Certa manhã lia ella, sob os loureiros, uma lenda escandinava.
Era uma lenda triste e prophetica, como o genio do Norte. O vento
ramalhava as pernadas secas de louro, crepitantes como ralas. A paisagem
era dum roxo delido, melancholica como a lenda, como Peregrina.
Chegou Jacob com a correspondencia. O sol, até ahi hesitante,
desappareceu, mysterioso.
Peregrina encarou a altura. Depois, descendo a vista, pareceu-lhe vê-lo
na salva de oiro que Jacob segurava, com as cartas.
--Deixa ver! disse impaciente.
E apartando a de Nuno pela letra:
--Leva o resto.
O anão expressou um rictus novo na physionomia de pergaminho, sublinhou
o olhar de bilis com um riso branco, e sahiu a caminho do alpendre.
Maria Peregrina abriu a carta, sobreexcitada, nervosa. Leu-a, releu-a,
espectrou os mais desencontrados movimentos de alma, e quedou, muda, por
muito tempo, a olhar para as pernadas secas de louro, mysteriosas,
crepitantes...
A carta, dizia:
Peregrina:
Repugna-me continuar a mentir. Não posso mais procurar-te. Beijo as
ultimas palavras da tua carta, que denunciam um amor que jámais alguem
teve por mim. Mas o proprio enthusiasmo desse amor me atemoriza, ao
mesmo tempo que me lisonjeia. Eu sou a contradicção de tudo--de mim
mesmo. Acquiesço com a razão aos que me querem; mas só amo os que me
desprezam...
Tu comprehendes-me se olhares para dentro de ti, porque,
fundamentalmente, somos eguaes. Cada um de nós é o abysmo de si proprio.
Chamavas-me outro dia, no amor dos maiores delirios, o teu Phaon. Ah!
como eu visto de razões o proceder do desejado da antiga Sapho! De
razões, quero dizer, de fatalidades:--o amor nada tem com a razão. É o
Destino, a loucura. É o Deus e o Demonio que temos em nós, rompendo
livres, indifferentes aos nossos gosos e torturas. É a fatalidade a
entrudar com o sentimento.
Ao despedir-me de ti, não tenho uma palavra de conselho. Nem sequer
insinuo que te consultes a ti propria.
A vida está acima e abaixo dos superiores, noutra esphera. Pois que
somos a essencia della, alando-nos pela Dor, não podemos entreter
esperanças com expedientes. Tratar casos de supersensibilidade com as
cabalas que a vida fornece o mesmo é que utilizar a materia a remediar
queixas da alma, no fundo a aggravar dores insophismaveis.
O mundo tem revolvido tudo. E, contudo, a sua especulação erudita ainda
nem sequer chegou a converter em dogma a Liberdade moral.
Nós, que ha muito conquistamos esporas de oiro na Desgraça, é que
sabemos até onde pode ir a nova sciencia por crear--a Philosophia
sensual.
É que vivemos na consciente e superior ignorancia do que somos. Para
mim, passou o tempo em que acastellava illusões...
Presumo que seja um pouco do que reflicto nos livros--um museu de
bellezas mutiladas. Tu eras irreprehensivelmente perfeita no conjuncto
bizarro das degenerescencias para que me pertencesses e te pertencesse.
E jámais gosei soffrimentos como os que me deste nos teus abraços!
Ah! porque me não matou o delirio das nossas hysterias, quando nos
confundiamos na folhada exotica da Villa-Feia!
Ha pouco me interrogava eu ácerca do teu amor, do nosso amor...
Fui ver-me ao espelho. Encontrei a sombra do que fui na adolescencia.
Reconheci o rapaz de ha dezeseis annos, tratado pelo tempo.
Vi ainda nos olhos a negridão da minha antiga virtude atarantada,
imprecisa, a procurar o ceu na continencia, e a sophismar sensualidades
na oração; volvi-me ao tempo em que fitava os idolos com os olhos da
carne, gosando-os com a alma, lubrica de sonho...
Sou o mesmo mysterio sensual, medroso e desequilibrado:--reflicto,
impotente, num mar de desesperos, um mundo de desejos.
Tu soubeste exaltar estes desejos, assaltar-me, de chofre, os nervos,
vibratizá-los...
Mas foi então que dei por forças intimas, que augmentam os meus receios.
Sei lá se ainda tenho nervos á espreita! Que seria de mim?...
Põe na imaginação braseiros de incendio, brancuras e frios de nevada,
asphyxias, essencias de requinte, torturas e suavidades religiosas,
harmonias bizarras de harpas, psalterios e violinos, saltos macabros de
demonios intimos, visões, o Ceu, o Inferno, e terás uma parte do que me
fizeste descobrir áquem de mim, da minha fraqueza.
Eis um pouco do que tecia o extranho do nosso viver...
Mas não poderemos mais encontrar-nos!
Perdôa a sem razão destas linhas na logica duma razão que sinto pelos
effeitos, mas que não apercebo bem:--a tal fatalidade que nos juntou, a
fatalidade que nos afasta.
Adeus, Peregrina! Esquece-me!
_Nuno_.
Passou uma hora, sem que ella se levantasse.
A manhã sangrou uma chuva miuda, por que mal deu, occulta pela ramaria,
abstrahida dos caprichos do tempo, numa contemplação dolorosa.
Veiu um creado lembrar que era a hora de conduzir o monsenhor, que
recolhia do alpendre.
--Lá vou.
E sahiu a dar o braço a Andrada.
Dahi a momentos caminhavam os dois, collados e oscillantes. A distancia,
mal se extremava o doente.
Symbolizavam as carcassas de dois poderes que o habito juntára, e agora
sommavam fraquezas...
No poente, uma nuvem escorria agua. Do norte, o arco-iris desdobrava as
sete côres. E o povo dizia, sahindo ás portas dos casaes:--É Deus que
está de bem comnosco!
E levantando as mãos:
--Louvado sejaes, Senhor!
E Maria Peregrina, em blasphemia suave, encarando o arco:
--Deus em alliança com os homens, nesta hora, que ironia!
* * * * *
Sahiu de carruagem, demorando cerca duma hora. Ao chegar, o trintanario
desceu do _coupé_ varios embrulhos, que levou ao Mirante. Peregrina
conversou por espaço de três quartos de hora com monsenhor Andrada.
Depois abraçou-o, commovida.
--Só nos veremos tarde, disse, vou escrever...
Ás quatro horas tomou uma refeição leve, e avisou:
--Que não vá alguem interromper-me. Vou trabalhar.
Noite alta, trepava Jacob pelo gradil do nascente, que cerca o Mirante,
ganhando o peitoril da janella, fronteira ao Mondego.
Sobre um pequeno bufete Renascença, pousava um pergaminho mal enrolado,
que pendia até meio da armação boleada.
Jacob, confundido com a noite, cauteloso de que as trepadeiras que
vestiam o Mirante barulhassem a sua presença, quedou, numa estabilidade
de simio mal accommodado, esgarçando os olhos á procura de Peregrina.
Ella estava de costas para elle, que a via, mysteriosa, mexer uma
mascara, de applicação desconhecida, vasando ether sobre pastas de
algodão.
Pelas frestas da janella, xadrezada, mal collada ao peitoril, sentia
Jacob o aroma estonteante do liquido extravazando.
Subito, viu-a deixar o contador alto, e recostar-se sobre um canapé João
V, cujo estofo côr de brasa lhe illuminava a figura marfilenea, vincada
de sombras. Recuperára a antiga compostura fidalga.
Os traços de amargura, que lhe tatuavam a physionomia, não lhe venciam a
raça:--era a mulher fraca, simulando força. Tinha o aspecto de quem
despreza a vida, cumpria o destino.
A sua figura desbotada, mantinha-se como num tablado, por dar contas a
si propria. Nem vigilias, nem dores haviam conseguido deminui-la.
A artista parecia vigiar a mulher.
Preparava-se para morrer. Mas o instincto, e o habito da Belleza,
velavam a sua figura estatual, suprema de altanaria.
Ondas fluidas, forças aeriformes, enchiam aquelle quadrado de crystal,
em parte opaco pelas folhas das trepadeiras--agora leve como uma asa.
Tudo ali parecia voar...
Ella, diaphana, duma transparencia de visão, segurava numa das mãos a
mascara que tinha como que á espera, do mesmo passo que applicava ás
narinas brancas compressas humidas de ether.
E a boca, da côr das farripas do algodão, delia-se em risos de
madrugada, expressões de sentimentos sobrenaturaes.
O ether, fluindo livre, parecia vagá-la pelo espaço; arrebatá-la pela
altura.
Mira-Mar era já uma camara alada...
Subito, sentiu um repelão forte na janella estreita do lado do Mondego.
E, a seguir, outro, que lhe partiu a fecharia, escancarando-a.
Uma lufada de vento dispersou, rapida, aquella atmosphera de morte e
sonho. E Maria Peregrina, como voltando dum mundo de nevoa, encarou,
somnambula, o anão, que cavalgava, audaz, o peitoril da janella, com a
cabeça rente á ogiva.
--Que fazes? perguntou, numa voz de surdina, que parecia magoar-lhe os
labios de lirio pisado.
--Venho impedir que te mates. Concede-me esse direito. É o direito de
quem abdicou de tudo, desmentiu até hoje a raça, passando de nomada a
escravo muito de vontade.
Eu sei que tens tido amarguras... Ainda esta manhã _elle_ tas causou, a
ponto de resolveres esta loucura.
Estamos sós. Deixa-me falar á vontade. Era como exigias que te falasse
quando sophismavas o amor commigo. Não é o anão, o rafeiro quem fala. É
a alma que a natureza acobertou num corpo infame; e que, no entanto,
abençôa a sua forma só porque ella foi alguma vez bem possuida.
Na logica dos teus desejos eu fui o histrião e o tapête. Tudo. Até
mulher dos teus amantes!
E ria, num riso de metal.
--Hoje, do mundo só te acceito a ti. Cabe na minha humildade o maior
rancor.
Dizias que vestia animo de lobo em pelle de ovelha. Pouco me importa
hoje que me descubram o animo.
Odeio quasi toda a gente; e, sobretudo, o odiava a _elle_ que,
recebendo-te corpo e alma, te vexava e me vexava, tratando-me como um
farrapo. Como era immundo!
--Cala-te! Vae! Quem te permittiu a entrada? Quem te permittiu que
viesses discutir Nuno?
Não te condemno; a tua intelligencia é inteira de maldade...
Acredito o que insinuas--que se serviu de ti! Que mais vae que se
servisse elle ou eu?
A materia é una, percebes? As almas é que são differentes.
Pois que os superiores não encontram as almas que procuram em corpos
bellos vão até vasculhar as dos monstros...
Não pudeste comprehendê-lo. Foste o demonio, a vibora enroscada, que
elle, o desvairado, tomou por uma flor exotica e quiz colher...
Deixa-me! Sáe! e apontava-lhe de novo a janella.
--Espera, olha que estive ha poucas horas com elle!
E ria, numa contracção de possesso.
Has de querer novas, vou dar-tas.
Mas, antes, quero contar-te um sonho. Sonhei a noite passada um crime!
A imaginação da noite vestiu-me o somno de delicto. E eu não tomei o
delicto como pesadelo, senti-o como um bem...
Ris-te da exiguidade do meu corpo! Pois não imaginas como é grande o
odio que arrasta! Pois que sou o avesso dos felizes, o animal corrido
pelos sobejos do bem, sinto-me a expiação de extranhos crimes, e é por
horas tardas que o instincto do delicto surde e me embriaga em sonhos de
morte. A noite é a camara escura onde revelo os perfis tragicos das
victimas, que são todos, menos tu!
A noite passada foi _elle_! Estavamos na Villa-Feia. Lembras-te do
eirado que domina o Ribeiro de Cobre? Foi dahi que o vi comtigo,
daquella Eira de Vidro, donde tanta vez espreitei os vossos enleios,
duma luxuria que eu sentia cá em cima, esporeado por infernos de ciume.
Vós estaveis sob o docel fresco e branco das magnolias...
--Cala-te! mandou Peregrina.
--Ah! não queres que fale; calarei as novas que te trazia delle...
Não acreditas que tenha estado com elle? Affirmo-to, juro-te. Juro? Como
hei de jurar, se não tenho religião alguma!?
Creio que sou o unico assim, em todos os mundos. Até o diabo tem a sua,
pois que é proprietario do Inferno, precisa tambem de cabalas para
explorar, negociar almas.
Eu nem inferno tenho!
--Jacob! se sabes alguma coisa de Nuno, dize. Mas não me atormentes.
--Vou então completar o sonho.
Eu beirava o eirado da Villa-Feia, encostado ao galho, meio podre, meio
florido, dum medronheiro de muitos pés de altura, testemunha dos meus
zelos. Subito, o ramo partiu, e o Destino precipitou-me sobre os dois,
sobre vós. Tu mergulhaste na agua suja do Ribeiro de Cobre que foi
rapida levar-te ao Douro, que no dia seguinte era mais de oiro, correndo
como um grilhão immenso para o mar, conduzido por força mysteriosa.
Horas depois, eras o Mar!
_Elle_ ficou na minha frente, mudo e estupido, como a Innocencia que o
Destino empreita para fazer mal.
Foi então que, desesperado, o retalhei com uma lamina que recebi do
momento. Quem ma deu? Ninguem...
Talvez fosse prenda do Destino que lhe deu a elle a passividade que te
servia e me despenhava!
Certo é que lhe bebi o sangue, inundei-me delle, sentindo-me afogar...
A vida partia, ia morrer. Phantasiava já um cortejo de velhacos,
conduzindo-me ao cemiterio dos criminosos em Plootzenseel. E eu a
pedir-lhes que me levassem no cofre de ébano das tuas joias, aquelle
cofre onde uma vez me meteste, a rir...
E a um gesto della:
--Espera! Depois acordei; foi para cumprir o sonho.
Encara-me bem! Assim...
Os sonhos são avisos do Destino. Esta manhã recebi recado para ir
falar-lhe.
Fui. Simulei a antiga passividade.
Aprazamos o novo encontro á beira-mar, junto ao Forte, perto da gruta.
Era ahi que o fidalgo queria ainda usar o farrapo!
Vinha cevar-se, immundamente, no monstro, contratado pela amante para
servir os dois!
Mas enganou-se. Em Villa-Feia, dobrei-me a todo o enxovalho da sua
vileza, porque elle era uma parte de ti propria. Eu era o teu escravo;
servindo-o, servia-te:--entreguei-me.
Mas aqui, depois de despedir-te, de te enganar, commeter a abjecção de
me preferir a ti, que vales um mundo de Belleza! Era muito, era mais do
que tentar a Deus porque era tentar um monstro!
Ah! elle não sabia, os grandes como os infimos não sabem, o enigma que a
fealdade encerra!
--Que fizeste, Jacob? implorou Peregrina. Dize!
--Que fiz?
E encarando-a a rir:
--Cumpri o sonho; adquiri uma lamina com que sondei o coração que te
affligiu e me vexou.
Lá está na areia! Ficou-me num abraço...
Sinto ainda saudades do sangue que lavei para vir falar-te.
Bello noivado na praia, o do monstro com o fidalgo!
--És a fatalidade! disse Peregrina, correndo a abrir o Mirante. Não
podias faltar ao ultimo acto da minha vida.
És a imagem do monstro que fui tanta vez!
A nossa distincção está em que eu puz a indifferença onde lançaste o
odio.
Vejo entre nós o corpo branco de Edgar, tatuado de fios roxo-lirio.
Vejo-o, tão lindo! Elle perdoou-me, o Destino é que não...
E, rapida, num passo incerto, sahiu do Mirante, desceu pela azinhaga
guardada de louros que lhe embaraçavam o vestido côr de pervinca, e
caminhou ao longo da estrada de Buarcos, que se desdobrava em fita pelo
Cabo, listrando a noite.
Parou; ia errada.
Voltou-se; lá estava o pharolim do Forte.
Era ali que o morto quedava, dissera Jacob. Até lhe parecia ouvi-lo, de
longe, a chamá-la! Estugou o passo; tinha pressa de vê-lo, de senti-lo.
Desceu á praia; correu sobre a areia côr de zinco, pintada do luar.
A distancia seguia Jacob, como uma sombra.
Era a madona duma Cathedral a silhuetar um monstro!
Fixou, ainda de longe, o morto. Abrandou o andar, como quem
reconsidera... Depois, foi-se approximando num passo miudo de alvéloa
receosa.
Elle estava deitado de costas, membros abandonados, descomposto, numa
nudez de ephebo, morto mysteriosamente á beira da agua.
Os olhos de vidro, salientes do caseado das palpebras, muito abertas,
lembravam os dum santo de capella pobre--contas escuras de camandulas,
despedindo traços rectos de suavidade.
Era serena a sua face livida, irmã da luz daquella hora, mal cortando o
luar.
O peito era de seda crua, côr da camisa aberta em sanefa.
Floriam-lhe o seio glabro redondos signaes vermelhos. Cada punhalada era
uma tulipa de sangue.
Peregrina ajoelhou.
A areia phosphoreava luz de sonho, irradiações de phantastica
pedraria...
Ella esteve a mirá-lo com uncção de penitente. Curvou-se a procurar os
traços de luz vaga do seu olhar de vidro.
Depois olhou em redor como quem acorda ao ruido de passos que não
espera.
Era o anão que andava á volta delles como um cão somnambulo, atado a um
baraço imaginario, preso á tulipa semi-liquida que marcava o coração do
morto...
--Que fazes, bandido? perguntou ella. Podes ir! Já me não perturbas.
Segue o Destino!
Erra, segundo o espirito dos cães do teu sangue. Apprende como se
transmuda a missão duma raça! Vae dizer aos teus a suavidade das nossas
taras e amarguras. Se o genio teutão as comprehende!...
--É cêdo, volveu o monstro, como falando comsigo.
Peregrina voltou a encarar o morto. E, de repente, como batida de
luxuria, começou a agitar-se num esvoaçar de aguia tonteada, envolveu-o
no seu olhar de treva, falou-lhe, sacudiu-o, afagou-o, até que cahiu
sobre elle, mordendo-lhe os labios de camelia pisada, lubricos de
morte...
O mar tinha sobre a madrugada uma rhythmica extranha. Parecia ter
recebido dos rios e das fontes, que xadrezam a prata a paisagem
portuguesa, uma melopeia gemente de melancholias...
As ondas evolucionavam mysteriosamente, encapellando-se ao rhytmo das
proprias queixas. Já duas vezes o mar tinha circuitado a renda aquelle
grupo, duma selvajaria suave.
Á terceira investida, Maria Peregrina solevou a cabeça, numa atitude de
quem trata com o mar como irmã.
Era a descendente de heroes, a desafiar novas fainas e conquistas, agora
para além da terra, para além do mar...
Era a Artista a medir a morte, superior á terra, maior do que o mar!
Veiu uma onda enorme. Surdiu, ao longe, como um Pegaso, de asas e crinas
crespas, requebrando a sua anca azul través a praia.
Maria Peregrina, que a viu, levantou-se a esperá-la. A agua quebrou
junto dos dois num lago de saphira. Ella impelliu o amante num carinho
de noiva; e esteve um momento a vê-lo partir entre um roldão de
cambraias...
Veiu uma segunda onda. Espatulou na areia uma lingua de agua, foi até á
muralha do Fortim, e refluiu, volveu ao mar, chovendo os restos em
orvalho de pureza.
Peregrina, que sentiu a onda abrir-se atraz della como uma concha
liquida, deixou-se impellir, avançou com ella, e foi mergulhar na resaca
da primeira vaga que a esperava com o morto.
E seguiram os dois...
Na areia estava Jacob, fixo como o deus Termo dos campos, numa
serenidade inquietante.
Quando as ondas remoinharam os dois corpos num funil de espumas, a sua
physionomia visajou infernos, como se partisse, interiormente, elasticos
que tivesse a arrepanhar-lhe o carão alvar. Trepou como um gamo a
escarpa do Fortim, arregaçou as palpebras, parecendo rebentar os olhos
de azeite, numa tensão de myope que tenta ver, que quer ver...
Fixou a primeira agua, muito attento ás flores de neve, hydranjas de
espuma em que as ondas se volveram; depois o mar fundo. Nada! Tinham
desapparecido! Olhou mais, esfregou os olhos, e olhou ainda... Fixou ao
longe o vago liquido daquella massa immensa.
De repente, como quem encontra o que procura, illuminou a physionomia da
sua faceira glabra num sorriso de idiota manso, que se foi abrindo em
riso brando, e mais, e mais, até que lhe distendeu as maxillas, num
gargalhar continuo...
Desceu, vagaroso, as primeiras desegualdades da gruta, depois tombou,
num novello, levantou-se, descreveu a curva de terra, fronteira á linha
de agua; e, a correr, em gargalhar parallelo ao som rouco das ondas,
seguiu o desenho da bahia, a esparsar a loucura em movimento, e sempre a
rir, a rir, num cascalhar pavoroso!
Era manhã. Um lençol de nevoa intensa vestia as armas reaes do Forte. O
tempo concedia aos mortos um lucto branco, um lucto áparte!
Tudo mudára. O mar, ainda ha pouco azul e branco, fez-se rapido em campo
glauco.
Era uma larga esmeralda de agua. Nem a antiga côr, nem a velha
altanaria!
O ceu, pouco antes zebrado de vermelho e oiro, côres heraldicas de
Castella, cerrou em nuvem de sangue.
Só ao longe, para os lados da Grecia, uma nesga de azul delido rompia
suave, como para informar que os Deuses velavam os mortos que haviam de
resurgir com a velha Attica!
O mar toava a mesma musica extranha...
Enquanto, do outro lado, rente ao Fortim, e eminente á escarpa, um moço
marinheiro cantava. Era um maritimo trigueiro, de olhos de velludo e
noite, guardados por pestanas longas, que desciam, mysteriosas, como
gelosias, voz de levada, corpo flexuoso de ephebo da beira-mar, a
reflectir nas linhas a belleza inconsciente dum Povo...
Pleno dia.
E a sua alma dolente, côr dos olhos, a desgarrar, em voz de levada, a
_Cantiga_ triste do vate-fidalgo:
Commigo me desavim:
Vejo-me em grande perigo!
Não posso viver commigo,
Nem posso fugir de mim!
Antes que este mal tivesse
Da outra gente fugia:
Agora já fugiria
De mim, se de mim podesse!
Que cabo espero, ou que fim
Deste cuidado, que sigo
Pois trago a mim commigo,
Tamanho imigo de mim.[2]