XIII

--Quem é? perguntou a Poetisa, ouvindo a porta do gabinete, e

suspendendo a escripta duma folha de papel que levava em meio. Não

recebo a esta hora.

--Está lá fóra, informou Jacob, o sr. Miraz que pede para entrar;

promette demorar pouco.

--Bem, disse Peregrina, aborrecida, manda subir.

Miraz chegou, muito desmanchado, cumprimentou, abrindo a boca num riso

enigmatico e sujo, e sentou-se, cruzando as pernas.

--Que deseja? perguntou ella.

--Venho propor a V. Ex.ª um negocio.

É um negocio que não deve parecer-lhe pesado. Entro nelle sem rodeios,

pois que V. Ex.ª conhece o mundo, sabe o que é a vida.

Quando a necessidade entra pela porta, diz o proloquio, sae a virtude

pela janella. Eu creio que nunca tive virtude para baldear da janella. O

que tenho são miserias.

Mas estou de posse dum manuscripto que vale dinheiro. E digo que vale,

pois que fui ver por quanto um editor o pagava. Offereceu-me vinte

libras. Para editor é bastante; mas para V. Ex.ª vale mais.

Eu preciso dum conto de réis. A V. Ex.ª não lhe faz differença esta

quantia e a mim aproveita-me. É uma somma salvadora. Verá que jámais

comprou socego por tal preço...

--Mas de que se trata?

--A publicação vae intitular-se--_Sapho em Lisboa_. Insere episodios que

V. Ex.ª especialmente conhece, documentados com uma carta do ministro

inglês.

E desdobrando um rôlo de papeis:

--Leia V. Ex.ª:--confio-lhe os manuscriptos, na minha presença.

Ella tomou o maço, muito serena. Leu a primeira folha:--era a carta de

Broock, despedindo-a de casa. Viu algumas paginas com vagar.

--Onde e como obteve esta carta? perguntou depois.

--Permitta-me que não responda já.

É segredo. Posso vendê-lo tambem, mas caro, pois que interessa terceira

pessoa.

--Esse segredo escuso de pagar-lho, replicou ella.

E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:

--É uma historia incompleta, pessimamente feita. Não me perturba a idéa

de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais

tarde, honestamente documentada e escripta.

Isto, accrescentou, é uma torpeza idiota. Vale, como documento para v.,

bem mais do que para mim. É um caso simples de _chantage_ a illustrar a

vida dum jornalista de terceiras paginas, tambem _souteneur_ e ladrão!

Está bem na _Folha_, enquanto não houver casas de reclusão bastantes...

--Pode V. Ex.ª pensar e dizer o que quizer. O que não quero é

demorar-me; preciso de saber se tenho de contratar o manuscripto com o

editor...

--Demais, estupido... Então imaginava que eu, de posse desta carta, que

é minha, lha daria sob qualquer ameaça ou violencia?

E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo

o botão da campainha.

Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina

e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para

defendê-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.

Elle deitou-lhe as mãos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a

porta e entrou o creado, surpreso.

--Põe lá fóra este velhaco! ordenou Peregrina.

Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco,

arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira

até á porta.

--Não o maltrates, avisou Peregrina, do gabinete.

Era ao tempo em que elle, já da porta, confundido com o tapete, bolsava

para o alto os peores adjectivos da _Folha_.

Mas, sentindo o creado, sahiu rapido, tapando com as mãos grossas os

rasgões do fato, esfrangalhado.

Peregrina mandou chamar Violet.

Ella entrou, confusa.

--Vejo que déste pela scena. Leio-te na côr o delicto...

E mostrando a carta de Broock:

--Quanto recebias do conto de réis que elle queria por esta carta?

Devias ter a melhor parte...

--Perdôa-me. Não lha dei, roubou-ma, num dia que veiu ahi ficar. É um

miseravel. Pois que me faltava aqui? Dinheiro?!

Elle sim, era precisado. Imagina que o satisfazia ir ao Tavares commigo,

cear. Só tinha comido lá seis vezes, confessou. Que miseravel! E sujo!

Oh! perdôa-me Peregrina. Não sei que loucura foi a minha. Estive a

conversar demoradamente ácerca de ti. Contei-lhe, de boa fé, a historia

da tua vida. Mostrei-lhe a carta. E elle, o miseravel, roubou-a quando

sahi do quarto, á mistura com uma trancelim de platina e umas notas de

banco que tinha na mesma boceta. Perdôa-me!

--Perdôo. Contudo, não podes continuar aqui.

O que succedeu foi uma fatalidade, mas eu dou por toda a indicação! Irás

abraçar os teus. Tambem vou sahir de Lisboa, desta villa, com pretenções

a terra civilizada e que só tem de civilização o peor:--alfobres de

litteratos--genero-Miraz, gafos de toda a ordem, a especular escandalos.

Vaes para Londres. Eu vou escolher um ponto retirado, á beira mar,

esquecer-me...

Na mesma tarde conversava Nuno com a Poetisa, acerca dos episodios do

dia. E combinavam ir os dois passar o outomno á Figueira, a viver o

socego da praia, á hora em que os banhistas retiravam.

Nuno demoraria em Lisboa quinze ou vinte dias, a liquidar negocios.

Maria Peregrina partia immediatamente.

Nova Sapho: Tragedia Extranha · 第 20 / 28 题