroio humilde, e as preces
De milhões d'orbes em milhões de linguas.»
Ao brado da razão só não se dobra
O coração do desterrado!
Embora
Sob as asas do amor abrigue o Eterno
Homens, nações e o mundo: o amor por elle
Nasce, cresce, vigora-se enredado
Com os beijos de mãe, com sorrir meigo
De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
O pôr do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.
Quando isso tudo se converte em sombra,
Que em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissimo ou phantasma
Á meia-noite visto, á luz da lua,
Ao longe entre arvoredo: quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trévas
Pela antena da nau do vagabundo;
Quando a dor sua em olhos de ente vivo
Não achou uma lagryma piedosa,
E nos seus proprios são vergonha as lagrymas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,
Não sobre seio que as esconda e enchugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; então o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O coração do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus soçobra e morre
Entre o bramir de maldicções e pragas.
Oh, do desterro o mal supremo é este!
É o seccar-se o coração; mirrar-se
Como a sarça do monte em fins d'estio;
É o descrer, e o blasphemar do Eterno.
Se aos céus levanta o desgraçado os olhos,
É que primeiro os pôs lá no futuro,
E, bem que tenue luz, um fulgorzinho
Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro:
Mas quando se ergue um muro intransitavel
Entre nós e a ventura; quando ao longe
Pelos campos da vida é tudo pallido
E perece a esperança, então a mente
Recúa com horror, e dando em terra,
Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,
.........................................
O MOSTEIRO DESERTO.
I.
No mosteiro vai fundo o silencio;
Um silencio que gera terror;
Só nos tectos, que banha o luar,
Sólta o mocho seu pio de horror:
Só o vento que gyra nos pateos,
E se engolfa na escada ogival,
Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,
Que ladeiam normando portal.
Meia noite. E na crasta deserta
Não reboam os ecchos do sino,
Que, vagando, murmuram nas cellas:--
São as horas do officio divino.»
Meia noite! Bem como na torre
Voz de bronze dormente parece,
Tal o monge, na dura jazida,
Priguiçoso do templo se esquece.
Monge, o brado nocturno do sino
Ao resar não te chama, é verdade;
Mas talvez já no topo do côro
Somnolento te espera o abbade.
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Nada quebra o remanso da noite
Pelas gothicas, vastas arcadas:
Nem de quicios ranger vagaroso,
Nem murmúrio de lentas passadas.
«Está só o mosteiro?--
Este grito
Repetiram-no os ecchos inteiro;
E, bem como em resposta á pergunta,
Retumbou:
--Está só o mosteiro!»
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Pouco ha inda, na alta noite
Passava no espaço a lua,
Dos ulmos a cima ondeava
Negra, qual ora fluctua:
Mas tenebroso silencio
Não ía, como ora vai:
Bradava o sino da torre
Aos monges dizendo:--orae.»
E pelos vidros córados
Reverberava fulgor;
De passos no longo claustro
Soava tenue rumor.
Depois, lá dentro na igreja,
Em côro alterno rompia
O canto lento dos monges,
Que ás vozes do orgam se unia:
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Porém, como se ao sopro do archanjo
A trombeta final retumbasse,
E da vida o tumulto na terra
Ao terrivel signal expirasse,
Assim do orgam calou a harmonia,
E dos córos os hymnos calaram,
E os fulgores das lampadas frouxos
Das vidraças não mais transudaram.
II.
É que o filho dos ermos, renegando
Das tradições antigas,
Desceu a pelejar na ardente arena
Das facções inimigas.
Amar, soffrer, orar era a existencia
Que lhe talhára a sorte;
Enxugar muitas lagrymas na terra,
E repousar na morte;
Realisar té onde é dado ao homem
Esse typo ideal,
Que nos legou o Salvador, tomando
Nossa veste mortal.
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E não o quiz. Sacrilego, do pobre
A herança, que a piedade
Confiára ao ministro de uma crença
Que é toda caridade,
Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,
No altar impio da guerra,
E, abrindo o manto, sacudiu irado
A assolação á terra.
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De noite no bosque,
Na gandra deserta,
No viso do monte,
Do valle na aberta,
Á luz das estrellas
As armas fulgiam,
E ouviam-se ao longe
Corceis que nitriam:
Horrendo propheta
O abutre passava,
E sobre as encostas
Calado pairava:
Depois, na alvorada,
Com gritos sem fim
Saudava do sangue
Vizinho o festim.
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E á voz das trombetas,
Ao trom dos canhões,
Ao som das passadas
De vinte esquadrões;
E em meio do fogo,
Do fumo alvacento,
Em rolos ondeando
Nas asas do vento,
De agudas baionetas
A renque brilhante
Tremente avançava,
Ao brado de--ávante!»
E ao baço ruído
Dos leves ginetes,
No plaino calcando
Da relva os tapetes,
Os ferros cruzados
Luctavam tinindo,
Peões, cavalleiros
De involta ruindo,
E a ferrea granada
Nos ares zumbia,
E aos seios das alas
Qual raio descia.
E aos ares, revolta,
A terra espirrava,
E o globo encendido
Um pouco se alçava,
E prenhe de estragos,
Com fero estampido,
Mandava mil golpes,
Em rachas partido.
-----
E as horas passavam
Em scenas de morte;
E o abutre mirava
Os trances do forte.
-----
Na garganta da serra ou sobre o outeiro,
Pelo pinhal da encosta ou na campina,
Nesse dia de atroz carnificina,
Negros uns vultos vagueiar se viam:
A cruz do Salvador na esquerda erguida,
Na dextra o ferro, preces blasphemando,
«Não perdoeis a um só!--feros bradando,
Entre as fileiras rapidos corriam:
E era o monge que bradava,
E era o monge que corria,
E era o monge que, blasphemo,
Preces vans a Deus fazia;
Vans que, á tarde, nesse plaino
No sangue d'irmãos retincto,
Só restava o moribundo,
O cadaver só do extincto.
E por gandras e por montes,
Aterrados, perseguidos,
Em desordenada fuga
Retiravam-se os vencidos.
E os vencidos eram esses
Que a esperança da victoria
Arrastára, miserandos,
A uma guerra impia, sem gloria!
Lá dos gritos de raiva baldada
Restrugia o confuso clamor,
E o gemido do mau desgraçado
Na alma oppressa gerava terror.
-----
Cáia em pó o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se não treme ante as nuas cáveiras,
Que insepultas verá branquejar!
III.
Surge a luz da alvorada. Podessem
Dessas campas geladas que vejo
Os bons monges dos tempos antigos
Surgir vivos á voz de um desejo!
E que ao longo das vastas arcadas
Se escutassem seus passos serenos,
Como se ouve o tranquillo regato
Sussurrar nestes campos amenos!
Quem então não curvára ante o velho?
Quem a bençam da mão descarnada,
Como a bençam do céu, não pedíra
Da virtude ao poder confiada?
Quem ousára soltar no deserto
Estridente clangor da trombeta,
E fazer scintillar pela noite
A cruel decisiva baioneta?
Quem ousára o sorriso do insulto
Juncto ao negro edificio soltar,
E com goso, na mente, por terra
Suas grimpas jazendo pintar?
Mas ha muito que os bons se finaram;
Mas ha muito que ás dores fugiram,
E depois, nesses velhos sepulchros
Quantos maus inquietos dormiram!
Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes
Pereceram: ninguem o dirá.
O que o sabe os julgou; e do abysmo
Nem um ai o cantor tirará.
Mas, oh harpa, transmitte as saudades
Do que foi em legado ao porvir,
E o presente, que em breve ha-de o olvido
Com o seu amplo manto cubrir.
Contarão as canções do poeta
Tão-sómente do claustro o segredo.
Vai a hera vestir estas pedras:
Cahirá este annoso arvoredo.
Sim, virá a segure insensata
Da montanha o senhor derribar!
Rei deste ermo, que os curos insultas,
Tu serás o ludibrio do mar.
Bem antigo é teu cepo. Tu viste
O mosteiro da encosta crescer;
Viste o colmo do humilde retiro
Em arcadas, em torres volver.
Tambem nasce o regato na origem
Pobre e puro: cem valles passou;
Vai já rico, mas turvo e suberbo;
Que a torrente desceu e o turbou.
-----
Como esta aura suave suspira
Pelos bosques, e as ramas meneia!
Como a limpha murmura na fonte,
Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.
Cala, oh ave! Que importam teus cantos?
Quem vens tu saúdar, cantor do ermo?
É aos mortos? Aos gosos mais puros
Pôs-lhe a lousa, na terra, já termo.
Tua voz costumava o eremita
Nos bons tempos folgando sentir:
Era imagem do céu, que entre as dores
Do desterro lhe vinha sorrir.
Mas depois affligiu o malvado
Da avesinha innocente a cantiga;
Tal os olhos affeitos a trévas
A cerrar-se luz subita obriga.
Nunca ao impio na dor deu consolo
Meigo som de cadente gorgeio.
Que harpa eolia lhe adoça o azedume
De que seu coração está cheio?
Ai do mau, cuja vida travada
Vai de sustos mandados do céu!
Nunca o sol a acorda-lo tranquillo
Em seu brilho dos montes desceu.
Mas duas vezes ai delle, se na alma
Não lhe soa uma voz pavorosa,
Que o atterre, quando o ermo o rodêa,
Ao passar da procella ruidosa!
IV.
É tão doce esta vaga saudade,
Na soidão das montanhas colhida,
Para quem entre mil tempestades
Transitou pelos campos da vida!
Foge a luz: é sol-posto: na aldeia
Dá o sino esse triplo signal,
Com que o espirito, erguendo-se a Deus,
Diz ao dia seu ultimo val;
E o pastor, que o rebanho guiava
Á malhada, descendo do outeiro,
Parou lá, e ajoelhou descuberto
Juncto ao velho sósinho pinheiro.
Gloria a Deus! A oração do crepusculo
Pelo tronco elevado se ergueu.
E a guia-la ante o throno do Eterno
Sancto archanjo das preces desceu.
Ao piedoso pastor no chão duro
Brando a noite o repouso trará
E por certo em seu leito da morte
Mais tranquillo inda o somno será.
-----
A estas horas, talvez, nos combates
Um atheu expirante caíu:
Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias!
O seu grito final já se ouviu!
A luz foge-lhe aos olhos: a espada
Apertou: ainda a tenta esgrimir:
Não a sente: conhece que morre,
Sem, comtudo, deixar de existir.
Não o crê: abre os olhos a custo:
Nada o ceu, que se enluta, lhe diz:
Fecha-os breve; e no extremo soluço
Pensa e existe, e a existencia maldiz.
E o atheu, que era grande na terra,
Uma campa terá magestosa;
E ao pastor naquelle adro da aldeia
Cubrirá uma gleba relvosa.
-----
Como o atheu e o pastor, nas batalhas
Mil e mil sem alento caíram;
Mil e mil, que em seu sangue este solo,
Nas fraternas discordias, tingiram!
Essas scenas de pranto e de lucto
Quem as trouxe a esta terra querida?
Foi o monge, que em animos rudes
Instillou o furor fratricida.
Que pediamos nós? Ver abrir-se
Ante nós da familia o larario,
E dormir juncto aos ossos paternos
Somno extremo n'um pobre sudario:
Sim, poder, ao mandar-nos a morte
Nossos corpos aos vermes ceder,
Ao sol bello, e tão bello, da infancia
Com saudade, inda os olhos volver.
Respondeu-nos da balla o sibilo;
Respondeu-nos o brado da guerra!
Combatemos. Pertencem na patria
A qualquer sete palmos de terra.
Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da lucta
Sabe Deus qual a sorte será:
Mas á sombra do teixo da infancia
O proscripto infeliz dormirá.
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Cáis em pó o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se não treme ante as núas caveiras,
Que insepultas verá branquejar!
A VOLTA DO PROSCRIPTO.
I.
Já suave a sorte dura
Mostra a face ao desterrado:
Porque surge ainda a amargura
Em seu rosto carregado?