Decorreram dez annos.
Maria Peregrina passou á Scandinavia e depois aos pontos mais extranhos,
errando pela Asia e pela America, e vindo a fixar-se em Roma, onde viveu
os ultimos dois annos. Não voltou á Grecia nem a Inglaterra.
Em qualquer dos dois paizes espalhára vicios e mocidade, que lhe seria
grato reviver, se o reverso das provações lhe não aguasse a saudade. Não
era a desgraça da sua vida que ella culpava; era o rebate della nos
meios que tentára, e tivera a ingenuidade de suppor benevolos.
Ainda ultimamente lhe tinham sido devolvidos volumes da _Nova Sapho_,
que mandára para as Academias de Londres e Athenas.
Esta devolução desgostou-a. Suppunha ter ali admiradores, amigos, que,
afinal, a abandonavam, a vexavam.
A dor é nos superiores dum effeito extravagante:--não os convulsiona,
magôa-os ou transmuda-os. Ha casos, na apparencia pequenos, que lhes
decidem o aspecto, que não mais os deixam rir sinceramente.
Não era o caso: Maria Peregrina tirocinára desgraças desde muito nova,
para succumbir inteiramente. No entretanto, sentiu-se devéras.
Não a incommodava o debate que a publicação do seu livro havia levantado
em Portugal. Considerava medianamente as letras da sua terra. Mas o
significado daquella devolução nos meios de _élite_ que frequentára
abateu-a extranhamente, profundamente. Queria reagir. Mas por mais que
considerasse a justiça que lhe fora feita como Artista, sentia-se
desfalcada, vexada, pelo desprezo que lhe votavam como mulher. Ella
propria sentia em si duas entidades diversas--a que produzia, creava, e
a outra, a que não conseguia libertar-se das offensas e intrigas das
Academias. Um dos contrastes da creatura de genio é uma nota inferior--a
crença na fatalidade.
Muitas das infelicidades lançam-nas á conta do destino:--acceitam-nas
serenos. Não assim as que batalham o seu amor proprio.
A superioridade, é, como observa Nietzsche, o que está para além do
homem. Mas isto que este pensa ao definir o valor alheio não o sente
quando se contempla.
Dahi o conflicto. O que produz, o que cria é o que está para além delle.
O que discute competencias, e barulha vaidades é elle proprio,--o homem.
Acceitar os talentos e discutir o caracter duma creatura superior é
levantar competencias com ella propria:--desdobrá-la em duas figuras que
o mais das vezes se desentendem.
A superioridade é uma força áparte. O homem é que intenta dispor a seu
talante daquelle valor; e, pois que reflecte a elevação duma
intelligencia poderosa, pretende chamá-la a derimir os conflictos da sua
sensibilidade de semi-Deus com a que inculca a sua qualidade humana.
Afinal, por si se liberta. A sensibilidade do Artista é um excesso de
vida emotiva, uma doença que lhe dá altas e baixas bruscas, e o quiéta
quasi sempre num fundo de melancholia, que é a dor reflectindo a
aspiração intangivel da fusão perfeita do homem e do Deus que elle
apercebe para além de si.
A valvula aberta a este estado unico de dor reside para o Artista na
propria exteriorização da Arte. É então o semi-Deus, o creador
librando-se para além da miseria humana...
* * * * *
Maria Peregrina, ao receber os livros devolvidos, cahiu num torpor de
doente.
Demais sabia ella que no meio literario conhecido, por entre os
applausos dos que a cercavam, havia más vontades, denunciadas em
insinuações, e palavras equivocas.
Dava por todos, pelos que lhe não perdoavam o talento e faziam da moral
uma arma contra ella, e pelos outros, os que sinceramente a repulsavam
pelo seu caracter de degenerada. No meio que frequentára em Londres,
sentira dia a dia o reflexo dessa má vontade. Ultimamente, para não ser
vexada, deixára de todo os salões particulares, onde perdera relações
sem motivo, e donde se afastou para que a não afastassem.
Na Grecia era tambem conhecida no meio academico pelo titulo do seu
livro--_Nova Sapho_.
Em Portugal continuavam as mais exasperadas campanhas.
Impossibilitados de discutirem a obra no ponto de vista artistico, os
jornalistas, a quem a critica estava affecta, davam-na como documento de
autopsychologia, fundibulando grossarias sobre a mulher que tivera o
ousio de escrever um livro, indice do mais torturado temperamento.
Ah! ella perdoava que lhe não sentissem a obra. Mas o que lhe doia era o
odio que lhe votavam pelos vicios, que amava além de tudo.
--E nós a tentarmos obrigar o mundo a ver-nos com olhos differentes
daquelles porque se vê a si proprio, commentava! Como se elle
interpretasse a differença que fazemos em nosso favor! Emfim, heide ver
se, ao menos, posso salvar o orgulho...
* * * * *
Estes e outros factos, denunciativos da fórma por que era tida nos meios
conhecidos, fizeram que nos ultimos tempos em que viveu em Roma se
esquivasse aos homens de letras e demais candidatos ás generosidades dos
seus talentos, e de sua fortuna. Não queria relações; cansavam-na os
empresarios de festas particulares ou publicas.
--Conheço, dizia a Violet, o bastante em cada cidade para me torturar
sem prejuizo do amor-proprio.
Sei de cór a geographia do vicio e da moral de todas as terras onde
tenho demorado quarenta e oito horas. Dispenso informadores. Que
necessidade tenho de acotovelar-me com as más vontades dos paladinos das
convenções, uns tôrpes a occultas que nem têem a grandeza do bem, nem a
coragem do mal?
E, fiel ao programma, firmava-se no orgulho das fraquezas, tratando de
alto os que se lhe abeiravam e fugindo a conviver.
Foi neste tempo, nos ultimos três mêses que viveu em Italia, que urdiu o
livro--_A Emparedada_, entre quedas bruscas do temperamento, dias de
doença e horas de rememoração do drama de Petersfield e Londres.
Este livro era a expressão maxima dos seus talentos, pois que era a dor
dum temperamento doente, consumindo-se numa ancia de Arte. E, como tal,
realizou o maximo de sinceridade.
Era a Dor, traduzindo-se em melancholia e expressões imprevistas a
beirarem a loucura, no encalço de soluções que derivava da tyrannia dos
nervos, incendidos de desejo. O Poema foi escripto, composto e impresso
rapidamente.
--Não quero que a razão me estrague a obra, dizia.
O seu valor, se algum tiver, deve ser o defeito que sou eu propria. Se
me désse a scismar ácerca destes versos, emendava-os. Então o Poema não
era eu, era toda a gente, a obra-synthese da Moral, da Arte, da
Intelligencia que por ahi corre nas livrarias, academias, nos
parlamentos, por toda a parte.
Ah! não, _A Emparedada_ heide ser eu em conflicto com isso tudo.
A _Nova Sapho_ ha de vingar-se da estupidez com que a tratam,
librando-se acima da torpeza moral dos que a reputam abjecta...
E nervosamente, sempre que os maiores abatimentos lhe davam tregua,
escrevia, desdobrando-se no drama das suas melancholias.
* * * * *
Em abril de 1910 estava a obra impressa e distribuida.
Dois mêses depois entrava Peregrina em Lisboa, seguindo immediatamente
para o Minho, acompanhada de Violet e de Jacob, o anão resgatado á
companhia dos zingaros.
Foi em junho que nos encontramos em viagem e depois em Lares.
Pouco tempo demorou ali.
Dias depois de termos estado em Lares, morreu D. Maria Helena duma lesão
cardiaca. Havia muito que a medicina de Guimarães tinha endossado aos
santos esta cliente, excepcionalmente piedosa.
E ella, muito de mal com a medicina, e sempre affecta ao Ceu, conseguiu
viver seis ou sete annos mais do que a sciencia annunciava.
O acaso, complacente com a devota, fez que a doença a victimasse a uma
sexta-feira, depois dos exercicios do Coração de Jesus, confortada pelos
sacramentos, indulgencias e rezas da Congregação de que era presidenta e
benemerita.
Entretanto, foi annunciada ordem de suspensão de missa a monsenhor
Andrada.
Chegára ao Paço archiepiscopal de Braga a noticia das suas homilias.
Escandalizou-se o Arcebispo Primaz das doutrinas com que elle enchia as
predicas; e, cuidando ser victima de informações erradas, officiou ao
accusado para que as explicasse.
Sinceramente respondeu Andrada, enviando resenha de algumas predicas, e
o commentario dos pontos em que se desencaminhava dos sermonarios que
tinham o beneplacito do Paço de Braga.
E, insistindo nas suas maneiras de apostolar, declarava não se submeter
a emendas em questões doutrinarias, pois que, accrescentava, tinha para
si que os erros emendados ficavam mais compridos, e era peorar os seus
humildes discursos--contradizê-los, aspando-lhes o unico merecimento que
tinham,--a sinceridade que os urdira e expressavam.
Não se fez esperar a suspensão. Foi para Lares, onde Maria Peregrina o
tratava como pessoa de familia. Pouco tempo ali demoraram. Passados
mêses partiam para Lisboa:--Maria Peregrina, Salomé, Violet, o padre e
Jacob.