--Porque és tu tão esquivo aos meus affectos, depois da convivencia que
temos tido? perguntava Nuno a Ruy, sentados ambos num banco de azulejo
arabe, no parque do Palacete-Fóz.
Vês a incondicional devoção que tenho por ti, como sei ouvir os teus
casos...
Senti o prazer amargo das tuas confidencias:--os amores innocentes com
Paulina, aos treze annos; e as luxurias de dois annos de collegio com
escolasticos anemicos. Viste a cordura com que ouvi tudo--sonhos e
miserias adolescentes. Estimo-te como o destino te engendrou. Que
prevenção é, pois, a tua contra mim? A cada momento sinto que me
repelles...
--Sim, disse o _Vagabundo_, separa-nos a raça. Attribuo as mais das
batalhas intimas aos fios de sangue nobre que me laivam o temperamento.
Vejo mal as figuras de privilegio; como já te disse, só vivo os affectos
que me não melindram. Não sei o que vale a amizade. Dou pelo interesse
extranho, e raramente por uma ou outra figura de Belleza humilde.
Propriamente culto não tenho por ninguem.
Nem sei porque, seduz-me o teu espirito, mas vexa-me o teu affecto. É um
caso de sensibilidade que não apercebo bem. Mas não falemos nisso.
Conta-me os teus delirios com Peregrina.
--Sei lá o que hei de contar:--amarguras. Tambem nos afastam razões
intimas. Deante della, sinto-me abdicar de mim. Sou uma força que o seu
amor explora. Goso e soffro segundo o seu capricho. Dá-me um amor que me
faz ganhar a eminencia de sensualidades supremas, e me despenha, cégo,
ás minhas fraquezas, onde tropeço com nervos e hysterias. Ainda bem que
partiu. O mêdo que me causava!
Vou escrever-lhe a denunciar-lhe este mêdo e o proposito de jámais a
encontrar. Dóe-me a desillusão que vae sentir. Mas, deixemos isso...
Agora sou eu quem relega o assumpto que deste.
Canta alguma coisa; quero ouvir-te o _Fado triste_...
--Vá lá, disse o Vagabundo, tangendo a guitarra que levantára da extrema
do banco.
E interrogando-se:
--Que lettra ha de ser? Será uma velha _Cantiga_, a ultima que me ouviu
Paulina, em Villa Alva.
E, desviando os olhos de Nuno para os espalhar, num além de
reminiscencias, cantou em voz branda, os treze versos:
«Senhora, partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguem!
Tão tristes, tão saúdosos,
Tão doentes da partida
Tão cançados, tão chorosos;
Da morte mais desejosos,
Cem mil vezes que da vida!
Partem tão tristes os tristes,
Tão fóra d'esperar bem
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguem»![1]
Nuno fixava, perturbado, o _Vagabundo_.
--Vaes deixar-me abraçar-te, disse quando elle acabou.
--Não, contrariou Ruy, esquivo e já de pé, entornando o olhar verde pela
folhada mysteriosa do arvoredo...
É tarde, vou sahir.
--Espera um pouco.
E, dando por detonações, longe:
--Que é? Ouço barulho...
--Deve ser o desabar dum regimen, informou o _Vagabundo_. Já vês que não
perdia o tempo enquanto conspirava pelas alfurjas, no segredo e abraço
dos meus irmãos de crime.
--Ah! então conspiravas com essas figuras de patibulo com que ás vezes
te via, ás noites, pela rua? Tenho prazer com a confissão. Não sabia que
um artista, como és, podia tropeçar em coisas politicas, e suspeitava
das tuas companhias. Pensava coisas peores...
O odio que me causavas quando te via encarar esses homens esguios,
alvacentos, de torso recurvo, que o vicio planta nas esquinas, como
postes de infamia, electrizando, vendendo-se á nevrose dos que passam...
Num dia em que o teu olhar se misturou no riso duma figura assim, senti
gelar a alma, todos os sentimentos, no riso que te desafiou. Confundi-te
com a larva que me pareceu essa figura...
Afinal, não podia ser; tu não podias dar-te áquelles farrapos.
Mas intrigava-me, profundamente, o mysterio que encobria os teus serões.
Em que passavas o tempo? Era o que me perguntava em vão. Como havia de
suppor-te a conspirar! Tu a urdires a desgraça dum regimen!
Vem cá, minha creança. Deixa lá os regimens. Elles são o que valem; e
valem os povos que inculcam.
Os povos são como as mulheres feias; culpam os espelhos que lhes
reproduzem a hediondez!
Alegra-te aquelle barulhar de cobiça? Não é um systema que tomba. É o
desabar das monarchias do Ocidente, dos povos que ellas inculcam, das
tradições que resumem.
Mas que vale uma tal quéda, se a Arte e os artistas ficam! Não teem
patria as grandes memorias...
Ainda te entretens com a cabala publica? Para que? Qualquer quota de
esforço que lhe dês te deminue. Comicios, revoluções, conjuras, que é
isso? Que valem, que entravam?
Nada. Uma nação moribunda a _fazer_ phrases...
Coincidencia curiosa:--sonhei esta noite que tinha ido ao Paço das
Côrtes, que não servia já o actual regimen, mas um outro.
Entrei. Havia deputados e senadores, escolhidos dentre a primeira gente
e a ultima corja da nação--dispostos atabalhoadamente, pela sala, em
_Carrara_, granito e gesso. Vi-me afflicto entre aquellas figuras de
museu politico, que mal conhecia, com quem não queria privar.
A um canto barafustava um velho a elegia do Passado. Era uma figura
moldada pelo tempo em granito e gesso.
Subito, vi mexer o busto do Propheta, que estava ao centro do
salão,--nariz em bico de aguia, testa alta, repas finas e ralas. Jorrou
dos olhos redondos de mocho velho duas columnas obliquas de negrura,
desfranziu a boca de satyro, e falou assim:
--Nacionalidades! Patrias! mentiras de poetas...
Heroes são poetas de mentiras!
Systema latente é trapaça a chocar.
Videntes são loucos a sonhar, cegos vendendo luz!
A Vida é o que cada um quer. Só a Arte vale, a Arte, o fio-mestre da
Vida!
Nacionalidades! Patrias!--mentiras de Poetas. Portugal!
Hespanha!--Versos, trastes velhos!
--Não achas curiosa, Ruy, a coincidencia? E como no fundo o sonho é
verdadeiro?
Sabes o que vae ficar, provisoriamente? Quem vae governar?
Não sabes. Vae ser um arremêdo do Grão-Lama.
Não conheces, nem imaginas quem seja?
Vou explicar-te essa figura, já que não lês o Escriptor-santo, em cujas
obras vem retratada.
O Grão-Lama é uma figura que os chineses conceberam perduravel, um homem
eleito Deus por uma casta da China antiga, rodeado de ritos, uncções e
virtudes, substituido cautelosamente, secretamente, apenas morto, por
outro, semelhante em parecer; no nosso caso, sê-lo-á por outro
semelhante em manhas, até que o Destino funda, providencialmente,
embustices e embusteiros, em sacrificio a uma civilização por vir...
O Grão-Lama do Ocidente ha de ser um litterato que somme a idiotia das
Academias, e tenha a presumpção da visão dos tempos, um misto de
Bandarra e Gongora, prenhe de democracia e lettras.
Se era esta a figura que trabalhavas...
--Sei lá para que trabalhava. Sentia necessidade de privar, já te disse,
com os meus eguaes; não se foge ás affeições que o Destino impõe. A
affeição é do Destino...
O Destino pode ser a Raça. De politica nada sei, nem quero saber. A Raça
mandou-me suppurar na Politica o odio innato, viver na loja secreta a
miseria intima.
Ahi tens a razão da minha solidariedade com as revoluções. Sou affim de
todos os que odeiam!
Ha pouco discorrias suspeitas sobre as minhas fraquezas. Exquisitos
reparos! Que direitos podes arrogar-te para discutir-me? Convenho que
repugne a tua Arte a minha predilecção pela Belleza humilde, que me
discutas como artista... Mas aventar alto suspeitas, a generalização das
minhas miserias! Nego-te esse direito!
Em todo o caso, quero dizer-te que, no momento, curo, sobretudo, de
vingar principios, e, no numero das liberdades que batalho, entra a
liberdade do Vicio. É a prevenção do doente, que não sabe bem onde os
nervos, a educação e as taras podem arrastá-lo...
Adeus, Nuno!
* * * * *
No dia seguinte, passeava Nevogilde no gabinete de trabalho.
Parou por momentos deante de um contador, e esteve a afagar um gomil
esguio e depois as curvas puras de dois boiões, pó-de-pedra, esmaltados
de flores de linho. Volveu a passear a diagonal da sala, e foi junto da
secretária premir o botão da campainha.
Veiu um creado.
--Ainda não chegou o mordomo? perguntou.
--Veiu ha instantes.
--Que appareça, immediatamente, a falar-me.
Minutos depois entrava o mordomo.
--Tão grande demora? Recommendei-te pressa!
--Ah! sr. Conde, estava a ver que não dava com o paradeiro do sr. Ruy.
Que mais valera não trazer noticia alguma... Sei quanto V. Ex.ª se
interessava por elle! Coitado...
--Está doente?!
--O sr. Ruy, informou o mordomo, morreu ha poucas horas... Cahiu ás
primeiras balas das tropas fieis, junto ao monumento da Restauração, na
Avenida, entre os revoltosos...