energia de affirmação é tanto maior quanto no espirito de que nos
occupamos ella não é uma força cega, mas coexiste com a vasta
intelligencia comprehensiva e a grande curiosidade activa. Sentimentos e
idéias tudo está nelle submettido a uma forte disciplina e subordinado a
um plano determinado por uma livre resolução. Um vivo sentimento da
dignidade humana, um amor apaixonado da justiça, brilha na sua Historia.
Em balde a sua penetrante intelligencia lhe mostra o mechanismo dos
factos sociaes e a majestade das causas permanentes. A energia da sua
sensibilidade persiste a despeito da efficacia da analyse, e n'elle
a philosophia não annulla o sentimento moral. Vinte vezes nas suas
narrativas os movimentos de admiração ou colera, de indignação ou
compaixão, cortam a exposição dos successos. Bem que veja a fatalidade
do curso dos acontecimentos, não pode resignar-se á exposição
desinteressada e calma. Padece e triumpha com os seus personnagens e
sobre tudo admira com vehemencia os seus heroes. É preciso ler no
_Portugal Contemporaneo_ a historia de Manoel Passos para ver como a
energia de uma qualidade estructural resiste a toda a acção da cultura,
e reapparece nos momentos decisivos. Este profundo psychologo, este
historiador que explica os conjunctos pelas causas, pára de repente,
soltando um applauso ou lançando um sarcasmo. A grande curiosidade
indifferente que considera as almas como theoremas, e as sociedades como
systemas, e que não vê no mundo senão um mechanismo a explicar, não é a
forma propria da sua actividade mental. O Sr. Oliveira Martins está
isento d'esta magnifica e perigosa exageração, pela sua robusta saude
moral, pelo equilibrio estavel das suas faculdades. Incapaz de ver no
Universo um ser divino a adorar, ou um simples mechanismo a
comprehender, igualmente afastado da sensibilidade religiosa como da
sensibilidade philosophica, escapa ás duvidas e incertezas inherentes á
falta de solução do problema da Vida, pela energia da vontade e pelo
habito da acção. E em quanto o seu amigo Anthero de Quental,
impellido pela intemperança desmedida dos seus desejos, pela grandeza e
incoherencia dos seus instinctos metaphysicos, rolava pela ladeira do
pessimismo ao abysmo da negação, o Sr. Oliveira Martins não mais feliz
do que elle na solução dos problemas da Existencia, appellava para a
força intima da sua alma, e resignava-se a acceitar a vida sem protestos
vãos nem gigantescas indignações.
Comtudo seria um erro consideral-o um stoico. Para sel-o, falta-lhe
aquella perfeita afinação da intelligencia com a vontade, que segundo a
sua propria definição constitue o caracter. Herculano, poeta da Energia,
pôde sel-o; não o Sr. Oliveira Martins, psychologo por officio e que tem
visto a vida e a historia com olhos de philosopho. A capacidade de fazer
reviver em si os alheios sentimentos e paixões, e o habito de os
comprehender e explicar como factos naturaes, determinados por causas,
se não é bastante para abafar n'elle os movimentos do coração, e leval-o
a observar o mundo com a indifferença immoral dos artistas, impedem
contudo a faculdade da convicta approvação ou reprovação que constitue o
fundo do estoicismo. A Justiça é para elle um amor, não um dogma.
A palavra que define a alma do estoico, é o orgulho, diz o Sr. Oliveira
Martins. O orgulho transcendente, isto é, o sentimento proprio de quem
julga possuir a verdade absoluta e resolve applical-a com um rigor
absoluto. Bem diversa é a palavra que resume um caracter como o do Sr.
Oliveira Martins. Esta é a Ironia, resultado natural da superioridade
intelligente. A Ironia é tambem uma especie de orgulho, mas bem
differente do estoico, porque é temperado pela piedade e pelo desdem.
São estes os sentimentos que apparecem cada vez mais claros nos seus
ultimos livros e tem a sua mais perfeita expressão no retrato
maravilhoso de Cesar. É a Ironia aquelle estado da alma, que nelle
provocam e confirmam dia a dia a experiencia e a cultura, o sentimento
com que elle se mune para a travessia da Historia e para a campanha da
vida. Foi este o sentimento que lhe dictou estas linhas á portada do seu
livro mais original e que mais apaixonou a critica: «O exame dos nossos
tempos apenas lhe provocou (ao auctor) expressões d'aquelles sentimentos
que são compativeis com a serenidade da critica: uma ironia sem maldade,
uma compaixão sem orgulho, pelas repetidas miserias dos homens; ás
vezes, uma sympathia e um respeito singulares por certos individuos
excepcionaes. Ironia, compaixão, sympathia, respeito,--moderadas
commoções, com que é licito acompanhar o estudo, sem prejudicar a
lucidez da vista--não impedem comtudo, que acima d'estas impressões
fugitivas se colloque o profundo, inabalavel reconhecimento das causas
que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino.»
A estructura do nosso espirito revela-se na especie do nosso ideal, e a
nossa concepção da ventura deriva da nossa concepção da vida. Todos os
sentimentos que no Sr. Oliveira Martins desperta a realidade e todas as
opiniões que elle tem sobre as cousas, estão resumidas nas paginas
finaes do seu ultimo livro (_Historia Romana_). É alli visivel o que ha
de mais importante na sua alma, posto a nú por um psychologo, mestre na
arte de pintar caracteres. O que elle pensa da paixão e do dever, da
sciencia e da acção, do Universo e do eu, a sua idéia da vida e o seu
ideal da vida, está expresso nesta curta pagina, em traços breves e
profundos, a que a concisão do escorço exalta a energia. E não vejo
melhor modo de fechar esta analyse, que é uma tentativa de autopsia
moral, do que copiar este retrato que equivale a uma confissão espontanea.
«Aquelle que, sem ter de esmagar desapiedadamente os sentimentos e
paixões da sua natureza, sem ter de partir a mola interior que o torna
um ser vivo, consegue mitigar, moderar, ponderar ou equilibrar os
impulsos do seu sangue com os dictames das suas idéias, sanccionando
paixões e pensamentos com a luz inextinguivel dos instinctos moraes e do
senso esthetico; olhando para si proprio e para as angustias, para as
dores e para as feridas da sua vida com uma commiseração vizinha do
desdem; olhando para o proximo e para o mundo, sem desprezo nem orgulho,
mas com a ironia caridosa que se deve a todas as cousas
involuntariamente inferiores; contemplando finalmente com uma
curiosidade placida e discreta o nevoeiro dos mysterios e problemas que,
sondados, endoudecem, e de que é mister fugir, como dos abysmos cujas
vertigens hallucinam ou embrutecem; esse homem, por fóra activo, por
dentro como que apathico, por vezes, e só por vezes, atacado de tedio,
mas sabendo que não deve nem póde aborrecer a vida: esse homem é o unico
verdadeiramente feliz.... Ser feliz depende de um acto da intelligencia
e da vontade, independentemente das circumstancias exteriores da
vida.»
V
O ESCRIPTOR
Habitos de intelligencia e movimentos de sensibilidade, tudo se reflecte
nos seus processos de escriptor. Como um cardiographo delicado que
regista e conta as mais imperceptiveis pulsações do espirito, assim é o
estylo. Tão sómente pela analyse d'elle podiamos chegar ás conclusões a
que nos levou o exame directo das opiniões e paixões; feito este, as
paginas que se seguem só podem confirmar as verdades que se enunciaram e
este capitulo, é menos uma indagação do que uma prova.
Que especie de estylo é esse? Um escriptor de imaginação oratoria e
gostos decorativos como o Sr. Latino Coelho, exprime-se n'uma linguagem
adequada pela sua regularidade e sumptuosidade ás aptidões e tendencias
do espirito que a emprega, e ás necessidades e utilidades do fim para
que se destina. Leia-se o seu derradeiro discurso. Os vocabulos graves
como fidalgos e compostos como hallabardeiros, as immensas phrases
roçagantes comparaveis a reposteiros de damasco, a amplitude e
disciplina da syntaxe, a abundancia e efficacia das incidentes, a
extensão e o aprumo dos periodos, o predominio do pensamento abstracto
sobre a imaginação pittoresca, a perpetua representação do thema e a
perfeita convergencia das provas, a unidade no todo, a proporção nas
partes, a equidistancia nos termos, e a uniformidade na marcha do
raciocinio, a majestade curul e a graça talar do discurso, revelam um
homem apto e propenso para a prosa regular, a dissertação erudita, o
elogio historico, a oração academica, e para todos os generos que
requerem o gosto da pompa e o sentimento da gravidade, a correcção, a
riqueza e a ordem, o respeito continuo de si e dos outros, uma especie
de prodigalidade elegante e de arte sem nervos, a preferencia dada á
erudição sobre a sciencia, e á rethorica sobre a poesia, a capacidade
das idéias geraes exercendo-se em logares communs, qualidades que
manejadas por um talento superior e postas ao serviço de um grande
interesse, podem produzir verdadeiros monumentos litterarios.
Bem diverso é o estylo do Sr. Oliveira Martins. Nada de menos grave, de
menos pomposo e respeitoso. Elle escreve como fala, e fala como acha. O
seu processo é a notação directa dos sentimentos presentes; a sua
linguagem, a algebra nua da paixão. Rapida, irregular, tortuosa, brusca,
insolente e indecente, burlesca e sublime, composta de palavras que
se empinam por se verem juntas, feita de phrases de todos os tamanhos e
feitios, galopa ou vôa a sua prosa. Nada de mais agil e vivo. Ás vezes,
a suppressão dos elementos grammaticaes produz extranhos escorços, e a
phrase contrae-se como um musculo. Outras os pleonasmos batem o pé, e a
repetição encrava a convicção, como um martello percutindo um prego. Ás
vezes a inversão dá extranhas posturas á linguaguem, e os periodos
rugem, crucificados com os pés para cima. A grammatica violada debate-se
n'um tetano. As imagens soberbas ou ignobeis pullulam de todos os lados,
trazidas dos palacios ou das tabernas, como um rebanho de conscritos
arrastados para a batalha. E todo o livro avança, semelhante a um
couraçado de combate, replecto do convez ao porão, n'um turbilhão de
estrondo e espuma, precipitado pela massa e armado da velocidade, e
levando na caldeira abrazada um foco de força e um perigo de explosão.
Esta é a primeira impressão; profundemol-a, completando o juizo
litterario pela analyse critica, e substituindo a linguagem imaginosa
pela notação exacta, instrumento condigno do trabalho scientifico.
Tres pontos ha a considerar na analyse de um estylo; o vocabulario, isto
é, o conjuncto de elementos ultimos do discurso; a syntaxe, isto é,
a ordem em que estes elementos estão dispostos para constituirem o
organismo da expressão; e as figuras, isto é, os expedientes necessarios
para supprir as lacunas do vocabulario ordinario e da syntaxe regular.
Mas antes de mais nada, observemos que o Sr. Oliveira Martins não possue
o genio verbal, isto é, aquella facilidade de imitação e invenção de
formas da linguagem, que em alguns dos nossos escriptores substitue e
simula a intelligencia e a sensibilidade ausentes. Supponho que como os
dois grandes historiadores a que o tenho comparado, Michelet e Carlyle,
elle teve uma extrema difficuldade de exposição, no principio da sua
carreira litteraria; pelo menos esteve muito longe de possuir aquella
segurança e nitidez da palavra, aquella capacidade de adequar
exactamente a expressão á intenção que caracterisa os verdadeiros
temperamentos de escriptor. É porem justo dizer-se que sob este ponto de
vista, como sob todos os mais, os livros do Sr. Oliveira Martins
manifestam um progresso consideravel. A sua _Historia Romana_ é um
monumento litterario. Mas essa lacuna constitucional e o habito da
improvisação impedem que as paginas perfeitas abundem nos seus
escriptos; e possuindo em alto grau a força e a vida, carece de
majestade e graça.
Em primeiro logar, o seu vocabulario não é numeroso; não se manifesta
nos seus livros aquella abundancia, que no Sr. Ramalho Ortigão
provém de um forte estudo do lexicon, e no Sr. Camillo Castello Branco
de uma memoria verbal extremamente feliz. As palavras vagas não
escasseiam nos seus escriptos mesmo exprimindo ideias precisas. Com as
palavras vagas, os termos improprios que falseiam a expressão e tornam
necessaria a decifração. Os vocabulos extrangeiros ou mesmo nacionaes
tomados n'uma accepção extranha á lingua lançam manchas desagradaveis na
tela do discurso. As expressões synonimicas e as emendas que elle faz
seguir ás expressões originaes, parecem indicar que o proprio auctor
sente que não exprimiu cabalmente o seu pensamento; e se muitas vezes a
accumulação de expressões novas para formular a mesma idéia, manifesta a
paixão obstinada e a convicção activa, muitas outras significa sómente a
consciente escassez de recursos do escriptor.
Dois typos syntacticos se notam nos escriptos do Sr. Oliveira Martins.
Um é o grande periodo regular, de que elle se serve ordinariamente nos
seus trabalhos didacticos, e de que se póde observar um bom exemplo no
prefacio do _Hellenismo e a Civilisação christã_. A ausencia de aptidões
e gostos oratorios impede que o Sr. Oliveira Martins prime n'esta forma
de discurso. E diga-se a verdade, poderiamos percorrer os escriptores
portuguezes antigos ou contemporaneos sem encontrarmos muitos exemplares
de prosa perfeita, taes como abundam na litteratura franceza. O ar
latino da nossa prosa classica póde illudir á primeira vista. Mas quem a
submetter á analyse verá que não encontra nella aquelle habito de
decompor as idéias e passar gradualmente por todos os seus elementos,
que constitue um dos caracteristicos principaes da prosa franceza.
O outro typo syntactico é o inciso, a phrase curta e entrecortada,
offegante. Ella se obtem suspendendo continuamente o pensamento,
supprimindo os desenvolvimentos das idéias, e até as particulas
grammaticaes, pronomes, artigos e conjucções. A phrase elliptica tem
movimentos convulsivos de ave decapitada, e os elementos do discurso
trocam vivamente os logares como os raios de uma roda. Esta é a forma
adequada a um temperamento litterario como o Sr. Oliveira Martins. É
nesta forma que elle vasa as suas descripções e narrações. As ellipses,
as repetições, as inversões, a ausencia completa de todas as figuras de
symetria, conspiram no mesmo sentido, e não é difficil mostrar como
sendo os sobresaltos da machina nervosa irregulares e instantaneos, é
esta a prosa que convem ao escriptor e á obra que analysamos. Leia-se
esta descripção do incendio nos armazens de Gaya. «Posto o fogo ao
rastilho, começou breve a pyrotechnia, allumiando a noute. Começou por
uma explosão tremenda, donde sahiram labaredas e rolos de fumo rapido. O
vento animado impellia a chamma. E as pipas estalando troavam como
canhões. Singular batalha! O vinho rolava em cachões, da praia sobre o
rio que ia tinto de vermelho como sangue. As labaredas subiam e a vasta
seara de fogo batida pela aragem, ondeando, crescia, andava.
Incendiados, como lavas de um vulcão, desciam ao Douro, os liquidos
espirituosos e chocando as aguas repelliam-nas, entrando nellas como um
cabo. Parecia uma tempestade geologica. A agua do rio fervia, fumava; e
fluctuando sobre a agua, vogava á mercê da corrente um lançol de chammas
rubras.» A phrase tem a velocidade, a mobilidade, a plasticidade da
chamma, e o foco moral donde ella brota não é menos ardente e vivo.
Os outros expedientes litterarios convergem no mesmo sentido. E antes de
mais nada, a ausencia das figuras de dicção, que estabelecem uma
symetria visivel e um equilibrio extrinseco do discurso, revela um
espirito pouco sensivel á harmonia verbal e ás seducções da rhetorica. O
epitheto, esse instrumento de que tanto se abusa, é raro, e quasi sempre
pittoresco e novo. Mas os tropos abundam, como convem a um estylo que é
a manifestação de uma alma audaciosa e ferida vivamente pelos aspectos
das cousas. Ás vezes n'uma fria dissertação de direito publico ou de
economia politica uma imagem fulgura magnificamente, como uma
papoula n'um trigal. Assim depois de expor o admiravel regimen de
federação municipal que consolidava e completava a conquista romana,
exclama num rapto de poeta: «Roma é a capital: está no pincaro da
montanha ideal em cujas encostas por estradas espiraes se desenrola a
procissão das gentes e cidades que sobem». Assim depois de pintar a
angustiosa situação do paiz na primavera de 47, escreve referindo-se ao
abuso da emissão fiduciaria, «Havia em Lisboa uma grande miseria, uma
carestia excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e
recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e fluctuando, as notas,
como os trapos de neve caindo, cobrindo tudo, nos dias mornos que
precedem o desencadear da tormenta.» E as metaphoras como estas abundam
ou magnificamente desenvolvidas n'uma pagina, ou ardendo concentradas
n'um verbo e n'um epitheto.
A mesma vehemencia de imaginação e paixão produz e explica as
apostrophes ao leitor e aos personnagens da sua historia, as
interrogações, as exclamações, as reticencias, as prosopopéias, os
bruscos saltos, a falta de clareza, as referencias a factos que se calam
e que o escriptor julga conhecidos. Esta energia de habitos vai tão
longe, que se exerce sobre porções dos seus livros que parece deveriam
escapar a ella. Copio do _Portugal contemporaneo_ estes titulos de
livros e capitulos: _Fuit homo missus a Deo; Sic itur ad astra; O
principio do fim; Væ victis; Os impenitentes; A raposa e suas
manhas._ Quando lança um olhar retrospectivo sobre o conjuncto da sua
obra, não encontra uma serie de idéias precisas, mas um tumulto de
visões inflammadas. Por isso escasseiam os summarios, os resumos e todos
os expedientes destinados a precisar as doutrinas e fixal-as na memoria.
Este escriptor faz imagens e sarcasmos até nos indices.
Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo.
Para o conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse
das formas grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a
como psychologo e não como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da
analyse e da synthese, e a sciencia deve reunir como a aguia as garras
penetrantes ás largas azas.
VI
O HISTORIADOR
Composto assim o seu espirito só resta a deduzir a sua obra e demonstrar
a solidariedade que prende aquelle a esta, considerando-o
successivamente como historiador e como politico.
Se ha trabalho que pela sua complexidade e difficuldade assoberbe a
imaginação de quem o intenta, e exija a maxima energia da parte de quem
o realisa, é certamente o trabalho historico. Só examinando esta
complexidade e difficuldade poderemos fazer idéia da variedade dos
recursos empregados e da quantidade de força dispendida pelos grandes
historiadores.
Para isto, basta considerar que a Historia é a visão intelligente dos
phenomenos sociaes. Toda a formidavel complicação dos trabalhos
historicos deriva do simples exame d'esta formula.
E antes de tudo, observemos que o aggregado social é dado em relação a
um meio physico e constituido por unidades vivas, o que torna
necessario o conhecimento das sciencias inorganicas e organicas. A
posição da sociologia na serie gerarchica das sciencias exige, nos que a
cultivam, a posse das verdades que logicamente a condicionam. E desde os
principios mais abstractos da Quantidade e da Forma até os factos
relativamente menos simples da Anthropologia, tudo concorre para a
explicação dos phenomenos sociaes. Os exemplos abundam e são faceis de
adduzir. A doutrina da população não se póde constituir sem a theoria
algebrica das series e o calculo arithmetico dos logarithmos. A relação
geometrica que n'uma dada figura prende a grandeza da area ao valor do
perimetro, é um elemento a considerar na comprehensão do engrandecimento
d'um territorio. As leis que ligam o crescimento do organismo á massa do
planeta e regem a distribuição do calor, da luz e porventura da
electricidade á superficie da terra, forçosamente exercem uma
intervenção activa no curso da Historia. Os dados geologicos que
enunciam a natureza actual e as transformações futuras da crosta
terrestre, não são indifferentes á explicação dos phenomenos que a tem
por theatro; a theoria dos ventos interessa á historia da navegação de
muitos povos, e a dos terremotos á vida d'alguns. Finalmente as leis que
regem á existencia dos seres vivos, influem profundamente no corpo
social, visto o homem ser um animal, e fazem do conhecimento da Biologia
a condicção immediata e indispensavel do estudo da Sociologia. Assim
toda a massa das verdades adquiridas pela Sciencia vem illuminar directa
ou indirectamente o caminho que o historiador tem de percorrer. (V.
Spencer, Intr. á sciencia social; A. Comte, Curso de Philosophia positiva.)
A todas estas difficuldades que resultam da variada e completa
preparação em que se deve basear o historiador, é preciso juntar ás
difficuldades intrinsecas, as que provém da natureza intima da Historia.
Em primeiro logar, a Historia é uma sciencia moral, isto é, versa em
ultima analyse sobre factos mentaes, sentimentos e idéias. O ser um
estudo da alma humana é a primeira e mais grave fonte das difficuldades
inherentes a esta ordem de investigações. Com effeito os phenomenos
mentaes, quer os propriamente intellectuaes, quer os puramente
emocionaes, se apresentam investidos de um duplo caracter que os torna
eminentemente rebeldes a uma exacta observação. De um lado, a sua mesma
natureza de phenomenos interiores, do dominio da consciencia, exige um
dom especial, um sentido que nem todos possuem sufficientemente
desenvolvido. D'outro lado, o composto mental é extremamente complicado
e cada phenomeno de que se compõe se resolve por seu turno n'um numero
enorme de elementos, que como taes caem fora do campo da consciencia,
onde só apparecem os totaes. A velocidade extrema das reacções
cerebraes, corresponde a esta complexidade formidavel de que dão apenas
uma vaga ideia os phenomenos que constituem as funcções propriamente
biologicas.
Accrescentem-se a estas difficuldades resultantes da natureza do
individuo, as provenientes da natureza do aggregado social. Se é certo
que em ultima analyse a Sociologia se reduz á Psychologia, é tambem
certo que as opiniões e paixões individuaes são continua e vigorosamente
modificadas pelas paixões e opiniões adjacentes, e que o espirito de
cada um apparece como um espelho da sociedade inteira de que faz parte.
Quando o aggregado social é bastante extenso a complicação resultante da
sua grandeza é tal que parece desafiar o poder da analyse.
Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade
não num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos.
Seguir um aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis
transformações de momento para momento, determinar as causas
variadissimas e occultas d'essas transformações, marcar as forças
superiores cuja permanencia determina a identidade de um povo atravez de
todas as suas metamorphoses, produzindo essa consciencia social bem mais
difficil de se estabelecer e bem mais facil de se destruir do que a
individual, é uma empresa comparada á qual, qualquer trabalho
scientifico é relativamente facil.