Depois de brava lida;
De longo combater atroz memento
Em guerra fraticida.
Nenhum padrão recordará aos homens
Seus feitos derradeiros:
Nem dirá:--aqui dormem portugueses;
Aqui dormem guerreiros.»
Nenhum padrão, que peça aos que passarem
Resa fervente e pia,
E juncto ao qual entes queridos vertam
O pranto da agonia!
Nem hasteada cruz, consolo ao morto;
Nem lagea que os proteja
Do ardente sol, da noite humida e fria,
Que passa e que roreja!
Não! Lá hão-de jazer no esquecimento
De deshonrada morte,
Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,
Não os dispersa o norte.
VII.
Quem, pois, consolará gementes sombras,
Que ondeiam juncto a mim?
Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
Seu perdão de Elohim?
Eu, o christão, o trovador do exilio,
Contrario em guerra crua,
Mas que não sei verter o fel da affronta
Sobre uma ossada nua.
VIII.
Lavradores, zagaes, descem dos montes,
Deixando terras, gados,
Para as armas vestir, dos céus em nome,
Por phariseus chamados.
De um Deus de paz hypocritas ministros
Os tristes enganaram:
Foram elles, não nós, que estas cáveiras
Aos vermes consagraram.
Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
Que do Senhor no templo,
Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,
Dás do furor o exemplo!
Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste
Folgar de nosso mal,
E, entre as ruinas de cidade illustre,
Soltar riso infernal.
Tu, no teu coração insipiente,
Disseste:--Deus não há!»
Elle existe, malvado; e nós vencemos:
Treme; que tempo é já!
IX.
Mas esses, cujos ossos espalhados
No campo da peleja
Jazem, exoram a piedade nossa;
Piedoso o livre seja!
Eu pedirei a paz dos inimigos,
Mortos como valentes,
Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
Culpados de innocentes.
X.
Perdoou, expirando, o Filho do Homem
Aos seus perseguidores:
Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;
Perdão, oh vencedores!
Não insulteis o morto. Elle ha comprado
Bem caro o esquecimento,
Vencido adormecendo em morte ignobil,
Sem dobre ou monumento.
É tempo d'olvidar odios profundos
De guerra deploravel.
O forte é generoso, e deixa ao fraco
O ser inexoravel.
Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
No seio agasalhou!
Elle é mudo: pedi-lo já não póde;
O dá-lo a nós deixou.
Além do limiar da eternidade
O mundo não tem réus,
O que legou á terra o pó da terra
Julgá-lo cabe a Deus.
E vós, meus companheiros, que não vistes
Nossa triste victoria,
Não precisaes do trovador o canto;
Vosso nome é da historia.
XI.
Assim, foi do infeliz sobre a jazida
Que um hymno murmurei,
E, do vencido consolando a sombra,
Por vós eu perdoei.
A CRUZ MUTILADA.
Amo-te, oh cruz, no vertice firmada
De esplendidas igrejas;
Amo-te quando á noite, sobre a campa,
Juncto ao cypreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em prestito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbyterio,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemiterio;
Amo-te, oh cruz, até, quando no valle
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:
Porém quando mais te amo,
Oh cruz do meu Senhor,
É se te encontro á tarde,
Antes de o sol se pôr,
Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando á luz que fenece
Se estira a tua sombra,
E o dia ultimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hymno da tarde
O pinheiral murmura.
-----
E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,
Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavas
Ao pôr do sol, e ao elevar-se a lua
Detraz do calvo cerro. A soledade
Não te pôde valer contra a mão ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Oh mutilada cruz, falam de um crime
Sacrilego, brutal e ao ímpio inutil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quasi derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbyterio rustico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, annunciando o instante
Da _Ave-Maria_; da oração singela,
Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem
Se mistura nos canticos saudosos,
Que a natureza envia ao céu no extremo
Raio de sol, passando fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injuria e o desprezo, e que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!
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Foi da sciencia incredula o sectario,
Acaso, oh cruz da serra, o que na face
Affrontas te gravou com mão profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miseria e na dôr constante has sido
Por bem dezoito seculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tyranno,
Bradando--_esmola!_ a um--_piedade!_ ao outro.
Oh cruz, se desde o Golgotha não fôras
Symbolo eterno de uma crença eterna;
Se a nossa fé em ti fosse mentida,
Dos oppressos de outr'ora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opprobrio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do céu, e elles te insultam,
Esquecidos das lágrymas perennes
Por trinta gerações, que guarda a campa,
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se
De que, se a paz domestica, a pureza
Do leito conjugal bruta violencia
Não vae contaminar, se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludibrio
Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;
Que por ti o cultor de ferteis campos
Colhe tranquillo da fadiga o premio,
Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura
Lhe diga:--é meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundancia: a ti, escravo,
O trabalho, a miseria unido á terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Emquanto, em dia de furor ou tedio,
Não me apraz com teus restos fecunda-la.»
Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasphemar, tu te elevaste
Lá do oriente, oh cruz, involta em gloria,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:--
Mentira!» E o servo alevantou os olhos,
Onde a esperança scintillava, a medo,
E viu as faces do senhor retinctas
Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista
Trépida, vaga. A cruz no céu do oriente
Da liberdade annunciára a vinda.
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Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, emfim, o seu paiz querido
Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
Vem assentar-se á luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, juncto do teixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram annos,
Ha um como fulgor sereno e sancto.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
O tecto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano os velhos
A mão que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moços
Saúdam-no qual pae. Nas largas noites
Da gelada estação, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam para o tumulo suaves,
Rodeiados de affecto, e quando á terra
A mão do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lagrymas, bençãos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.
Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tyrannos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um pincaro granitico, açoutado
Pelas azas do vento e ennegrecido
Por chuvas e por soes. Para ameigar-te
Este ar humido e gelido a segure
Não foi ferir do bosque o rei. Do estio
No ardor canicular nunca disseste:--
Dáe-me, sequer, do bravo medronheiro
O despresado fructo! O teu vestido
Era o musgo, que tece a mão do inverno,
E Deus creou para trajar as rochas.
Filha do céu, o céu era o teu tecto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adórnava
C'roa viçosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeiavam preces.
Ficaste em breve só, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.
Que te importava? As arvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circumdar-te de hymnos.
Affagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
E esperavas o tumulo. O teu tumulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,
Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,
Ellas nas fauces dos volcões descessem.
Então para essa campa flores, bençãos,
Ou de saudade lagrymas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
Não pedíras á ingrata raça humana,
Ao pé de ti no seu sudario involta.
-----
Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de soffrer aos teus remidos,
Oh redemptora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e accusação perenne
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e só? Acaso, á noite,
Quando a procella no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz accusadora
Sobrelevar á voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Christo, do divino martyr,
Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu trance final:--Ergue-te, escravo!
És livre, como é pura a cruz da infamia.
Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes
Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!
Abraça tua irman: segue-a sem susto
No caminho dos seculos. Da terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho
Trará da tua liberdade o dia.»
Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga historia
Recontando do Golgotha, lembrando-lhes
Que só ao Christo a liberdade devem,
E que impio o povo ser é ser infame.
Mutilado por elle, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombarás do cerro,
Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanos
Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
Da gratidão a divida não paga
Ficará, oh tremenda accusadora,
Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;
Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Christo o nome passará na terra.
-----
Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perenne testemunho
Da avita crença, os montes, a espessura,
O mar, a lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falarão do Verbo.
Della no pedestal, então deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Virá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dirá que é sancto
Este rochedo nú, e um hymno pio
A solidão lhe ensinará e a noite.
Do cantico futuro uma toada
Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos
Da brisa do crepusculo nas azas?
É o porvir que te proclama eterna;
É a voz do poeta a saúdar-te.
-----
Montanha do oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
E que, lá no occidente,
Ultima vês seu radioso lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Rochedo, que descanças
No promontorio nú e solitario,
Como atalaia que o oceano explora,
Alheio ás mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vario,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas tenues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria,
E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna maritima sombria,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh lua silenciosa,
Que em perpetuo volver, seguindo a terra,
Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Debalde o servo ingrato
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Oh veneranda cruz:
Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És sancta, és immortal;
Tu és a minha luz!
Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, á noite, fez nos céus.
Teu vulto scintillar.
Os raios das estrellas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.
Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til,
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.
Ferido, abre o guerreiro
Os braços, sólta um ai,
Pára, vacilla, e cáe
Para não mais se erguer.
Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.
Surges, symbolo eterno
No céu, na terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!
LIVRO SEGUNDO
POESIAS VARIAS.
A PERDA D'ARZILLA.
(1549).
Era noite: do céu limpo e sereno
Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.
Como tocheiros com brandões accesos,
De um féretro ao redor,
Cuja vermelha luz o horror da morte
Só faz sentir melhor,
Taes as nocturnas almenáras fulgem
Nas torres d'atalaia,
Pelos outeiros, que circumdam muros
De povoação na praia.
-----
Arzilla, a guerreira.
Lá jaz na afflicção,
Que a rendeu aos mouros
Elrei dom João.
Tomar-te-ha Deus contas,
Rei fraco e prasmado,
De tão grande vilta,
De teu grão peccado.
Maldiz-te nos mares
Valente fronteiro,
Que na sé de Ceuta
Se armou cavalleiro;
Que dez aduares
Em Tanger queimou,
E em muros d'Alcacer
Dez elches matou:
Que era hoje d'Arzilla
Temido adaíl,
E a quem tu mandaste
Fugir como vil.
-----
Vêde-o lá na gavia
Da negra galé,
De braços cruzados,
Immovel, em pé;
E a náu que arfa e voa
Na fremente via,
Ferindo na esteira
Fugaz ardentia;
E d'Africa as praias,
Que a ré vão fugindo,
E as vagas, que rolam,
Distantes mugindo.
Em roda o silencio:
No céu noite escura:
E o peito do triste
Confrange a amargura.
-----
Do veterano as faces
O salso pranto réga:
Nos africanos montes
Saudoso os olhos préga.
Sente no seio as ancias
D'incomportavel dor,
E ás vezes range os dentes
Em trances de furor.
Um cantico á su' alma
A indignação inspira:
Vai sussurra-lo ao longe
Aura que branda espira.
O CANTO DO ADAÍL.
Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,
Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;
Quando o esculca, saído da villa
Da manhã ao primeiro fulgor,
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;
Quando em Tanger, a forte, se ouvia
De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;
Quando em Ceuta vencida se erguia
Sobre o alcacer pendão português,
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:
Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,
Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;
Porque, rico de presa formosa,
Já voltou nobre alcaide christão,
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:
Nossa estrella era então esplendente;
Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
Portugal, oh leão do occidente,
Tu rugias á beira do mar,
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:
Era o tempo dos crentes e ousados:
Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!
E esses muros d'Arzilla, regados
Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!
Oh valentes da India, do oceano,
Roncadores de féros no mar,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,
Mostrar vinde o valor sobre-humano
Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.
As galés do arrais mouro são fortes;
Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.
Uma festa de sangue e de mortes
Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d'inerme sultão!
Mercadores!--deixae vosso cravo,
A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.
Vella e remo soltae no mar bravo;
Vinde juncto de nós combater;
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.
Para nós os castellos d'avante;
Para nós a arrombada e bailéu;
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:
Para nós o machado e montante;
Para vós a bombarda e arcabuz;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;
Para nós o tombar derradeiro
Sobre o ferreo esporão das galés;
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!
O sudario do morto fronteiro
Alva escuma da proa será;
E em seus labios--_Arzilla!_--ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.
-----
E elles, os fortes d'Asia, não vieram
Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
E a náu d'elrei ao infamado Tejo
Veio aportar:
E o adaíl depôs as armas rotas,
Não no espaldar;
Que nunca o bom fronteiro viram mouros
Costas voltar.
-----
E tomando o bordão de peregrino,
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
De dominicos,
Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,
Porque eram ricos.
No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,
Féretro antigo
O adaíl procurou. De um rei soldado
Era o jazigo.
Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,
Lhe dirigiu:
Maldicção para alguem pedia ao morto;
Mas nada ouviu!
Então, livido o rosto, os labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
Do rei extinto.
Expirára ao dizer--_perdeu-se Arzilla!_--
A Affonso Quinto.
A ROSA.
Pura em sua innocencia.
Entre a sarça espinhosa,
Purpurea esplende, inda botão intacto,
Na madrugada a rosa.
É da campina a virgem
A pudibunda flor;
Em seus efluvios matutina brisa
Bebe o primeiro amor.
O sol inunda as veigas:
Calou-se o rouxinol;
E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,
Desabrochou-a o sol.
O sôpro matutino
No seio seu pousára:
Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,
Que a linda rosa amára.
Bella se ostenta um dia;
Saúdam-na as pastoras;
Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;
Voam do goso as horas.
Lá vem chegando a noite,
E ella empallideceu:
Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;
A rosa emmurcheceu.
Desce o tufão dos montes,
Os matos sacudindo;
Desfallecida a flor desprende as folhas,
Que o vento vai sumindo.
Onde estará a rosa,
Do prado a bella filha?
O tufão, que espalhou seus frageis restos,
Passou: não deixou trilha.
Da sarça a flor virente
Nasceu, gosou, e é morta:
E a qual desses amantes de um momento
Seu fado escuro importa?
Nenhum, nenhum por ella
Gemeu saudoso á tarde;
Não ha quem juncte as derramadas folhas,
Quem amoroso as guarde.
Só da manhan o sôpro,
Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a innocencia
Em seu botão sorria,
Juncto do tronco humilde
O curso demorando,
Veio depositar perdão, saudade,
Queixoso sussurrando.
De quantas és a imagem,
Oh desgraçada flor!
Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto
Tem murmurado o amor!
O MENDIGO.
I.
O sol passa nos céus:--sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,
Cego ancião,
Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora
Do opprobrio o pão.
Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
Involve a luz no manto impenetravel:
E elle chorou:
E em seus andrajos para choça alpestre,
Sem se queixar de Deus, tardios passos
Encaminhou:
Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,
Do presbyterio o sino harmonioso
Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons pausados,
Convidava os fiéis a erguer as preces
Da Ave-Maria.
Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas
O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
E uma oração,
A oração do infeliz, que Deus só ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria
Sua afflicção.
Para o velho a existencia é solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.
Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres
Dos seus amores.
A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu clarão, pendendo
Ante o altar-mór:
Como o templo, o porvir era do velho
Cheio de sustos; muda como o templo
Era a sua dor.
Resou, resou, e os olhos se enxugaram:
O orar fervente as lagrymas enxuga,
Qual prado o léste.
Deus o inspirou; sperança é filha sua,
Doce esperança, que os mortaes só deixa
Sob o cypreste.
Voltou á choça, e a macilenta fome,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
Que é quasi a terra;
E, confiado em Deus, entre as angustias
Do mal, menos crueis que as do remorso,
Os olhos cerra.
II.
Restruge o mar cavado; o vento zune
Pelos mastros da náu; colhido o panno
Das vergas pende;
Brinco das vagas, o baixel arfando
Fluctua incerto, e dos bulcões guiado
Os mares fende.
Correndo árvore secca avulta ao longe,
Como alma em pena vagueiando á noite
Em seu fadario;
E pelas trévas branquejando a escuma,
Que da prôa espadana, imita as prégas
D'alvo sudario.
Envolto no gibão amplo e felpudo,
Rude piloto ao leme trabalhoso
Véla encostado;
Que, se não mentem calculos, o porto
Proximo está, dos lassos navegantes
Tão suspirado.
III.
O vento vai quebrando, e já rareiam
Grossos montões de acastelladas nuvens:
Diurno alvor
Traça no céu d'oriente um risco immenso,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
Cerulea côr.
Surge o sol radioso e inunda as vagas,
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
Mais amplo é já:
Cava aragem ligeira a larga vela,
E do cesto o gageiro clama:--terra!
Ei-la acolá!»
Como deslisa o goso nos semblantes
Por entre as rugas do terror passado!
Como é formosa
Essa pallida praia, e esses rochedos,
E lá no extremo os pincaros da serra
Erma e saudosa!
De indicas mérces, de ouro carregada
Aproa á terra, com celeuma alegre,
A náu pujante;
E pelo verde mar do porto amigo
Abrindo a esteira, restitue á patria
O navegante.
IV.
É meia noite:--os gallos pela aldeia
Dizem que um dia mais desceu ao nada
E que outro vem,
Para dar luz a dores e alegrias
E depois nos abysmos do passado
Cahir tambem.
E o mendigo da aldeia, o velho cego,
Sobre o duro grabato, em choça humilde,
Achou a paz.
Em sonhos via um filho: a longes terras
A miseria o levou: mudada sorte
Feliz o traz.
Quantas vezes presága a mente do homem
Véla como um propheta, em quanto o somno
Seus membros prende;
E como, em trevas de amargosos dias,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,
Grata se accende!
V.
Nos gonzos ferrugentos range a porta
Do tugurio do pobre adormecido,
E descuidado;
Que do mendigo o umbral patente é sempre,
Nem carece de estar, como o do rico,
Aferrolhado.
O bom do velho ao sobresalto acorda,
E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,
E o pranto é mudo;
Mas breve um grito e o soluçar e os beijos
E o sonho que passou e a voz do sangue
Lhe dizem tudo.
Não mais sob o carvalho ao velho honrado
Esmoladora mão o peregrino
Estenderá:
Meigos lhe sorrirão extremos dias,
E as suas cinzas filial gemido
Consolará.
O BOM PESCADOR.
O sol rubro, em leito
De nuvens descendo,
Tremente, crescendo,
No mar se ia a pôr.
Sentado no barco,
Que a onda embalava,
Scismando cantava
O bom pescador.
A paz da sua alma
No olhar exprimia,
E a voz traduzia
Scismar do cantor:
E o canto sereno
Levava-lho a brisa,
Que á tarde deslisa
Com meigo frescor.
-----
«Acabem de todo
No prado as boninas,
E em vastas campinas
Não surja uma flor;
Dispa-se o ameeiro
Da folha viçosa,
E o Tejo em lodosa
Mude esta azul côr;
O vento gelado
Só reine e as procellas;
Das vivas estrellas
Se apague o fulgor:
O sol radioso
Em nuvens se envolva,
E á terra não volva
Seu grato calor;
Que do horrido inverno,
Comtigo, oh serrana,
Na minha choupana
Rirei do furor!
Não pensa se as veigas
Se vestem de relva,
Se está nua a selva
Do lindo verdor;
Nem ouve os rugidos
Do vento inquieto
Quem, sob o seu tecto,
Se abriga no amor.
Nasci, eduquei-me
N'um mundo mais nobre,
Agora sou pobre,
Sou um pescador.
Ás bordas do abysmo
Chegou-me a ventura;
Medí delle a altura,
Descí sem pavor.
Co'a dita se enlaça
Humilde existencia,
Se do homem a essencia
O orgulho não fôr.
Emquanto de paços,
De ferteis devesas,
Emfim, de riquezas
Eu pude dispor,
O somno tranquillo
A mim não descia,
Que o ferro temia
Do vil salteador.
Na minha alma, immersa
Em noite e amargura,
Pesava bem dura
A mão do Senhor!
Agora misturo
Do rude oceano
Nas vagas, ufano,
O honrado suor;
Agora sereno
Vem dia após dia,
E a noite sombria
Não cerca o temor;
Porque entre teus braços,
Esposa querida,
Me esqueço da lida
Do mar bramidor.
Da vida no sonho
Que importa vil ouro,
Se tu és thesouro
Perpetuo de amor;
Se ainda em teus labios,
Oh cara consorte,
Virá doce a morte
Minha alma depor?
Nas ribas fragosas,
Que os ventos castigam,
E as ondas fustigam
Com longo fragor,
Ao pé da ermidinha,
Nesse adro tão só,
Envoltos no pó,
Sem goso, sem dôr,
Tranquillos, obscuros,
Privados de luz,
Á sombra da cruz
Do Deus Redemptor,
De ti só lembrados,
Em triste oração,
Os restos serão
Do teu pescador.
TRISTEZAS DO DESTERRO.
(FRAGMENTOS).
Erit tristis et moeretis.
Isaias.
I.