VI

Depois de curta passagem por Paris, Berlim, Scandinavia, Roma e Napoles,

entrou Maria Peregrina em Athenas, na tenção de demorar-se. Violet

acompanhava-a.

Vivendo a Grecia antes mesmo de a ver, sentiu á chegada uma grande

commoção de quem encontra uma terra desde muito seguida em espirito.

O mar da Grecia não tem a côr desbotada da massa de agua no mar alto.

Toma, á approximação do Archipelago, nova designação e tinta, como

prestando homenagem á velha Hellada.

É um mar de lazulita, seguindo o recorte da Grecia em que salienta a

gloriosa Athenas, branca em seus edificios de marmore de Pentelico e

Paros.

Aportou a Phalero.

A breve trecho, entrou na antiga capital da Attica, que se estende num

desenho largo--terra de neve pela brancura do marmore, e uma verdadeira

Heliopolis, plena de sol.

As casas são a renovação da architectura grega, copias das antigas

marcas do genio hellenico, a que preside a Acropole, vasta cidadella dos

tempos gloriosos, da edade de oiro.

Maria Peregrina e Violet foram hospedar-se no melhor hotel da rua do

Stadio.

Dentro de breve tempo Maria tinha entrado em sua vida normal,

despendendo nervos e tempo no encalço duma felicidade que só de passagem

encontrara.

A mais do que as outras cidades que percorrêra, Athenas dava-lhe as

sombras dum passado que ia referindo aos pontos que lhas recordavam.

--É aqui que eu tenho de estudar, dizia, a geographia da Belleza

hellada--synthese de toda a Belleza terrea, com parentesco no Ceu.

Suppunha-se nos velhos tempos de Athenas e ia pela Acropole, ao

entardecer, memorar espiritos desencontrados, poesias fragmentadas de

Sapho, a catechese do segundo genio da Egreja--Paulo, tudo o que podia

acquiescer ao seu talento aventuroso, perdido na ancia duma perfeição

morta.

Deu-se a estudar a lingua grega; ia visitar os museus; matriculou-se na

aula de Arte; procurou a todo o transe encher o tempo, a ver se a

occupação obrigatoria lhe entravava os nervos.

Nos dias em que tinha de feriar o espirito de lucubrações eruditas ou

artisticas, ia visitar as ilhas proximas, ou até Phalero, ouvir o mar.

Mas não havia occupação, por mais interessante ou impertinente, que lhe

aquietasse o gosto, exigente de origem.

Por toda a parte encontrava suggestões á pratica do vicio lesbico, sem

que volvesse a encontrar a passividade amoravel de Helen, dando-se-lhe

num corpo que era o sonho da sua alma ocidental de decadente.

Pelas ruas deparavam-se-lhe moços espartanos ao lado de raparigas

esbeltas, de saiaes tufados, redondos pelo joelho, com o kepi grego de

borlas, de jalecas curtas, segurando peitos cheios.

Mulheres e rapazes de Corfú, e demais ilhas proximas, passeavam corpos e

trajes bizarros, que prendiam aos restos duma civilização de requinte.

Tambem a flora de Athenas parecia prender-se á decadencia daquelle solo

que fôra a joia do vicio no reinado da Attica.

Tudo a inculcava como um marco da velha cidade da carne e da orgia.

No entretanto, Peregrina, admirando aquella belleza, prodiga de

imprevisto, não a sentia. Era uma belleza que suggeria, não a

apaixonava.

--Toda a parcella de belleza se gasta ou transforma, dizia. Não ha

belleza em porções, permanente. Ha unidade no Bello, o que é diverso.

A velha Hellada desmanchou-se em holocausto ao mesmo hellenismo. Era

preciso assim. O proprio desmancho e renovação de civilizações, o

caldeamento do sangue, transfusão das raças, e mistura de genios, é que

asseguram a unidade da Belleza, na sua concepção liberta.

Em rasão desta unidade, explicava a Violet, foi que eu, do Ocidente,

encontrei o meu elemento affim numa raça que me era apparentemente

opposta. Posso encontrar noutras creaturas condições de maior belleza, á

face da Arte. Mas o meu defeito de superior faz que o meu procedimento

seja cego em materia de sensibilidade. Ha em mim uma força cujo motivo

mal sinto no vago da consciencia, e que é cega e me cega, que escapa á

minha reflexão e não me consulta, caminha, não pede, exige.

--É que te apaixonaste por Helen, não vês mais ninguem, considerava

Violet.

--Mas sei lá porque me apaixonei por ella. Se ao vê-la hoje não sentiria

afundar-se todo o meu passado num mar de nojo feito do amor que lhe tive

e das complacencias que me deu...

Violet procurava sondar os desesperos de Peregrina, e tomar o logar de

Helen. Impossivel! Violet era para Peregrina a escrava, que usava á

falta doutra em suas perversões.

Helen era um abysmo de alegria, um corpo de risos com nervos de seda.

Era o melhor e peor duma raça que, junta a ella, estreitava o abraço de

duas civilizações a suicidarem-se...

--Ah! se ella tivesse vindo commigo, dizia Peregrina, como eu reveria a

velha Hellada!... Só vê bem quem recebe suggestões para produzir. Mas só

produz quem ama. E só ama quem possue...

* * * * *

Havia em sua alma, sedenta de exotismos, intervallos duma ternura de

creança, em que se dava ao culto da simplicidade, tecendo obra ingenua.

Datam da sua estada na Grecia, e mercê daquellas horas, os versos que

juntou num livro curioso, a que chamou--_O Livro das Creanças_.

Os titulos dos capitulos indicam a sua indole. Assim, havia nelle--_A

historia duma gota de agua_, _Aventuras de uma aresta_, _A conta de

crystal_, _Hostia de oiro_, _A camelia côr de mel_, etc., assumptos

innocentes, pontos pequenissimos de partida a uma philosophia de

desvairamentos para auxiliar os vôos da imaginação infantil, isto vasado

num metro facil, dicção correntia.

Mas sobre esta innocencia apparente, todas aquellas historias eram um

hymno á Fatalidade, tecidos dum maravilhoso novo,--expressões simplistas

dum espirito doente.

A _Aresta_ da historia era uma heroina, de formas pequenissimas e de

alma grande que o vento, as chuvas, a tempestade metiam em aventura á

mercê do Acaso, que é o genio das coisas.

A _Hostia de oiro_ era o Sol que um negro do Senegal perseguia no

poente, andando de terra em terra a ver se o colhia para commungar com

os da sua tribu--caminhando por montes altos quando elle tombava, até

que morreu de desespero e saudades em uma terra do Norte, deixando-se

matar e enterrar pela neve quando viu que, depois de dois mêses, a linda

hostia não apparecia. No dia seguinte, veiu o Sol a sorrir,

desenterrando o negro, solvendo a neve, envolveu-o num resplendor de luz

e fez delle uma estrella, que ficou no ceu a velar a sua raça côr de

fuligem e muito especialmente aquella tribu.

A historia da _Camelia côr de mel_ resumia o episodio duma rosa do Japão

que se condoeu dos amores dum indio desprezado por uma mulher branca e

trocou a côr com ella. E assim as restantes.

* * * * *

Passado pouco tempo da entrada na Academia, já Maria Peregrina estava

relacionada com varios camaradas, que logo deram pelo seu talento.

Era o tempo em que os extrangeiros mais acudiam a Athenas a seguir os

cursos de Arte. A mesma razão que levára ahi Peregrina detinha lá tambem

alguns delles, vivendo por educação ou atavismo memorias da velha

Grecia.

Não lhe foi difficil dar por aquelles que mais se lhe approximavam em

perversão e requintes.

Dentro de pouco era intima da Princesa de Tuscolo, uma italiana de 35

annos, principalmente gastos em passeios de luxo e prazer e dum russo,

pouco talentoso, mas culto, homem de 29 annos, com grande fortuna e

ancia de imprevisto.

Iam muitas vezes para Corintho e Corfu, inventando romarias a que não

faltavam luxurias.

Mas sempre a mesma sombra de tedio vinha escurecer a imaginação de Maria

Peregrina, findos os passeios; é que tinha de roçar as scenas vulgares

do que ella chamava a torpeza civilizada.

Uma tarde em que foram todos ao Stadio, vasto circo de feitura recente,

para arremêdo dos antigos exercicios olympicos, Maria propôs que se

arranjasse uma casa onde pudessem commungar sensualidades.

Foi a proposta acceite. E a casa ficou a chamar-se desde logo _Templo de

Amor_.

Era nas immediações de Athenas, a caminho de Kefissia.

Ficava numa encosta, emmaranhada de arvores.

Tinha por fóra o geito grego--cujo risco fôra executado com escrupulo.

Dentro, o aspecto dum templo.

Havia ali reproducções em marmore da Venus do museu de Napoles, de Milo,

Medicis, Capitolio e Troia; de Apollo, e três estatuas de Sapho,

salientando-se a de Pradier, que, dum estrado alto, curvada, parecia

presidir ás danças orgiacas, que a sua memoria suggeria; finalmente, uma

larga profusão de espelhos, luzes, e instrumentos de musica,

sobresahindo harpas, lyras e psalterios.

As _toilettes_ da chegada, no dia da inauguração, lembravam as das

velhas festas da Hellada, pelo esmero com que haviam sido reproduzidas.

Só Maria Peregrina puzera um pouco da sua originalidade no vestuario,

aliás riquissimo.

Entrou coberta por uma _falteta_, á maneira das que usam as mulheres de

Malta, refulgente de finissima renda e pedraria.

Quando appareceu já o _Templo_ estava povoado de adolescentes nús;

tocavam as harpas muito casadas aos violinos.

As luzes num grande desacordo de côr davam ao _Templo_ uma refulgencia

que fazia esquecer a Terra...

A Princesa de Tuscolo e Ivanwitch, que tinham vindo antes, observavam os

adolescentes. Alguns eram do Stadio, gymnastas e _jongleurs_ precoces.

Outros eram ingenuos camponezitos de Corfu; havia lindas raparigas de

Corintho e um anão de Colonia, resgatado havia pouco a uma companhia de

zingaros.

Tocaram as harpas o _Canto de Sapho_ e depois _Rhythmos de dança_, numa

harmonia dolente.

Maria Peregrina chamou duas negras, que, a um canto, cortavam aquelle

mar de luz com os corpos de sombra, e entregou-lhes a _falteta_.

O resto da _toilette_ era uma simples fita larga, de velludo-musgo, que

a enroscava desde o busto aos quadris.

Tirou-a, mostrando as lindas formas em que sobresahia um ventre

perfeitissimo, especie de salva de metal moreno fulgente, peitos de

formas certas, que não temiam desmanchar-se no ardor da dança, e ancas

sumidas, contrastes do typo extranho de _femme-garçon_, de geito a

servirem a flexura rara do seu corpo resumante de sensualidade e

adolescencia...

Todos se desembaraçaram dos vestuarios. Era madrugada.

Começou a orgia pelas _Danças sensuaes_. Extranha gente! Eram rapazes,

flectindo corpos de belleza sobria, linhas puras de desenvoltura suave,

sonhos de Aphrodite, animados; raparigas multiplicando as curvas ideaes

de corpos de amphora, tudo o que havia de excepcional na concepção

excelsa--a melhor argila, modelos supremos do Divino Oleiro.

E, em contraste, como a desenhar o arabesco entre aquella floração de

carne, diversamente colorida, volteava o anão, corpo curto, pernas

rectas, movimentos perros mas certos, carne côr de cerveja, face de

fauno que surgisse do bosque, avido de luxurias e se perdesse num

labyrintho movediço de Belleza...

Começaram as danças em homenagem aos manes da velha Hellada. A Athenas

do vicio estava ali. A outra, a cidade nova, dormia somnos brancos, côr

do casario.

Peregrina dizia, rindo, para os tangedores das harpas:

--De vagar, moderae os dedos.

E para Tuscolo e Ivanwitch:

--Se chega ao Parthenon o echo desta festa, temos ahi Socrates, a

remir-se pela culpa, com uma fileira de sabios, deuses e artistas.

E como falando comsigo:

--No Parthenon é que a festa maxima terá de dar-se. É a primeira joia de

Arte do mundo. Os deuses não a conservaram senão para que ahi fosse a

grande festa pelo definitivo triumpho hellenista.

Mas quando será?!

* * * * *

Em 1900 resolveu sahir de Athenas.

A 28 de novembro recebeu um telegramma de Robert Ross, annunciando que

Oscar Wilde se encontrava em Paris, moribundo.

O romancista, depois duma larga tragedia, seguida de peregrinações

varias por Napoles, Corsega, Sicilia e Roma, foi fixar-se num modesto

Hotel da rua das Bellas-Artes (Hotel d'Alsace), e ahi foi atacado da

meningite que pôs ponto nas suas desventuras.

Apenas recebeu o telegramma, Maria Peregrina partiu com Violet. E chegou

a Paris quando Wilde entrava na agonia.

Não o abandonou até 3 de dezembro, em que foi com raros amigos

acompanhá-lo a Bagneux.

Era uma triste manhã de dezembro.

Á porta do cemiterio desceram a urna os amigos do Artista, conduzindo-o

até á modesta sepultura, por entre fileiras de cruzes e arvores nuas de

folha. Assim fez aquella travessia boa, decerto para elle a melhor. O

tempo calára o vento e a chuva, como por gratidão ao amigo que tanta vez

lhe emprestára alma.

Maria Peregrina seguia o grupo, num passo senhoril, mas hesitante,

pallida, arrastando sobre a greda um vestido negro cahido em tulipa.

Era ao longe uma figura extranha! Dir-se-ia representar ali a vida do

Poeta--misto de genio, perversão, orgulho.

Nova Sapho: Tragedia Extranha · 第 14 / 28 题