VII

Decorreram dez annos.

Maria Peregrina passou á Scandinavia e depois aos pontos mais extranhos,

errando pela Asia e pela America, e vindo a fixar-se em Roma, onde viveu

os ultimos dois annos. Não voltou á Grecia nem a Inglaterra.

Em qualquer dos dois paizes espalhára vicios e mocidade, que lhe seria

grato reviver, se o reverso das provações lhe não aguasse a saudade. Não

era a desgraça da sua vida que ella culpava; era o rebate della nos

meios que tentára, e tivera a ingenuidade de suppor benevolos.

Ainda ultimamente lhe tinham sido devolvidos volumes da _Nova Sapho_,

que mandára para as Academias de Londres e Athenas.

Esta devolução desgostou-a. Suppunha ter ali admiradores, amigos, que,

afinal, a abandonavam, a vexavam.

A dor é nos superiores dum effeito extravagante:--não os convulsiona,

magôa-os ou transmuda-os. Ha casos, na apparencia pequenos, que lhes

decidem o aspecto, que não mais os deixam rir sinceramente.

Não era o caso: Maria Peregrina tirocinára desgraças desde muito nova,

para succumbir inteiramente. No entretanto, sentiu-se devéras.

Não a incommodava o debate que a publicação do seu livro havia levantado

em Portugal. Considerava medianamente as letras da sua terra. Mas o

significado daquella devolução nos meios de _élite_ que frequentára

abateu-a extranhamente, profundamente. Queria reagir. Mas por mais que

considerasse a justiça que lhe fora feita como Artista, sentia-se

desfalcada, vexada, pelo desprezo que lhe votavam como mulher. Ella

propria sentia em si duas entidades diversas--a que produzia, creava, e

a outra, a que não conseguia libertar-se das offensas e intrigas das

Academias. Um dos contrastes da creatura de genio é uma nota inferior--a

crença na fatalidade.

Muitas das infelicidades lançam-nas á conta do destino:--acceitam-nas

serenos. Não assim as que batalham o seu amor proprio.

A superioridade, é, como observa Nietzsche, o que está para além do

homem. Mas isto que este pensa ao definir o valor alheio não o sente

quando se contempla.

Dahi o conflicto. O que produz, o que cria é o que está para além delle.

O que discute competencias, e barulha vaidades é elle proprio,--o homem.

Acceitar os talentos e discutir o caracter duma creatura superior é

levantar competencias com ella propria:--desdobrá-la em duas figuras que

o mais das vezes se desentendem.

A superioridade é uma força áparte. O homem é que intenta dispor a seu

talante daquelle valor; e, pois que reflecte a elevação duma

intelligencia poderosa, pretende chamá-la a derimir os conflictos da sua

sensibilidade de semi-Deus com a que inculca a sua qualidade humana.

Afinal, por si se liberta. A sensibilidade do Artista é um excesso de

vida emotiva, uma doença que lhe dá altas e baixas bruscas, e o quiéta

quasi sempre num fundo de melancholia, que é a dor reflectindo a

aspiração intangivel da fusão perfeita do homem e do Deus que elle

apercebe para além de si.

A valvula aberta a este estado unico de dor reside para o Artista na

propria exteriorização da Arte. É então o semi-Deus, o creador

librando-se para além da miseria humana...

* * * * *

Maria Peregrina, ao receber os livros devolvidos, cahiu num torpor de

doente.

Demais sabia ella que no meio literario conhecido, por entre os

applausos dos que a cercavam, havia más vontades, denunciadas em

insinuações, e palavras equivocas.

Dava por todos, pelos que lhe não perdoavam o talento e faziam da moral

uma arma contra ella, e pelos outros, os que sinceramente a repulsavam

pelo seu caracter de degenerada. No meio que frequentára em Londres,

sentira dia a dia o reflexo dessa má vontade. Ultimamente, para não ser

vexada, deixára de todo os salões particulares, onde perdera relações

sem motivo, e donde se afastou para que a não afastassem.

Na Grecia era tambem conhecida no meio academico pelo titulo do seu

livro--_Nova Sapho_.

Em Portugal continuavam as mais exasperadas campanhas.

Impossibilitados de discutirem a obra no ponto de vista artistico, os

jornalistas, a quem a critica estava affecta, davam-na como documento de

autopsychologia, fundibulando grossarias sobre a mulher que tivera o

ousio de escrever um livro, indice do mais torturado temperamento.

Ah! ella perdoava que lhe não sentissem a obra. Mas o que lhe doia era o

odio que lhe votavam pelos vicios, que amava além de tudo.

--E nós a tentarmos obrigar o mundo a ver-nos com olhos differentes

daquelles porque se vê a si proprio, commentava! Como se elle

interpretasse a differença que fazemos em nosso favor! Emfim, heide ver

se, ao menos, posso salvar o orgulho...

* * * * *

Estes e outros factos, denunciativos da fórma por que era tida nos meios

conhecidos, fizeram que nos ultimos tempos em que viveu em Roma se

esquivasse aos homens de letras e demais candidatos ás generosidades dos

seus talentos, e de sua fortuna. Não queria relações; cansavam-na os

empresarios de festas particulares ou publicas.

--Conheço, dizia a Violet, o bastante em cada cidade para me torturar

sem prejuizo do amor-proprio.

Sei de cór a geographia do vicio e da moral de todas as terras onde

tenho demorado quarenta e oito horas. Dispenso informadores. Que

necessidade tenho de acotovelar-me com as más vontades dos paladinos das

convenções, uns tôrpes a occultas que nem têem a grandeza do bem, nem a

coragem do mal?

E, fiel ao programma, firmava-se no orgulho das fraquezas, tratando de

alto os que se lhe abeiravam e fugindo a conviver.

Foi neste tempo, nos ultimos três mêses que viveu em Italia, que urdiu o

livro--_A Emparedada_, entre quedas bruscas do temperamento, dias de

doença e horas de rememoração do drama de Petersfield e Londres.

Este livro era a expressão maxima dos seus talentos, pois que era a dor

dum temperamento doente, consumindo-se numa ancia de Arte. E, como tal,

realizou o maximo de sinceridade.

Era a Dor, traduzindo-se em melancholia e expressões imprevistas a

beirarem a loucura, no encalço de soluções que derivava da tyrannia dos

nervos, incendidos de desejo. O Poema foi escripto, composto e impresso

rapidamente.

--Não quero que a razão me estrague a obra, dizia.

O seu valor, se algum tiver, deve ser o defeito que sou eu propria. Se

me désse a scismar ácerca destes versos, emendava-os. Então o Poema não

era eu, era toda a gente, a obra-synthese da Moral, da Arte, da

Intelligencia que por ahi corre nas livrarias, academias, nos

parlamentos, por toda a parte.

Ah! não, _A Emparedada_ heide ser eu em conflicto com isso tudo.

A _Nova Sapho_ ha de vingar-se da estupidez com que a tratam,

librando-se acima da torpeza moral dos que a reputam abjecta...

E nervosamente, sempre que os maiores abatimentos lhe davam tregua,

escrevia, desdobrando-se no drama das suas melancholias.

* * * * *

Em abril de 1910 estava a obra impressa e distribuida.

Dois mêses depois entrava Peregrina em Lisboa, seguindo immediatamente

para o Minho, acompanhada de Violet e de Jacob, o anão resgatado á

companhia dos zingaros.

Foi em junho que nos encontramos em viagem e depois em Lares.

Pouco tempo demorou ali.

Dias depois de termos estado em Lares, morreu D. Maria Helena duma lesão

cardiaca. Havia muito que a medicina de Guimarães tinha endossado aos

santos esta cliente, excepcionalmente piedosa.

E ella, muito de mal com a medicina, e sempre affecta ao Ceu, conseguiu

viver seis ou sete annos mais do que a sciencia annunciava.

O acaso, complacente com a devota, fez que a doença a victimasse a uma

sexta-feira, depois dos exercicios do Coração de Jesus, confortada pelos

sacramentos, indulgencias e rezas da Congregação de que era presidenta e

benemerita.

Entretanto, foi annunciada ordem de suspensão de missa a monsenhor

Andrada.

Chegára ao Paço archiepiscopal de Braga a noticia das suas homilias.

Escandalizou-se o Arcebispo Primaz das doutrinas com que elle enchia as

predicas; e, cuidando ser victima de informações erradas, officiou ao

accusado para que as explicasse.

Sinceramente respondeu Andrada, enviando resenha de algumas predicas, e

o commentario dos pontos em que se desencaminhava dos sermonarios que

tinham o beneplacito do Paço de Braga.

E, insistindo nas suas maneiras de apostolar, declarava não se submeter

a emendas em questões doutrinarias, pois que, accrescentava, tinha para

si que os erros emendados ficavam mais compridos, e era peorar os seus

humildes discursos--contradizê-los, aspando-lhes o unico merecimento que

tinham,--a sinceridade que os urdira e expressavam.

Não se fez esperar a suspensão. Foi para Lares, onde Maria Peregrina o

tratava como pessoa de familia. Pouco tempo ali demoraram. Passados

mêses partiam para Lisboa:--Maria Peregrina, Salomé, Violet, o padre e

Jacob.

Nova Sapho: Tragedia Extranha · 第 15 / 28 题