A Villa-Feia, sobranceira a Entre-os-Rios, assenta na encosta que domina
a juncção do Douro com o Paiva.
Este ribeiro desce obliquamente, como um fio de platina a fundir-se nas
aguas de oiro do Rio, que segue, como um grilhão mysterioso, a perder-se
no mar.
O antigo paço senhorial da Villa-Feia é um systema de torres e torreões
extravagantes, casas afiladas de frestas altas e seguidas, que dão de
longe a impressão de linhas pontoadas; e quadrados enormes, atarracados,
beirados de ameias grotescas, e frestas em losango, que põem na cantaria
verde-negra um recorte de retinas extranhas, attentas ao mechanismo
liquido das correntes e á paisagem roxa dos montados.
Tanto o paço torreado como o plantio da maior parte do arvoredo da
Villa-Feia, foram obra dum velho templario que, segundo a Lenda, veio
esquecer ali as canseiras da guerra.
Aquella architectura, informam os do povoado, foi idéa do templario. A
deformação das arvores e outros _signaes_ da Villa maldita, foram
castigo de Deus, irritado com o porte de D. Alvaro de Castro Leite de
Villar, um dos maioraes da Ordem que, em 1312, Clemente V aboliu.
Corre a fama de que o grande cavalleiro fôra um dos que mais
justificaram a liquidação da Ordem militar e religiosa dos Templarios,
pois que escureceu o brilho dos feitos mais ousados com actos de
desenfreada sodomia.
O seu temperamento, fóra do natural, delineara um castello
desproporcionado, alheio á architectura do seculo.
A natureza requintou em lhe deformar as arvores, dando á Villa-Feia uma
flora monstruosa, invertendo o tempo das flores e dos fructos e afeiando
as plantas de melhor raça. Mas não é sómente nas velhas arvores, que os
do povo inculcam como plantadas pelo Templario, que as deformações se
notam. É em todas as arvores que ahi se disponham. Quanto mais formosas
são fóra, mais afeiam lá dentro. Ha-as chloroticas, abraçando-se numa
adherencia de enxerto; outras, communicando serpentes de ramaria e
abraços a muitos metros dos troncos; raças humildes, attingindo
desenvolvimentos notaveis; eucalyptos, geralmente desenvolvidos e que
ali figuram de anões, enfezados, exiguos.
Desenvolvimento, florescencia e fructos, parecem obedecer a leis
especiaes. A Villa-Feia é um capricho da Natureza; uma pagina de
Pathologia vegetal.
Os fructos são acres; as flores, em meios tons, e dum recorte esquisito,
não têem aroma, o que faz que os camponios supponham que a sua
approximação lhes veda o olfacto.
Tudo ali é extranho. Cada arvore toma um aspecto diverso das mais da sua
raça em outras terras. O choupo-chorão abre em traços rectos; o _ulmus
pendula_, de braços geralmente curvos no sentido do tronco, revira os
ramos em hastes de novilho; cactos prodigiosos, vestem o sopé da
encosta, formando cordões farpados; pinheiros bravos abrem-se em
umbellas rôtas, de agulharia verde-escura; os cedros parecem arvoresitas
de Natal, ramos de presepio; cyprestes bastos, tragicos e colossaes,
põem pontos de admiração na paisagem; chorões, flexiveis como vimes,
descem em tufos emmaranhados as suas lagrimas verdes, longas até aos
pés; medronheiros de grandes troncos, herpeticos de musgueira, de folha
sêca, mal vestidos, ostentam, simultaneamente, floritas brancas e
fructos exiguos de coralina.
Os sobreiros jámais deixam o tom acastanhado que usam noutras terras ao
abandonarem a cortiça:--põem na Villa-Feia uma _nuance_ de sangue velho,
erguendo-se, rachiticos, como adolescentes morenos alcançados pela
tisica.
Nos recantos mais sombrios o chão é hirsuto de tojeira, cerdoso de
espinhos bravos, bastos como pellagem de javali, salvo nas ruelas,
abertas em lacetes, tortuosos, duma colleação mysteriosa de labyrintho.
Domina a Villa um penedo enorme, simulando uma figura-gigante, deitada
na tojeira, que se desdobra em volta como uma pelle.
É uma figura nua, guarnecida de musgos, ostentando signaes nitidos dos
dois sexos; lembra a figura de Hermaphrodita que um artista ensandecido
tivesse trabalhado ha muitos seculos, e postado ali como um amuleto
maldito do mundo sensual.
Corre entre os lavradores que o Penedo fôra cinzelado por D. Alvaro em
noites brancas de janeiro, de collaboração com o Demonio, que, em baixo,
no Ribeiro de Cobre, referve coleras.
E rapazes gastos e velhos sensuaes, crentes na sua virtude, vão horas
mortas, pedir-lhe forças desbaratadas.
O Encommendado não se cansa de predicar o peccado em que incorrem os que
veneram o mysterioso granito.
E velhos menos confiados contam casos de creaturas tolhidas, quando
foram de romaria ao Penedo, depois de encontrarem a alma-penada do
Templario, em companhia do Demonio, revendo a obra.
O Ribeiro de Cobre ganha a primeira altura da encosta dum salto,
borbulhando tufos de agua escura, que rasam em madría pela açude. Dali
partem levadas que cortam em leque os campos baixos.
Vogam na madría aves de agua, pequenos cysnes e enormes gansos, de
pescoços de cobra e bicos de fava, remando de vagar os corpos
gondolosos, vestidos de pennas, tufadas como ramos de chrysantos negros.
Tracto singular de paisagem, onde esparsos olivedos põem nodoas de
saudade em cinza!
Parece haver o maior parentesco entre o Ribeiro de Cobre, assim chamado
em razão da côr e o arvoredo, em que predomina o acastanhado dos
sobreiros.
O povo guarda-se cautelosamente de pescar no Ribeiro, se bem que seja
abundante em peixe e, sobretudo, em trutas, que lembram desenhos fugidos
dalgum jarro precioso do Japão, a refulgirem escamas de prata e oiro por
entre o cobre liquido do humilde corrego.
É que desde muito se conta na aldeia que D. Briolanja, a ultima morgada
da Villa, fôra victima de peixes ahi pescados:--que ceara as
endemoninhadas trutas numa vespera de Anno-Bom e amanhecera sem fala,
muito branca, fazendo esgares, até que morreu, depois duma agonia
mysteriosa, ao cabo de poucas horas.
Para além da madría, ha um velho moinho redondo, de grande
circumferencia e pedra tosca, de juntas tomadas a verdura, com janellas
oblongas e uma roda de dentes podres.
Semelha um carão horrivel, de olhos azeitonados, comidos de ophthalmias,
sobrancelhas rentes de musgueira verde-limo e boca enorme, a que a roda
de dentes cariada dá a expressão confrangida dum riso diabolico de dor.
A agua que a boca do moinho espúma, em camarinhas escuras, través da
roda gasta, vae sumir-se a distancia, no lagedo amarello das alluviadas,
que escondem o Ribeiro num tracto de dez passos. E é, sob o lagedo, que
a agua espadanada contra a penedia baixa referve coleras de inferno,
resoando naquella abobada de acaso as presumidas falas do diabo, segundo
a voz corrente na aldeia.
Sobranceira ao moinho, na outra margem, fica a _Eira de Vidro_, uma
escama natural de mica luzente, que, ao meio dia, quando o sol a veste,
refulge, a meio da Penedia-amuleto, cordas de luz branca.
Circuita o exotico miradouro uma escarpa de granito rendilhado, que
lembra o espaldar e braços de uma cadeira gothica de Cathedral.
Finalmente, é deste poiso extranho que os valles proximos escutam e
repetem os dizeres dos que ahi falam.
Condições de acustica desconhecidas põem no espaço trios de arremêdo!
Tal a descripção da Villa-Feia, conforme um inedito de Nuno de Villar,
III.º conde de Nevogilde e ultimo representante do Templario.
Era ahi que o escriptor villegiava quando a Cidade o aborrecia, ou
sentia necessidade de dar asas á sua erudição e Arte. Ahi escreveu _Os
Sensuaes_, o melhor dos seus livros, e varios capitulos da _Vida
Plastica_, opusculos criticos, afora artigos. Dava-se bem com a paisagem
que o cercava, e, sorria, benevolo, sempre que perguntava e ouvia a
historia do Templario. Os camponeses interrogados é que o não
indulgenciavam pela transigencia com o execrado cavalleiro. E, á
puridade, aventavam suspeitas:
--Que o representante de D. Alvaro parecia seguir-lhe as pisadas; que
não era facil fugir ás leis do sangue; que na Villa-Feia tudo se
deformava, os homens como as arvores...
E discutiam as figuras que pernoitavam no velho casarão senhorial.
Maria Peregrina tinha dito a Nuno que ia ser hospeda delle, quando este
falou em ir para Entre-os-Rios.
Nuno, cortês, agradeceu a visita e acceitou-a. Intimamente aborreceu-a.
Convidára o _Vagabundo_ para o acompanhar. Queria mostrar-lhe aquellas
sombras. Não sabia porque impressionava-o bem a convivencia daquelle
desequilibrado, que alternava com elle grossarias e carinhos, que ora o
abordava com humildades de rafeiro, ora o perseguia, desdenhando da sua
Arte e nobreza, dos seus privilegios de singular.
Maria Peregrina era a mulher absorvente que, apesar de tudo, receava,
com quem não queria intimidades.
Era preciso attendê-la. Era uma creatura excepcional. Mas, por isso
mesmo, horrorizava-o o excessivo carinho que lhe notava. Admirava-a como
mulher, mas temia-a. Era uma sensual que tinha percorrido a gamma do
mais extravagante teclado da vida. Quereria porventura matar um novo
capricho? E elle que só usava creaturas inferiores, que percorria altas
horas os becos mais suspeitos a recrutar mulheres de acaso, como se
haveria deante da mulher invulgar?!
Ah, se encontrasse pelos prostibulos mulheres daquellas formas!
Mas ter relações sensuaes com ella, uma intellectual, que havia de estar
a ver, a frio, as suas atitudes de animal enfraquecido, cahindo, segundo
o costume, na hysteria, que é a carne entregue a si propria, a
velocidade adquirida do prazer a derivar na loucura!
Isto, se a commoção lhe deixasse ver nella a _mulher_!
E, muito triste com a ida da Artista, ia contando os dias, num horror de
frade que treme da primeira tensão da carne.
Ah! elle era bem culpado, pensava. Podia ser como toda a gente. Se se
deixasse de requintes não temeria mulher alguma. Mas degenerára-se.
Exigia sempre nas relações uma certa liturgia; dahi o seu pessimismo
litterario, o pessimismo em tudo.
E, involuntariamente, lembrava as palavras de Lichtenberger:
«O pessimista é um degenerado, um doente que deve curar-se ou partir,
mas que não tem o direito de empeçonhar a existencia dos sãos, de
desmoralizar os potentes, de calumniar a vida».
Como sentia aquellas verdades!
Era assim... Claro que tambem Peregrina era uma doente; mas por isso
mesmo lhe não perdoaria. Demais, o seu horror por ella ferir-lhe-ia o
amor proprio.
--A doença odeia a doença. O que nós procuramos nos outros são as
qualidades que não temos, pensava Nuno.
Por isso elle era um forte, entre uma seara de mulheres, castanholando
modas e vendendo alegrias.
Mas, na Villa-Feia, com Maria Peregrina a trocar beijos e impressões de
Arte--que horror!
E era fatal a sua ida. Equivoca situação! Já tinha percebido que ella o
desejava.
Por sua vez Peregrina, enthusiasmada, nem parecia a mesma.
--Tu lembras a antiga alumna de Petersfield, dizia Violet.
E vendo-a cuidadosa com as _toilettes_:
--Já percebi, vaes noivar...
--Talvez, disse Maria Peregrina, rindo; não sei. Os programmas nunca
antecipam muito os meus desvarios. Geralmente vicío sem elles. A
surpresa é, afinal, o melhor da vida. Irei ver como as arvores da
Villa-Feia me recebem. Corre que o antigo Paço tem a fortuna de afeiar o
que é bello e engrandecer o que é humilde...
* * * * *
Passados dias partiram os dois, Nuno e Peregrina, os creados do
Palacio-Fóz e Jacob.
Nuno esteve inquieto até á hora da partida; esperava Ruy.
Esperou debalde: minutos antes da sahida, recebeu carta delle,
explicando a falta com o motivo de ter de seguir nesse dia á tarde para
Villa Alva. Era-lhe impossivel ir a Villa-Feia, informava. Esperaria
Nuno em Lisboa.
Nevogilde, contrariado, entrou para a carruagem.
Ficaram em Lisboa Violet, Salomé, e José de Andrada.