Anno de 1898.
Nesta data chegou a Petersfield, collegio de St. James, onde Maria
Peregrina fôra installar-se, a noticia da morte de Manuel Pamplona.
Tinha ella dezoito annos.
O Collegio de St. James era uma das primeiras casas de educação da
Inglaterra, com destino á aristocracia inglesa e a extrangeiros e
nacionaes de fortuna.
Havia quatro annos que Maria Peregrina entrára, sendo a primeira alumna
do collegio, apesar das extravagancias de genio, que a disciplina
britanica não conseguira modificar e ia indulgenciando em attenção aos
seus talentos.
Recebeu a noticia da morte do Tio com tristeza. Lembrava-se da velha
bulha do _bridge_ nas noites de inverno do Mosteiro, entre o Abbade e o
Thomé, a que elle acudia ordeiro e conciliador; das suas lições de
português e rudimentos de latim, das velhas recitações que elle fazia
sob os arvoredos de Soutello e Lares das obras de Homero, que ao tempo
amava por instincto no seu hellenismo genial; de Sophocles, o poeta que
em si summariava a maravilhosa cultura e floração da Belleza grega, de
tudo emfim que Manuel Pamplona lhe ensinara ou suggerira debaixo das
arvores do Minho--ou nos salões dos velhos solares, duma pretenção
architectural tão portuguesa e ingenua.
--Coitado, dizia á predilecta Helen, como era bom na simpleza de
provinciano, e sabio de coisas classicas, de que sentia sómente o
pautado e regramento do periodo--numa pretenção humanista adoravel!
E lembrar-me de que fui eu quem o obrigou á unica viagem que fez! Ah! a
confusão que sentiu ao entrar em Londres, memorava. E ainda bem, pois
que esse aturdimento lhe anesthesiou o desgosto de deixar-me. Sinto no
peito o seu abraço de despedida, o ultimo abraço, como elle disse a
chorar. Tinha de ser!...
E Helen Green, uma linda adolescente de dezasseis annos, muito enleada
em Peregrina:
--Dize-me, mas a morte do Tio Manuel não prejudica a tua estada aqui,
não é verdade?
--Não. Sei vagamente que posso emancipar-me. Vou escrever á Tia Helena,
a tomar parte no seu lucto--deve estar consternada! e ao procurador a
mandar que promova a minha emancipação immediatamente. Depois traçarei,
á vontade, o novo plano de vida.
--E a emancipação não te pode ser recusada? inquiriu Helen.
--Pode, mas não o será, porque vou recommendar ao José Lourenço que se
entenda com os do conselho da familia, estimulando-os, sem olhar a
despesas. Confio absolutamente nelle. É fino, ladino, e... minhoto. E
olha que o Codigo de expedientes do Minho, minha querida, vale as leis
inglesas, concluiu beijando Helen.
* * * * *
Passaram mêses sobre a morte de Manuel Pamplona.
Maria Peregrina trabalhava no quarto, segundo o costume áquella hora,
quatro da tarde, escrevendo vagarosamente, quando vieram annunciar-lhe a
visita dum português. Desceu ao salão, intrigada. Quem seria o
português? Teve a maior das surprêsas! A um canto do salão, discreto,
attento á decoração das paredes, dando voltas ao chapeu, de roda de
palmo, estava o procurador.
--Oh José Lourenço! exclamou Peregrina, como quem chama por uma visão a
desapparecer, pois és tu? Em Petersfield! E, vendo-o caminhar para ella:
--Venha um abraço; quero abraçar o Minho nas abas de Londres!
E o José Lourenço, com os olhos e a voz rasos de lagrimas, baixando-se
para a abraçar na cintura, reverente:
--É verdade, senhora Morgada, vim dar conta do recado de V. Ex.ª e
receber novas ordens. A Maria tambem queria vir, mas lá me pareceu de
mais.
Que, a bem dizer, o que aqui me trouxe foram as saudades. Ha tanto tempo
que não via a Fidalga. E a Maria, tinha tantas saudades como eu,
coitada! Lembra-se todos os dias do tempo em que a apartou. Ainda outro
dia lá appareceu um senhor a pedir colheita e ella esteve todo o serão a
falar da senhora Morgada, a ponto que se ia zangando porque elle se riu,
quando ella disse que V. Ex.ª era a menina mais linda que havia no
mundo. E, a falar verdade, que féra está! Dá gosto vê-la assim. Que
linda! Como a Maria havia de gostar de vê-la!
O tempo córre. E o que faz o sangue! As raparigas do Mosteiro da creação
da Fidalga estão umas lambisgoias. A não ser a prima de V. Ex.ª que
tambem, não desfazendo em ninguem, está um anjo. Das outras nem falar...
--Pára, José, disse Maria Peregrina desnorteada com a loquacidade do
procurador. Havemos de falar muito do Mosteiro, das pessoas que temos
pelo Minho, mas antes de mais, interessa-me saber como déste com
Petersfield.
--Muito facilmente, senhora Morgada. O vinho do Mosteiro é, como a
Fidalga sabe, o melhor vinho de Portugal e creio até que do mundo, pois
que elle vae para toda a parte...
--José! Não te esqueças da minha pergunta. Queria eu saber como déste
com Petersfield, observou Maria Peregrina, impaciente e medrosa da longa
historia dos vinhos verdes...
--Perdôe a Fidalga, a gente não sabe falar, mas era o que eu ia para
dizer. Ia contar que o vinho do Mosteiro é muito procurado, e dahi
vendê-lo cedo a uma casa do Porto, que tem agentes inglêses. Entendi-me
com um agente, que todos os annos vem a Inglaterra. Fizemos viagem
juntos e estou certo de que se o perdesse já não ficava por cá. Ia
direito para o Minho. Eu podia ter escripto a V. Ex.ª e forrar o
dinheiro da viagem, mas tinha saudades da Fidalga, além de que tinha
gosto em vir dar parte a V. Ex.ª de que está emancipada e ninguem mais
manda no que lhe pertence. Os homens a principio oppunham-se á
emancipação, que era cedo, e não constava um caso assim, demais
tratando-se da maior fortuna do Minho... Afinal, tudo se remediou.
--És um letrado, disse Maria Peregrina. Espera: quero mostrar-te a uma
pessoa amiga!
E, levantando-se, foi chamar Helen, que entrou, passados minutos,
quedando, curiosa, deante do Lourenço, que a cortejava, mesureiro.
--Que curiosa figura! dizia Helen, passeando os olhos de turquesa sobre
o corpo athletico do velho, cingido no burel grosso do vestuario, de
calça em polaina, bota de prateleira, jaqueta alamarada, e um grilhão de
oiro á laia de corrente.
--Que curiosa figura! repetia a inglesa, approximando-se mais do
Lourenço.
E voltando-se para Peregrina:
--Que vaes fazer delle?
--Primeiramente, hei de passeá-lo por Londres. Sabes que estou
emancipada--o que equivale a dizer que mando em mim. Heide levá-lo a
toda a parte. Quero sentir as suas impressões no Hyde-Park e Camara dos
Communs. Tenho pena de que o humor inglês não vença as complicações do
protocolo da tua Côrte, pois fazia gosto em apresentá-lo em Windsor!
E dando pela attenção baldada do velho á conversa em inglês:
--Estava a dizer que iamos passear muito. Quero que leves que contar
para o Minho.
--Sim, minha senhora, como a Fidalga quizer, mas eu precisava de estar
lá para as malhas, de amanhã a três semanas, arriscou o Lourenço,
reverente.
--Estarás, havemos de arranjar tudo. Descansa.
E ficaram os três, á puridade, no salão do collegio, estudando,
discutindo o Minho.
--Aproveita, Helen! dizia Peregrina. Eu traduzo-te o velho. Olha que é a
primeira vez que o Minho authentico atravessa a Mancha...
* * * * *
O Collegio de S. James dava á instrucção literaria o logar competente.
As aulas de letras começavam ás nove horas.
Rapazes e alumnas tinham educação conjuncta em varios ramos de ensino, e
designadamente em _sport_. Entendeu a Pedagogia que era preciso preparar
creaturas fortes. O Collegio de S. James executava á risca os votos dos
congressos. Facultava a mais vasta educação, instruindo pelo livro,
pratica de laboratorios, trabalho de officinas, jardinagem, etc., isto
na maior liberdade de acção compativel com a ordem, no proposito de
extremar vocações e especializar talentos. Rapazes e raparigas
aproveitavam as sombras do arvoredo, que abraçava o collegio,
conversando, pintando do natural, jogando, á vontade, numa confiança
mutua de professores e alumnos.
Para o inglês o culto da natureza livre é a razão maxima da sua forma de
sentir a Liberdade. Maria Peregrina, uma peninsular, com sangue de casas
reinantes decahidas, caldeado de globulos extranhos, e uma imaginação
escandecida pela sobreexcitação dos talentos, recebeu de começo com mau
senho aquella imposição de força ingenua, que dominava o collegio.
Mas, pouco a pouco, foi-se achando bem. Como tinha caracter nos defeitos
adquiridos e congenitos, aproveitou o que lhe pareceu de molde a
serví-los, relegando o ensino que toldava o seu hellenismo nascente,
collidindo com o genio do Sul de que ella era expressão.
--Ah! dizia em conversa de camaradas, no _hall_, ri muito dos do
conselho de familia, quando me destinaram para _menina de collegio_.
Coitados, entendem que todas as aves se dão em gaiola. E que na mesma
cabem pardaes e aguias...
Afinal, vim na idéa de ver a Inglaterra e seguir mundo. Com o pretexto
de experimentar collegios, ia vendo terras e educando-me por mim e para
mim, como sempre desejei; mas certo é que me tenho achado bem...
--É que as gaiolas na Inglaterra são folgadas, disse Edgar Buckley, um
bello rapaz do bando, dezoito annos, loiro, irlandez de nascimento e
coração, de physionomia severa e sympathica.
--Não é isso, advertiu, meigamente, Peregrina, fitando Helen. É que
achei em Petersfield a creatura que me deu alentos á exteriorização da
minha Arte. Eu tinha latente um amor exotico que não achava apoio algum
fóra de mim, e, portanto, não podia vir a publico sobre forma alguma. A
Arte é sempre uma expressão de amor. Só produz quem ama. Que esse amor
seja bom, ou mau, que importa! O que é preciso é amar.
--Maria Peregrina! arriscou Edgar, sabes que commungo comtigo na
admissibilidade do amor extravagante; mas parece-me que este amor deve
ser accidental. Ámanhã, quando sahirmos do collegio, iremos todos cahir
no amor vulgar; e, a falar verdade, supponho que sobretudo áquelles que
têem talento isso convém. Pois não é certo que o amor extravagante nos
degenera e gasta?
--Eu te digo, Edgar, ha duas maneiras de considerar a Vida:--vivê-la
para o espirito, para a Arte--numa tensão firme de Belleza, e vivê-la
como o commum da gente--almoçando, dormindo, trabalhando á hora,
realizando num dia trabalho egual ao do dia seguinte, e talhando em
vinte e quatro horas o programma, a obra de vinte e quatro ou quarenta e
oito annos. Para estes não importa o amor exotico. E convenho que os
prejudique se o tentarem... Mas para os outros, os da vida superior,
muito longe de lhes prejudicar a obra e o destino, creio que lhes dá em
Belleza o que perdem em felicidade. Não leste de certo, o que ha
escripto ácerca da cultura dos homens na Grecia? Nietzche, por exemplo,
affirma a supremacia do vicio; esclarece--«que as relações eroticas dos
homens com os adolescentes foram, duma forma que nem nós chegamos a
comprehender, a condição unica, necessaria de toda a educação viril; que
todo o idealismo da força na natureza grega se baseou em taes relações;
que o commercio sexual regular baixava ao passo que se ia elevando a
concepção daquellas relações».
--E parecem-te, perguntou Edgar, certas, essas theses?
--Absolutamente verdadeiras. Condizem com os estudos a que me tenho dado
da civilização grega, e de o entender assim a minha concepção nova de
Hellenismo, o Poema que estou urdindo e vou publicar.
--Já agora, Peregrina, como teus admiradores, creio que temos direito a
saber o entrecho do Poema. A tua Arte é tambem nossa.
--Claro, insistiram os do grupo, que eram o companheiro constante de
Edgar, Hugh, um adolescente de olhar quebrado, vago; Violet, uma
rapariga tambem inglesa, de olhos e cabellos castanhos, de andar suave,
e fala cantada; e Helen, a predilecta de Maria Peregrina.
--Pois vou explicar-vos o Poema, já que desejaes interessar nelle, disse
a portuguesa, sentando-se.
Conheceis, de certo, até pelas nossas conversas, a poetisa Sapho. Muito
se tem escripto sobre ella. Não ha noticias claras da sua vida e obras.
Pertence, principalmente, á lenda. As suas _Odes_, como cerca de setenta
fragmentos reunidos nas _Lyrici graeci_ de Bergk--não são de molde a dar
notas seguras acerca do que foi.
Um facto é assente--o valor da sua extrema figura. Qual a reproducção
mais legitima segundo a Arte? O Vaticano possue uma estatua de Sapho,
sentada num rochedo, meditando; em Napoles ha uma pintura encontrada em
Herculanum e um busto em bronze; modernamente occuparam-se della muitos
auctores. Tenho reproducções dos trabalhos de Gros, Ramey, Duret,
Diebolt, Clesinger, etc. Trataram em opera a tragedia de Sapho--Angier
(musica de Gounod); e Salm (musica de Martini). A idéa dos seus
presumidos defeitos deu ainda logar a um romance de Daudet--aliás
inferior, pois que o artista trata incidentemente de Sapho em duas
linhas, dando a Fanny Legrand, a heroina, aquelle nome, porque ella
veste uma historia que tanto podia ser a de Sapho, como a de qualquer
nevrotica, dada a volupias e violencias. O que é assente, emfim, é que a
critica tem oscillado na sua maneira de entender a poetisa, sem ver
nella o contraste do espirito grego num largo instincto de generalização
e triumpho pelo amor exotico.
Assim a considero e vou cantá-la.
Para mim, Sapho foi a mulher de genio que acceitou como um facto a
homosexualidade grega, o desprezo transitorio pela mulher, e tirou dahi
estimulos para a sua campanha de amor, independentemente de preconceitos
de sexo--fundando a sua escola para levar á civilização áttica a quota
parte que lhe devia a adolescencia feminina, o mundo-feminino, em uma
demonstração de vicio e genio que eram parallelos ao genio e vicio que
contrastavam as maiores figuras do hellenismo.
Ver do conflicto entre o seu valor e o desprezo pelo sexo, sentir o
culto de si propria, historiar e reproduzir a hypercivilização grega e
fazer dessa mulher sublime o ponto culminante, a expressão de synthese
da sensualidade dum povo que aspirava ao _contrôle_ da civilização do
mundo--tal é, meus amigos, a razão do meu Poema, a concepção do livro
que tenciono publicar com o titulo--_Nova Sapho_. Porque é uma nova
_Sapho_, concluiu, a que espero desvendar.
Os presentes, desde muito industriados no amor lesbico por Peregrina,
com leituras tendentes a desculpar-lhes o peor da vida hellenica, tinham
preparação bastante a comprehender a tessitura do Livro. Applaudiam-no,
sobretudo, pelo arrojo de lançar a publico a idéa dissolvente do amor
extravagante.
Todos se mostraram surprêsos, mas cheios de admiração pela creatura
invulgar que supremaciava sempre na roda em que estivesse, e que
decididamente ia dar que discutir.
--Curiosa faina! dizia Edgar, baixando o olhar...
E todos se deram a commentar a intenção e episodios em que a auctora
repartia os cantos, até que vieram as trez horas dissolver aquella
inesperada academia, num collegio, a poucas leguas da utilitaria
Londres!
A campainha badalára o signal para o banho. Alumnos e alumnas
separaram-se em direcção ás respectivas piscinas.
* * * * *
As casas de banho eram distanciadas, nas extremas do recreio. A dos
rapazes era um alpendre espaçoso, com dois panos de tijolo, columnas e
um coberto escuro de lousa miuda, que dava, de longe, por entre a
ramaria, a impressão selvagem dum enorme dorso de crocodilo.
Naquella tarde, segundo o costume, os rapazes correram todos para o
alpendre. Em minutos, professor e alumnos tinham despido os fatos. Tudo
mergulhou. Só Edgar e Hugh se deixaram ficar junto ao tritão;--Edgar
muito triste, distrahido, de busto inclinado, parecendo desembaraçar-se
da roupa com desgosto; Hugh muito mirado no corpo do companheiro, já nu,
de pé, attento e á espera para mergulharem juntos.
Soberbo quadro o dos rapazes que á beira do lago acamaradavam com o
tritão, num grande contraste de belleza!
O Tritão era a força rude, o abraço forte da terra e do mar, meio-peixe
e meio-homem, o genio mysterioso, assistindo interessado ao que os dois
diziam, num silencio de confidente.
Hugh era a belleza vulgar, a media da belleza adolescente, firme nos
traços, duma carnação que era um calendario a marcar-lhe a edade, sem
uma nota de imprevisto.
Pelo contrario, Edgar era a excepção:--a belleza áparte, no contornado
do seu corpo branco, suavemente tatuado de veias roxo-lirio, sem um
traço a mais, uma flaccidez destoante, um descuido de lançamento.
Inclinado, repuxava as pernas, deixando adivinhar as rocas perfeitas de
seus musculos, que tão bem lhe jogavam a gentileza do corpo, forte e
airoso, flectindo-o numa harmonia suprema de linhas.
--Que formoso és! disse o companheiro.
--De que vale sê-lo, reflectiu Edgar com tristeza. A natureza quando nos
engendra devia logo equilibrar a alma com o corpo e eleger com as nossas
tendencias a mulher de tendencias equivalentes que tivesse de
pertencer-nos.
--Ah! exclamou Hugh, percebo. Estás apaixonado por Maria Peregrina. E
querias que a natureza te destinasse em Londres uma companheira de
Portugal...
--Não brinques. Sei que me é fatal o amor que tenho por ella.
--Que fazem? inquiriu o professor de natação, por entre os gritos e o
espadanar da agua que sahiam daquelle lago.
Subito, os dois rapazes moveram-se como duas estatuas que resolvessem
partir; levantaram as mãos em seta e mergulharam na primeira clareira.
A piscina era um lago de carne. Curioso espectaculo! Ephebos de jaspe,
remando corpos desenvoltos... Eram os amantes aguerridos do heroe de
Carthago; Apollo, Adonis, Ganymedes! Memorias tomando banho...
As piscinas destinadas ás alumnas eram abrigadas por uma casa ampla,
repartida em cellas, com mobiliario e objectos ligeiros de _toilette_.
Havia duas tinas quadradas de dez metros e de diversa altura, para
receber as alumnas, segundo o adeantamento em natação.
Abastecia-as de agua uma Esphinge de lavrado exotico:--cabeça de
escocêsa, peito amplo montado em corpo de leão escanzelado, e tendo á
laia de asas pennas ralas de milhafre. Era o monstro de Thebas peorado
pelo canteiro inglês, vingando as victimas do Enigma.
Certo é que a filha de Typhão parecia ter resurgido do mar e, esquecida
do aggravo de OEdipo, golphava da boca larga e mal talhada columnas de
agua.
Á hora do curto dialogo de Edgar e Hugh desciam as raparigas ás
piscinas.
Lestas, seguiram quasi ao mesmo tempo para o patim da tina alta. Entre
Helen e Violet ia a portuguesa. A brancura das inglesas emprestava luz
ao corpo de mel de Maria Peregrina, que sobresahia pela desenvoltura de
linhas. Todas usavam um calção curto e camisolim decotado, justos. A
malha de Peregrina era de seda morena, como o corpo que apertava. Não o
escondia, sophismava-lhe a obrigação do vestuario, tornando-a mais
bellamente nua.
No patim as três hesitaram; depois foram descendo. A ultima a entrar foi
Peregrina que impelliu Helen, suavemente, pelas ancas; segurou,
distrahida, o cabello farto, anelado e selvatico, e ficou-se a seguir
com o olhar o corpo branco da companheira, a boiar na tina funda.
Só, de pernas colladas, braços levantados como segurando a cabeça
esbelta, Maria lembrava um gomil precioso de olaria rica que um principe
tivesse ido encher ao lago e ahi esquecesse.
Foi a ultima a entrar e a primeira a sahir. Deu volta ás duas tinas,
arando a agua em sulcos dum desenho desmanchado e sahiu, mau grado os
protestos das companheiras.
Um quarto de hora depois partiam todas para as cellas-barracas.
Helen ia a entrar para a sua, mas recuou, suppondo enganar-se. Estava
occupada por Maria Peregrina que acudiu a chamá-la.
--É esta a tua barraca, informou, abraçando-a. Sahi mais cêdo do banho e
vim para aqui para te enxugar com beijos.
--Olha que estou molhada, dizia Helen, achegando-se do lençol.
--Estás molhada? Não importa. Deixa morder o teu corpo velludoso de
asclepia. Tenho sêde para te beber toda, dizia de olhos chammejantes,
fremindo os labios pelo corpo branco-humido da inglesa.
E sorvendo-lhe as extremidades crestadas do peito:
--Sabes a historia destas lindas nodoas? Não sabes, minha tonta, vou
contar-ta.
São dois peccados. Deus tinha apartado uma nuvem branca para fabricar
petalas de magnolia. Sabes que não se pode tocar em taes flores;
escurece-as um carinho.
A sua mão deu-se a modelar-te, por capricho daquella massa--a das flores
sensiveis.
Pôs um cuidado especial no peito que te repartiu em globos medidos pela
sua mão divina, e a que deu a maciez das petalas e o calor das rôlas.
Pois o maroto de um anjo que o viu distrahido foi, guloso, dar-lhe dois
beijos. São estes pedacitos crestados, rematados por agulhetas finas,
que ainda ha pouco pareciam romper-te a malha e me beijaram quando as
beijei.
--Muito interessante o conto, commentou a inglêsa, rindo.
E abrindo os braços:
--Venha de lá esse lençol de beijos. Quero sentir os labios que dizem
tão lindas historias...
* * * * *
Passaram mêses. Uma tarde, estava Peregrina no quintal a tocar violino
junto á Fonte Verde, de costas para a alameda, quando ouviu a
folhagem...
Voltou-se.
--Ah! és tu? disse com enfado a Edgar, que avançava para junto della,
sentando-se á beira da Fonte.
--Sou eu que estou aqui a ouvir-te ha muito tempo. Que bem comprehendes
o violino!
--Então, dize o contrario, que bem que o violino me comprehende,
respondeu ella, pois que improvisava musica sobre motivos meus.
--Era uma despedida--a despedida de Helen, não é verdade?
--Era, sim:--anesthesiava-me. As ondas de musica podem ser ondas de
ether para a Artista que pudér bem mergulhá-las. Por mim não posso. Não
sei esquecer, pois que despendo bastante trabalho a fixar... E o culto
que tenho pela musica não vae até apagar-me os defeitos ou virtudes do
temperamento.
--Tens então muitas saudades de Helen? Dentro de breve tempo estará ella
nos braços dum _gentleman_. Conheço John Brooke de casa de meu pae. É um
diplomata muito querido da aristocracia. É bastante mais velho do que
ella, mas hãode ser felizes. O casamento foi arranjado pelos paes. Mas,
a proposito, deve dizer-se que ha paes que acertam... A que melhor podia
aspirar? Bem sei que te dóe a sua ida. Persistes em negar a natureza. No
fim ha de succeder-te o mesmo; regressarás a ella mais cedo ou mais
tarde.
--Não fales assim, Edgar, se tens algum empenho em ser-me agradavel. Tem
caridade comtigo.
--Sabes, Maria, que é por caridade para commigo que penso assim. Por
caridade commigo e por amor de ti. Ha que tempos te amo! Chegava a ter
ciumes de Helen, que entrava passivamente nas tuas loucuras.
Conversava-a sobre os vossos delirios. Tinha um prazer amargo em
acompanhar pela dor o vosso fremir de corpos, que nunca podiam casar-se.
De toda a tua philosophia só para mim resultou um bem:--estar ao pé de
ti, ouvindo os echos duma alma a despedaçar-se num conflicto que tem um
unico suppuradouro--o teu talento. O encanto que derramas não podia
vencer a natureza, subjugando a mulher que escolheste. Conversa-a daqui
a mêses. Creio que o casamento é breve. Verás que mal se recorda do amor
em que a usavas. Ah! mas o encanto das tuas palavras, como o talento dos
teus defeitos não se perdeu. Tenho tudo no peito. Tinhas ao teu lado
alguem que te amava religiosamente...
--Sem me comprehender, objectou Peregrina.
--Não digas isso. Amar é comprehender. Vê como eu, do Norte, me sinto
meridional ao pé de ti, só para te pedir um pouco de tolerancia para
este amor que recebes como um peccado. Dize o que queres que faça para
merecer-te!
Queres que a teu lado seja o pregoeiro do amor exotico, explicando que
os nossos corpos se não entendem; que os nossos laços são um commercio
do espirito? Comprarei essa mentira por toda a casta de infamia, e irei,
de alma lavada, prostituir-me ás casas de pederastia que houver ou
tivermos de inventar. Como esbanjas a fortuna dos teus encantos! Tens o
talento de te fazer amar, mas não sabes amar...
--Basta, Edgar! Bem dizia eu:--não me comprehendes. Não extranho. Eu
sou, de facto, um enigma, o arremêdo da Esphinge, que o capricho dum
canteiro exprimiu em pedra á beira do lago. Sou o monstro de Thebas, que
resurgiu em fórmas novas. O que vês é o meu avêsso. Não me percebes! Não
te devorarei, como o antigo monstro fazia a quem lhe não decifrava o
enigma. Petersfield não é bem o monte de Thebas e a Esphinge de hoje tem
de ser uma Esphinge civilizada...
Vou explicar-te o enigma que sou. Dizer-te como sou.
Tenho a cabeça das mulheres de Granada, talhada em sombra e sonho; o
peito é português; assento o busto no torso de Leão, que é do escudo das
minhas armas e das armas da Peninsula,--a bravura do Ocidente; as minhas
asas são o genio judaico--a tara duma raça, perseguida, que ninguem
acceita, que não acceita ninguem...
--Vamos daqui, Edgar, concluiu num riso amargo.
--Maria, pediu o irlandês, um instante apenas!
--Vamos!
E partiram os dois, silenciosos, perdendo-se no borborinho dos que
batalhavam o _tennis_ num recanto do recreio...
* * * * *
Passou um mês. Chegou a noite de nupcias de Helen.
Meia noite. Maria escrevia sem cessar desde as 9 horas. Subito sentiu
mexer na porta. Levantou-se e foi abrir.
Á porta estava Edgar, a tremer de commoção, cingindo uma capa leve,
redonda pelos joelhos.
--Entra, disse-lhe Maria.
--É então certo, meu amor, que te condoeste de mim? Imaginei ao ler o
teu bilhete que não era verdadeiro. Não podia ser. Tu não podias
querer-me. Quasi me não falavas depois que te revelei o meu amor. E
assim, de repente, um recado para que te viesse possuir... Que estranha
és! Que abençoado momento te inspirou, dizia elle abraçando-a... Foi o
genio do amor que preside a tudo, que sabe quanto a minha vida te
merece.
Mas, vejo-te tão morna, depois duma resolução tão nobre...
Maria, sê minha devéras. E conta-me o que te levou a chamar-me. Dize-me
que me queres. Que sou o escravo do teu amor...
E, solto da capa, apertava-a contra o corpo, despindo-a, e listrando a
beijos a sua carne morena...
E ella, afastando-o com mansidão, deslumbrada:
--Deixa-me ver-te com olhos de Artista. És bello, realmente!
E desapertando-lhe a malha lilaz:
--Despe tudo isso, quero ver-te bem. A historia do bilhete é simples.
Recebi esta manhã carta de Helen. Casou hoje. A esta hora deve estar com
o noivo; lembrei-me de tirar uma copia do casamento... Quiz ser possuida
ao mesmo tempo que ella, e lembrei-me de ti!
Demais, sempre no meu ponto de vista de Arte, não me é indifferente
noivar com um rapaz tão bello como tu.
--Maria! Despe a intelligencia e entrega-te! Veste, como eu, o espirito
de animalidade, e deixa que a nossa carne se entenda.
E, abraçando-a, lançou-a sobre a cama estreita, collando a sua boca á
della, e emmaranhando-se-lhe nos cabellos, que, desmanchados, desceram
como uma segunda noite, a agasalhá-los...
Sobre a madrugada Maria Peregrina afastou, suavemente, os braços de
Edgar e disse-lhe com fleuma:
--Vamos, arranja-te. Creio que não quererás que te procurem aqui.
--Conforme, disse elle, se o facto de nos encontrarem aqui nos obrigasse
á união para sempre, gritaria já daquella janella o meu triumpho. Porque
foi um triumpho para mim esta noite, não é verdade? dizia mordendo os
labios vermelhos de Maria. Quebrei o Enigma. A Esphinge era uma mulher,
embora a mais preciosa das mulheres, a unica que Deus poderia dar-me e
tambem a unica, Elle sabe, que eu lhe pedi!
Eu andava ha muito a procurar-me. Perdera-me a sonhar... Encontrei-me em
ti. Vi-me á luz negra do teu olhar, fluido de amor e perdição. Os teus
olhos são como o genio da aventura:--reflectem amor, lucto, Belleza
dolorosa... Como sinto os enleios negros do seu fulgor, penumbras de
sonho e loucura!
Vejo atravez delles a alma da tua raça--aquella que elles discorrem,
fataes de amor.
Adivinho-me junto de ti na primeira hora em que viveste, aquella em que
odiaste outra luz, e exclamo:
--Ahi está a Artista, uma Raça que vae chorar, cantando; recemnasceu o
crepusculo do grande povo, aquelle que viveu madrugadas e vae morrer
Poeta, amortalhado na sua alma de sombra.
No teu corpo de marfim e sêda, realizou o Divino da Belleza um sonho
luxurioso, aquelle sonho que Elle viveu um momento, confundindo-se em
ti, em mim. Escreveu na tua boca de dahlia a nova redempção--a prophecia
de prazer que o universo syllába a mêdo e que os teus labios franzem,
reprêsos de amor. A Vida é o Amor, o nosso Amor... Como recordo a Noite!
Tudo o que havia de voluptuoso ella atrahiu e teceu, descendo,
interessada, a possuir-nos.
Sinto o roçar velludoso do seu tecido de mysterio e vicio. E chego a ter
zelos das suas caricias. Só tu devias ser presente. Eu proprio queria
ser ausente... em ti. Houve no nosso amor um erro, o genio da tua carne
que um momento interessou tudo!--Oh! como odeio a Noite, a sombra
immensa de todos os delictos e volupias que o Ceu espectra para vingar a
pureza, a abstinencia eterna...
Soffro e amo o teu genio--o genio do erro que me faz abdicar de mim,
mirado nos encantos da tua figura de chamma, ateada de imprevisto.
Como te amo! Transformas tudo. Se até solves a nevoa que turva o olhar
da minha raça!...
Vê como eu, que sou da nublosa Irlanda, me sinto peninsular ao pé de
ti...
Mas que passividade é agora a tua? Então, minha querida, fala! Olha que
já não és a Esphinge...
E, tocando uma minitura de esmalte, florida de diamantes:
--Deixa ver isto; quero ver, com vagar, o teu unico traje desta noite. É
lindo vestir sómente uma joia na noite de nupcias.
E reparando:
--Ah! é a Sapho de Pradier.
Perdôo-lhe porque esteve calada... Foi discreta.
--A peor Sapho para ti, Edgar, não foi ella, fui eu. Digo-te, com
desgosto, que a Esphinge permanece. Nem um só minuto vasei a minha alma
na tua!
Não me arrependo do que fiz, pois que consegui o que esperava,--soffrer.
Foi uma noite que sacrifiquei á minha saudade. E deu-me volupia o
soffrimento, como dá sempre. Mas lembra-te de que te vejo hoje peor do
que nunca. Eu sou como os aleijados que não perdôam aos que possuem
corpos sãos. A minha alma é doente, não perdôa a tua alegria em
possuir-me á custa dum prazer de que eu soffri o avêsso--ondas dum
horror que hade durar...
--Por quem és, não me relegues ao inferno depois de possuir-te. Irei
para onde fôres. Já ninguem nos separa. Respeitar-te-ei todos os
caprichos, até loucuras, que eu sei que o genio as tem... Só uma coisa
quero--o direito de fundir a beijos o teu corpo...
--Basta, Edgar! disse ella, dando-lhe a capa e acompanhando-o até á
porta. Deixa-me! Não exasperes a minha sensibilidade, duplicando o meu
horror por ti. Vae!...
E, fechando a porta sobre Edgar, que descia cauteloso e somnambulo a
escadaria, foi, semi-nua, como estremunhada, procurar no segredo dum
movel o retrato de Helen, que ficou a fitar por largo tempo.
* * * * *
No dia seguinte tentou Edgar falar-lhe. Queria discorrer sobre a noite
antecedente, aquella noite que lhe custara canseiras e milagres, pois
que teve de atravessar pavilhões ás escuras, saltar e assaltar janellas,
resolver difficuldades, até que, vencida a mulher dos seus desejos, a
via, de subito, despedi-lo como uma creatura desprezivel, porque a
amava!...
Que extranha aventura! Podia ser? Mas quando ia para se approximar,
sentia uma tal commoção... depois, parecia tão firme o proposito de
Maria em afastá-lo, que elle proprio, sentindo por si a repugnancia que
lhe inspirava, era o primeiro a fugir, corrido.
Succediam-se os dias até que Edgar soube por Violet que Maria Peregrina
ia sahir do collegio no sabbado seguinte. Assim o fôra participar ao
director. Era uma segunda-feira.
Edgar, desesperado, tentou o ultimo reducto. E, decidido, procurou a
hora em que Maria, segundo o costume, ia abancar junto á Fonte.
Estava lá, de facto. Viu Edgar e baixou os olhos sobre um livro que
tinha aberto, sem ler.
Elle chegou junto della e começou a falar-lhe resoluto. Mas, pouco e
pouco foi perdendo a serenidade, ao passo que ia lendo na physionomia da
amante o horror que lhe inspirava.
--Queria saber, começou, se era verdade que ella ia sahir do collegio.
Tinha o direito de sabê-lo, pois que o acaso os juntára, e elle estava
resolvido a seguí-la; uma palavra sua de amor, de benevolencia apenas,
era sufficiente...
--Basta! disse ella, fitando-o com decisão. Não me canses.
E levantando-se:
--Respeita a minha sensibilidade, mesmo que não a comprehendas.
Deixa-me!
E metteu pela ala da esquerda, deixando Edgar aturdido, junto á Fonte.
Na manhã immediata, elle levantou-se cedo. Foi para a casa de estudo e
escreveu durante dois quartos de hora; a seguir foi á sala das armas e
dahi para a quinta, onde passeou até ao almoço--oito horas e meia.
Acompanhou as aulas até á uma hora. Foi ao dormitorio vestir um fato
ligeiro de _football_, mas mal entrou no jogo. Falou por espaço de meia
hora com Hugh; e emquanto este seguia com os demais alumnos para o
_tennis_, Edgar desceu rente ao muro, a internar-se nas sombras.
Passado tempo ia Maria Peregrina para junto da Fonte. Levava o violino
para tentar um trecho de Wagner, em que Edgar tinha falado.
Momentos antes, dissera a Violet:
--Afinal, é sensibilizante a amargura do pobre rapaz, mas não posso
soffrer o horror que me causa a perfeição daquelle systema de nervos tão
bem ajustados a um corpo magnifico, e tudo ao serviço dum amor normal,
duma animalidade de cavador!
De repente avistou a Fonte, e, a seguir, um corpo estendido a alguns
palmos da vasa. Apressou o passo: era Edgar!
--Edgar! Edgar! chamou.
Nada...
Sacudiu-o, e o corpo abandonou-se-lhe. Maria Peregrina, recuou; pôs-se a
examiná-lo: estava de bruços, com o ouvido direito collado á areia, o
braço esquerdo ao longo do torso e o direito estendido para a frente,
tendo na mão um revólver.
Percebeu então; estava morto:--suicidára-se.
--Pobre rapaz! disse a meia voz. Que lindo!...
Edgar vestia simplesmente:--camisola de sêda preta, calção de linho
branco, e sapatos de camurça cinzenta, solados de borracha.
Assim viera do recreio dos jogos.
Maria Peregrina ajoelhou junto ao cadaver e metendo a mão pelo calção
largo, pôs-se a afagar-lhe a coxa luzente. Depois flectiu-o, voltou-o,
subiu-lhe a camisola até ao peito. Subito, deu com três cartas. Leu os
endereços: uma era para ella! Lá estava na letra muito firme de Edgar,
escripto o seu nome; as outras duas eram--uma para o director, outra
para o pae, o sr. Buckley.
--Pobre Lord, exclamou, como hade ficar!...
Guardou a carta que lhe era destinada, e ficou a contemplar aquelle
corpo, côr de tocha.
--Que bello, no seu ar de crepusculo! murmurou. Mas que rictus o da sua
boca dolorosa!
E, de repente, como obedecendo a uma força intima, baixou-se mais,
beijando-lhe a pelle de cera; cahiu sobre o cadaver, soergueu-lhe a
cabeça, collou os labios á boca-lilaz do morto, e ficou por minutos como
que adormecida sobre elle...
Depois levantou-se, examinando a mão e o braço com que o soerguera.
Sentira na mão um liquido; era o sangue que borbulhára do ouvido direito
do suicida.
Pousou outra vez na areia, a cabeça de Edgar. Foi lavar-se á Fonte;
compôs o cadaver e ficou ainda uns minutos a contemplá-lo.
--Que lindo estás! disse-lhe, quasi ao ouvido; e como gostaste dos
ultimos carinhos! Já não tens o rictus de ha pouco...
Leio as nossas pazes á luz roxa do teu sorrir de morto!
E beijando-o:
--Parto contente. Adeus!
V
Dias depois do drama de Petersfield, estava Maria Peregrina installada
na Praça de Trafalgar, em Londres, no Hotel Metropol.
Acompanhava-a Violet, que sahira do Collegio com ordem da familia,
ordenado estabelecido, e auctorização de seguir com ella durante o tempo
do contrato--cinco annos.
Ás tres horas, veiu um creado annunciar a chegada duma carruagem.
Violet compôs a _toilette_ de Maria e esta sahiu depois de breves
recommendações.
--Manda seguir para a avenida Northumberland, n.º 1013, disse ao
trintanario.
Pouco tempo depois parava a carruagem.
Maria Peregrina entrou no vestibulo da casa indicada.
Perguntou se estava Helen Brooke e entregou um bilhete.
--Vou ver, disse o porteiro.
Voltou dahi a pouco, e informou:
--Está, mas não recebe.
--Como assim? inquiriu Maria.
--Foi a ordem que me deram...
--Manda andar para o Hyde Parck, disse ao trintanario, já na rua,
voltando as costas ao porteiro.
A carruagem seguiu.
* * * * *
Na manhã seguinte, ás nove horas, trabalhava no gabinete de estudo,
quando chegou o correio.
Dentre o maço de correspondencia, foi extremando as cartas de letra
conhecida. Leu-as com vagar e interesse, sobretudo as que vinham de
Petersfield, dos antigos companheiros de collegio.
Passou a abrir as revistas, maços de livros, etc. Dentre as cartas
desconhecidas tomou uma, ao acaso. Foi ver a assignatura. Leu com
extranheza: John Brooke.
A carta dizia:
«Estava hontem em casa quando V. Ex.ª veiu para visitar minha mulher.
Fui eu quem prohibiu que fosse recebida. Helen pôs-me ao facto das
antigas relações entre V. Ex.ª e ella. Porque me não convem nesta casa,
entendi dever dar-lhe parte da minha resolução».
Maria Peregrina leu com attenção a carta. Releu-a, como se quizesse
certificar-se da primeira leitura e escreveu por minutos.
Depois chamou:
--Violet!
A inglesa appareceu quasi logo.
--Lê; e estendeu-lhe a carta de Brooke. Ahi tens a explicação da forma
porque fui recebida.
Agora vê a resposta, e deu-lhe a folha recem-escripta.
Violet leu alto:
Meu caro Senhor!
Sei o que Helen lhe disse, porque sei o que ella, incapaz de mentir,
podia dizer-lhe--a verdade. Não posso culpá-la. Ella teve a sinceridade
duma confissão que V. não merecia, pois a ouviu sem a comprehender. A
circumstancia da minha visita e o supplementar da sua carta são para mim
coisas minimas.
Não tenciono voltar a procurar Helen. E como será a ultima vez que me
dirijo a V., vou aproveitar o ensejo para lhe vaticinar que a sua
conducta para commigo pode ter realizado a intenção de magoar-me, mas
não o defende.
O temperamento de Helen não se fecha com prohibições e ordens como as
que deu. E, se proseguir com ellas, peor lhe será. Helen dar-lhe-á o
amor legal com um horror que no fim hade amargar aos dois.
Da inalteravel amiga de Helen:
_Maria Peregrina_.
--Podes fechar a carta e sobrescritá-la, disse, quando Violet acabou de
ler.
E como falando só:
--Que infelicidade a minha e a dos que me rodeiam! Comecei por matar
minha mãe, para entrar no mundo! Perdi meu pae aos nove annos.
Tenho no ouvido as suas ultimas palavras:
--Hasde ser, como todos os nossos, infeliz. Não tive tempo de te quebrar
o motivo das maiores desgraças--o orgulho. Demais, tens talento.
Peor ainda:--talento e orgulho--o que terás de supportar!
Cêdo o Acaso me accendeu a sensibilidade.
A pobre Louisa Huley foi a primeira a soltar os amores doentios que eu
tinha em mim. A fatalidade mandou-me da Inglaterra uma creatura para
tentar-me.
Acabo de receber carta della.
Está perdida, vae para a Suissa tratar as ultimas esperanças de
tuberculosa, e pede-me uma esmola!...
E fitando Violet:
--Não te esqueças de remeter-lha.
Helen, que foi a suprema alegria da minha vida, porque nós só nos
alegramos quando satisfazemos vicios,--ahi está nas mãos dum inglês
bruto, incomprehendida, bloqueada de ciumes e grossarias.
Edgar--morto tragicamente junto á Fonte Verde, em Petersfield, e eu a
detestá-lo quando o seu lindo corpo se encapellou na minha posse e a ter
por elle, a partir da hora em que o vi morto, uma quasi paixão...
Não imaginas como estava lindo, e sem se mexer, ali, á minha ordem. Ah!
senti-o bem meu naquella hora que encherá uma parte da minha vida.
Como soube ler-lhe o corpo!
De quando em quando sentia barulho. Eram as folhas a bisbilhotar
horrores contra mim!
Eu tinha mêdo que revivesse, que a sua alma regressasse ao amor.
Tu nunca amaste um morto!...
Elle, muito languido, côr de sêda crua, a dar-se-me, passivamente,
movendo aos meus delirios o seu corpo de ambar.
Eu, muito collada a elle, falando-lhe, emprestando amor aos seus membros
perros, lendo as linhas de sua nobre belleza--um Apollo de morte, a
sentí-lo a sós, sem que houvesse ali mais do que eu propria e a sua
carne...
Oh! o delirio daquella tarde!
--Nunca me mostraste a ultima carta delle.
--Ah! queres vê-la?
E depois de levantar-se a buscá-la:
--Ahi a tens.
Violet leu:
Minha querida Peregrina!
Morro amando-te. Quiz que soubesses que te comprehendi. Beijo-te ao
partir. Olha que não levo resentimentos. Sei que não podias amar-me. Que
me concedeste o mais que podias conceder-me. Mas eu não podia ficar. Era
doloroso sentir que te afastavas tanto de mim, quanto eu de ti procurava
approximar-me.
Creio que morto te não merecerei a repulsa que me tens dado.
Presumo que sejas a primeira a visitar-me. Irei suicidar-me junto á
Fonte, na idéa de que sejas a primeira a ver-me!
Se assim fôr, ao menos então hasde pensar em mim. E podes vêr-me outra
vez com os olhos de Arte, que já me não magôas. Pelo contrario, onde
estiver, heide exultar de orgulho--se o meu corpo te der linhas
perfeitas que entretenham por minutos a tua sensibilidade.
Procura bem. Olha que a morte é carinhosa com a adolescencia. Eu heide
ser bello, ao menos na hora do teu encontro.
Vê-me bem! Se a minha carne te merecer um carinho, heide soffreá-la onde
quer que esteja. Não quero que dês pela sua sensibilidade,
encapellando-se de restos de amor, porque heide deixar-lhe ainda amor...
Nem poderia levá-lo todo, tão grande elle é!
Adeus, Peregrina. Parto com a alma que foi o teu pesadelo. Perdôa-lhe. O
corpo deve estar em breve junto á Fonte. Tu amas a passividade, as
linhas que podes submetter e emendar nos teus nervos.
Possue-me, que eu devo ser um exemplar excepcionalmente tratado pela
Morte. A Morte é tambem como tu--delicia-se, ceva-se na belleza
passiva...
Adeus, Peregrina!
* * * * *
Um anno depois da sahida de Petersfield publicava a Artista a _Nova
Sapho_. O poema acordou em Portugal applausos e protestos. Havia a
corrente dos moralistas, escandalizados com os desvairamentos da
Poetisa; e havia os camaradas serenos e prestes ao movimento idealista,
em que o poema se integrava. Aquelles aferravam-se á conjectura
historica e explicavam que a Sapho segundo os sabios não era a lesbia
vicienta que a tradição tinha fabulado, mas uma viuva honesta, com
filhos e netos, erudita e moral. Para os homens de letras mais attentos
aos casos de sensibilidade, o poema era uma affirmação de
temperamento--padrão de Arte excepcional que, pondo em foco a vida
hellenica, devassava o fio conductor dessa vida atravez das
civilizações.
Certo foi que o poema, a despeito dos ataques á moral, desafrontada
pelos folhetinistas dos diarios portuguêses, foi lido; a critica
acceitou-o, e Maria Peregrina foi consagrada entre um cenaculo pequeno,
mas escolhido de cultores e admiradores das Letras.
Quando lhe falavam nos ataques dizia:
--Estou como Liszt--Não me custa esperar. Não escrevo para a gente de
hoje.
Enviou exemplares a varios escriptores latinos e ainda a alguns da
Allemanha e Inglaterra.
Encontrou de tudo:--applausos, repulsa, bemquerença.
De vez em quando, os diarios portuguêses insistiam nas primeiras
campanhas, em homenagem ao lyrismo de 1850, e ás letras declamatorias do
momento. Datam daquelle tempo as suas relações com alguns escriptores
inglêses e designadamente com Oscar Wilde, com quem se correspondia.
Em março de 1895 foi o escriptor prêso por accusações do Marquês de
Queensbury. O perseguidor muito aferrado ao _Criminal Law Amendment
Act_--fê-lo prender e julgar.
Os debates deste processo, escandalosos pelas accusações e categoria do
R., apaixonaram a opinião.
Foi condemnado á pena de prisão por dois annos, que cumpriu em 1897.
Maria Peregrina, defensora de Wilde, escreveu em inglês artigos e
opusculos sobre o escabroso processo, já quando elle tinha cumprido a
pena e abandonado a Inglaterra. Conhecida no meio intellectual de
Londres, frequentava os salões onde se conversava Arte; ia aos _clubs_,
especialmente aos de gymnastica, praticando este _sport_, e privando com
camaradas em que descobria affinidades de vicio ou belleza.
A edade não lhe contraordenava os propositos da adolescencia. Adulta,
crescia em talentos e vicio.
Aos intimos explicava:
--Os meus talentos são os meus vicios, tratados pela imaginação.
Horas tardas, quando Londres deixa os _clubs_, _restaurants_ e theatros,
Maria Peregrina sahia só ou com Violet a frequentar o que ella chamava
os Templos da Noite.
--A Noite faz em mim o dia, affirmava. Á hora em que tudo está alegre
soffro eu a minha Arte. É nella que emprego os dias, pois que é de todos
os soffrimentos o mais voluptuoso.
Horas mortas tornejava a oeste de _Trafalgar square_, por _Haymarket_,
_Picadilly_, sob as arcadas de _Pall Mall_, errante por entre o rancho
de bacchantes, perdida na onda de luxuria que é Londres a taes horas.
Frequentava tudo--o _Savoy_, _Empire_, _S. James_, _Alhambra_, as ruas
onde as retardatarias entretêem a fome, sorrindo a quem passa, os
logares onde havia luxo, miseria, erotismo, alcool...
Os inglêses, affirma Stendhal, serão os ultimos a acreditar no inferno.
E, por isso, elles, sem o entrave religioso que embaraça os outros
povos, soltam á vontade o seu desejo animal, num desdobramento que
excede tudo.
Eram estes requintes que Maria Peregrina apercebia e queria viver.
Wilde tinha-lhe escripto um dia:
--«Aquelle que se entrega absolutamente a si proprio, não sabe nunca
aonde vae parar».
Queria lá saber aonde iria ter?
O que desejava era calar os nervos, a sêde de imprevisto, que a queimava
intimamente. Sahia a explorar a noite. Pelas ruas havia renques de
mulheres, duma fealdade de arrepiar, ao lado de creaturas mal crestadas
do tempo, nas quaes a belleza persistia, apesar do vicio e das doenças.
Não era a belleza graciosa, que contrastava a mulher de alguns paizes,
nem a classica, nem a sensual que caracterisa o mundo feminino do
Oriente, ou a belleza crepuscular do Ocidente e Sul--a belleza que ella
encontrava nas poucas mulheres formosas da Inglaterra.
Era uma belleza especial--a que adstringia á raça, expressiva de falsa
innocencia e suavidade.
Tratava de afogar os desgostos em sensações novas, e dahi andar pelas
ruas onde excepcionaes figuras erravam como sombras, a commerciar toda a
casta de prazeres. Mulheres duma brancura de linho, carnações de lirio e
dahlia, de olhos anilados e estrigas de cabello oiro-fulvo, passavam
bebadas nas esquinas, dispersando a alma em risos idiotas. Ia no seu
encalço, interessada pela historia daquellas marafonas, que pareciam ter
descido do Ceu por tentarem santos e que os homens desprezavam...
--Ah! o peccado da terra está em não aproveitar bem as creaturas, dizia.
Estas, são as flores da rua, que valem bem mais do que as que se abrigam
sob o crystal das melhores casas de Londres.
Colleccionava as mais perfeitas para uma especie de harem, onde passava
em serão algumas noites, emmaranhando, tecendo a sua vida com a desgraça
dellas.
Conhecia a geographia dos bairros mais mesquinhos da City,
percorrendo-os a miudo, bem como os prostibulos onde se vendiam as
mulheres de preço.
Ora arrastava _toilettes_ da maior elegancia pelo Savoy, ora ia,
modesta, irmã das sombras, conversar as mulheres que viviam os prazeres
da noite, mais rasteiros e humildes.
De longe em longe, combinava com Violet e iam as duas pernoitar com
moços de acaso.
Percebia que as relações naturaes lhe acalmavam os nervos.
Então, deixava-se abordar pelo mais novo dos presentes ás sucias da
noite.
Guardava silencio sobre o nome. Preferia mesmo entregar-se a viajantes,
que ao outro dia perdesse na confusão de Londres.
E sahia, enjoada, com odio ao sexo, exasperada daquellas horas
batalhadas com extranhos, duma luxuria que lhe era necessidade e
tormento.
--Usei hoje o meu amargo, dizia para Violet.
O amargo era o commercio sensual com o homem, que tinha como remedio.
Do mesmo passo que percorria o peor de Londres, partilhando o muito que
ali havia de perversão animal e vida exotica, tinha em cuidado não
perder uma nota da vida superior do grande centro--instruindo-se,
apontando tudo, e adaptando-se ao luxo e requinte aristocratico da terra
tradicionalista por excellencia.
Tão depressa era a mulher que se confundia por entre o bosque de gente
que se apertava nas ruelas miseraveis de Whitechapel, como a mulher de
aspectos nobres, com geitos de duquesa, que passeava a sua prosapia de
peninsular para além do _Strand_.
No meio em que era conhecida fazia-se excepcionalmente admirar pela
fidalguia de maneiras e talentos e pelo encanto da sua palavra de
superior.
Apesar dos desequilibrios de creatura insexuada, delirando perversões,
nunca perdera o geito fidalgo da sua bondade.
--A bondade, dizia sempre, creio que virá a ser a minha jangada de
salvação.
E, de facto, no privar com gente miseravel, que recrutava nas ultimas
camadas, jámais deixava de ferir a nota da commiseração, estipendiando o
infortunio com dadivas que lhe inculcavam fidalguia e a procedencia
portuguesa.
Um facto havia a salientar nesta maneira de praticar beneficios:--a
predilecção pelos desgraçados mais abjectos.
Para ella não havia criminosos, havia desgraçados. E os que cahiam na
alçada da justiça ou no odio da opinião eram sempre os mais sympathicos
e dignos de affecto.
Londres é a cidade do apostolado. Planta-se uma Religião a cada esquina.
Confundem-se nella cultos, ritos, seitas. É a Babel da Alma. O ceu da
alma inglesa é nevoento como o ceu de Londres. Segundo uma estatistica
de poucos annos, havia em Inglaterra e Galles 34:467 casas de
religião--das quaes 14:077 eram officiaes.
Maria Peregrina ia muitas vezes assistir ás praticas e devoções
religiosas.
--Ando a procurar a minha religião, dizia, e não encontro senão farrapos
della em credos oppostos!
O ultimo tempo que viveu em Londres foi num torvelinho de misteres
desencontrados, á mercê dos nervos.
A sobreexcitacão não lhe dava treguas.
--Se me aquieto, morro do mal-de-viver, acudia ás observações de Violet.
Frequentava cursos de linguas, de Philosophia, de Arte e de _Sport_;
escrevia; passava, invariavelmente, duas ou tres horas--procurando «o
aperitivo sensual da noite»--um caso exotico que lhe aquietasse a ancia
infinita de viver, de soffrer, e recolhia tarde a dormir
pesadelos,--rebates das canseiras do dia.
Adoeceu. Era inevitavel, diziam os medicos. Não sabe quem é, para onde
segue. Precisamos de tratar-lhe a sensibilidade.
E receitavam calmantes, repouso--o inverso da vida que levava.
Um mês depois levantou-se. Estava alquebrada, mas o tempo primava em lhe
conservar a belleza, em desconto das infelicidades.
Deu-se por esse tempo um acontecimento decisivo para ella.
Paris intellectual, benevolo e esquecido das miserias intimas de Wilde,
offereceu-lhe uma festa.
Peregrina encontrou no acontecimento um ponto de sahida da antiga vida
de Londres. Associou-se aos camaradas de Paris e partiu a tomar parte na
homenagem.
--Adeus, meus amigos, dizia abraçando diversos artistas, despedindo-se.
Não voltarei. E, no entanto, presinto que serei tanto mais infeliz
quanto mais me desviar da Inglaterra. Aqui deixo o melhor e o peor da
mocidade...