Depois de curta passagem por Paris, Berlim, Scandinavia, Roma e Napoles,
entrou Maria Peregrina em Athenas, na tenção de demorar-se. Violet
acompanhava-a.
Vivendo a Grecia antes mesmo de a ver, sentiu á chegada uma grande
commoção de quem encontra uma terra desde muito seguida em espirito.
O mar da Grecia não tem a côr desbotada da massa de agua no mar alto.
Toma, á approximação do Archipelago, nova designação e tinta, como
prestando homenagem á velha Hellada.
É um mar de lazulita, seguindo o recorte da Grecia em que salienta a
gloriosa Athenas, branca em seus edificios de marmore de Pentelico e
Paros.
Aportou a Phalero.
A breve trecho, entrou na antiga capital da Attica, que se estende num
desenho largo--terra de neve pela brancura do marmore, e uma verdadeira
Heliopolis, plena de sol.
As casas são a renovação da architectura grega, copias das antigas
marcas do genio hellenico, a que preside a Acropole, vasta cidadella dos
tempos gloriosos, da edade de oiro.
Maria Peregrina e Violet foram hospedar-se no melhor hotel da rua do
Stadio.
Dentro de breve tempo Maria tinha entrado em sua vida normal,
despendendo nervos e tempo no encalço duma felicidade que só de passagem
encontrara.
A mais do que as outras cidades que percorrêra, Athenas dava-lhe as
sombras dum passado que ia referindo aos pontos que lhas recordavam.
--É aqui que eu tenho de estudar, dizia, a geographia da Belleza
hellada--synthese de toda a Belleza terrea, com parentesco no Ceu.
Suppunha-se nos velhos tempos de Athenas e ia pela Acropole, ao
entardecer, memorar espiritos desencontrados, poesias fragmentadas de
Sapho, a catechese do segundo genio da Egreja--Paulo, tudo o que podia
acquiescer ao seu talento aventuroso, perdido na ancia duma perfeição
morta.
Deu-se a estudar a lingua grega; ia visitar os museus; matriculou-se na
aula de Arte; procurou a todo o transe encher o tempo, a ver se a
occupação obrigatoria lhe entravava os nervos.
Nos dias em que tinha de feriar o espirito de lucubrações eruditas ou
artisticas, ia visitar as ilhas proximas, ou até Phalero, ouvir o mar.
Mas não havia occupação, por mais interessante ou impertinente, que lhe
aquietasse o gosto, exigente de origem.
Por toda a parte encontrava suggestões á pratica do vicio lesbico, sem
que volvesse a encontrar a passividade amoravel de Helen, dando-se-lhe
num corpo que era o sonho da sua alma ocidental de decadente.
Pelas ruas deparavam-se-lhe moços espartanos ao lado de raparigas
esbeltas, de saiaes tufados, redondos pelo joelho, com o kepi grego de
borlas, de jalecas curtas, segurando peitos cheios.
Mulheres e rapazes de Corfú, e demais ilhas proximas, passeavam corpos e
trajes bizarros, que prendiam aos restos duma civilização de requinte.
Tambem a flora de Athenas parecia prender-se á decadencia daquelle solo
que fôra a joia do vicio no reinado da Attica.
Tudo a inculcava como um marco da velha cidade da carne e da orgia.
No entretanto, Peregrina, admirando aquella belleza, prodiga de
imprevisto, não a sentia. Era uma belleza que suggeria, não a
apaixonava.
--Toda a parcella de belleza se gasta ou transforma, dizia. Não ha
belleza em porções, permanente. Ha unidade no Bello, o que é diverso.
A velha Hellada desmanchou-se em holocausto ao mesmo hellenismo. Era
preciso assim. O proprio desmancho e renovação de civilizações, o
caldeamento do sangue, transfusão das raças, e mistura de genios, é que
asseguram a unidade da Belleza, na sua concepção liberta.
Em rasão desta unidade, explicava a Violet, foi que eu, do Ocidente,
encontrei o meu elemento affim numa raça que me era apparentemente
opposta. Posso encontrar noutras creaturas condições de maior belleza, á
face da Arte. Mas o meu defeito de superior faz que o meu procedimento
seja cego em materia de sensibilidade. Ha em mim uma força cujo motivo
mal sinto no vago da consciencia, e que é cega e me cega, que escapa á
minha reflexão e não me consulta, caminha, não pede, exige.
--É que te apaixonaste por Helen, não vês mais ninguem, considerava
Violet.
--Mas sei lá porque me apaixonei por ella. Se ao vê-la hoje não sentiria
afundar-se todo o meu passado num mar de nojo feito do amor que lhe tive
e das complacencias que me deu...
Violet procurava sondar os desesperos de Peregrina, e tomar o logar de
Helen. Impossivel! Violet era para Peregrina a escrava, que usava á
falta doutra em suas perversões.
Helen era um abysmo de alegria, um corpo de risos com nervos de seda.
Era o melhor e peor duma raça que, junta a ella, estreitava o abraço de
duas civilizações a suicidarem-se...
--Ah! se ella tivesse vindo commigo, dizia Peregrina, como eu reveria a
velha Hellada!... Só vê bem quem recebe suggestões para produzir. Mas só
produz quem ama. E só ama quem possue...
* * * * *
Havia em sua alma, sedenta de exotismos, intervallos duma ternura de
creança, em que se dava ao culto da simplicidade, tecendo obra ingenua.
Datam da sua estada na Grecia, e mercê daquellas horas, os versos que
juntou num livro curioso, a que chamou--_O Livro das Creanças_.
Os titulos dos capitulos indicam a sua indole. Assim, havia nelle--_A
historia duma gota de agua_, _Aventuras de uma aresta_, _A conta de
crystal_, _Hostia de oiro_, _A camelia côr de mel_, etc., assumptos
innocentes, pontos pequenissimos de partida a uma philosophia de
desvairamentos para auxiliar os vôos da imaginação infantil, isto vasado
num metro facil, dicção correntia.
Mas sobre esta innocencia apparente, todas aquellas historias eram um
hymno á Fatalidade, tecidos dum maravilhoso novo,--expressões simplistas
dum espirito doente.
A _Aresta_ da historia era uma heroina, de formas pequenissimas e de
alma grande que o vento, as chuvas, a tempestade metiam em aventura á
mercê do Acaso, que é o genio das coisas.
A _Hostia de oiro_ era o Sol que um negro do Senegal perseguia no
poente, andando de terra em terra a ver se o colhia para commungar com
os da sua tribu--caminhando por montes altos quando elle tombava, até
que morreu de desespero e saudades em uma terra do Norte, deixando-se
matar e enterrar pela neve quando viu que, depois de dois mêses, a linda
hostia não apparecia. No dia seguinte, veiu o Sol a sorrir,
desenterrando o negro, solvendo a neve, envolveu-o num resplendor de luz
e fez delle uma estrella, que ficou no ceu a velar a sua raça côr de
fuligem e muito especialmente aquella tribu.
A historia da _Camelia côr de mel_ resumia o episodio duma rosa do Japão
que se condoeu dos amores dum indio desprezado por uma mulher branca e
trocou a côr com ella. E assim as restantes.
* * * * *
Passado pouco tempo da entrada na Academia, já Maria Peregrina estava
relacionada com varios camaradas, que logo deram pelo seu talento.
Era o tempo em que os extrangeiros mais acudiam a Athenas a seguir os
cursos de Arte. A mesma razão que levára ahi Peregrina detinha lá tambem
alguns delles, vivendo por educação ou atavismo memorias da velha
Grecia.
Não lhe foi difficil dar por aquelles que mais se lhe approximavam em
perversão e requintes.
Dentro de pouco era intima da Princesa de Tuscolo, uma italiana de 35
annos, principalmente gastos em passeios de luxo e prazer e dum russo,
pouco talentoso, mas culto, homem de 29 annos, com grande fortuna e
ancia de imprevisto.
Iam muitas vezes para Corintho e Corfu, inventando romarias a que não
faltavam luxurias.
Mas sempre a mesma sombra de tedio vinha escurecer a imaginação de Maria
Peregrina, findos os passeios; é que tinha de roçar as scenas vulgares
do que ella chamava a torpeza civilizada.
Uma tarde em que foram todos ao Stadio, vasto circo de feitura recente,
para arremêdo dos antigos exercicios olympicos, Maria propôs que se
arranjasse uma casa onde pudessem commungar sensualidades.
Foi a proposta acceite. E a casa ficou a chamar-se desde logo _Templo de
Amor_.
Era nas immediações de Athenas, a caminho de Kefissia.
Ficava numa encosta, emmaranhada de arvores.
Tinha por fóra o geito grego--cujo risco fôra executado com escrupulo.
Dentro, o aspecto dum templo.
Havia ali reproducções em marmore da Venus do museu de Napoles, de Milo,
Medicis, Capitolio e Troia; de Apollo, e três estatuas de Sapho,
salientando-se a de Pradier, que, dum estrado alto, curvada, parecia
presidir ás danças orgiacas, que a sua memoria suggeria; finalmente, uma
larga profusão de espelhos, luzes, e instrumentos de musica,
sobresahindo harpas, lyras e psalterios.
As _toilettes_ da chegada, no dia da inauguração, lembravam as das
velhas festas da Hellada, pelo esmero com que haviam sido reproduzidas.
Só Maria Peregrina puzera um pouco da sua originalidade no vestuario,
aliás riquissimo.
Entrou coberta por uma _falteta_, á maneira das que usam as mulheres de
Malta, refulgente de finissima renda e pedraria.
Quando appareceu já o _Templo_ estava povoado de adolescentes nús;
tocavam as harpas muito casadas aos violinos.
As luzes num grande desacordo de côr davam ao _Templo_ uma refulgencia
que fazia esquecer a Terra...
A Princesa de Tuscolo e Ivanwitch, que tinham vindo antes, observavam os
adolescentes. Alguns eram do Stadio, gymnastas e _jongleurs_ precoces.
Outros eram ingenuos camponezitos de Corfu; havia lindas raparigas de
Corintho e um anão de Colonia, resgatado havia pouco a uma companhia de
zingaros.
Tocaram as harpas o _Canto de Sapho_ e depois _Rhythmos de dança_, numa
harmonia dolente.
Maria Peregrina chamou duas negras, que, a um canto, cortavam aquelle
mar de luz com os corpos de sombra, e entregou-lhes a _falteta_.
O resto da _toilette_ era uma simples fita larga, de velludo-musgo, que
a enroscava desde o busto aos quadris.
Tirou-a, mostrando as lindas formas em que sobresahia um ventre
perfeitissimo, especie de salva de metal moreno fulgente, peitos de
formas certas, que não temiam desmanchar-se no ardor da dança, e ancas
sumidas, contrastes do typo extranho de _femme-garçon_, de geito a
servirem a flexura rara do seu corpo resumante de sensualidade e
adolescencia...
Todos se desembaraçaram dos vestuarios. Era madrugada.
Começou a orgia pelas _Danças sensuaes_. Extranha gente! Eram rapazes,
flectindo corpos de belleza sobria, linhas puras de desenvoltura suave,
sonhos de Aphrodite, animados; raparigas multiplicando as curvas ideaes
de corpos de amphora, tudo o que havia de excepcional na concepção
excelsa--a melhor argila, modelos supremos do Divino Oleiro.
E, em contraste, como a desenhar o arabesco entre aquella floração de
carne, diversamente colorida, volteava o anão, corpo curto, pernas
rectas, movimentos perros mas certos, carne côr de cerveja, face de
fauno que surgisse do bosque, avido de luxurias e se perdesse num
labyrintho movediço de Belleza...
Começaram as danças em homenagem aos manes da velha Hellada. A Athenas
do vicio estava ali. A outra, a cidade nova, dormia somnos brancos, côr
do casario.
Peregrina dizia, rindo, para os tangedores das harpas:
--De vagar, moderae os dedos.
E para Tuscolo e Ivanwitch:
--Se chega ao Parthenon o echo desta festa, temos ahi Socrates, a
remir-se pela culpa, com uma fileira de sabios, deuses e artistas.
E como falando comsigo:
--No Parthenon é que a festa maxima terá de dar-se. É a primeira joia de
Arte do mundo. Os deuses não a conservaram senão para que ahi fosse a
grande festa pelo definitivo triumpho hellenista.
Mas quando será?!
* * * * *
Em 1900 resolveu sahir de Athenas.
A 28 de novembro recebeu um telegramma de Robert Ross, annunciando que
Oscar Wilde se encontrava em Paris, moribundo.
O romancista, depois duma larga tragedia, seguida de peregrinações
varias por Napoles, Corsega, Sicilia e Roma, foi fixar-se num modesto
Hotel da rua das Bellas-Artes (Hotel d'Alsace), e ahi foi atacado da
meningite que pôs ponto nas suas desventuras.
Apenas recebeu o telegramma, Maria Peregrina partiu com Violet. E chegou
a Paris quando Wilde entrava na agonia.
Não o abandonou até 3 de dezembro, em que foi com raros amigos
acompanhá-lo a Bagneux.
Era uma triste manhã de dezembro.
Á porta do cemiterio desceram a urna os amigos do Artista, conduzindo-o
até á modesta sepultura, por entre fileiras de cruzes e arvores nuas de
folha. Assim fez aquella travessia boa, decerto para elle a melhor. O
tempo calára o vento e a chuva, como por gratidão ao amigo que tanta vez
lhe emprestára alma.
Maria Peregrina seguia o grupo, num passo senhoril, mas hesitante,
pallida, arrastando sobre a greda um vestido negro cahido em tulipa.
Era ao longe uma figura extranha! Dir-se-ia representar ali a vida do
Poeta--misto de genio, perversão, orgulho.