Havia mêses que a Artista se installára em Lisboa, num palacete da rua
do Alecrim. Não lhe foi indifferente aos nervos a curta estada no Minho;
socegou. Mas o Minho deu-lhe todos os attractivos em pouco tempo;
cansou-a a serenidade.
Estava grata á pobre terra que lhe dera um arremêdo da antiga felicidade
na companhia da prima, a Salomé, ingenuamente linda, condescendente.
Mas o Minho pareceu-lhe pequeno para theatro das novas aventuras, que
lhe traziam, sem enthusiasmo, um bem-estar, que não sentia ha muito.
Em volta de Peregrina, mexeu-se Lisboa. Appareceram os que desejavam
folgar na casa do Alecrim, como pertencendo á sua parentela, e havia os
recem-vindos das letras, que thuribulavam a Artista na presença e
andavam pela cidade contando as extravagancias que derivavam da sua
conversa livre.
Ella, conformada pelos novos amores, mal dava pelo cisco que remoinhava
nos seus salões.
E, aos certames do sabbado, acquiescia, benevola, dispensando attenções
e espirito. Entretinha-a brandamente aquelle gaudiar de gente que ia ali
explorar-lhe o luxo e destinava a prender a futilidade da Salomé.
Entretanto, para si preferia outros dias, aquelles em que tratava á
puridade os intimos, que eram os da casa, Nuno de Villar e Ruy.
Nuno de Villar procurou-a, para agradecer a _Nova Sapho_, e offerecer o
trabalho de Ruy; e ficou, desde logo, um amigo da casa, a quem Peregrina
tratava com distincção e affecto.
Ruy apparecia esquivo, cobrindo o orgulho de humildades.
Peregrina tratava-o por tu; gabava-lhe o talento; tomava-o,
carinhosamente, por uma creança que era preciso amimar; ria dos seus
enleios, a ver se conseguia dar-lhe á alma selvatica tranquillidade e
estados mais felizes.
Não havia meio.
Era, como frisava Nuno, o genio do povo, o Principe da Plebe,
irreconciliavel com outras camadas.
Frequentava os meios aristocraticos, por curiosidade. A Arte dava-lhe
admissão nos salões. Mas trocar affectos com outras raças, não podia. A
sua obra era a concepção do homem que conversa de perto a natureza e a
exterioriza, sonhando alto.
Elle sonhava em tela e bronze. Era poeta, pintando á sua maneira. Os
pastores da sua provincia, vagabundeavam com os gados com os quaes
trocavam expressões de olhar. Mas estas expressões davam-nas entre si,
misturando, desvairando a alma, na alma livre dos campos.
Reflectiam-nas, desgarrando cantares impregnados de nostalgia arabe.
Fóra dos descampados, eram outros.
Tambem Ruy, ainda nos salões, distrahido, usava expressões mansas de
cordeiro.
Se o chamavam á vida e fixava os que o cercavam, espectrava logo
denuncias duma alma irreconciliavel.
Quasi sempre calado, brando á vibração das inferioridades, como dos
talentos alheios, era nos salões de Maria Peregrina como um alumno que
apparecesse a tirar a falta.
Entretanto, a casa da artista era uma verdadeira academia, aos sabbados.
Romancistas em começo de vida, homens de Estado, jornalistas, pintores,
poetas de primeiro vôo, tudo ia ali privar um pouco com a Poetisa, e
dizer discursos de Arte, de philosophia e até de politica.
Maria Peregrina, tolerante, ia acompanhando aquella Babel de convenções.
E a Nuno, que a increpava, educadamente, da generosidade, accusando-a de
subsidiar os apostolos do que chamava a philosophia do Pôdre, respondia:
--A collecção dos sabbados é o meu narcotico. Aquelle barulhar de idéas
disparatadas, auxilia-me a esquecer o passado, a viver o presente.
* * * * *
Uma noite estava no Salão-verde, só e muito attenta a um volume de
Spinoza, que lia havia horas, quando entrou um creado a annunciar:
--O sr. Conde de Nevogilde e o sr. Ruy.
--Que entrem! mandou.
E vendo-os:
--Como vão?
E para Nevogilde:
--Não quiz vir hontem? A noite esteve desagradavel... Tem escripto
muito? Que bello o ultimo folhetim para o _Jornal do Rio_!
Como o Nuno consegue ser original sem diatribe, crear sem demolir. Como
se excede, escrevendo!
A puridade, na conversa, tem ainda impertinencias. Escrevendo, só edita
o homem superior. Admiro-lhe, sobretudo, o alheamento da vida commum; a
elevação do espirito, exotico quasi a frio; a forma por que consegue
percorrer notas tão extranhas dentro da mais perfeita serenidade do
dizer.
--É que a conversa é para mim uma distracção, um vicio. Pratico-a, como
pratico os demais vicios, tal como os nervos, as influencias ma
suggerem. A conversa não sou eu; são os outros e eu.
Tenho para mim que a companhia desdobra de nós uma creatura differente
da que formamos intimamente. E, quanto mais intelligentes somos ou nos
julgamos, peor é--mais ingenuos somos tambem, mais facilmente cahimos na
tal rêde de suggestões...
Até Maria Peregrina é, acompanhada, uma pessoa tão diversa de si
propria!
--É verdade, Nuno, confirmou. E quando estamos sós, é que mais
soffremos!
Por mim, contrariando o proloquio, prefiro estar mal acompanhada a estar
só. Contudo, convenho em que precisava de viver isolada.
E premindo o botão da campainha:
--Vou mandar chamar a Salomé e Violet; com a leitura não sei dellas ha
muito...
Veiu Jacob, fez uma mesura a distancia e quedou, cabisbaixo, á espera de
ordens.
--Anda cá, disse meigamente Maria Peregrina, passando-lhe os dedos pela
face de pergaminho, tu vaes, meu velho, dizer ás senhoras que as espero,
sim?
Voltando-se para Nevogilde:
--Gosto muito deste anão porque é menor do que a sua maldade, e a
maldade delle profundamente legitima dentro do destino. Não imagina,
paga a pena conversá-lo a sós. O Mal não tem que ensinar-lhe coisa
alguma. Depois, tão intelligente e commodo nas suas formulas. Veja como
entrou respeitoso. Eu uso-o como uma extravagancia, de longe em longe; a
alma delle vale um frasco de essencia exotica que entorno sobre mim ás
temporadas...
Salomé e Violet chegaram á sala ao mesmo tempo.
Nuno, levantou-se para cumprimentá-las, mas antes que tivesse tempo de
fazê-lo, já Salomé o inquiria sobre a falta da vespera e aversão ás
reuniões do sabbado.
--Estava agora para explicar a Maria Peregrina a razão da minha falta.
Ainda bem que a sua chegada me salva de repetir-me. Ia dizer que não
gosto das reuniões do sabbado porque me aborrece a collecção de letrados
que geralmente juntam. Além do chronista, que é sujo, tão effectivo na
immundicie como nos serões, ha os dois poetas, que reputo duma
pelintraria intellectual abaixo de tudo, deputados, os dois
ministros--todo o indice da familia portuguesa que trato a distancia.
Não sei como pode aturá-los, concluiu, olhando para Peregrina.
--Aturo-os bem, e divertem-me: são originaes na sua ingenuidade. E eu
quando vejo alguem original exulto. A vida é tão monotona, a gente
escorreita tão pouco interessante...
--Sabe? interveiu Salomé, voltada para Nuno: tambem esteve hontem a
mulher do pintor...
Vinha pasmosa de côres e _toilette_. As tintas do cabello e da cara,
desacreditavam, de vez, o marido.
--Se é o marido quem a pinta ou lhe inspira a côr, o que nunca ouvi,
objectou Violet. O contrario é que parece verdadeiro; é ella o modelo, a
razão da arte como dos infortunios do pintor.
--Coitada, commentou Peregrina, que pena me dá! Deus deu-lhe um cerebro
estreito, que mal chega para a moral burguesa. E teima em ser _alguem_!
Quando, afinal, nem tem vontade de ser boa, nem talento para ser má.
O horror que deve ser o conflicto da carne escandecida pelo temperamento
sem a menor centelha de genio que o aproveite!
--Ah! commentou Nevogilde, essa, apesar de tudo, é sympathica no seu
remoinhar de _toilettes_ de rainha pobre de tragedia...
Quem eu não aturo são os outros.
Umas creaturas tão enfezadas, tão pobres de corpo, como de alma... Que
miseria!
--Nuno! observou a Artista, delindo as palavras num sorriso:--não me
faça arrepender do conceito em que o tenho. Demais, esse luxo de parecer
forte denuncia fraqueza...
Que mal lhe fizeram as minhas visitas de sabbado? Seja bom! A
inferioridade dos outros é que faz o nosso talento.
Nevogilde ia a replicar, quando sentiu refolhar o reposteiro e surgir a
cabeça quasi branca de José d'Andrada.
--Olá, monsenhor! Então que vae?
--Uma optima temperatura nesta sala, replicou o padre. Estou certo de
que é o unico compartimento civilizado de Lisboa, pois que tem
tudo--espirito, luxo, calor...
E sorria, numa expressão boa, encarando Peregrina e os companheiros de
serão.
--É verdade, observou Nuno. E, entretanto, se o monsenhor não viesse de
fóra, do frio, já nem agradecia esta temperatura e companhia.
Eu creio que até no ceu haverá dezembros para que haja camaras mais
reconditas onde Deus alumie e aqueça os escolhidos. Não lhe parece,
monsenhor?
--Sei lá! respondeu Andrada. Nunca me dei a averiguar se o ceu tinha
calendario, mas creio que não, pois que, apesar de relapso, segundo os
vigarios de Deus na Terra, quando leio o Breviario não dou pelo tempo...
--O monsenhor quando morrer não chega a estanciar no purgatorio, tão
lavada é a sua vida neste mundo!
--Não sei, sr. Conde, como Deus vê as nossas obras! Se as avalia pelas
intenções, estou certo de que nos absolverá a todos, seja qual fôr o
conceito que o mundo faça de nós.
Elle vê-nos ainda informes. Sabe o que o destino vale contra as
creaturas. Creio que castigará a maldade, mas será bom para a desgraça,
perdoará os nossos erros.
De certo, ha de prosperar-nos no ceu segundo as intenções.
Por ellas saberá quem são os limpos de coração.
--Como poderá passar no ceu sem a Mouraria? perguntou Nuno, rindo,
voltado para Ruy.
E dirigindo-se a Maria Peregrina:
--Não imagina, é uma sereia bohemia. Como sente a vida humilde dos que
viciam por essas ruelas e sabe insinuar os imprevistos que por lá
existem!
--Ahi está um emprego que me dirá bem, affirmou Ruy, em sua voz cantada:
serei o informador junto de Deus da miseria que sei.
--Deus dispensa-o de tal trabalho, disse Andrada, sorrindo. Vive na
consciencia de cada um. Julga os nossos julgamentos e joga para isso com
factos que nos são despercebidos. Mas deixemos o assumpto se V. Ex.as
o permittem.
Discutir Deus é estragá-lo. Basta crer nelle, acceitá-lo no maximo de
bondade que pudermos pedir ao temperamento.
Uma novidade:--acaba de chegar a Lisboa o novo ministro inglês; vae ao
Paço na proxima semana apresentar as credenciaes.
--E quem é? perguntou Nuno.
--É, deixe V. Ex.ª vêr se me lembro: É... John Brook.
--Brook! disseram a um tempo Peregrina e Violet.
--Conhecem? perguntou Nuno.
--Sim, conheço; quero dizer, sei quem é, informou Peregrina. Uma pessoa
da familia delle foi do nosso tempo em Petersfield.
E, disfarçadamente, olhou para Salomé, que conversava baixo com Violet.
Appareceu um creado.
--Está lá em baixo o sr. dr. Amaro Sanches; pergunta se V. Ex.ª pode
recebê-lo.
Peregrina fez um gesto de cansaço e disse de vagar, hesitante:
--Que entre...
Nuno ia a levantar-se.
--Ah! fique, peço-lhe, implorou Peregrina.
--Se assim o deseja, fico. Mas custa-me muito aturar um capello, e então
aquelle--lente, filho de lente, neto de lente. Tem as caldas todas.
--Deixe lá, replicou Peregrina. O genero é antipathico em Coimbra. Fóra
de portas é toleravel. Verá que é discreto...
Momentos depois entrava na sala o dr. Amaro Sanches, pequenino,
precioso, á busca de expressões, anecdotico, preoccupado com a maneira
de estar.
Explicou que partia no dia seguinte para Coimbra a reger cadeira. Falou
das aulas e contou de enfiada as partidas do velho Lourenço, José Braz e
casos do Quental.
E Maria Peregrina, que via, disfarçadamente, a atitude admirada de Nuno,
como a desviar-lhe a palavra:
--Esteve na Granja, não é verdade? Divertiu-se? Agora vae extranhar;
muito trabalho...
--Ah! não imaginam. Este anno a praia esteve animadissima. Disse lá umas
conferencias na Assembléa sobre a Pedagogia na Allemanha. Sou um
apostolo deste grande país. Fiz lá o melhor do meu apprendizado
scientifico. Estou gratissimo ao ensino allemão. Será o meu guia na
aula. Os meus collegas na Faculdade vêem de maus olhos este exclusivismo
pela Allemanha. Mas V. Ex.as sabem que é a primeira em tudo:--em
Medicina, Philosophia, Arte, Politica, etc. Sou tradicionalista como um
allemão. Quero Sciencia, Arte e Politica tudo á allemã. As creaturas
disciplinadas a uma só ordem--á auctoridade, que é no governo uma
individualidade de poder, na aula o professor... Por mim serei um
ditador. Um mestre é na cathedra um governante. Tem de impor os
methodos.
E, numa confusão de assumptos, verboso, descrevendo methodos de ensino,
as dansas da Granja, tudo o que lhe ia lembrando, passou uma hora. Até
que pediu licença para retirar:--tinha de levantar-se cêdo...
Houve um movimento que tanto podia ser de attenção á despedida, como de
allivio.
Nuno, vexado, abreviava os agradecimentos ás offertas do professor,
muito importante, convidando-o a ir a Coimbra ver os progressos do
ensino.
--Que fosse; o ensino estava ao par do que vira no extrangeiro; não era
só a Medicina que honrava Coimbra, a antiga capital intellectual do
país; honravam-na todas as faculdades, destacando-se a de Direito, onde
o professor Alves, que ensinava Direito Patrio, remontava o estudo da
sua cadeira ás edades paleolithicas;--que fosse ao menos assistir á
festa dum capello, aconselhava com interesse: era a festa academica por
excellencia.
E para Maria Peregrina e Salomé:
--Porque não vão V. Ex.as tambem? Deviam gostar. Haveria em breve o
capello dum rapaz que se doutorava ao mesmo tempo em philosophia,
mathematica e medicina e ia ostentar na festa um capello tricolor; não
imaginavam:--era uma summidade, com vinte e cinco annos!
Que fossem, insistia; já o pae e o avô, que tambem tinham capello,
falavam com uncção da grandiosa festa.
E os presentes á uma, para que se calasse:
--Que tinham o maior desejo de ver a tal zebra insigne. Era possivel
apparecerem. Haviam de combinar...
Enquanto falava, Amaro Sanches fitava Salomé, que parecia a unica a
interessar-se por aquella lôa coimbrã.
Afinal despediu-se, promettendo voltar em breve. Ia muito sensibilizado
pelas reuniões dos sabbados.
E, depois de salamaleques varios, arrastando cadeiras, lembrando ainda
os ditos do Dr. Lourenço, sahiu muito contente de si e da Universidade,
após um aperto de mão prolongado á Salomé, que o fitava com ternura.
Quando sahiu tudo se calou. Nuno levantou-se, esfregou os olhos, como se
tivesse acordado dum pesadelo, e disse, voltando-se para Ruy:
--Vamos!
--Já? inquiriu Peregrina. É cêdo; são onze horas.
--Estou fatigado, contuso. Tenho a impressão de que o homem varreu sobre
mim toda a caliça dos paços de João III.
Quando a torre cahir não faz tamanha bulha!
A cabeça deste lente rehabilita o chaos. Aquelle craneo é uma terrina de
salada russa!
Adeus, Maria Peregrina!
--Espere um pouco! disse ella, fixando-o.
Coitado! Depois das sabbatinas nas aulas, dos successos na Granja,
triumphos em theses, do capello amarello, retrato entre o papá e o avô,
dos cumprimentos dos rapazes, num meio pêco e idiotamente romantico, que
queria V. que o homem fosse?
--O que eu me perguntava, no decurso daquelle desapontoado de coisas,
era no que redundaria a geração que tem educadores de tal jaez?
Que viveiro!
X
Dias depois, escrevia Peregrina, quando foi interrompida por Jacob, que
lhe trazia um bilhete.
Leu: Helen Broock.
--Está no vestibulo esta senhora? perguntou.
--Está, informou o anão.
--Acompanha-a aqui.
Momentos depois entrava Helen, e abraçava Peregrina num transporte de
alegria.
--Ha que tempos nos não vemos!
E beijava a antiga companheira na boca e nos olhos, incendida de côr.
Maria Peregrina recebeu-a com moderado enthusiasmo. Quando ella se
distanciou, mirou-a curiosamente.
Helen não era já a esbelta rapariga de Petersfield. Era uma figura quasi
vulgar. Debalde Maria Peregrina procurava nella a linda pelle de seda
que a tinha arrebatado tanta vez, as fórmas excepcionaes, a flexuosidade
e candura do movimento.
--Estou mudada, não é assim? Tu não estás resentida commigo?! Sabes que
tive um grande desgosto com a carta do John. Coitado, agora é um
cordeiro. Tenho vingado a grossaria que praticou comtigo.
Então, minha _Sapho_! dize alguma coisa á tua velha amiga, abraça-me!
E beijava-a com ternura.
--Que queres que diga? Que és junto de mim o passado! O acaso, veiu
juntar-nos, quando estamos tão longe do que fomos.
Não imaginas o estado de indecisão de espirito em que ando. Depois que
te deixei, a nostalgia de Petersfield pautou-me toda a sorte de
extravagancias. Queria encontrar alguem que te substituisse; e,
entretanto, ia enchendo o tempo, pervertendo-me, para não pensar no
perdido.
Não encontrei quem procurava. Nem tu, segundo acabo de verificar, podes
substituir-te.
Não sei se sabes que vive commigo Violet. É uma pobre creatura que me é
docil como a minha carne. Talvez por isso a vejo com amargura. Está ahi
outra rapariga, minha parenta.
Já percebi que amo nella a simples frescura da mocidade, talvez a
ingenuidade dos seus enleios de provinciana.
Mas o vago duma aspiração suprema, persiste em mim. Eu queria, sabes?--o
goso tranquillo, pôr um fim onde só encontro o indeterminado...
Um horror!
Não tento uma aventura que me pague a imaginação de urdí-la...
--Pois calculei que eras feliz. Tinham-me dito que recebias a melhor
gente de Lisboa; que davas festas...
--A melhor gente de Lisboa é pessima. Excepcionalmente encontrei uma
figura rara, o Conde de Nevogilde, um excentrico, escriptor de
merecimento, por quem sinto a melhor devoção. Vale-me nalguns serões.
Vou por estes dias passar algum tempo á sua casa de Entre-os-Rios, a
Villa-Feia.
--Extranho logar, disse Helen, se o titulo não mente.
--Não mente, creio. Aquella Villa é um capricho da natureza em favor do
proprietario.
É um scenario novo, com uma flora especial, cheia de imprevisto. Tudo
ahi é curioso. E não imaginas o enthusiasmo de Nuno Nevogilde pela sua
Villa, como sabe estimar o encanto do Feio.
É um rapaz adoravel. O seu interesse vale mais do que o seu talento.
Ser interessante é ser tudo para os outros. O interesse é bem mais raro
do que o talento.
Este pode ser monotono, impertinente; o interesse é o imprevisto, o
encanto derramado naturalmente, filho duma razão que escapa, adstricto a
um genio cujo enredo nos move sem que possamos defender-nos das suas más
consequencias.
Não é o que elle diz, é a forma porque diz. É insinuante, muito crestado
de viver, apagando-se junto dos humildes, pasmando perto dos tolos,
soffrendo o que vê, o que adivinha...
--Vaes então passar uma optima temporada? disse Helen triste e morna aos
enthusiasmos de Peregrina.
O que te não lembra é Petersfield! Outros tempos, novos amores...
Pois eu, minha querida, vivo ainda na recordação dos velhos tempos. Não
te enganavas quando respondias ao John, annunciando-lhe que eu
permaneceria fiel aos teus ensinamentos. Cada vez tenho mais horror ao
homem, sobretudo ao que me deram por companheiro. Ainda bem que a
_diabétes_ promette liquidá-lo breve... É a sua nota sympathica--a
doença.
--Olha que nos meus ensinamentos não cabe tal ferocidade. Ha coisas que
podemos pensar, mas devemos envergonhar-nos de dizer. O pensamento nem
sempre joga com a vontade.
Eu sou feroz commigo: tenho-me desejado a morte. Gosei a morte de Edgar,
como nunca esperei gosar coisa alguma no mundo. Mas não lha desejei.
Ter-lha-ia evitado, se a adivinhasse. Ante o facto consummado o meu
espirito exultou. Espirito e corpo, num abraço como jámais se deram,
possuiram aquelle lindo morto ou antes a Belleza-morte, no maior
elasterio de sensualidade... Mas, vigiar dia a dia o que vae dar-nos a
felicidade de morrer, perscrutar-lhe os passos da doença, porventura
promover-lha, isso não é digno de ti.
--Ah! minha Peregrina, tu não sabes o que é sentir o amor do homem que
detestamos. Olha que é peor do que o contrario, amar a pessoa que nos
detesta!
--Mas afasta-te delle. Deixas de ser ministra de Inglaterra, mas és a
mulher digna, ainda que vivas como uma rameira, de amores com outras
rameiras. Sê a mulher livre; nada ha peor do que a honestidade forçada.
Só a hypocrisia é crime!
Os olhos de turquesa da extrangeira nublaram-se de lagrimas; cahiu a
soluçar sobre o peito forte de Peregrina, que a afagava friamente.
Bateram á porta.
Era Violet e Salomé.
--Esperae um pouco! disse a Artista.
E, dentro de breve tempo, sahiam as duas a encontrar-se com a antiga
condiscipula e Salomé.