Como sombra infernal perpetuo ondeia,
Bradando-me que vai partir-se o fio
Com que da minha vida se urde a teia.
Entregue á seducção em quanto eu durmo,
No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!
Quem velará por ti, pomba innocente?
Quem do perjurio poderá salvar-te?
Quando eu cerrar os olhos moribundos
Tu verterás por mim pranto saudoso;
Mas quem me diz que não virá o riso
Banhar teu rosto triste e lachrymoso?
Ai, o extincto só herda o esquecimento!
Um novo amor te agitará o peito:
E a dura lagea cubrirá meus ossos
Frios, despidos sobre terreo leito!...
Oh Deus, porque este calix de agonia
Até as bordas de amargor me encheste?
Se eu devia acabar na juventude,
Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?
Virgem do meu amor, porque perde-la?
Porque entre nós a campa ha-de assentar-se?
Tua suprema paz com goso ou dores,
Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?
Não haver quem me salve! e vir um dia
Em que de minha o nome ainda lhe désse!
Então, Senhor, o umbral da eternidade,
Talvez sem um queixume, transposesse.
Mas, qual flor em botão pendida e murcha,
Sem de fragrancias perfumar a brisa,
Eu poeta, eu amante, ir esconder-me
Sob uma lousa desprezada e lisa!
Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?
Em te adorar que fui, senão insano?...
O teu fatal poder hoje maldigo!
O que te chama pae, mente: és tyranno.
E se aos pés de teu throno os ais não chegam;
Se os gemidos da terra os ares somem;
Se a Providencia é crença van, mentida,
Porque geraste a intelligencia do homem?
Porque da virgem no sorrir poseste
Sancto presagio de suprema dita,
E apontaste ao poeta a immensidade
Na ancia de gloria que em sua alma habita?
A immensidade!... E que me importa herda-la,
Se na terra passei sem ser sentido?
Que val eterno vagueiar no espaço,
Se nosso nome se afundou no olvido?
O ANJO DA GUARDA.
«Impio, silencio! A tua voz blasphema
Da noite a paz perturba.
Verme, que te rebellas
Sob a mão do Senhor,
Vês os milhões d'estrellas
De nitido fulgor,
Que, em ordenada turba,
A Deus entoam incessantes hymnos?
Quantas vezes apaga
Do livro da existencia
Um orbe a mão do Eterno!
E o bello astro que expira
Maldiz a Providencia,
Maldiz a mão que o esmaga?
Acaso pára o cantico superno?
Ou apenas suspira
O moribundo,
Que se chamava um mundo?
Quem vai pôr uma campa sobre os restos
Desse inerte planeta,
Que o destructor cometa
Incinerou na rapida passagem?
E tu, átomo obscuro,
Que varre á tarde a aragem,
Sóltas do seio impuro
Maldicção insensata,
Porque o teu Deus te evoca á eternidade?
Que é o viver? O umbral, a que um momento
O espirito, surgindo
Das solidões do nada
Á voz do Creador, se encosta, e attento
Contempla a luz e o céu; d'onde desata
Seu vôo á immensidade.
Geme acaso o passarinho
De saudade,
Quando as azas expande, e deixa o ninho
A vez primeira, a mergulhar nos ares?
Volve olhos lachrymosos
Aos mares tormentosos
O navegante, quando aproa ás plagas
Da patria suspirada?
Porque morres?! Pergunta á Providencia
Porque te fez nascer.
Qual era o teu direito a ver o mundo;
Teu jus á existencia?
Olha no outono o ulmeiro
Que o vendaval agita,
E cujas tenues folhas
Aos centos precipita.
São a folha do ulmeiro o nome e a fama,
E o amar dos humanos:
Ao nada do que foi assim se atiram
No vortice dos annos.
Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,
Que somem mil ruídos.
E a voz da terra o que é, na voz immensa
Dos orbes reunidos?
Amor! amor terreno!... Ai, se podesses
Comprehender a amargura,
Com que te chóro, oh alma transviada!
Eu, que te amei do berço, e qual doçura
Ha no affecto que liga o anjo ao homem,
Rindo despiras esse corpo enfermo,
Para te unir a mim, para aspirares
O goso celestial de amor sem termo!
Alma triste, que mesquinha
Te debruças sobre o inferno,
Ouve o anjo, pobresinha;
Vem ao goso sempiterno.
Resigna-te e espera, e os dias de prova
Serão para o crente quaes breves instantes.
Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,
Fendendo o infinito co' as asas radiantes.
Depois, das alturas teu terreo vestido
Sorrindo veremos na terra guardar,
E ao hymno de Hosanna nos córos celestes
A voz de um remido iremos junctar.»
A GRAÇA.
Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O ferreo pé da dor,
E o hymno da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?
És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?
Oh, sim! és tu, que na infantil idade,
Da aurora á frouxa luz,
Me dizias:--acorda, innocentinho,
Faze o signal da cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses annos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e purpura descendo
Co' as roupas a alvejar.
És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga,
Juncto ao bosque fremente,
Me contavas mysterios, harmonias
Dos céus, do mar dormente.
És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sósinho erguia
Ao Deus tres vezes sancto.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinto a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos céus!...
RESIGNAÇÃO
«No teu seio reclinado
Dormirei, Senhor, um dia,
Quando for na terra fria
Meu repouso procurar;
Quando a lousa do sepulchro
Sohre mim tiver cahido
E este espirito affligido
Vir a tua luz brilhar!
No teu seio, de pesares
O existir não se entretece;
Lá eterno o amor florece;
Lá florece eterna paz:
Lá bramir juncto ao poeta
Não irão paixões e dores,
Vãos desejos, vãos temores
Do desterro em que elle jaz.
Hora extrema, eu te saúdo!
Salve, oh trevas da jazida,
D'onde espera erguer-se á vida
Meu espirito immortal!
Anjo bom, não me abandones
Neste trance dilatado;
Que contrito, resignado
Me acharás na hora fatal.
E depois... Perdoa, oh anjo,
Ao amor do moribundo,
Que só deixa neste mundo
Pouco pó, muito gemer.
Oh... depois... dize á mesquinha
Um segredo de doçura:
Que na patria o amor se apura,
Que o desterro viu nascer.
Que é o céu a patria nossa;
Que é o mundo exilio breve;
Que o morrer é cousa leve;
Que é _principio_, não é _fim_:
Que duas almas que se amaram
Vão lá ter nova existencia,
Confundidas n'uma essencia,
A de um novo cherubim.»
DEUS.
Nas horas do silencio, á meia-noite,
Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
E os abysmos do inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,
E a lua resplendente
Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa
O hymno do Omnipotente.
Antes de tempo haver, quando o infinito
Media a eternidade,
E só do vacuo as solidões enchia
De Deus a immensidade,
Elle existia, em sua essencia involto,
E fóra delle o nada:
No seio do Creador a vida do homem
Estava ainda guardada:
Ainda então do mundo os fundamentos
Na mente se escondiam
De Jehovah, e os astros fulgurantes
Nos céus não se volviam.
Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
Das mãos sólta o Senhor:
Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
Sua primeira flor:
Sobre o invisivel eixo range o globo:
O vento o bosque ondeia:
Retumba ao longe o mar: da vida a força
A natureza anceia!
Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
Ou cantar teu poder?
Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
Fonte de todo o ser,
No dia da creação; quando os thesouros
Da neve amontoaste;
Quando da terra nos mais fundos valles
As aguas encerraste?!
E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
Com dextra poderosa,
Fez, por lei immutavel, se librassem
Na mole ponderosa?
Onde existia então? No typo immenso
Das gerações futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
Na terra e nas alturas!
Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
Do raio, e do trovão!
Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
Da tarde a viração!
Por sua Providencia nunca, embalde,
Zumbiu minimo insecto;
Nem volveu o elephante, em campo esteril,
Os olhos inquieto.
Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,
Que ao ceifador esquece;
Do norte ao urso o sol da primavera,
Que o reanima e aquece?
Não deu Elle á gazella amplos desertos,
Ao cervo a amena selva,
Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,
No prado ao touro a relva?
Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
Consolação e luz?
Acaso em vão algum desventurado
Curvou-se aos pés da cruz?
A quem não ouve Deus? Sómente ao impio
No dia da afflicção,
Quando pésa sobre elle, por seus crimes,
Do crime a punição.
Homem, ente immortal, que és tu perante
A face do Senhor?
És a junça do bréjo, harpa quebrada
Nas mãos do trovador!
Olha o velho pinheiro, campeiando
Entre as neves alpinas:
Quem irá derribar o rei dos bosques
Do throno das collinas?
Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
Extremo Deus mandou!
Lá correu o aquilão: fundas raizes
Aos ares lhe assoprou.
Suberbo, sem temor, saíu na margem
Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto habita;
Vê-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
A bôca affogueada:
Qual duro arnez de intrepido guerreiro
É seu dorso escamoso;
Como os ultimos ais de um moribundo
Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado;
Porém, se Deus mandou,
Qual do norte impellida a nuvem passa,
Assim elle passou!
Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,
Mas são hymnos de amor.
Embora vís hypocritas te pintem
Qual barbaro tyranno:
Mentem, por dominar com ferreo sceptro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio! Receiar-te
É maldizer-te, oh Deus;
É o throno dos despotas da terra
Ir collocar nos céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existencia
Tranquillo, e sem temor, á sombra posto
Da tua Providencia.
A TEMPESTADE.
Sibilla o vento:--os torreões de nuvens
Pésam nos densos ares:
Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A immensa vaga ao longe vem correndo,
Em seu terror envolta;
E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
A tempestade solta.
Do sol no occaso um raio derradeiro,
Que, apenas fulge, morre,
Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,
Para apaga-lo corre.
Tal nos affaga em sonhos a esperança,
Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciencia
Dizer que ella mentia!
As ondas negro-azues se conglobaram;
Serras tornadas são,
Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,
Bater, partir-se vão.
Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,
Da natureza açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa,
E é teu vestido a noite!
Quando pelos pinhaes, entre o granizo,
Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
E assolação derramas,
Quem porfiar comtigo, então, ousára
De gloria e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?
Quem me dera ser tu, por balouçar-me
Das nuvens nos castellos,
E ver dos ferros meus, emfim, quebrados
Os rebatidos élos!
Eu rodeára, então, o globo inteiro;
Eu sublevára as aguas;
Eu dos volcões com raios accendêra
Amortecidas fráguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
Acurvaria as frontes;
Com furacões, os areiaes da Lybia
Converteria em montes;
Pelo fulgor da lua, lá do norte
No polo me assentára,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
Que o tempo amontoára.
Alli, eu solitario, eu rei da morte,
Erguèra meu clamor,
E dissera:--sou livre, e tenho imperio;
Aqui, sou eu senhor!»
Quem se podéra erguer, como estas vagas,
Em turbilhões incertos,
E correr, e correr, troando ao longe,
Nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
A mente presa está!...
Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
Rapido, em baixo dá.
Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,
Entre escarcéus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a natureza
Lançou a esta alma ardente;
Que ella possa voar, por entre os orbes,
Aos pés do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
Desça, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
Solta, sem rumo vague!
Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
O somno do existir;
Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
Nas trévas do porvir.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
De um coração oppresso,
Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
Negas no seio accésso,
Não despertes, oh não! os que abominam
Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
Com seu dorído leito!
Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,
Calumniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo
Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas ás portas dos senhores,
Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delirios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu que vélo na vida, e já não sonho
Nem gloria, nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,
O calix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto ha vil no mundo,
Sanctas inspirações morrer sentindo
Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
Fragor da tempestade,
Psalmo de mortós, que retumba ao longe,
Grito da eternidade!...
Pensamento infernal! Fugir covarde
Ante o destino iroso?
Lançar-me, envolto em maldicções celestes,
No abysmo tormentoso?
Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me
Nas lagrymas da terra;
Guardarei minha estancia atribulada,
Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu premio,
O seu repouso, emfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
Virá outro após mim.
Herdarei o morrer! Como é suave
Bençam de pae querido.
Será o despertar, ver meu cadaver,
Ver o grilhão partido.
Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulchro branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba á patria do repouso,
Onde não ha morrer.
O SOLDADO.
I.
Veia tranquilla e pura
Do meu paterno rio,
Dos campos, que elle réga,
Mansissimo armentio.
Rocio matutino,
Prados tão deleitosos,
Valles, que assombram selvas
De sinceiraes frondosos,
Terra da minha infancia,
Tecto de meus maiores,
Meu breve jardimzinho,
Minhas pendidas flores,
Harmonioso e sancto
Sino do presbyterio,
Cruzeiro venerando
Do humilde cemiterio.
Onde os avós dormiram,
E dormirão os paes;
Onde eu talvez não durma,
Nem rese, talvez, mais,
Eu vos saúdo! e o longo
Suspiro amargurado
Vos mando. É quanto póde
Mandar pobre soldado.
Sobre as cavadas ondas
Dos mares procellosos,
Por vós já fiz soar
Meus cantos dolorosos.
Na prôa resonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ancioso
O vento frio e agudo;
Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que só minora
Sopro de tempestade;
Mas que se irrita, e dura
Quando é tranquillo o mar;
Quando da patria o céu
Céu puro vem lembrar;
Quando, no extremo occaso,
A nuvem vaporosa,
Á frouxa luz da tarde,
Na côr imita a rosa;
Quando, do sol vermelho
O disco ardente crece,
E paira sobre as aguas,
E emfim desapparece;
Quando no mar se estende
Manto de negro dó;
Quando, ao quebrar do vento,
Noite e silencio é só;
Quando sussurram meigas
Ondas que a nau separa,
E a rapida ardentia
Em tôrno a sombra aclara.
II.
Eu já ouvi, de noite,
Entre o pinhal fechado,
Um fremito soturno
Passando o vento irado:
Assim o murmurio
Do mar, fervendo á prôa,
Com o gemer do afflicto,
Sumido, accorde sôa:
E o scintillar das aguas
Gera amargura e dor,
Qual lampada, que pende
No templo do Senhor,
Lá pela madrugada,
Se o oleo lhe escaceia,
E a espaços expirando,
Affrouxa e bruxuleia.
III.
Bem abundante messe
De pranto e de saudade
O foragído errante
Colhe na soledade!
Para o que a patria perde
É o universo mudo;
Nada lhe rí na vida;
Mora o fastio em tudo;
No meio das procellas,
Na calma do oceano,
No sopro do galerno,
Que enfuna o largo panno,
E no entestar co' a terra
Por abrigado esteiro,
E no pousar á sombra
Do tecto do estrangeiro.
IV.
E essas memorias tristes
Minha alma laceraram,
E a senda da existencia
Bem agra me tornaram:
Porém nem sempre ferreo
Foi meu destino escuro;
Sulcou de luz um raio
As trévas do futuro.
Do meu paiz querido
A praia ainda beijei,
E o velho e amigo cedro
No valle ainda abracei!
Nesta alma regelada
Surgiu ainda o goso,
E um sonho lhe sorriu
Fugaz, mas amoroso.
Oh, foi sonho da infancia
Desse momento o sonho!
Paz e esperança vinham
Ao coração tristonho.
Mas o sonhar que monta,
Se passa, e não conforta?
Minh' alma deu em terra,
Como se fosse morta.
Foi a esperança nuvem,
Que o vento some á tarde:
Facho de guerra acceso
Em labaredas arde!
Do fratricidio a luva
Irmão a irmão lançara,
E o grito: _ai do vencido!_
Nos montes retumbara.
As armas se hão cruzado:
O pó mordeu o forte;
Cahiu: dorme tranquillo:
Deu-lhe repouso a morte.
Ao menos, nestes campos
Sepulchro conquistou,
E o adro dos estranhos
Seus ossos não guardou.
Elle herdará, ao menos,
Aos seus honrado nome,
Paga de curta vida
Ser-lhe-ha largo renome.
V.
E a bala sibilando,
E o trom da artilharia,
E a tuba clamorosa,
Que os peitos accendia,
E as ameaças torvas,
E os gritos de furor,
E desses, que expiravam,
Som cavo de estertor,
E as pragas do vencido,
Do vencedor o insulto,
E a pallidez do morto,
Nú, sanguento, insepulto,
Eram um cá'os de dores
Em convulsão horrivel,
Sonho de accesa febre,
Scena tremenda e incrivel!
E suspirei: nos olhos
Me borbulhava o pranto,
E a dor, que trasbordava,
Pediu-me infernal canto.
Oh, sim! maldisse o instante,
Em que buscar viera,
Por entre as tempestades,
A terra em que nascera.
Que é, em fraternas lides,
Um canto de victoria?
É delirar maldicto;
É triumphar sem gloria.
Maldicto era o triumpho,
Que rodeiava o horror,
Que me tingia tudo
De sanguinosa côr!
Então olhei saudoso
Para o sonoro mar;
Da nau do vagabundo
Meigo me riu o arfar.
De desespero um brado
Soltou, ímpio, o poeta.
Perdão! Chegára o misero
Da desventura á meta.
VI.
Terra infame!--de servos aprisco,
Mais chamar-me teu filho não sei:
Desterrado, mendigo serei;
De outra terra meus ossos serão!
Mas a escravo, que pugna por ferros,
Que herdará deshonrada memoria,
Renegando da terra sem gloria,
Nunca mais darei nome de irmão!
Onde é livre tem patria o poeta,
Que ao exilio condemna ímpia sorte.
Sobre os plainos gelados do norte
Luz do sol tambem desce do céu;
Tambem lá se erguem montes, e o prado
De boninas, em maio, se veste;
Tambem lá se meneia o cypreste
Sobre o corpo que á terra desceu.
Que me importa o loureiro da encosta?
Que me importa da fonte o ruido?
Que me importa o saudoso gemido
Da rollinha sedenta de amor?
Que me importam outeiros cubertos
Da verdura da vinha, no estio?
Que me importa o remanso do rio,
E, na calma, da selva o frescor?
Que me importa o perfume dos campos,
Quando passa da tarde a bafagem,
Que se embebe, na sua passagem,
Na fragrancia da rosa e aleli?
Que me importa? Pergunta insensata!
É meu berço: a minha alma está lá...
Que me importa... Esta bôca o dirá?!
Minha patria, estou louco... menti!
Eia, servos! O ferro se cruze.
Assobie o pelouro nos ares;
Estes campos convertam-se em mares,
Onde o sangue se possa beber!
Larga a valla! que, após a peleja,
Todos nós dormiremos unidos!
Lá vingados, e do odio esquecidos,
Paz faremos... depois do morrer!
VII.
Assim, entre amarguras,
Me delirava a mente;
E o sol ia fugindo
No termo do occidente.
E os fortes lá jaziam
Co'a face ao céu voltada;
Sorria a noite aos mortos,
Passando socegada.
Porém, a noite delles
Não era a que passava!
Na eternidade a sua
Corria, e não findava.
Contrarios ainda ha pouco,
Irmãos, emfim, lá eram!
O seu thesouro de odio,
Mordendo o pó, cederam.
No limiar da morte
Assim tudo fenece:
Inimizades calam,
E até o amor esquece!
Meus dias rodeiados
Foram de amor outr'ora;
E nem um vão suspiro
Terei, morrendo, agora,
Nem o apertar da dextra
Ao desprender da vida,
Nem lagryma fraterna
Sobre a feral jazida!
Meu derradeiro alento
Não colherão os meus.
Por minha alma atterrada
Quem pedirá a Deus?
Ninguem! Aos pés o servo
Meus restos calcará,
E o riso ímpio, odiento,
Mofando soltará.
O sino luctuoso
Não lembrará meu fim:
Preces, que o morto afagam,
Não se erguerão por mim!
O filho dos desertos,
O lobo carniceiro,
Ha-de escutar alegre
Meu grito derradeiro!
Oh morte, o somno teu
Só é somno mais largo;
Porém, na juventude,
É o dormi-lo amargo;
Quando na vida nasce
Essa mimosa flor.
Como a cecem suave,
Delicioso amor;
Quando a mente accendida
Crê na ventura e gloria;
Quando o presente é tudo,
E inda nada a memoria!
Deixar a cara vida,
Então, é doloroso,
E o moribundo á terra
Lança um olhar saudoso.
A taça da existencia
No fundo fézes tem;
Mas os primeiros tragos
Doces, bem doces, vem.
E eu morrerei agora
Sem abraçar os meus,
Sem jubiloso um hymno
Alevantar aos céus?
Morrer, morrer, que importa?
Final suspiro, ouvi-lo
Ha-de a patria. Na terra
Irei dormir tranquillo.
Dormir? Só dorme o frio
Cadaver, que não sente;
A alma voa a abrigar-se
Aos pés do Omnipotente.
Reclinar-me-hei á sombra
Do amplo perdão do Eterno;
Que não conheço o crime,
E erros não pune o inferno.
E vós, entes queridos,
Entes que tanto amei,
Dando-vos liberdade
Contente acabarei.
Por mim livres chorar
Vós podereis um dia,
E ás cinzas do soldado
Erguer memoria pia.
A VICTORIA E A PIEDADE.
I.
Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
Nos paços dos senhores!
Eu jámais consagrei hymno mentido
Da terra aos oppressores.
Mal haja o trovador que vae sentar-se
Á porta do abastado,
O qual com ouro paga a propria infamia,
Louvor que foi comprado.
Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro
Prostitue o alaúde!
Deus á poesia deu por alvo a patria,
Deu a gloria e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
Livre o poeta seja,
E em hymno isento a inspiração transforme,
Que na sua alma adeja.
II.
No despontar da vida, do infortunio
Murchou-me o sopro ardente;
E saudades curti em longes terras
Da minha terra ausente.
O solo do desterro, ai, quanto ingrato
É para o foragido,
Ennevoado o céu, arido o prado,
O rio adormecido!
Eu lá chorei, na idade da esperaça,
Da patria a dura sorte:
Esta alma encaneceu; e antes de tempo
Ergueu hymnos á morte:
Que a morte é para o misero risonha,
Sancta da campa a imagem...
Alli é que se afferra o porto amigo,
Depois de ardua viagem.
III.
Mas quando o pranto me sulcava as faces,
Pranto de atroz saudade,
Deus escutou do vagabundo as preces,
Delle teve piedade.
«Armas!--bradaram no desterro os fortes,
Como bradar de um só:
Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os
Indissoluvel nó.
Com seus irmãos as sacrosanctas juras,
Beijando a cruz da espada,
Repetiu o poeta:--Eia, partamos!
Ao mar!»--Partia a armada.
Pelas ondas azues correndo afoutos,
As praias demandámos
Do velho Portugal, e o balsão negro
Da guerra despregámos;
De guerra em que era infamia o ser piedoso,
Nobreza o ser cruel,
E em que o golpe mortal descia involto
Das maldicções no fel.
IV.
Fanatismo brutal, odio fraterno,
De fogo céus toldados,
A fome, a peste, o mar avaro, as turbas
De innumeros soldados;
Comprar com sangue o pão, com sangue o lume
Em regelado inverno;
Eis contra o que, por dias de amargura,
Nos fez luctar o inferno.
Mas de fera victoria, emfim, colhemos
A c'roa de cypreste;
Que a fronte ao vencedor em ímpia lucta
Só essa c'roa veste.
Como ella torvo, soltarei um hymno
Depois do triumphar.
Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra
Bem triste é o acordar!
Nessa alta encosta sobranceira aos campos,
De sangue ainda impuros,
Onde o canhão troou por mais de um anno
Contra invenciveis muros,
Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
Pedir inspirações
Á noite queda, ao genio que me ensina
Segredos das canções.
V.
Reina em silencio a lua: o mar não brame,
Os ventos nem bafejam;
Rasas co' a terra, só nocturnas aves
Em gyros mil adejam.
No plaino pardacento, juncto ao marco
Tombado, ou rota sebe,
Aqui e alli, de ossadas insepultas
O alvejar se percebe.
É que essa veiga, tão festiva outr'ora,
Da paz tranquillo imperio,
Onde ao carvalho a vide se enlaçava,
É hoje um cemiterio!
VI.