XIV

--Porque és tu tão esquivo aos meus affectos, depois da convivencia que

temos tido? perguntava Nuno a Ruy, sentados ambos num banco de azulejo

arabe, no parque do Palacete-Fóz.

Vês a incondicional devoção que tenho por ti, como sei ouvir os teus

casos...

Senti o prazer amargo das tuas confidencias:--os amores innocentes com

Paulina, aos treze annos; e as luxurias de dois annos de collegio com

escolasticos anemicos. Viste a cordura com que ouvi tudo--sonhos e

miserias adolescentes. Estimo-te como o destino te engendrou. Que

prevenção é, pois, a tua contra mim? A cada momento sinto que me

repelles...

--Sim, disse o _Vagabundo_, separa-nos a raça. Attribuo as mais das

batalhas intimas aos fios de sangue nobre que me laivam o temperamento.

Vejo mal as figuras de privilegio; como já te disse, só vivo os affectos

que me não melindram. Não sei o que vale a amizade. Dou pelo interesse

extranho, e raramente por uma ou outra figura de Belleza humilde.

Propriamente culto não tenho por ninguem.

Nem sei porque, seduz-me o teu espirito, mas vexa-me o teu affecto. É um

caso de sensibilidade que não apercebo bem. Mas não falemos nisso.

Conta-me os teus delirios com Peregrina.

--Sei lá o que hei de contar:--amarguras. Tambem nos afastam razões

intimas. Deante della, sinto-me abdicar de mim. Sou uma força que o seu

amor explora. Goso e soffro segundo o seu capricho. Dá-me um amor que me

faz ganhar a eminencia de sensualidades supremas, e me despenha, cégo,

ás minhas fraquezas, onde tropeço com nervos e hysterias. Ainda bem que

partiu. O mêdo que me causava!

Vou escrever-lhe a denunciar-lhe este mêdo e o proposito de jámais a

encontrar. Dóe-me a desillusão que vae sentir. Mas, deixemos isso...

Agora sou eu quem relega o assumpto que deste.

Canta alguma coisa; quero ouvir-te o _Fado triste_...

--Vá lá, disse o Vagabundo, tangendo a guitarra que levantára da extrema

do banco.

E interrogando-se:

--Que lettra ha de ser? Será uma velha _Cantiga_, a ultima que me ouviu

Paulina, em Villa Alva.

E, desviando os olhos de Nuno para os espalhar, num além de

reminiscencias, cantou em voz branda, os treze versos:

«Senhora, partem tão tristes

Meus olhos por vós, meu bem,

Que nunca tão tristes vistes

Outros nenhuns por ninguem!

Tão tristes, tão saúdosos,

Tão doentes da partida

Tão cançados, tão chorosos;

Da morte mais desejosos,

Cem mil vezes que da vida!

Partem tão tristes os tristes,

Tão fóra d'esperar bem

Que nunca tão tristes vistes

Outros nenhuns por ninguem»![1]

Nuno fixava, perturbado, o _Vagabundo_.

--Vaes deixar-me abraçar-te, disse quando elle acabou.

--Não, contrariou Ruy, esquivo e já de pé, entornando o olhar verde pela

folhada mysteriosa do arvoredo...

É tarde, vou sahir.

--Espera um pouco.

E, dando por detonações, longe:

--Que é? Ouço barulho...

--Deve ser o desabar dum regimen, informou o _Vagabundo_. Já vês que não

perdia o tempo enquanto conspirava pelas alfurjas, no segredo e abraço

dos meus irmãos de crime.

--Ah! então conspiravas com essas figuras de patibulo com que ás vezes

te via, ás noites, pela rua? Tenho prazer com a confissão. Não sabia que

um artista, como és, podia tropeçar em coisas politicas, e suspeitava

das tuas companhias. Pensava coisas peores...

O odio que me causavas quando te via encarar esses homens esguios,

alvacentos, de torso recurvo, que o vicio planta nas esquinas, como

postes de infamia, electrizando, vendendo-se á nevrose dos que passam...

Num dia em que o teu olhar se misturou no riso duma figura assim, senti

gelar a alma, todos os sentimentos, no riso que te desafiou. Confundi-te

com a larva que me pareceu essa figura...

Afinal, não podia ser; tu não podias dar-te áquelles farrapos.

Mas intrigava-me, profundamente, o mysterio que encobria os teus serões.

Em que passavas o tempo? Era o que me perguntava em vão. Como havia de

suppor-te a conspirar! Tu a urdires a desgraça dum regimen!

Vem cá, minha creança. Deixa lá os regimens. Elles são o que valem; e

valem os povos que inculcam.

Os povos são como as mulheres feias; culpam os espelhos que lhes

reproduzem a hediondez!

Alegra-te aquelle barulhar de cobiça? Não é um systema que tomba. É o

desabar das monarchias do Ocidente, dos povos que ellas inculcam, das

tradições que resumem.

Mas que vale uma tal quéda, se a Arte e os artistas ficam! Não teem

patria as grandes memorias...

Ainda te entretens com a cabala publica? Para que? Qualquer quota de

esforço que lhe dês te deminue. Comicios, revoluções, conjuras, que é

isso? Que valem, que entravam?

Nada. Uma nação moribunda a _fazer_ phrases...

Coincidencia curiosa:--sonhei esta noite que tinha ido ao Paço das

Côrtes, que não servia já o actual regimen, mas um outro.

Entrei. Havia deputados e senadores, escolhidos dentre a primeira gente

e a ultima corja da nação--dispostos atabalhoadamente, pela sala, em

_Carrara_, granito e gesso. Vi-me afflicto entre aquellas figuras de

museu politico, que mal conhecia, com quem não queria privar.

A um canto barafustava um velho a elegia do Passado. Era uma figura

moldada pelo tempo em granito e gesso.

Subito, vi mexer o busto do Propheta, que estava ao centro do

salão,--nariz em bico de aguia, testa alta, repas finas e ralas. Jorrou

dos olhos redondos de mocho velho duas columnas obliquas de negrura,

desfranziu a boca de satyro, e falou assim:

--Nacionalidades! Patrias! mentiras de poetas...

Heroes são poetas de mentiras!

Systema latente é trapaça a chocar.

Videntes são loucos a sonhar, cegos vendendo luz!

A Vida é o que cada um quer. Só a Arte vale, a Arte, o fio-mestre da

Vida!

Nacionalidades! Patrias!--mentiras de Poetas. Portugal!

Hespanha!--Versos, trastes velhos!

--Não achas curiosa, Ruy, a coincidencia? E como no fundo o sonho é

verdadeiro?

Sabes o que vae ficar, provisoriamente? Quem vae governar?

Não sabes. Vae ser um arremêdo do Grão-Lama.

Não conheces, nem imaginas quem seja?

Vou explicar-te essa figura, já que não lês o Escriptor-santo, em cujas

obras vem retratada.

O Grão-Lama é uma figura que os chineses conceberam perduravel, um homem

eleito Deus por uma casta da China antiga, rodeado de ritos, uncções e

virtudes, substituido cautelosamente, secretamente, apenas morto, por

outro, semelhante em parecer; no nosso caso, sê-lo-á por outro

semelhante em manhas, até que o Destino funda, providencialmente,

embustices e embusteiros, em sacrificio a uma civilização por vir...

O Grão-Lama do Ocidente ha de ser um litterato que somme a idiotia das

Academias, e tenha a presumpção da visão dos tempos, um misto de

Bandarra e Gongora, prenhe de democracia e lettras.

Se era esta a figura que trabalhavas...

--Sei lá para que trabalhava. Sentia necessidade de privar, já te disse,

com os meus eguaes; não se foge ás affeições que o Destino impõe. A

affeição é do Destino...

O Destino pode ser a Raça. De politica nada sei, nem quero saber. A Raça

mandou-me suppurar na Politica o odio innato, viver na loja secreta a

miseria intima.

Ahi tens a razão da minha solidariedade com as revoluções. Sou affim de

todos os que odeiam!

Ha pouco discorrias suspeitas sobre as minhas fraquezas. Exquisitos

reparos! Que direitos podes arrogar-te para discutir-me? Convenho que

repugne a tua Arte a minha predilecção pela Belleza humilde, que me

discutas como artista... Mas aventar alto suspeitas, a generalização das

minhas miserias! Nego-te esse direito!

Em todo o caso, quero dizer-te que, no momento, curo, sobretudo, de

vingar principios, e, no numero das liberdades que batalho, entra a

liberdade do Vicio. É a prevenção do doente, que não sabe bem onde os

nervos, a educação e as taras podem arrastá-lo...

Adeus, Nuno!

* * * * *

No dia seguinte, passeava Nevogilde no gabinete de trabalho.

Parou por momentos deante de um contador, e esteve a afagar um gomil

esguio e depois as curvas puras de dois boiões, pó-de-pedra, esmaltados

de flores de linho. Volveu a passear a diagonal da sala, e foi junto da

secretária premir o botão da campainha.

Veiu um creado.

--Ainda não chegou o mordomo? perguntou.

--Veiu ha instantes.

--Que appareça, immediatamente, a falar-me.

Minutos depois entrava o mordomo.

--Tão grande demora? Recommendei-te pressa!

--Ah! sr. Conde, estava a ver que não dava com o paradeiro do sr. Ruy.

Que mais valera não trazer noticia alguma... Sei quanto V. Ex.ª se

interessava por elle! Coitado...

--Está doente?!

--O sr. Ruy, informou o mordomo, morreu ha poucas horas... Cahiu ás

primeiras balas das tropas fieis, junto ao monumento da Restauração, na

Avenida, entre os revoltosos...

Nova Sapho: Tragedia Extranha · 第 21 / 28 题