Maria Peregrina, que chegou á Figueira muito fatigada e doente, no
começo de outubro, foi installar-se na pequena vivenda de Mira-Mar,--á
extrema da cidade.
Passou os primeiros dias num torpor de contemplativa de quem mal dá pela
vida externa.
O mirante e os alegretes de Mira-Mar eram pontos de vôo á sua imaginação
triste para um paiz de bruma, que nem bem sabia onde era, e, a bem
dizer, só existia em si propria.
Esse paiz era ella mesma, nevoenta como o espirito que o creára para si.
De Mira-Mar avistam-se as terras barrentas do Cabo Mondego, morrendo na
agua, o lindo casario da serra, branco e religioso como um systema de
ermidas, bellos poentes, tudo o que o abraço do mar e da serra pode dar
de grande, como expressão de paisagem voluptuosa.
Do Mirante distingue-se, nitida, a linha do Cabo, que lembra as navalhas
recurvadas que usa a gente do norte, e em que o mar figura como uma
lamina, resplandecente de sol, a certas horas.
A Cidade, rica de luz e notas imprevistas, é das que mais convidam a
noviciar amores.
Mas Peregrina, crestada pela vida, muito oxydada de alma, passou os
primeiros dias do outomno recolhida numa rememoração de si propria, que
nem o mar, nem toda a belleza da terra seriam capazes de delir.
Havia uma grande affinidade entre ella e o tempo. Reflectia o outomno na
sua physionomia de sombra, vincada de traços melancholicos, que
signalavam uma belleza de occaso, especie de imagem de marfim antigo,
vivendo o seu crepusculo de idolo abandonado...
Aquella physionomia, talhada em sombra e chamma suave, não era já o
involucro, a mascara; era a mulher toda,--a alma a esbater-se em luz de
outomno.
Na segunda quinzena de outubro fez-se-lhe no espirito alguma trégua.
Sahia, ás tardes, a percorrer a praia, embevecida no scenario discreto
da linda terra de pescadores.
Aves marinhas andavam aos bandos, misturando o som rouco da sua voz á
voz da agua inquieta, e esvoaçando sobre o mar que parecia uma geleira
arada, muito riscado de fitas brancas, ondas regulares, certas,
espreguiçando-se, com volupia, numa luxuria rhythmica.
Quasi toda a adolescencia morena da praia, afrontava nua o mar,
confundindo a sua carne côr de mel com as vagas serenas daquelles restos
de oceano.
E Peregrina, de olhos fitos naquellas formas, batidas pelas ondas, vivia
então sua belleza em massa, irmã em amor dos bronzes que para ali
boiavam doidamente, sentindo na alma aquelle mar, aquelles corpos
humidos e macios, tudo...
Ia ao outro lado numa bateira branca aos areaes de Lavos, muito sensivel
á musica dos remos, espadanados por dois moços fortes.
Tardes côr de graphita.
Era á hora em que as gaivotas, as rôlas e as negrelas põem accentos
circumfléxos na tarde, limitando a altura, num sob-ceu de asas.
Passava horas nas praias fronteiras á Figueira, esquecendo-se, até se
deixar dominar por aquella belleza de chromo, vivendo as cambiantes do
ceu de outubro, duma belleza intima e serena.
Nuvens côr da terra accrescentavam o Cabo até ao sol, que primeiro se
projectava em amphora de luz, e depois morria numa brasa, a boiar no
mar.
Já noite, tomava um remo, ao lado dos moços da bateira, e ahi vinham
todos, muito certos e irmãos naquella labuta embaladora, de olhos fitos
no pharolim, que se ergue entre o Mondego e o Oceano--um polyedro verde
que lembra um pedacito de mar-esmeralda, gelado, para nortear noctivagos
da agua.
Nalgumas tardes ia até á explanada, junto do Forte, para sentir a maré
contra a muralha e avistar o recolher do sol.
Passava o tempo a ler as côres em que se dispersava o dia, as
tonalidades roxas que preparam a passagem para a treva.
Marcam a extrema do Cabo o casario da mina e o pharol alçado em redoma.
Noite alta, mandava o pensamento em derrota pela agua, e figurava-se a
passear por entre as arcadas da mina ou pelas escarpas do fim da serra.
Vieram as chuvas e as primeiras tempestades.
A Figueira, no verão tão cheia de luz, veste de escuro o outomno. Abrem
os dias num ceu de cinza que pouco e pouco melancholiza os campos.
Rompem-se em agua a cada hora nuvens de chumbo, enquanto o vento revólta
a paisagem, arremessando, escramalhando as pedras, a areia e os ramos.
Em tardes de granizo e trovoada, quando os elementos se assanhavam,
Peregrina recolhia ao Mirante a vivê-los de perto, emparedando-se ahi
como num biombo de vidro.
A tempestade, aquella agua batida, a dispersão electrica do fogo das
trovoadas, davam-lhe impressões que ella casava aos estudos de sua alma
em desarranjo.
E, então, nostalgica das tardes da Grecia, procurava viver uns trechos
do passado; e, fazendo do Mirante uma réplica do _Templo de Amor_,
mandava vir adolescentes dos mais formosos, fundindo-se com elles numa
tempestade esteril ás tempestades de fóra.
Juntavam as vozes em orpheão, cantando as modas creadas pela toada
undisona da bahia. Tudo ali condiz:--a voz das aves, o canto rouco da
marinhagem, a surdina do mar.
Mas os arrancos da trovoada abriam clareiras naquella toada de porão,
pois que as creanças a suspendiam a espaços, agoirando castigos.
Os relampagos, que pareciam abrir o vidro em letras chinesas, quebravam
em linhas de fogo contra os bellos corpos de topazio.
Havia sempre na ronda um predilecto com quem Peregrina trocava especiaes
lascivias...
Illuminada pelo fogo duma paixão inconsumivel transfigurava-se, fundindo
a alma em corpos eleitos, que vestia de delirios em dispersão de beijos.
Beijos mudos, impressivos como a alma que os mandava, parecendo romper a
seda-lacre dos labios que os praticavam...
No entanto, as dansas continuavam, como um pretexto de enleio daquelles
corpos atarantados, rematados por faces pallidas, esbatidas de penumbra,
de risos brancos e gelados, inculcando o torvelinho a que se entregavam
por mero capricho duma artista louca.
Ia para o mar num yacht oriundo dos estaleiros de Portsmouth. Vivendo na
attracção dos perigos, sahia de preferencia em horas de tempestade,
pondo á prova a coragem dos companheiros, em geral ephebos.
Era em dias em que o mar respira fundo, erguendo-se em violencias de
desejo.
As ondas, que na praia são rolos brancos, morrentes em torvelinhos de
catarata, tomam na barra a expressão aguda de fundos verdes, quebrados,
de garrafa, esfarrapando cambraias.
Seguia o yacht, côr de turqueza, desenhando letras de alphabeto liquido,
mysterioso.
E Peregrina, irmã pela alma daquelle tumulto verde, ia afogando
pensamentos no remoinhar de agua em desespero.
O barco, ora arremettia contra as ondas, despedaçando-as, ora as subia,
suavemente.
Se subia, era arfante e lento, num rumor de dyspneia que attingia o alto
daquellas cordilheiras de agua. Ao descê-las, quasi cahia de chofre,
sacudindo e batendo os corpos da tripulação extranha.
Cada onda que partia espiralava alto camarinhas de leite que morriam num
veu sem côr.
Nos postos, os da tripulação systematizavam o trabalho aos signaes do
mestre.
E Peregrina da camara roxa de crystal, que simulava na amurada uma
amethysta, ia seguindo e vivendo aquellas violencias, anesthesiando-se
em ondas de som, crente de que uma tal instabilidade a destinára, para o
seu caso, o Deus das almas que lhe pedem esquecimentos.
Animava-se a barra, e havia lugres, escunas, a solicitarem para terra a
intervenção da pilotagem.
Peregrina, que conhecia o significado das côres, lia de prompto as
bandeiras alternadas nas barcas, senhoreando-se do programma de
manobras.
Seguia com interesse aquella faina á procura de incidentes, aliás
vulgares.
Assistia ao arranco das ondas, despedaçando de raiva os troncos de corda
que atavam as barcas aos rebocadores. Interessava-a o espectaculo das
suas refregas.
É então que a marinhagem se méde com o mar, e amargura suas intimidades,
gosadas em marés suaves...
As ondas empoadas, atravessando as barcas, em doceis de espuma, quebram
dentro os seus abraços. Enquanto estas, escramalhadas, apparecem,
desapparecem, nas differenças da agua, que ainda ha pouco era planicie e
logo se abriu em sulcos de quebrada e montanhas de cordilheira movediça.
Segue a labuta da marinhagem em litigio com o mar.
As tripulações enxergam ao largo leguas de terra; e, apesar de correrem
perigo de abalroarem, não se vêem.
Lançam os do rebocador a nova amarra a cada approximação das barcas; e a
amarra, que fluctua ao acaso um traço de oiro, colleia, desmanchada, as
cristas das ondas que a retorcem, simulando enguli-la.
A meio da faina, passada entre um cyclone de odios e orvalhos
transparentes, ha grita da tripulação. Mas esta desordem é suggestão do
mar. É a voz de quem vive o elemento, syllabando forte, em ondas roucas,
a linguagem da agua.
Afinal, lá vingam atar de novo a amarra. Sôa o grito aspero da sereia do
vapor, abrindo notas de falsete na tempestade.
E as barcas, uma a uma, lá vão transpondo a barra.
Se a tempestade acalma, ceu e mar invertem-se nos tons:--o mar simúla
uma caixa azul, em que o ceu branco, fofo de brumas, tampa o espaço.
Chega a noite, passando a sombra as figuras tragicas dos maritimos. Aves
longas flecham o espaço em traços rectos. Patos bravos, em bandos
negros, como gondolas á ventura, regressam ás aguas fundas.
Peregrina regressava ao caes. Era á hora em que os lampiões dos molhes
zebravam de luz a ultima agua.
A Artista ia a sahir ao molhe do nascente, junto ao candieiro roxo.
E era ahi, áquella luz de alecrim, sob o docel mysterioso do arvoredo,
que despedia os companheiros, recolhendo cedo e só a Mira-Mar.
* * * * *
Recebia cartas de Nuno de quando em quando. E escrevia-lhe todos os
dias.
Elle, sem coragem para dizer o seu tormento, mentia por cobardia, e
ainda por amor della.
Contemporizava. Ella, sentindo as sombras da antiga tristeza, curava de
illudir-se, enchendo o tempo com passeios, e ritos de velhos cultos.
Chegaram novas de Lisboa e do Mosteiro.
Helen tinha resvalado ao ultimo degrau da torpeza, fugindo do marido
para ir viver num pateo com a _Manola_, marafona e bebada.
O marido pedira transferencia para uma legação de inferior classe e
sahira penitente das vergonhas da mulher.
A Salomé dava-lhe parte do casamento proximo. Resvalára aos braços do
lente Amaro, avido de cevar a sensualidade erudita naquella loira de
carnes brancas e pennugentas, e prompto a embolsar os duzentos contos
que tinham ficado dos Pamplonas, em terras e inscripções.
Maria Peregrina via fugir tudo o que a prendera, á excepção de Nuno.
Mas, ao mesmo tempo que sentia o correr dos dias, via avisinhar-se, cada
vez mais, a antiga melancholia, uma tristeza que mal explicava.
Uma tarde, conduzia pelo braço, segundo o costume, monsenhor Andrada até
o eirado eminente ao mar.
Seguia-os Jacob com duas cadeiras leves, fechadas.
O ataxico movia as coxas com esforço, atirando ao acaso as pernas de
fantoche, dondas como travesseiros de moinha. Sentaram-se os dois, o
padre muito amparado por Peregrina.
--Sabe, disse esta, que escrevi ha duas noites o meu testamento? Posso
morrer breve...
--Suggestões da minha miseria, disse o monsenhor. Eu hospédo metade da
morte. Sou o caixão de metade do que fui. V. Ex.ª a pensar em morrer,
uma creança! Isso é para os velhos e doentes, como eu.
--Engana-se. É tão facil morrer, sobretudo quando temos o culto da
Morte! Entendi que devia empreitar obras posthumas. Vou dizer-lhe a
minha ultima vontade.
E, desdobrando três folhas de papel azul, leu:
--Eu, Dona Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de
Dona Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de Dom Antonio
Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, natural do Mosteiro, cidade de
Guimarães, resolvi fazer o meu testamento pela forma que segue:
Primeiramente elévo a alma a Deus, sagrado em si e nas minhas
desventuras; foi reflectindo-o, que soube sentir a majestade do
Infortunio. Que ninguem cuide dos meus funeraes; o Acaso os cuidará.
Dos bens de fortuna disponho assim:
Lego o usufructo de cem contos de réis ao antigo prior do Mosteiro,
Monsenhor José de Andrada, presentemente em minha companhia.
Á sua morte passará este capital para o meu procurador José Lourenço.
Lego o usufructo de cento e cincoenta contos ás minhas antigas
condiscipulas Helen Green, residente na Mouraria, em Lisboa; e a Violet
Ioung, actualmente em Londres.
O capital passará á morte da ultima para a administração de Petersfield,
Inglaterra, que pelo seu juro creará uma aula de musica com a
designação--Instituto-Edgar, destinado a adolescentes musicos.
Lego cincoenta contos aos creados que me servirem ao tempo da minha
morte, e vinte e cinco contos ao anão teutão Jacob.
Finalmente, instituo minha herdeira a cidade de Coimbra para que liquide
a minha fortuna, resto das maiores casas da Peninsula, e faça construir
uma grandiosa Escola de Arte grega com a designação--Parthenon do
Ocidente, tendo na fachada os symbolos heraldicos de Portugal e
Castella, cujos desvarios e sangue represento.
Haverá annualmente premios para os dois adolescentes mais bellos do
Parthenon. Serão eleitos pelo collegio dos alumnos da Cidade. O premio
destinado ao alumno designar-se-á--Edgar, em homenagem a um antigo
companheiro de Petersfield; o outro chamar-se-á--Helen, em memoria do
meu antigo culto por Helen Green.
Faço meu testamenteiro a D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, IIIº Conde de
Nevogilde, natural de Traz-os-Montes, escriptor, actualmente em Lisboa,
a quem offereço as minhas obras, á excepção do Poema que vou urdir, e
desejo fique no Archivo do Parthenon. Na sua falta zelará as clausulas
deste testamento a Municipalidade de Coimbra.
(_Segue a approvação, e assignatura das testemunhas e testadora. Foi
rubricado nas tres folhas)._
Quando Maria Peregrina acabou de ler, o padre soluçava.
Ella passou-lhe a mão pela cabeça encanecida e disse-lhe num sorriso
triste:
--Chora, antecipadamente, a minha morte?
--Não: abençôo em V. Ex.ª a mulher sagrada por toda a especie de
tortura. É preciso ter soffrido para subscrever um testamento assim. Sou
insuspeito. Irei adeante para informar o Ceu dos peccados dos
_honestos_, e das virtudes da _relapsa_. É preciso pecar muito para ser
bom... Mas quando tivesse de ficar, não podia receber o que V. Ex.ª me
lega. Apesar de condemnado segundo a Egreja, considero-me da Egreja. Sou
frade. Não infringirei o voto da pobreza. É tão facil ser pobre!...
Emfim, uma herança recebo eu, que essa não ma veda nenhuma religião,--os
carinhos que V. Ex.ª quer protelar além da morte.
E soluçava, abalando a cadeira leve.
Na extrema do eirado, Jacob, de pé, firme, numa mudez de esphinge,
fixava o olhar amarelo-metal sobre o collo alto de Peregrina. E dos seus
olhos de azeite, exiguas lampadas de altar-mór, expedia filetes de luz
duma melancholia lubrica e mortiça.
O padre e Maria Peregrina conversavam.