Decorreu um mês sem que ao palacete da rua do Alecrim chegasse qualquer
noticia de Villa-Feia.
Salomé partiu para o Mosteiro, a pretexto de visitar as propriedades e
passar ali algum tempo.
José de Andrada recolheu á cama myelitico, dias depois da sahida da
Artista.
Violet, á vontade, senhora da casa, deu-se a receber aos sabbados a
velha collecção de hospedes, e mais assiduamente Manuel Brito de Miraz,
da _Folha da Noite_, continuador do publicista das _Horas Tôrpes_. Em
breve tempo se entenderam intimamente, o chronista e a inglesa. A
fatalidade fez amante de Violet o mais crapuloso do bando que passeava
os salões de Maria Peregrina. Horas tardas, se o chronista não
apparecia, sahia ella a visitar os bairros suspeitos, trocando-o por
fadistas.
Um dia chegou Peregrina, sem prevenir.
Violet correu a abraçá-la, e a saber da villegiatura em Villa-Feia.
Achava Peregrina cansada, mas alegre.
--Então, muito conciliada com o sexo feio? perguntou. Era certo que Nuno
podia excluir-se da designação do seu sexo--pois que não era feio; e ria
para a Artista, que a ouvia serena.
--É verdade, disse por fim, estive bem.
Nuno resume hoje para mim tudo! E eu a correr mundo á procura de
_alguem_. Achei, sabes? A minha selvajaria amedronta-o, perturba-o; é um
animalsinho, lindo de formas e docilidades, a submeter-se-me, a gostar
dolorosamente os meus maus tratos, porque o maltrato, e a entregar-me,
assustado, o corpo de raça, que veste naquellas horas uma alma de mulher
e de lacaio. Ah! sei, afinal, o que é o amor...
Mas não sei porque lembro-me de que não pode durar a nossa felicidade...
E por cá?
--O peor, informou a inglesa. Salomé foi quasi logo depois da tua
partida para o Minho a tratar de negocios que me pareceram pretexto para
sahir.
O monsenhor está no quarto, impossibilitado de andar, inutilizado por
toda a vida, segundo o medico.
--Uma noticia triste--a do padre, disse Peregrina. A de Salomé nem vale
discuti-la; chegou-lhe a nostalgia do Minho. Foi folgar as cirandas do
Mosteiro, contar a differença que vae desta á sua aldeia.
Mas o padre, coitado! Vamos vê-lo.
E subiram as duas até aos aposentos do doente.
--Então que tem, monsenhor? perguntou Peregrina da porta.
E, depois, correndo para elle a abraçá-lo, enxugando-lhe, commovida, as
lagrimas:
--Não se excite, ha de melhorar...
--Não melhoro, minha senhora. Os milagres nunca desmentem a razão. O que
fazem é escondê-la, ás vezes. Ora a razão contribuiu-me
irremissivelmente com uma doença incuravel. Eu devia adivinhá-la. Tê-la
como fatal derivação da minha vida.
Tenho o mal dos que passaram a vida a vibratilizar os nervos.
Ainda na oração e no culto vivi uma tolerancia que escandalizou os meus
superiores. Como não havia de ser tolerante para os peccados alheios, se
sabia, por experiencia, o que era o inferno e a penitencia de
soffreá-los.
Emfim, aqui tem V. Ex.ª o mais acabado exemplar de miseria que podia
recorrer á generosidade da sua nobre estirpe, a pedir a esmola dum
quarto e dum talher.
Sou o _index_ de faltas e excessos. Se algum dia escrever o romance da
sua vida,--e creio que terá assumpto,--peço-lhe que se não esqueça de
associar á sua peregrinação de mulher nobre, tão nobre que tem nos
escudos symbolos de duas nacionalidades, a tragedia simples dum padre
que batalhou deveres e nervos para vir acabar, miseravel, entre
grandezas--as que V. Ex.ª quiz repartir com elle. Pois que está em moda
o romance social, não deixaria de representar bem o clero de duas
Potencias historicas a desfazerem-se...
Maria Peregrina e Violet commoveram-se. A confissão daquelle homem,
precocemente velho, a trasbordar amarguras, veiu aguar o enthusiasmo da
Artista, que pensava encontrar nos amores de Nuno uma nova epocha. Quem
é feliz ou imagina sê-lo quer ver em tudo felicidades. E magôa-se se os
fados lhas desmentem. Mal encontrava palavras a consolar Andrada.
E vingava-se, prodigalizando-lhe cuidados, andando em volta delle a
adivinhar-lhe os desejos.
--Quero tornar-lhe superfluos os movimentos, dizia.
Ha de ver:--quando pudér mover-se dispensar-se-á de fazê-lo. Terá a
vontade confortada de preguiça, com pouca vocação para ordenar lidas.
E abraçava-o, carinhosamente, enquanto Andrada lhe beijava as mãos a
chorar.
* * * * *
--Vou a casa de Nuno, disse ella a Violet, no segundo dia depois da
chegada.
Estou surprehendida com o socego delle. É de admirar que não tenha
vindo. Está a abeberar os excessos de amor que trouxe da Villa-Feia.
Nuno recebia aquellas caricias duma sensualidade selvagem, medroso, de
olhos baixos, humilde.
--É um exame de consciencia que naturalmente está a fazer. Tem medo de
que não saiba dar-lhe impressões novas. Como é creança em amores. Mas
vou educá-lo. Hei de pagar com usura os seus encantos de noviço. Vá,
Violet, manda preparar o carro.
Um quarto de hora depois chegava ao palacete-Foz.
Nuno estava no quarto que communicava com o gabinete. Á hora do correio
entrou o mordomo, segundo o costume; e, depois de entregar a
correspondencia, informou que havia meia hora que Maria Peregrina
esperava no salão.
--Ah! disse Nuno, admirado, porque não mandaste entrar?
E depois:
--Mas, não; como te não tinha prevenido... Olha, quando vier manda logo
subir.
Mas não, depois falaremos ácerca das visitas. Convida-a a entrar. Já!...
E, confuso, levantou-se quando lhe presentiu os passos.
Peregrina entrou, encarou-o a distancia, e, depois de curto exame, foi
beijá-lo nas palpebras. Começou a cofiar-lhe o cabello, duma negrura
luzente; ora o abraçava, ora o repellia...
--Então não recebes antes desta hora? Nem a mim que sou senhora dos teus
nervos e posso subjugar-te num momento! Anda cá, deixa morder a tua
boca! É um fructo de desejo...
E mordia-a suavemente.
Depois, afastando-se:
--Vae buscar aquella pelle de urso. Cobre o escudo dessa alcatifa.
Extranha idéa--brasonar tapetes! Que os outros pisem os nossos brasões
vá, mas nós! Deita-te aqui, minha creança.
E desabotoando o vestido côr de hortensia:
--Faze o mesmo que estou fazendo! Despe-te! Já!... Vê como as sedas da
pelle do urso se levantam. E olha que são dum urso do pólo!
Nada resiste ao genio sensual!
E, de repente, enlaçou-o pela cintura, fazendo-o tombar, passivo e
tremente, sobre a pelle branca.
A physionomia de Peregrina espectrava a alegria selvagem da louca, que,
numa ancia de luxuria, se preparasse para devorar o amante, depois de
esfarrapá-lo.
A expressão de Nuno era de dor acceite. Lembrava um religioso a
deixar-se maltratar, sorrindo aos cilicios, crente num ceu a apparecer!
De subito ergueu-se sobre o corpo de cobra da amante, e, num momento,
desmanchou-o uma extranha furia; cahiu em coma, voltou a soffrer,
sereno, o martyrio daquella mulher, cilicio de amor, simultaneamente
divina e infernal, sagrada pelas fórmas e demoniaca no capricho das
perversões! Até que cresceu, de novo, em tempestade; e, sobreexcitado,
inconsciente, sacudiu-se em crise hysterica, e impelliu Peregrina, que
tombou, exánime, ao longo da alcatifa...