--Quem é? perguntou a Poetisa, ouvindo a porta do gabinete, e
suspendendo a escripta duma folha de papel que levava em meio. Não
recebo a esta hora.
--Está lá fóra, informou Jacob, o sr. Miraz que pede para entrar;
promette demorar pouco.
--Bem, disse Peregrina, aborrecida, manda subir.
Miraz chegou, muito desmanchado, cumprimentou, abrindo a boca num riso
enigmatico e sujo, e sentou-se, cruzando as pernas.
--Que deseja? perguntou ella.
--Venho propor a V. Ex.ª um negocio.
É um negocio que não deve parecer-lhe pesado. Entro nelle sem rodeios,
pois que V. Ex.ª conhece o mundo, sabe o que é a vida.
Quando a necessidade entra pela porta, diz o proloquio, sae a virtude
pela janella. Eu creio que nunca tive virtude para baldear da janella. O
que tenho são miserias.
Mas estou de posse dum manuscripto que vale dinheiro. E digo que vale,
pois que fui ver por quanto um editor o pagava. Offereceu-me vinte
libras. Para editor é bastante; mas para V. Ex.ª vale mais.
Eu preciso dum conto de réis. A V. Ex.ª não lhe faz differença esta
quantia e a mim aproveita-me. É uma somma salvadora. Verá que jámais
comprou socego por tal preço...
--Mas de que se trata?
--A publicação vae intitular-se--_Sapho em Lisboa_. Insere episodios que
V. Ex.ª especialmente conhece, documentados com uma carta do ministro
inglês.
E desdobrando um rôlo de papeis:
--Leia V. Ex.ª:--confio-lhe os manuscriptos, na minha presença.
Ella tomou o maço, muito serena. Leu a primeira folha:--era a carta de
Broock, despedindo-a de casa. Viu algumas paginas com vagar.
--Onde e como obteve esta carta? perguntou depois.
--Permitta-me que não responda já.
É segredo. Posso vendê-lo tambem, mas caro, pois que interessa terceira
pessoa.
--Esse segredo escuso de pagar-lho, replicou ella.
E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:
--É uma historia incompleta, pessimamente feita. Não me perturba a idéa
de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais
tarde, honestamente documentada e escripta.
Isto, accrescentou, é uma torpeza idiota. Vale, como documento para v.,
bem mais do que para mim. É um caso simples de _chantage_ a illustrar a
vida dum jornalista de terceiras paginas, tambem _souteneur_ e ladrão!
Está bem na _Folha_, enquanto não houver casas de reclusão bastantes...
--Pode V. Ex.ª pensar e dizer o que quizer. O que não quero é
demorar-me; preciso de saber se tenho de contratar o manuscripto com o
editor...
--Demais, estupido... Então imaginava que eu, de posse desta carta, que
é minha, lha daria sob qualquer ameaça ou violencia?
E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo
o botão da campainha.
Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina
e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para
defendê-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.
Elle deitou-lhe as mãos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a
porta e entrou o creado, surpreso.
--Põe lá fóra este velhaco! ordenou Peregrina.
Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco,
arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira
até á porta.
--Não o maltrates, avisou Peregrina, do gabinete.
Era ao tempo em que elle, já da porta, confundido com o tapete, bolsava
para o alto os peores adjectivos da _Folha_.
Mas, sentindo o creado, sahiu rapido, tapando com as mãos grossas os
rasgões do fato, esfrangalhado.
Peregrina mandou chamar Violet.
Ella entrou, confusa.
--Vejo que déste pela scena. Leio-te na côr o delicto...
E mostrando a carta de Broock:
--Quanto recebias do conto de réis que elle queria por esta carta?
Devias ter a melhor parte...
--Perdôa-me. Não lha dei, roubou-ma, num dia que veiu ahi ficar. É um
miseravel. Pois que me faltava aqui? Dinheiro?!
Elle sim, era precisado. Imagina que o satisfazia ir ao Tavares commigo,
cear. Só tinha comido lá seis vezes, confessou. Que miseravel! E sujo!
Oh! perdôa-me Peregrina. Não sei que loucura foi a minha. Estive a
conversar demoradamente ácerca de ti. Contei-lhe, de boa fé, a historia
da tua vida. Mostrei-lhe a carta. E elle, o miseravel, roubou-a quando
sahi do quarto, á mistura com uma trancelim de platina e umas notas de
banco que tinha na mesma boceta. Perdôa-me!
--Perdôo. Contudo, não podes continuar aqui.
O que succedeu foi uma fatalidade, mas eu dou por toda a indicação! Irás
abraçar os teus. Tambem vou sahir de Lisboa, desta villa, com pretenções
a terra civilizada e que só tem de civilização o peor:--alfobres de
litteratos--genero-Miraz, gafos de toda a ordem, a especular escandalos.
Vaes para Londres. Eu vou escolher um ponto retirado, á beira mar,
esquecer-me...
Na mesma tarde conversava Nuno com a Poetisa, acerca dos episodios do
dia. E combinavam ir os dois passar o outomno á Figueira, a viver o
socego da praia, á hora em que os banhistas retiravam.
Nuno demoraria em Lisboa quinze ou vinte dias, a liquidar negocios.
Maria Peregrina partia immediatamente.